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27/11/2009

A MAIOR SCI-FIC


O "Big Bang" monumental de Stanley Kubrick foi indicado a Oscars de direção, roteiro original e direção de arte, ganhou apenas o de efeitos especiais (para o próprio Kubrick). Estreou no Brasil simultaneamente com os EUA e em versão 70 milímitros.
O ano era 1968 e o homem ainda não havia chegado à lua ( e suspeito que nunca chegou, mas enfim isso é um outra história). Todavia o cineasta Stanley Kubrick foi capaz de tirar o homem da Terra e levá-lo para o espaço. Não existia na época tecnologia digital, e o próprio gênero ficção-científica não era levado a sério pelo cinema. 2001 mudou tudo isso.
Não consigo explicar, apenas imagino, a sensação que tiveram as platéias quando viram pela primeira vez o filme, um espetáculo audiovisual, com um mínimo de diálogos ou "explicações". Obviamente ficaram perplexos diante da narrativa inusitada. Com certeza a fita feita por Kubrick, baseada no livro " O sentinela" de Arthur C. Clark , é a obra de um visionário, ou seja, cada um com sua visão própria (Clark o livro e Kubrick o filme), embora ambos tenham iniciado a idéia juntos. A primeira a prenunciar a chamada New Age - Nova Era. Mais do que razão suficiente para colocá-lo como o único dos grandes clássicos do século que acabou.
Pode parecer frustrante não vermos nenhum alienígena no filme, mas o fato é que é preciso rever este filme inúmeras vezes para descobrí-lo... e concordar que é uma obra prima. O diretor Kubrick disse uma grande verdade a respeito de seu filme: " 2001..., é tão perfeito tecnicamente que o próximo filme sobre viagens espaciais, se quiser ser melhor, terá de ser filmado nos próprios locais".
O extraordinário em 2001...-entre outras coisas, é sua importância profética. Kubrick mostra antes dos homens chegarem a lua que a Terra é azul, que no espaço não existe o tempo e que o homem continua sendo o mesmo primata sudesenvolvido.
Como o tema musical ele escolheu ou redescobriu, o Danúbio Azul de Strauss,que se tornou desde entao a música oficial dos lançamentos da NASA. O mesmo com o resto da trilha: Assim falou Zaratustra também de Strauss para o nascimento do novo homem, Gayne Suite de Kachaturian, e quatro composições de Gyorgy Ligetti.
O filme custou 12 milhões de dólares e fora rodada inteiramente na Inglaterra a partir do primeiro script de Kubrick e Clark. O ponto de partida do filme foi o conto The Sentinel de Clark , que mais tarde passou a ocupar apenas um trecho da história, a viagem a Júpiter e o combate de HAL com os astronautas. Na produção trabalharam 106 técnicos, inclusive da NASA, da IBM e da General Electric. O sucesso de 2001 foi devido principalmente às platéias jovens ( dentre eles muitos futuros cineastas americanos: Cameron, Lucas, Spielberg, Scorsese...) Foram essas pessoas que descobriram a fantástica beleza visual e a mensagem implícita na conquista do espaço. E foram elas que tornaram o filme um sucesso comercial, de bilheteria, apesar de ser também um filme difícil no mesmo nível do filme russo SOLARIS.
Toda a prosa de Artur C. Clark baseia-se em três axiomas: 1) Quando algum cientista anuncia que alguma "coisa" é possível, ele provavelmente está absolutamente certo (igual aquele bordão de J. Silvestre em O Céu é o Limite, rs). Quando ele anuncia algumas coisa impossível, provavelmente ele está errado. 2) A única maneira de definir os limites do possível é ir além dele, a caminho do imposível. E 3) Qualquer tecnologia extraordinariamente avançada é indistinguível da magia.
Mais tarde, Clark transformou o roteiro em um livro, que explicava vários pontos obscuros. Já Kubrick, na sua famosa entrevista à Revista Playboy, recusou-se a explicar o filme, disse: "Tentei criar uma experiência visual que ultrapassasse a comunicação verbal e penetrasse diretamente no subconsciente, com um conteúdo emocional e filosófico. Quis que o filme fosse uma experiência intensamente objetiva que atingisse o espectador, num nível profundo de sensibilidade, como faz a música". E continua: "O conceito de Deus está no centro de 2001, mas não qualquer imagem antropomórfica de Deus. Não creio em nenhuma religião monoteísta da Terra, mas acredito que se pode construir uma definição científica de Deus".
"Quando pensamos nos gigantescos avanços tecnológicos que o homem efetuou em poucos milénios - menos de um microssegundo na cronologia do universo - não podemos imaginar a evolução que essas formas de vida muito mais antigas alcançaram. Elas podem ter progredido de espécies biológicas que são frágeis conchas para a inteligência , a imortais entidades e, então, após inúmeras eras, podem ter emergido da crisálida de matéria, transformadas em seres de pura energia e espírito. Suas potencialidades seriam ilimitadas e sua inteligência inatingível pelos humanos. Tudo isso tem relação com o conceito de Deus em 2001. Porque esses seres hão de ser deuses para bilhões de raças menos avançadas no universo. " E o cineasta continua: " Há uma considerável diferença de opinião entre cientistas e filósofos. Alguns sustentam que o encontro com uma civilização altamente adiantada produziria um choque cultural traumático no homem, por arrancá-lo de seu etnocentrismo e destruir a ilusão de que ele é o centro do Universo. No sentido mais profundo, creio na potencialidade do homem e na sua capacidade de progresso. Não sou de forma alguma hostil às máquinas. Não há dúvida, porém, que estamos entrando num 'mecanarquia' (gostei desta palavra, rs). Olhando o futuro distante, suponho não ser inconcebível uma subcultura de robôs-computadores (ele já planejando A.I. Inteligência Artificial) capaz de resolver, um dia, que podem prescindir do homem".
E, confirmando a idéia de 'experiência visual', o filme tem 139 minutos e menos de 40 de diálogos. Parafraseando MacLuhan ( um filósofo da comunicação comparada e da teoria da extensão humana), Kubrick quis que a mensagem fosse o veículo( The message is the medium). Assim como ninguém explica uma sinfonia de Beethoven. Isso criaria uma barreira artificial entre a concepção e a criação.
Continua Kubrick:" Vocês são livres para especular sobre o significado filosófico e cultural do filme. Não quero estabelecer um mapa verbal que todos sejam obrigados a seguir. A intenção é provocar no espectador uma reação que precisa e não deve, ser explicada".


