domingo, 3 de junho de 2012

PEDRO ALMODÓVAR | MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

O FOGO PURIFICA!

Três mulheres vivem intensamente em uma cobertura na Espanha e chegam ao limite psicológico. Pepa é uma dubladora e atriz que esta obcecada por Iván, seu amante que inesperadamente decide terminar o relacionamento deixando uma mensagem na secretária eletrônica. Uma das amigas de Pepa, Candela, procura refugiar-se no apartamento da amiga depois que descobriu que o seu namorado é um terrorista Xiita. E, finalmente, a ex-mulher de Iván, Lucía, retorna com sede de sangue, louca para cometer um assassinato depois de ficar anos em um manicômio. Pepa tem que detê-la antes que a doida cometa uma loucura!


Uma sinopse dessas, com tantas tramas em uma, só podia mesmo ser coisa do genial cineasta espanhol PEDRO ALMODÓVAR, neste filme que se tornou célebre e cultuado. A fama foi tanta que a fita recebeu uma indicação ao Oscar e ao Globo De Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, a primeira na carreira de Almodóvar, além, é claro, de ter sido o filme responsável pela fama internacional do diretor e roteirista que ganhou status (depois seus antigos filmes foram revistos) e certamente é bom lembrar que este foi o trabalho que deu a ANTONIO BANDERAS um importante passo em direção ao estrelato, assim como Pedro, internacional.


As cores berrantes, as hipérboles e o kitsch nunca foram tão bem explorados em nenhuma outra fita do realizador mais bab boy do cinema. É sem dúvida o filme que mais representa os avanços cinematográficos, em vários aspectos, de Almodóvar, que amadureceu de uma vez por todas, deixando uma marca de autor, ainda mais interessante que seus filmes anteriores. Aqui Almodóvar abrange seu intelecto e consegue com maestria desenvolver uma narrativa com o que tinha de melhor e mais criativo quanto à subjetividade radical dos sentimentos humanos, sobretudo das mulheres, do exagero de todas as emoções e a hibridização que somente ele é capaz de fazer: o melodrama e a comédia, praticamente oscilando na mesma cena.

Em outras palavras, MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (Mujeres Al Borde De Um Ataque De Nervios, 1988) é o primeiro clássico cômico melodramático de Pedro Almodóvar. Nos Estados Unidos: “Women On The Verge Of A Nervous Breakdown” que foi distribuído pela extinta Orion Pictures e resultou no filme legendado de maior bilheteria daquele ano.

A base fundamental desta história parte precisamente do melodrama e conta com a presença de uma das maiores musas do diretor, CARMEM MOURA em seu último trabalho com ele, só voltaria a interpretar para o amigo no aclamado VOLVER (Idem, 2006 ao lado de Penélope Cruz). Maura é Pepa, uma mulher cheia de manias femininas na qual nenhum homem (nem mesmo os Gays) conseguiria decifrá-la. Ela é a amante de um homem mulherengo e comedor, além de ser, obviamente, casado, Iván, interpretado por FERNANDO GUILLÉN (já atuou para o diretor em A LEI DO DESEJO [1987] e em TUDO SOBRE MINHA MÃE [1999]), que é colega de trabalho de Pepa, ambos ganham a vida dublando filmes estrangeiros e parecem viver o mesmo drama do filme que dublam, isto é, o clássico de Nicholas Ray: JOHNNY GUITAR (1954) com Joan Crawford e Sterling Hayden. Um dia, sem mais e nem menos (e provavelmente as mulheres nunca compreenderão os homens), Iván declara descaradamente que deseja terminar tudo! Ele é tão covarde e cafajeste que deixa para ela o rompimento através de um recado na secretária eletrônica, lógico que ela vai ficar doida! Assim, Pepa parte em uma aventura decidindo que deve encontrá-lo uma última vez para, evidentemente, obter uma explicação cara a cara. Ela fica tão obsessiva com o fora do cara, que passa a investigar a sua família, e assim descobre que sua ex-mulher (também louca, mas o caso dela é patológico) e recentemente saída do hospital psiquiátrico, planeja matá-lo! E quem faz o papel da perigosa Lucía? A extraordinária JULIETA SERRANO (de MAUS HÁBITOS [1984]; MATADOR [1986] e ATAME [1990]).

O Ataque de nervos dela é mortal

Ela encarna lindamente, com todas aquelas cores fortes, a maquiavélica femme fatale, que certamente Almodóvar buscou nas fitas francesas e o seu filme é vagamente inspirado numa peça de 1930, escrita por Jean Cocteau (1889-1963): La Voix Humaine, antes do mesmo fazer seu debut no cinema como diretor, de clássicos-dinossauro como; uma versão de “A Bela e a Fera” (1946); o ótimo “Sangue de um Poeta” (1932) e o meu predileto: Les Parents Terribles (1948). A obra teatral era também um monólogo feminino que falava dos anseios, solidão, paixões e felicidade.

