sábado, 24 de março de 2012

SCOTT KALVERT | DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE

O VÍCIO E A POESIA

Nas ruas de Nova York na década de 1970 o adolescente Jim Carroll vive o angustiante mundo da toxicodependência. Ele narra em seu diário suas experiências como usuário de drogas no submundo das ruas.

Como se livrar das drogas? DIÁRIO DE UM ADOLESCENTE é uma viagem ao inferno, um filme brilhante dirigido por Scott Kalvert, que só faria outra fita boa: RUAS SELVAGENS (Deuces Wild, 2002) com Stephen Dorff, Brad Renfro (que morreu tragicamente inclusive devido às drogas) e Fairuza Balk. Um filme que também retrata a juventude arruaceira do Brooklyn. Porém, “Diário” é uma história de superação, poética e apesar de cenas chocantes é um filme que transcende e que ainda não envelheceu. É uma verdadeira epístola ao espectador e nota-se aqui uma notável interpretação do então jovem LEONARDO DiCAPRIO como Jim Carroll. O trabalho de Leo neste começo promissor no cinema é algo que precisa ser revisto e apreciado. Com o seu rostinho bonito (sim ele tem, é verdade e dai?) não me conformo que por causa disso ele tenha sido ignorado pela supremacia, além de ter ficado uma má impressão ou teimosia por parte de alguns. Exemplo: “um rosto angelical de garoto da classe suburbana não poderia expor a angústia e a dureza de vida que levava o protagonista da vida real.” Foi o que eu já ouvi de um colega meu. Mas Leo tira de letra e personifica com garra o músico, escritor e poeta JIM CARROLL (1949-2009), que além de ser reconhecido por sua autobiografia na qual se baseia este filme, é também conhecido pelo seu estilo musical punk. Alguns de seus álbuns estão presentes na trilha sonora como Catholic Boy (1980) e trabalhou até com a Banda Pearl Jam! People Who Died já apareceu na trilha de vários filmes. As poesias recitadas por DiCaprio (Blood Bridge/Little Ode On St. Anne´s Day) fazem parte de uns dos livros publicados de Carroll: Fear of Dreaming (1993).


A fita é um retrato cru da violência noturna das ruas de Nova York. Jim (DiCaprio) é integrante de um grupinho de rapazes bagunceiros que estudam em um colégio católico, o St. Vitus. Naquela época ainda existia uma “educação” aviltante por parte dos padres que também lecionavam além de rezar. Era só prestar qualquer desobediência que o aluno apanhava no traseiro com uma palmatória de madeira diante à classe, verdadeira humilhação pública. Por mais que eles ainda suportem as rígidas “disciplinas” da escola por algum tempo, Jim e seus amigos, Pedro (JAMES MADIO), Neutron (PATRICK McGAW – o único que não vira dependente químico) e Mickey (MARK WAHLBERG) acabam de desvirtuando de vez.

Assim como DiCaprio, e mesmo com alguns exageros, Wahlberg já começa a impressionar com sinais de talento. Faz o tipo bad boy da turma, o sujeito que é a mão que puxa o amigo para as drogas. Todos eles (exceto Pedro que já começou há mais tempo desenvolver uma rotineira relação com o crime), jogam no time de basquete do colégio. O esporte seria a chance desses garotos de terem uma vida melhor (se nos Estados Unidos é o Basquete, no Brasil temos o Futebol e inúmeras histórias de meninos pobres que dão um jeito radical na vida), porém, quando Jim e Mickey começam a experimentar drogas pesadas são pegos e expulsos da instituição de ensino. E fica claro que nenhum educador fez absolutamente nada para orientá-los, começando pelo treinador gay que se insinua para Jim (papel que chegou a ser oferecido para Stephen Lang o militar louco de Avatar), o ótimo BRUNO KIRBY (1949 -2006) de filmes como: O Poderoso Chefão Parte II (1974), Sleepers – A Vingança Adormecida (1996) dentre outros, era um ator com vigor e muito subestimado, ele como Swifty, faz de tudo para molestar o rapaz. Evidente que depois da expulsão eles passam a assaltar carros, lanchonetes, senhoras indefesas e tudo isso certamente para sustentar o vício. De um cigarrinho vai para a maconha, depois é a vez de experimentar a cocaína e logo mais heroína. Quando chegam às drogas injetáveis eles não têm o menor controle. Tudo complica quando Jim é também expulso de casa pela mãe (LORRAINE BRACCO – também conhecida pela série The Sopranos e Os Bons Companheiros de Scorsese), empregada doméstica que reside em um apartamento pequeno e que não consegue ajudar o filho, não compreende a sua doença e perde a paciência quando ele a desrespeita a chamando de vadia, totalmente fora de si. Ela é a típica mãe que não tem argumentos, conhecimentos suficientes para livrar o filho das drogas, portanto só lhe resta rezar religiosamente todos os dias para a santa lhe oferecendo penitência na esperança de ver seu único filho curado e seguro. 

