sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Gordon Parks | Shaft (1971)

Blaxploitation 
Parte 2
"Ele é cool e durão. É um detetive particular negro, uma máquina de sexo com todas as gatas. Não recebe ordens de ninguém, preto ou branco, mas arriscaria seu próprio pescoço por seu irmão. Estou falando de Shaft. Sacou?" [ HAYES, Isaac


Continuando com os clássicos Blaxploitation aqui no blogue. Um filme não poderia faltar JAMAIS em um especial deste gênero, aliás, o que seria do próprio ciclo que vos falo sem o detetive durão negro que praticamente impulsionou tudo isso? O sucesso de SHAFT (1971), dirigido por GORDON PARKS (1912-2006), o pai do também diretor Gordon Parks Jr. que realizou "Super Fly"(vide abaixo nesta série) acabou sendo um divisor de águas para o que veria a seguir. O filme foi tão lucrativo que a música-tema, os versos que citei acima, do saudoso ISAAC HAYES (1942-2008), chegou a levar um Oscar de Melhor Canção-Tema. O único da carreira de Hayes, um dos grandes gênios da música, utilizado por muitos diretores nas trilhas sonoras de seus filmes como Quentin Tarantino e outros. A letra é tão magistral que resume lindamente o personagem servindo até de sinopse, diga-se. Não tem como não amar Shaft do momento em que ouve-se a música-tema de tão vibrante, contagiante, energizante, brilhante! 


O filme foi seguido por duas continuações oficiais. O GRANDE GOLPE DE SHAFT (Shaft´s Big Score, 1972), este ainda dirigido pelo próprio Parks e SHAFT NA ÁFRICA (Shaft in Africa, 1973), uma guilty pleasure do diretor inglês John Guillermin (o mesmo de "Inferno na Torre", o deboche remake de "King Kong", de 76 e "Crepúsculo das Águias"), sempre estrelado por RICHARD ROUNDTREE que só foi substituído por SAMUEL L. JACKSON na refilmagem de 2000, dirigida por John Singleton um filme que, não tem o mesmo charme que o original, mas que nem por isso deixou de fazer sucesso e ainda trazia Roundtree numa pontinha como coadjuvante! 


É bom ressaltar que Shaft se tornou um ícone americano. Um ídolo negro. Herói rebelde. E, pela primeira vez no cinemão de Hollywood, surgia um personagem protagonista de cor que tinha as suas própria regras, munido de uma forte personalidade, não escuta ninguém, dá ordens em vez de recebê-las e não tem o menor receio de fazer piadas à custa das autoridades brancas. Shaft é praticamente um daqueles diamantes brutos. Roundtree está muito longe da persona de um elegante Sidney Poitier. E não tem como negar que o papel caiu como uma luva de boxe nas mãos do ótimo ator (talvez por isso é insubstituível até para alguém foda como Samuel J. Jackson). E ele conseguiu o papel depois que Parks decidiu encontrar um rosto novo e viu exatamente o que procurava na figura de Roundtree, que na ocasião, trabalhava como modelo da Ebony e que ocasionalmente era ator teatral cuja presença física e -boa forma- de interpretar combinava perfeitamente para a figura que é, de fato, machista, com sua total virilidade característica e confiança necessária. Longe do esnobe, digo aquela força interior suficiente para driblar o preconceito. Era necessário que Shaft fosse durão e sem meias palavras. Alguém que não se intimidasse, mas que também não fosse o super-homem. Além do diretor e ator, toda a criação deve-se ao autor-roteirista, também vencedor do Oscar; ERNEST TIDYMAN (1928-1984), que escreveu, por exemplo, o clássico dos clássicos policiais; OPERAÇÃO FRANÇA (1971), dirigido por William Friedkin e O ESTRANHO SEM NOME (1973), western de Clint Eastwood. Portanto, Tidyman sabia como criar uma série popular de histórias de detetives durões com um forte protagonista, aliás, ele poderia passear livremente por gêneros. Assim sendo, fora contratado pela Metro (M-G-M) que viu grande êxito em filmes aclamados como SWEET SWEETBACK´S BAADASSSSS SONG, lançada no mesmo ano, filme de Melvin Van Peebles e, com isso, a oportunidade de seguir a trilha com um novo projeto explorando o emergente mercado de público negro que explodia na década de 1970. E, numa boa colaboração, Tidyman teve a sorte de trabalhar com Gordon Parks que, além de cineasta, era um prestigioso compositor, escritor e fotógrafo. E com Roundtree, a cereja no bolo, criaram Shaft que é amplamente  reconhecido como o filme que seguiu Sweetback... nesta fase inicial e curta, porém afetuosa,  da explosão de filmes blaxploitation para negros, com atores e equipe técnica de profissionais negros, música funk e soul, e que, por mais que tenham sido criticados  por seus esteriótipos (mas ainda assim importantes) numa época como os anos 70...é uma fase que é particularmente única. Um cinema político e ao mesmo tempo de entretenimento. Com sua iconográfica locação, cenas de ação ousadas e crítica social. Por mais que Shaft tenha um cunho altamente filme-pipoca, não deixa de lado questões importantes. Só basta enxergar com atenção. 