Vou tentar explicar a história do filme:
A AURORA DO HOMEM
Durante 15 minutos vemos um deserto sem homens. Os planos são longos, estáticos, os cortes bruscos dissolvendo-se em negro. Vemos um grupo de primatas - macacos. Parecem humanos porque são os ancestrais do homem, o Pithecamtropus erectus. Reúnem-se em grupos, espécie de famílias, em torno de lugares onde existe água. Naquela manhã do homem ainda macaco, há uma bloco negro, um monólito. E a presença dessa entidade estranha que assiste e provoca o despertar da inteligência naquele homem-macaco. É a violência da descoberta do uso da força, representada pelo osso do animal, que dá o primeiro passo.
Depois na defesa da água, ele a usará como arma. Essa violência, precursora do progresso, é seguida por um gesto de triunfo, o osso é jogado ao ar e, num corte magnífico....

2001

...transforma-se numa nave espacial viajando no ano 2001 em direção à Estação Interplanetária.
Nesse corte estão sintetizados alguns milhões de anos de civilização (um salto). depois do primeiro "empurrão", a história que seguiu foi a mesma.. O medo gerando a agressividade, a inteligência e a violência. Ao som de uma valsa, a nave viaja pelo espaço. Todo ritmo da cena parece realmente correr ao compasso binário do Danúbio Azul.
O espaço é infinito, silencioso, as cenas são igualmente lentas, demoradas. Fica-se assim conhecendo alguma coisa de conforto das aeronaves, da ausência de gravidade e o problema com os banheiros, da comida sintética, do aparente equilíbrio de forças do mundo. Sabe-se também do progresso. No espaço já existem Hotéis Hilton, restaurantes Howard Johnson, mas os homens não mudaram muito. Na história, sabe-se que há um mistério na base de Claius, uma cratera subterrânea na Lua.
É mantido o máximo de segredo na descoberta de um monolito negro. Quando os cientistas vão visitá-los, comportam-se exatamente como os macacos: posam para forografias, tocam nele e sem compreender do que se trata e naquele momento ouve-se um tremendo ruído ardiloso; são os raios que o monolito envia ao Planeta Jupíter, primeiro sinal de vida inteligente fora da terra.
MISSÃO JÚPITER
Imediatamente depois, começa a primeira viagem humana tripulada a Júpiter, com três cientistas congelados, dois astronautas e um supercérebro eletrônico chamado HAL 9000.
Esses astronautas são homens frios, de pouca emoção, despreparados para um mundo que desbravam. O único que sabe o segredo da missão é HAL, o computador de inteligência artificial que fala e tem emoções humanas. Sabe jogar xadrez e mentir, elogiando os desenhos feios do astronauta Bowman. Mas o segredo acaba por enlouquecê-lo
Hal, na verdade, é o mais humano da tripulação , fazendo seu papel de Polifemo, o gigante de um olho só, que guarda os segredos da caverna na Odisséia de Homero. Por isso, mata os integrantes e deixa Bowman fora da nave. Esse polifemo enlouquecido havia lido nos lábios dos astronautas a desconfiança e no ataque de ciúmes ( Hal sentia um desejo por Bowman) resolvera que não havia necessidade de homens para cumprir sua missão. Mas deixa Bowman entrar na nave e tenta convencê-lo a tomar uma aspirina e discutir o assunto.
Bowman custa a entender, mas arrisca-se entrando na nave pela porta de emergência e sem seu capacete espacial, mesmo sob o perigo do vácuo ( há um instante de silêncio) até caminhar (apenas o arfar de sua respiração) para o desligamento do computador, quase uma lobotomia e também uma das cenas mais emocionantes do filme, quando a voz de Hal, cantando 'Daisy' vai deixando de existir - se esvaindo.