Sim, ela joga nas mãos de Deus – o catolicismo é algo muito forte na fita porque marcou demais a vida de Carroll – é triste. As cenas com Bracco também são de cortar o coração. O modo como ela segura as mãos do filho que volta a bater em sua porta e lhe clama por ajuda, pedindo 20 dólares para consumir (também já estava em débito com outros bandidos, enfim...) é de uma crueza ver uma mãe tratar o filho sentindo medo de sua própria criação, mas compreende-se o lado dela. A porta entreaberta com uma corrente divide duas pessoas que um dia tinham uma relação mãe-filho de muito apego. Mas foi exatamente isso que aconteceu. O filme não usa atalhos para mostrar a destruição de uma família. De qualquer forma eu não saberia descrever como Carroll faz lindamente em seu livro durante a projeção. Cada poema é de uma confissão melancólica que só vendo para sentir. A penitenciária juvenil acaba sendo o fim da linha e a última correção para todos eles, garotos trágicos perdidos em uma noite suja.


Com o tempo, Jim chega ao fundo do poço, mas é também ajudado por um amigo que fazia umas cestas com ele na quadra do bairro, Reggie, interpretado por ERNIE HUDSON, que tira o garoto da neve inconsciente e lhe oferece abrigo em sua casa a fim de ajudá-lo numa terapia cruel: ficar abstinente à droga sem dó nem piedade. E Meu Deus! Que momento mais tenso e colossal do jovem Leo DiCaprio! O que é aquela cena que ele se contorce, baba, berra, chora como uma criança querendo comer doce antes do jantar?! 


Apesar de parecer exagero de talento, Leo é simplesmente mais do que convincente nos momentos de crise. Ele demonstra magistralmente no filme que é extremamente difícil alguém privar o prazer do vício. Sua jornada é longa e dolorosa. Ainda não acabou.

Sem deixar esmorecer, Jim continua escrevendo em seu diário obsessivamente todas as suas experiências. Pode-se dizer que o único vício bom em sua vida era a escrita. Com uma poesia após a outra que vai nascendo naturalmente de sua mente brilhante para o caderninho ele desabafava melhor e não poderia fazê-lo em um confessionário, por exemplo. A cena em que ele confessa as suas travessuras ao padre demonstra cada vez mais a hipocrisia da Igreja.

Suas tristezas, dúvidas e prazeres passaram a serem ouvidos por outras pessoas ecoando pelas sábias rimas, estrofes, versos que eram recitadas por ele em grupos de ajuda. No fim foram as suas palavras que passaram a ajudar outros dependentes e iniciantes ao tráfico. O seu trabalho por muito tempo foi contemplado (na música também).

O verdadeiro Jim Carroll faz uma participação especial no filme numa cena com Leo em um quartel militar sujo e abandonando dizendo para o personagem, isto é, a si mesmo suas experiências verídicas com as drogas. E mais uma vez a Igreja Católica é citada quando ele relata com bom humor, por exemplo, o que sentiu ao inalar o incenso que o padre espalhava na missa e que aquilo tinha o mesmo cheiro da maconha que fumava em seu quarto. No momento o cara diz que adora o ritual religioso que é preparar uma coca e esquentá-la em uma colher sob o fogo de uma vela. 