O ataque de nervos dela é passional

Bom, voltando a história, Almodóvar surpreende nas reviravoltas em seu script, ou seja, apesar de Pepa ter sido conivente em uma traição e depois ter sido traída por Iván, a mulher cheia de problemas, corre até o aeroporto em uma sequência memorável de tão engraçada, onde seu ex esta prestes a viajar com uma nova mulher, e num ato de (caridade?)... salva a sua vida! Risos incontroláveis que Almodóvar proporciona. Uma das cenas mais antológicas é sem dúvida quando Pepa esta separando as roupas e as coisas do Iván em uma mala e ata fogo em sua cama! “O Fogo purifica”.  


Almodóvar faz referência a este filme numa bela metalinguagem de si mesmo em ABRAÇOS PARTIDOS (Los Abrazos Rotos, 2009 no filme dentro do filme (Chicas Y Maletas : Garotas e Malas, na qual Penélope Cruz passa pelo mesmo processo de sofrimento na fita de Mateo Blanco e com a participação da divertidíssima Carmen Machi e diz a fala do fogo!). E isso é só uma das famosas situações que Almodóvar imprimiu neste clássico.

A forma como Almodóvar desenvolve a história, mesmo com tanto melodrama, é magnífico. Neste filme conhecemos revelações de um senso de humor tão autoral e peculiar do diretor, aliás, que é baseado na excentricidade dos personagens que vão aparecendo naquela cobertura tão exagerada onde a heroína esta vivendo.

Enquanto Pepa esta falando no telefone e atirando ele pela janela, assim como, investigando a vida de seu amante, seu apartamento vai se transformando em um cenário teatral das comédias mais efêmeras que se podia imaginar. 

As figuras mais diversas e incomuns surgem ao toque da campainha: a mais engraçada é a melhor amiga de Pepa, Candela, a ótima MARÍA BARRANCO, outra mulher desesperada que está fugindo da polícia só porque teve um caso com um foragido terrorista (risos) xiita, depois uma mulher mandona, Marisa, a sensacional e feiosa ROSSY DE PALMA, com o seu marido, o gago Carlos (Banderas), que desejam alugar o apartamento e chegam no momento mais inoportuno. Mas quando Lucía, completamente com os nervos fora da normalidade, aparece com duas pistolas em sua bolsa colorida, a coisa pega FOGO! 

Gaspacho com calmante na cara! Outra cena fantástica e inesquecível!

Nunca vi tanta gente desesperada e bem humorada em um filme e Almodóvar vai chegando ao acúmulo do absurdo (adoro as cenas em que Maura fica atirando as coisas do amante pela janela e um vinil atinge a cabeça da nova mulher de seu ex-amante, que também fica à beira de um ataque), tudo isso em um só lugar, perto do clímax, e são tantos exageros que só rindo mesmo. No entanto, o diretor sabe a hora de parar. Pedro também busca inspirações no velho vaudeville, apresentando tantos enganos e confusões somados com tragédia e comédia. Só resta achar que o filme é de fato uma comédia farsesca, é tudo de uma localidade cultural, mas também há uma farsa nisto, já que Almodóvar quer deixar claro o seu toque pessoal.


Victoria Abril havia recusado o papel de Candela. O taxista exótico é outro sujeito notável, embora pareça com Almodóvar, é na verdade interpretado com muito bom humor pelo ator GUILHERMO MONTESINOS.

Não sei qual o motivo da tão lendária briga entre Almodóvar e Maura, mas a coisa foi realmente dolorosa, fato que culminou em uma mágoa e um relacionamento que só foi reatado 18 anos depois.

Ganhou os principais prêmios GOYA (O Oscar espanhol): Atriz (Maura); Montagem; Filme (Película); Roteiro Original e Atriz Coadjuvante (Barranco). Foi indicado nas categorias: Melhor Fotografia; Direção; Figurinos; Maquiagem; Música, Direção de Arte (lá existe a categoria Melhor Direção de Produção , a chefe de produção era Ester García); Som; Efeitos Especiais, Ator Coadjuvante (Montesinos) e Atriz Coadjuvante (Serrano).

Almodóvar ganhou no Festival de Veneza por Melhor Roteiro.

Da fase inicial do diretor, é sem dúvida o meu favorito. Essas mulheres... Nunca ri tanto na minha vida.