JÚPITER E ALÉM DO INFINITO
A viagem prossegue em direção a Júpiter. É importante lembrar que Júpiter pela mitologia greco-latina, seria o Deus supremo. Prossegue no espaço do Sol e da Lua, de astros de formas arredondadas, até aparecer o monolito negro d elinhas retas, isto é, nascido de uma inteligência. O que é este monolito afinal? Pode ser quase tudo: a pedra filosofal, o princípio de todas as coisas, a opção entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. Pode ser também alguma entidade superior, inexplicável. Pode ser Deus ou alguém que não entendemos e chamamos de Deus.
O fato é que, o astronauta ao alcançar Júpiter, atravessa uma barreira de raios coloridos e psicodélicos. Seria "o portal de uma estrela" - Star Gate, a porta de entrada de uma outra dimensão, a entrada para a eternidade, dominada por uma inteligência semelhante a Deus. Ele é primeiro retornado a infância , depois transformado em puro intelecto e por fim levado de volta à Terra, carregando consigo toda a sabedoria do Universo.
A maior dificuldade é entender que o astronauta morreu ao atravessar a barreira. Num canto da tela aparece o sinal vermelho anunciando que as funções vitais de Bowman foram interrompidas. a partir daí, tenta-se explicar sua presença naquela sala branca e chique. Há várias versões: o apartamento decorado à la Luiz XV representa, além do passado - a herança cultural- , o inconsciente coletivo que busca o luxo. Ou então, emissões captadas do subconsciente de Bowman. Poderia ser a vida que ele teria na Terra quando voltasse, ou desejaria ter. O fato é que o espírito de Bowman envelhece e, num gesto, repetindo os macacos e os astronautas na cratera lunar, tenta tocar o monolito negro. Por fim, é por ele "absorvido". E ressurge feto, renasce, olhos claros e puros, olhando a Terra. O primeiro dos "novos homens" olhando seu mundo. Haveria outras interpretações: a nave Discovery que vai a Júpiter seria um gigantesco espermatozóide fecundando o espaço, de cuja união nascerá o homem novo.
Não é à toa que o filme chama-se ODISSÉIA. Não é apenas uma aventura, mas a busca mítica de Deus, um filme profundamente religioso, desejando que o homem que chegasse à Lua aprendesse o segredo do Universo uno e infinito e fosse um "Homem Novo" - como pretendia Niesztche.
APÊNDICE
Infelizmente, a Metro resolveu fazer uma continuação em, 1984, 2010, O Ano Em Que Faremos Contato (ano que vem, rs), dirigido e fotografado péssimamente por Peter Hyams e estrelada por Roy Scheider , Helen Mirren , John Lithgow e uma participação especial de Keir Dullea (do primeiro filme). O filme acabou explicando tudo aquilo que o original deixava ambíguo, misterioso e fascinante. Este 2010 só resultou em uma aventurazinha banal e medíocre, uma bastardização da grande obra original.
'2001 - Uma Odisséia No Espaço' - 2001 - A space Odyssey
de Stanley Kubrick
EUA - Inglaterra
Ficção-Científica
139'
Escrito por: Stanley Kubrick e Arthur C. Clark
Baseado em The Sentinel de Clark
Distribuição: MGM - Warner
Produtora: Metro
Fotografia: Geoffrey Unsworth
Fotografia Adicional: John Alcott
Estrelando:
Douglas Rain ( a voz de Hal)
Keir Dullea, Gary Lockwood,
William Sylvester, Daniel Ritchter,
Leonard Rossiter e Margareth Tyzack
Nota: 10