Também é notável a participação de JULIETTE LEWIS como uma prostituta acabada e imunda que aparece sempre pedindo algum dinheiro ou “bagulho” oferecendo sexo. 

MICHAEL IMPERIOLI também impressiona como o amigo com leucemia em fase terminal.

Havia rumores sobre o projeto e antes do filme acontecer os produtores estavam de olho no jovem ator em ascensão RIVER PHOENIX (1970-1993) para o papel principal. Infelizmente todos nós conhecemos a história de Phoenix que inclusive se envolveu com drogas. DiCaprio afirmou que River sempre foi uma inspiração para ele como ídolo jovem e sempre foi grande fã do saudoso ator.

Kalvert realiza um filme escuro, marginal, essências muito bem captadas na fotografia de David Phillips. O retrato do bairro onde viveu Carroll é predominante toda uma escuridão, até mesmo durante a luz do dia, o tom da fita é bem negrume, vemos um abismo direto para as trevas desde a primeira cena com Leo sendo despertado por uma vizinha maluca (Marilyn Sokol) e o título aparece em um corte brusco. Assim como a vida de Jim, um turbilhão de acontecimentos incontroláveis numa queda sem paraquedas.

Este é um filme que nem posso dizer se virou cult ou não. De qualquer forma é um trabalho cuidadoso, uma história corajosa sobre determinação e até mesmo ousada. Aliás, acho a ousadia do filme de Kalvert mais eficiente do que as fita de Larry Clark (o polêmico KIDS foi lançado no mesmo ano). Uma pena que tenha sido ignorado em premiações importantes. Foi pessimamente distribuído no Brasil, lembro-me de assistir pela primeira vez através do canal Bandeirantes. Graças a uma coleção da Revista Caras (não sei a edição porque não tenho mais o fascículo) em parceria com a Flashstar Home Video, tenho o DVD. Um dos meus primeiros discos de minha coleção.

Recomendo este filme para todos. Há muito tempo que Leonardo DiCaprio tem talento. Nunca foi apenas um galã ou qualquer classificação tola rotulando-o. É um baita ator que se entrega naturalmente imprimindo personalidade e destreza em qualquer papel.

Este registro cinematográfico é para a posteridade jovem. Não é apenas sobre drogas e violência, é o verdadeiro submundo da adolescência.



EUA – 1995
DRAMA
FULLSCREEN
101 min.
COR
16 ANOS
FLASHSTAR
✩✩✩✩ ÓTIMO


Island Pictures Apresenta
Uma produção Liz Heller
Um filme de Scott Kalvert
Estrelando:
Leonardo DiCaprio
Based on a true story
The Basketball Diaries
Bruno Kirby. Lorraine Bracco. Ernie Hudson
Patrick McGaw. James Madio e Mark Wahlberg
Co-estrelando:
Barton Heyman. Roy Cooper. Michael Imperioli. Juliette Lewis
Baseado no livro de Jim Carroll
Supervisão Musical Karyn Rachtman
Música de Graeme Revell Apresentando Paul DiBartolo
Elenco Avy Kaufman Figurinos David C. Robinson
Direção de Arte Christopher Nowak
Produtor de linha Kathie Hersch Edição Dana Congdon
Diretor de Fotografia David Phillips
Produção Executiva
Chris Blackwell. Dan Genetti
Escrito por Bryan Goluboff
Dirigido por
Scott Kalvert
The Basketball Diaries ©1995 Island Pictures/ New Line Cinema

12 comentários:

Alan Raspante disse...

Eu tenho o filme e nem tinha gostado tanto assim da primeira vez, mas realmente é um excelente filme. Comprovei isso quando resolvi rever (que, aliás, já estou precisando dar uma conferida novamente!). DiCaprio está ótimo, principalmente quando o personagem chega no fundo do fundo do poço!