ESPANHA -1988
COMÉDIA/DRAMA
WIDESCREEN
COR
89 min.
FOX
LIVRE
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



LAURENT FILM. EL DESEO S.A.
APRESENTAM
UM FILME DE
PEDRO ALMODÓVAR
CARMEN MAURA em:
MUJERES
ANTONIO BANDERAS. JULIETA SERRANO
ROSSY DE PALMA. MARÍA BARRANCO
KITI MANVER. GUILHERMO MONTESINOS
Chus Lampreave. Yayo Calvo. Loles León
Angel De Andrés-López
& FERNANDO GUILLÉN
Figurinos JOSÉ M.ª DE COSSÍO Som GUILLES ORTIÓN
Direção De Produção ESTER GARCÍA
Montagem JOSÉ SALCEDO
Música BERNARDO BONEZZI
Direção de Fotografia JOSÉ LUIS ALCAINE
Produtor Associado ANTONIO LLORÉNS
 Produtor Executivo AGUSTÍN ALMODÓVAR
Roteiro e Direção
PEDRO ALMODÓVAR
Mujeres Al Borde De Um Ataque De Nervios ©1988 El Deseo S. A.


13 comentários:

renatocinema disse...

"As cores berrantes, as hipérboles e o kitsch nunca foram tão bem explorados em nenhuma outra fita do realizador mais bab boy do cinema." disse tudo.

Adoro o direto espanhol e sua magia no uso das cores e insanidades.

Belo filme. Mas, não é o meu predileto.

Acho que sou o único que prefere: Matador. kkk

Karla Hack dos Santos disse...

Nada é tão kitsch e soberbo em metalinguagens que esta preciosidade do Almodovar! Até difícil de imaginar como acessar este lado absurdete da psique feminina... as personas são todas extremas, todas lindas no exagero.

E o gaspacho... Necessário!
ehehheeh


Ah... eu acho que a briga dos dois foi por que ele teria convidado outra atriz que não a Maura para ir na premiação do Oscar do filme.

;D

Gabi disse...

"As cores berrantes, as hipérboles e o kitsch nunca foram tão bem explorados em nenhuma outra fita do realizador mais bab boy do cinema." disse tudo MESMO!
Também sou mais fã do Almodovar dramático, mas é inegável que é um gênio na comédia também. E essa, especificamente, é uma das mais divertidas. Excelente!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Saudades de Carmen Maura! Que atriz!

O Falcão Maltês

Gilberto Carlos disse...

Adoro os filmes de Hitchcock. Tanto aqueles de sua fase debochada, no qual se encontra Mulheres a beira de um ataque de nervos, quanto os filmes dramáticos que fez depois, como Volver e Fale com ela.

Alan Raspante disse...

Não consegui tirar os olhos do nariz sa atriz Rossy De Palma, que nariguda, meu pai eterno! HAHAHA

O filme é realmente sensacional!

Rodrigo Mendes disse...

Ah Renato! Matador é também genial. Tão influente que fez gerar filmes como "Instinto Selvagem" do Paul Verhoeven.

Abraço!

Rodrigo Mendes disse...

Concordo Karla! Almodóvar deixa um tom exagerado exuberante e charmoso na psique das mulheres. É interessante e muito engraçado cada personalidade ali apresentadas. Cada mulher à beira do seu ataque de nervos habitual, rs!

E cá entre nós, mas que briga tola, né? Pelo menos eles "volveram".

Beijos.

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado pelo comentário Gabi.

Almodóvar dramático (sério) eu também gosto. Obras-primas como "Tudo Sobre Minha Mãe" e principalmente "Fale Com Ela" estão aí para provarem isso.

Bjs.

Rodrigo Mendes disse...

Antonio; Nesse tempo ela era incrível. Parece que perdeu o gás mesmo. "Volver", pra mim, foi seu último grande papel.

Abs.

Rodrigo Mendes disse...

Gilberto: Hitchcock? Estamos falando de Almodóvar, rs!
Eu tenho predileção pela obra do espanhol. Só cometeu o deslize fácil com "A Pele Que Habito" em minha opinião.

Abraço.

Rodrigo Mendes disse...

Alan; o nariz da Rossy é coisa de doido, rs! Ela conseguiria um papel fácil como a bruxa má de O Mágico de Oz! HAHAHA

Reinaldo Glioche disse...

Excelente análise Rodrigo. Apaixonada e nostálgica, mas sem prescindir da racionalidade e capacidade de interpretação necessárias para traduzir a fauna cinematográfica de Almodóvar.

Quando vi esse filme pela primeira vez, ainda não tinha dimensão do cineasta que se revelaria para mim. Talvez nem ele mesmo tivesse expectativa de ser o que se tornou.
Abs