22/11/2009

AÇÃO E NÃO REAÇÃO

Embora nunca tenha sido oficialmente proibido pela censura brasileira, que aconselhava a distribuidora Warner apenas a não apresentar o filme para a sua avaliação, chegou ao Brasil em 1978, assim mesmo com uma cópia que havia sido feita para o Japão, com bolinhas pretas para cobrir os pêlos pubianos e outros lugares estratégicos (bizarro). O mote desta produção é de fato, o jovem ator Malcolm McDowell, revelado antes no filme IF e reza a lenda que foi idéia dele usar 'Cantando Na Chuva' em uma cena chave da fita. Quem prestar atenção verá uma citação de 2001: Uma Odisséia No Espaço (a capa do disco numa loja). Laranja Mecânica, o mais cultuado filme da história, embora genial e dirigido por um mestre da arte cinematográfica - Stanley Kubrick foi indicado ao Oscar de Filme, roteiro e direção. Não ganhou, na verdade chocou! E o que dizer desta obra? Muito bem, na verdade há um incômodo que começa pelo título que nunca é explicado com precisão. Parece-me que o autor Anthony Burgess inspirou-se numa velha expressão popular londrina " Cockney", que dizia: " Sujeito é doido como uma laranja de corda". Ou, onde "Orang" quer dizer "humano", surgiu-lhe a idéia de fazer anagramas (orang- organ = organizar) chegando a uma conclusão linguística: ou seja, o ser humano, quando organizado pelo poder dominante, vira uma laranja mecânica. Por isso, ambos, o livro e o filme utilizam vocabulário próprio. Segundo Kubrick, o filme poderia ser interpretado de três maneiras (na qual das três não interpretei, rs):
1- Como uma sátira social sobre o emprego de condicionamento psicológico;
2- como um conto de fadas sobre a justiça e o castigo, e
3- como um mito psicológico, "uma história construída em torno da verdade fundamental da natureza humana".
A minha interpretação: uma forma grotesca e sátira de aprendizado contra a violência. A lei inversa de ação e não reação, que para deter a "ultraviolência" é necessário agir com mais violência.