Abs.

Júlio Pereira disse...

Lembro que foi o amigo Matheus Vilela que insistiu pra eu comprar o DVD. Comprei sem ter visto, mas não me arrependi: é ótimo. Muito visceral e cru, deprimente demais. Fiquei abismado com o talento do Di Caprio. Em retrospectiva, vejo uma atuação que, apesar de muito boa, é um pouco exagerada, como você diz. Ele em Gilbert Grape dá show! Aliás, sua carreira vem evoluindo muito, curto ele - embora tenha que se livrar de vários trejeitos. Desde moleque mostrando talento!

Amanda Aouad disse...

Faz tanto tempo que vi esse filme, que precisaria rever para ter uma opinião melhor. Lembro da sensação de angústia, das cenas dele no telhado, de uma certa melancolia.

bjs

renatocinema disse...

Adoro esse filme e concordo com seu texto: Filme brilhante e ao mesmo tempo um retrato cru.


Obra apaixonante.

mateus disse...

eu lembro que nas escolas os professores reuniam os alunos pra assistir..

lembro que era um filme sombrio pra um filme com um elenco todo de adolescentes...

preciso rever novamente... não sou muito fã do Dicaprio, mas a escolha do diretor de coloca-lo nesse papel foi bem feita.

vendedor de ilusão disse...

Olá, parabéns pelo blog; já o sigo. Convido-lhe visitar e seguir o meu.
http://vendedordeilusao.blogspot.com

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

DiCaprio já era grande desde novinho.

O Falcão Maltês

Luís disse...

Faz mil anos que eu estou para assistir a esse filme, mas simplesmente não o faço. Acho que eu preciso começar a me preocupar em organizar melhor minha agenda de modo que eu possa conferir certos filmes - como esse!

Jefferson Clayton Vendrame disse...

Rodrigo você como sempre criando ótimos posts, com ótimos textos mesmo nos filmes menores. Eu nunca gostei desse tipo de filme, exemplos além do que esta em pauta: Transpotting, Cristiane F,Kids, Sid e Nancy etc, esse clima tenso, escuro e pesado das drogas e dos submundos nunca me atraíram... enfim

Grande Abraço

Alysson Mello disse...

Esse filme é ótimo toda a sua essência e o trabalho do Di Caprio como ator nesse filme, mostrou uma ótima interpretação dele, mostrando os momentos de sucesso dele ao mundo das drogas e vicios e chegando ao fundo do poço, esse foi um dos primeiros filmes que vi com o Leonardo DiCaprio eu tô até querendo reve-lo faz tempo que vi da última vez! Adorei o post!

Mione disse...

Parece ser um ótimo filme, verei na primeira oportunidade.
Acho o Leonardo DiCaprio um ótimo ator, e no geral gosto muito do trabalho dele

Post muito completo, uau :D
abraço!

Rodrigo Mendes disse...

Alan: É sempre necessário rever este filme e notar o talento de Leo!

Júlio: Trejeitos? Acho que os exageros do Dicaprio neste filme foram positivos, o que eu quis dizer.
Um filme difícil e ele encarou o papel muito bem. "Gilbert Grape" o mesmo exemplo. Grandes filmes!

Amanda: As cenas no telhado são ótimas, aliás, só tem uma e é o momento mais íntimo do personagem.
Reveja sim!

Renato: Brilhante mesmo!

Mateus: Nunca assisti ele na escola, mas é um material excelente para a ocasião. Parabéns ao seu discente.

Vendedor de Ilusões: Obrigado. Volte sempre. Te seguindo tb!

Antonio: Um garoto obstinado, não?

Luis. Procure logo e assista o quanto antes!

Jefferson: Eu recomendo este filme. Deveria assistir amigo.
Obrigado.

Alysson: O filme mostra de maneira angustiante todas essas fases do personagem muito bem. Kalvert foi bastante cuidadoso aqui.
Obrigado.

Mione: Obrigado moça. Bem vinda novamente.
Assista "Diário" mesmo!

Abraços pessoal!!