A premissa, como de costume, complica-se ao longo da sessão. Tipicamente é uma trama volátil, Shaft passa por várias adversidades. Depois de causar inadvertidamente a morte de um gangster que aparece em seu escritório, John Shaft (Roundtree) é coagido  por uma dupla de inspetores de polícia, obviamente brancos, a ajudá-los a reunir provas sobre uma guerra entre gangues supostamente prestes a suceder em pleno coração do Harlem! Contudo, um chefão negro do tráfico contrata o irmão, no caso Shaft, para salvar a sua filha dos homens rivais que a raptaram. Já é de se esperar que os bandidos em questão são mafiosos italianos, e que Shaft terá que solicitar ajuda, no caso um antigo colega e sua turma de seguidores nacionalistas negros, assim, eis uma acirrada missão de resgate empreendida por Shaft, muito perigosa, mas que termina bem. Estes filmes tinham uma ação contínua e que por vezes era interrompida sendo que Shaft era um galanteador irremediável, pegava todas as gatas, claro! Mas, são estes alívios românticos que deixam o filme ainda mais charmoso para não ter somente aquela violência desmedida (aliás, a violência já é gráfica!). São momentos episódicos com mulheres que mostram o quanto o personagem não apresenta qualquer escrúpulo quanto a trair sua namorada e se mostra um daqueles amantes ordinários...adepto da "igualdade de oportunidades", o que certamente irrita um público mais feminista. 



Creio que SHAFT é um filme no qual a narrativa é simplesmente fruto para exibir um personagem. São poucos os filmes que fazem da figura central algo além, acima do importante. Este filme é  com certeza SHAFT! E, que, aliás, foi extremamente rentável à época de seu lançamento. Tanto para o público negro quanto branco, gerando uma receita bruta de mais de 23 milhões de dólares apenas nos Estados Unidos. Acredito que tal sucesso seja pelo fato de Shaft estar perfeitamente à vontade em qualquer situação, com pessoas de todos os tipos, etnias e, também, de orientação sexual, afinal, ele chega a ser cantado por um barman gay que, no filme,  tem vontade de beliscar sua bunda! Shaft tem aquele magnetismo, saca? Além da frieza de um quase James Bond em meio aos tiros nas cenas de ação.  O fato é que o filme transcende qualquer limite de cor. É original, subversivo, militante e muuuito legal! Uma pena que não se tornou uma franquia de sucesso como 007 ou Missão:Impossível. Richard Roundtree é alguém com culhões suficiente para arrebentar a boca do balão. Daria, sim, uma ótima franquia policial blaxploitation com tudo que o gênero permite e têm direito. 

Ouça a trilha!




Estados Unidos
Ação - Policial – Thriller
1h 40min.
U Gordon Parks
★★★★☆



METRO-GOLDWYN-MAYER Apresenta
UM FILME DE GORDON PARKS
RICHARD ROUNDTREE 
SHAFT
Com: MOSES GUNN   CHARLES CIOFFI  CHRISTOPHER ST. JOHN
GWENN MITCHELL  LAWRENCE PRESSMAN  VICTOR ARNOLD
SHERRI BREWER  REX ROBBINS  CAMILLE YARBROUGH
MARGARET WARNCKE  JOSEPH LEON  ARNOLD JOHNSON
DOMINIC BARTO  GEORGE STRUS
Música de ISAAC HAYES   J.J. JOHNSON
Direção de Fotografia URS FURRER
Direção de Arte EMANUEL GERARD 
Edição de Filmagem HUGH  A. ANDERSON
Roteiro ERNEST TIDYMAN e JOHN D. F. BLACK
Baseado no livro de Ernest Tidyman
Produzido por JOEL FREEMAN    DAVID GOLDEN
Direção 
GORDON PARKS

© 1971 M-G-M in Metrocolor / Shaft Productions Ltd.


7 comentários:

Pamela Sensato disse...

Acredita que eu não lembro se assisti ou não?
Rsrsrs lembro do meu pai assistir os filmes mais antigos e eu ia junto com ele mais esse não lembro.

kkkkkkkkkkk todo caso gostei da sua resenha...agora vou procurar o filme!

Beijos!!!
Blog Resenhas da Pâm

Hugo disse...

É um filme marcante, com a cara da época em que foi feito.

Hoje com certeza os grupos metidos a politicamente corretos tentariam detonar o filme.

Foi o papel da carreira de Richard Roundtree.

Abraço

Bússola do Terror disse...

Já falei sobre um filme de Blaxpoitation no meu blog. Foi O Monstro Sem Alma.
Mas esses que você indicou aqui eu não conhecia.

Rodrigo Mendes disse...

Pamela: Vale a pena. Filmes clássico é que faz uma sessão boa!
Obrigado e beijos!

Hugo: Concordo. O politicamente correto passa longe dos filmes deste ciclo.
Abraço.

Bússula do Terror: Interessante. Este que você cita eu ainda não vi.
Vou procurar por ele, obrigado. Abraço.

Rodrigo Mendes disse...

Ah, Bússula do Terror... havia me esquecido que o blaxploitation também foi para a vertente do terror. "Blacula" é outro clássico, rs!

Amanda Aouad disse...

Mais um belo texto, Rodrigo. Muito bom esse seu resgate do Blaxploitation. Aguardando a parte 3, rs.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado, Amanda! Provavelmente a parte 3 será "Coffy", com Pam Grier.
Beijos