Basicamente, o filme se passa em um futuro próximo (o incômodo anos 70 - hoje é um futuro arrojado), na Inglaterra, num lugar desolado e violento, onde jovens gângsters atacam, estupram e matam. Um deles, o líder drug - Alexander DeLarge é treinado pelo governo para ficar condicionado num tratamento de lavagem cerebral que lhe traz repulsa à violência.
Kubrick adorava satirizar seriamente; Dr. Fantástico e Nascido Para Matar (vide abaixo) em Laranja Mecânica a sátira é sobre o condicionamento, claramente no filme, mostrando que a sociedade se baseia no poder, nas mentiras e no abuso de usar pessoas para os mesmos fins. Tanto da direita, quanto da esquerda e, consequentemente, um homem condicionado a ser bom, em todas as circunstâncias, seria completamente vulnerável. A nossa civilização é altamente complexa, que requer uma autoridade para surgir a bondade natural do homem, na qual é um critério utópico e falacioso e, Kubrick deixa explícito esta utopia no filme. Todos os nossos esforços vão parar nas mãos de desonestos ( o que era aquele Ministro?) já que a culpa reside na natureza imperfeita do homem mesmo.
Assim, Laranja Mecânica é basicamente uma parábola sobre a manipulação do Homem pelo Estado. Conta a história de um jovem revoltado, precursor da moda punk, interessado na chamada ultraviolência, sexo e Beethoven - que é escolhido para uma experiência científica ( a sessão colírio parece um filme de Ficção -Científica) de condicionamento mental e físico, uma verdadeira lavagem cerebral que o torna refratário à violência, fazendo-o vomitar cada vez que se defronta com um ato violento. O tratamento é mesmo um sucesso? Por engano, Alex acaba sendo condicionado a odiar aquilo que mais ama - Beethoven, cuja música ( a bela 9º sinfonia) servia de fundo para um dos documentários usados em sua cura. E, logo, o anti-herói torna-se vítima da manipulação política dos partidos, completamente indefeso é levado ao suicídio pela oposição e depois usado pela situação novamente (sim Alex morre no final, rs).
O que o filme esta querendo mostrar em seu teor é que, no fundo, todos nós somos laranjas mecânicas e que estamos sendo submetidos a lavagens cerebrais contínuas que nos condicionam e governam (como aqueles desenhos hipnóticos japoneses), às vezes, de forma subliminar a ponto de não tornarmos conhecimento delas. Por ventura de maneiras mais óbvias, através das solicitações da sociedade de consumo.
O filme é um brado de alerta e conscientização contra isso e talvez tenha errado na dose: ao pedir que nos identifiquemos com um cara como Alex, desordeiro e irresponsável.
A tendência do espectador é ficar a favor do governo, achando que eles fazem muito bem em transformá-lo em um "bom cidadão", sem perceber a terrível violação dos direitos humanos e a violência cometida contra a individualidade, que nos acontece todos os dias sem que nos demos conta. Assim, todo comportamento anti social, os artistas, os gênios, todos aqueles que fogem da chamada "normalidade" seriam também condicionados da mesma maneira. Este perigo existe porque Alex é um vilão simpático e magistralmente interpretado por McDowell e não é fácil concordar com um diretor frio como Kubrick, seu trabalho é nu e cru e o apresenta como " o homem natural", no estado em que veio ao mundo, sem freios ou repressões. Quando recebe o tratamento de Ludovico, pode se afirmar que este simboliza a neurose, criada pelos conflitos entre as restrições impostas por nossa sociedade e a nossa natureza primitiva que implora para sair. Por este fato, ficamos felizes quando Alex se cura. Todos acham que ele se cura? Eu acho!
Será mesmo que todos se alegram? Alguns nem chegam a entender direito a dimensão da cura de Alex, suponho. Essa ambiguidade é um dos problemas do filme que provocou as opiniões mais desencontradas em toda a parte. Certas pessoas se horrorizam com sua violência e a chamam de gratuita. Mas na realidade ela é toda estilizada, mostrada quase como um balé, ou uma expressão da Pop-art. Nunca de forma literal. Aliás, a trilha musical é extraordinária, com obras de Puccini, Elgar, Purcell e naturalmente Beethoven, que dá ao filme muito de sua atmosfera.
Tecnicamente o filme abusa e muito bem de grandes angulares, lentes deformantes (como na cena no Bar Korova). Mas o filme tem um maravilhoso poder entorpecente. Na enigmática cena vitoriana final, há a busca de uma qualidade ideal, procurada por Kubrick. Diz ele numa entrevista radiofônica que anotei num curso de cinema: " A laranja se comunica num nível subconsciente e o público reage diante de uma configuração básica da história, como se fosse um sonho. E discursivamente debatem o sentido a cena final. Como os outros sonhos mostravam assassinato, dor e morte, a erótica cena final sugere que de alguma maneira, a mente de Alex se transformou e se apaziguou'.
Enquanto o livro de Burgess é uma amarga sátira ao paradoxos do livre arbítrio. Por isso, o filme continua a provocar discussões. afinal, tenho que defendê-lo dos que não gostam dele. Se não, corro o risco de cabara virando uma laranja mecânica.
'Laranja Mecânica' - A Clockwork Orange
de Stanley Kubrick
Inglaterra- 1971
Drama
137'
Roteiro adaptado: Stanley Kubrick
Baseado no livro homônimo de Anthony Burgess
Distribuição: Warner Bros.
Produtora: Polaris
produtor associado: Bernard Williams
Fotografia: John Alcott
Música: Walter Carlos
Desenhos de arte: John Barry
assistente de produção: Jan Harlan
Estrelando: Malcolm McDowell,
Patrick Magee, Michael Bates,
Mirian karlin, Adrienne Corri,
Warren Clark, Anthony Sharp e
Philip Stone
Nota: 10

18/11/2009

TRATAMENTO CAPILAR E COMBATE


O mote de 'Nascido Para Matar', a penúltima obra-prima de Stanley Kubrick, é discutir a dualidade entre o certo e o errado. O que um soldado com um capacete de guerra que diz "Born To Kill" faz com um broche da paz? Este filme não é apenas sobre a Guerra Do Vietnã, retratada com perfeição em outras obras igualmente ornamentadas: Apocalipse Now (1979) de Francis Ford Coppola e Platoon (1986) de Oliver Stone, aqui, Kubrick concentra-se na alma do personagem Joker - o Hilário, feito com otimismo por Matthew Modine um rapaz de opinião, um tanto insatisfeito com o que vê e que não fora nascido para matar e sim para pensar, confundir e com isso tornar-se o líder de seu pelotão de marionetes. Aliás todo o elenco de jovens atores foram escolhidos a dedo por Kubrick para estrelar esta brilhante saga do homem em seu processo desumano que os transforma em assassinos treinados.
A primeira parte do filme se passa toda em um campo de treinamento, onde enfrentam D.I. o inconfundível e asqueroso Hartman, o melhor papel de R. Lee Ermey ( que inclusive foi consultor de armas na produção e serviu no Vietnã). Um sargento linha dura, cômico que considera a princípio o seu pelotão, menores do que vermes e ou/ merda anfíbia. O filme tem os melhores diálogos que alguém poderia escrever, cenas de combate e ação de tirar o fôlego, humor corrosivo e o mais tenso tratamento (violência gratuita) que alguém poderia conceber.
Baseado no livro "The Short Timers" de Gustav Hasford, outro combatente de guerra que escreve o roteiro junto à Kubrick e Michael Herr.
A sequência em, Hue City, foi filmada antes e a parte do treinamento na Ilha Paris, na Carolina Do Norte, foi filmada por último. Embora Kubrick tenha garantido sua estadia e carta branca nos Estúdios de Pinewood, na Inglaterra, onde tudo é muito bem cenografado e as locações são ótimas.
O que difere Kubrick de qualquer outro cineasta da história é sua perfeição, seus planos geométricos (em especial na cena em que os soldados rezam em seus beliches com os fuzis nas mãos), um fórmula única de um diretor de cinema. Assistam a cartilha de Kubrick e vejam como toda a sua obra é perfeitamente contada da mesma maneira e cada filme é de um gênero totalmente diferente. Claro, que ele contou outras vezes o tema "Guerra" e mesmo que informalmente concluiu uma trilogia com Nascido Para Matar, iniciada com Glória Feita De Sangue(1º Guerra Mundial) e depois com Dr. Fantástico(a guerra nuclear). O mestre era fanático por esse tema e historicamente vinha contando em alguns filmes. Planejava um filme sobre Napoleão e outro sobre o Holocausto e o nazismo que nunca saiu do papel, frustrando a quem ama a sua obra. Desistiu de fazer um filme sobre Hitler e os judeus depois que Spielberg lançou o magistral A Lista De Schindler e por motivos de conceito de produção não realizou como queria seu filme sobre o baixinho francês. Seu metodismo fílmico era por vezes irritante, disse a sua esposa Christiane Kubrick e com isso ele não encontrou uma outra história que pudesse filmar depressa antes de morrer. Contudo consegue a muito custo e paciência dirigir e produzir o picante De Olhos Bem Fechados , o seu canto do cisne e planejava fazer em seguida, sem delongas A.I. Inteligência Artificial, que seria produzido e co-escrito por Spielberg.
Posso ser suspeito em fazer coro ao Jay Scott, do Toronto Globe And Mail, quando diz que este é: " O melhor filme de Guerra já feito!" E porque? Pelo fato de Kubrick contar histórias humanas e usar como fundo artificial um fato polêmico, discursivo como a guerra. Como no fantástico, a "comédia" Dr. Fantástico, em Nascido Para Matar, Kubrick tira sarro das situações, satiriza o seu país e não ganha nenhum Oscar por isso. Fica cada vez mais recluso e insatisfeito com o péssimo retorno nas bilheterias (como foi o caso deste, de Barry Lyndon e Laranja Mecânica). Apenas com 2001: Uma Odisséia No Espaço e O Iluminado, o diretor teve ótimos resultados de público. Uma pena, mas o fato é que seus filmes são cada vez mais cults.
Considero Nascido Para Matar o mais genial e completo filme de guerra, onde cada passo do tratamento capilar ao combate, assistimos o maior comflito do homem: "o que faço para saber o que é certo ou errado? Dou um tiro no inimigo ou um aperto de mão?". Por duas vezes no filme o personagem principal se vê neste dilema e seriamente ele tinha o nickname de Hilário e era o mais sensato naquele esquadrão de fuzileiros.
'Nascido Para Matar' - Full Metal Jacket
de Stanley Kubrick
EUA-1987
Guerra-Comédia-Drama-Ação
116'
Roteiro: Kubrick, Michael Herr
e Gustav Hasford -baseado em seu livro
Música: Vivian Kubrick (como Abgail Mead)
Fotografia: Douglas Milsome
Cenografia: Anton Furst
Montagem: Martin Hunter
Elenco por: Leon Vitali
Estrelando: Matthew Modine, Adan Baldwin,
Vincent D´Onofrio, Lee Ermey, Arliss Howard,
Dorian Harewood, Kevyn Major Howard, Ed O´ross,
Bruce Boa, Sal Lopez, Papillon Soo soo e Ngoc Le
Nota: 10

16/11/2009

UMA RICA CARREIRA CATASTRÓFICA

Está em cartaz nos cinemas o divertido 2012. Que discursivamente não foi o esperado pela maioria. Quero falar do cara , o diretor responsável por essa pérola que em breve será um cult cartaz da sessão da tarde, daqui quem sabe em 2016.




Roland Emmerich -
nascido em 1955, é um cineasta de origem alemã apaixonado por ficção-científica (diz ser Star Wars o maior filme de todos os tempos), um sujeito radicado nos EUA, de fama internacional, que ao enveredar pelos efeitos especiais, conseguiu um enorme sucesso com Independence Day. Logo depois continuou a divertir: Godzilla e até o suntuoso épico (não feito por dinheiro, rs) estrelada por Mel Gibson, O Patriota. Sua fita mais inteligente é o cult Stargate, com James Spader e Kurt Russel (1994), que virou série.

Nascido em Munich, Roland estudou Cinema e com o seu filme de estudante The Noah Ark Principle (uma prévia informal de 2012) já teve certo sucesso. Sua meta foi continuar fazendo filmes de entretenimento para o mercado internacional, começou com o Blockbuster com Jean-Claude Van Damme - o primeiro Soldado Universal (roteiro seu). O que ninguém deve ter visto são os seus primeiros filmes, que com baixo orçamento e efeitos tosquinhos (no bom sentido) eram melhores, são eles: Joey - Fazendo Contato (1985); Caça aos Fantasmas (1988); e Estação 44- O Refúgio Dos Exterminadores (1989).

Não tenho nada contra o Emmerich, mas acho apenas que ele se "vendeu $$$$" demais ao mercado americano, ele tem boas idéias para o gênero fantástico, mas poderia ter evitado a bobagem de 10.000 A.C. Como disse a Boscov na Veja: " aquele tigre dentre de sabre parece que saiu do Pokémon."

Depois de 4 anos na geladeira, volta com O Dia Depois de Amanhã, mais um filme catástrofe.

Associou-se ao produtor Dean Devlin fundando a firma Centropolis.


Sua trilogia informal do desastre:



'Independence Day'

EUA - 1996

Estrelando: Will Smith,

Bill Pulman e Jeff Goldblum
Nota 6.5




'O Dia Depois de Amanhã' - The Day After Tomorrow

EUA- 2004

Estrelando: Dennis Quaid, Jacke Gyllenhaal e Ian Holm

Nota 7.0





' 2012'

EUA - 2009

Estrelando: John Cusack, Danny Glover

Tandie Newton e Amanda Peet

Nota 7.0



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