quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Martin Scorsese | Caminhos Perigosos (1973)

LITTLE ITALY: UMA ODISSEIA MARGINAL




Dois jovens marginais e o cotidiano deles no submundo dos guetos italianos de Nova York


CAMINHOS PERIGOSOS (Mean Streets, 73)  foi o terceiro longa-metragem de MARTIN SCORSESE,mas, para mim, é o primeiro e genuíno filme de sua filmografia. Antes havia lançado QUEM BATE À MINHA PORTA (I Call First, 1967), também estrelada por HARVEY KEITEL e aquele que seria seu primeiro longa sobre o crime; SEXY E MARGINAL (Boxcar Bertha, 1972), com Barbara Hershey e DAVID CARRADINE (1936-2009/ o astro da série Kung Fu e Kill Bill) que faz aqui uma ponta engraçada como um bêbado que é vítima de assassinato. Não era cedo afirmar em 1973 que este era um filme "obra-prima" de um jovem cineasta em ascensão. Tampouco hoje... e lá se foram 44 anos! 
O filme tem todas as características puramente Scorsese. Uma ode sobre a violência urbana, a igreja e sua paixão pelo cinema. Trouxe outro grande nome para o elenco, um jovem ator talentoso que atende pelo nome de ROBERT DE NIRO, e, de todos os filmes que faria com Scorsese, Mean Streets é o papel na qual ele está mais ensandecido mesclado a sua força juvenil. A fita é um evidente talento de Marty em lidar com temas que seriam recorrentes em sua obra. A trama acontece no bairro onde o cineasta passou sua juventude, Little Italy, Nova York, o coração dos eventos criminais,embora muitas cenas em locações tenham sido rodadas em Los Angeles. Brilhantemente, o filme aborda a vida de jovens marginais do crime organizado. Um tipo de trabalho na qual existe hierarquia explorando a euforia e o impulso destrutivo de uma geração de jovens que, ao mesmo tempo, almejam salvação, aliás, é o que Scorsese vem dizendo em praticamente todos os seus filmes. 


O diretor e o seu astro nos bastidores de TAXI DRIVER outro filme monumental!

Na trama, Charlie Cappa (Keitel)  é um integrante que parece não ter relevância no submundo no qual vive. Ele continua lá, fazendo favores para a máfia e acredita piamente que os pecados cometidos por você são pagos na rua e não na igreja, mesmo assim, existe uma preocupação de sua parte em olhar para uma vela e expiar os próprios crimes. Paradoxo? Bem, Charlie é alguém que preocupa-se em impressionar os demais criminosos deste escalão intermediário a ponto de se arrumar como se fosse um gentleman. Homem de fino trato, de boa educação. Com isso, ele acredita que é possível manter um antigo sentido de honraria. De uma lealdade rara naquele contexto. Mas, obviamente, age de tal forma, com tamanha distinção, afim de progredir em um grande negócio conduzido por anciãos. O grande problema de Charlie é  a bela AMY ROBINSON (depois abandonaria a carreira de atriz para virar produtora. Produziu, por exemplo, outro filme do diretor: "Depois de Horas", 85), no papel de sua prima-namorada, Teresa. E, ela o faz questionar-se. Que espécie de "homem íntegro" faz o que faz? E sempre citando o catolicismo, Scorsese lembra de São Francisco. É sabido que o personagem de Keitel é semi-autobiográfico na medida que Marty usa sua própria voz para a narração do mesmo. 



A vida de Charlie é caminhar por Little Italy na companhia dos amigos e sempre se envolvendo nas cafajestagens de seu primo inconsequente e irresponsável. Um perigo para todos e a si mesmo. Uma bomba relógio prestes a explodir, claro que refiro-me a figura de De Niro e o seu Johnny Boy. Cinéfilo que só ele, Scorsese cria cenas fantásticas e usa a metalinguagem do cinema nessas idas a este outro templo sagrado. Há, por exemplo, corte para clipes de Rastros de Ódio (já postei sobre o filme, clique aqui), de John Ford, e O Túmulo Sinistro (1964), do diretor de filmes trash, Roger Corman e estrelado por Vincent Price. Outro ponto interessante no protagonismo de Keitel é que Charlie, apesar dos impulsos violentos, também, afinal, foi criado neste sistema, é um homem inseguro. Ele vive num drama constante acerca de como os seus amigos e inimigos devem vê-lo e assim culmina em destruir a relação com sua prima epilética já que o seu temor é que justamente pensem que ele é estranho. Além de, é claro, desmanchar uma futura ligação amorosa com uma mulher maravilhosa com quem esteve flertando. O motivo? Pelo fato dela ser negra! E no filme é interpretada por JEANNIE BELL, atriz cult dos anos 70 (acho que foi do nome dela que Quentin Tarantino nomeou a personagem de Vivica A. Fox em Kill Bill, Vernita Green, que se escondeu através do nome Jeannie Bell, uma simples dona de casa do subúrbio!). Não o bastante, Keitel - numa grande camaradagem com De Niro, os dois funcionam lindamente juntos em cena - é aquele ser humano fiel e mesmo que a sua lealdade a Johnny Boy me irrite, ainda assim, admirável até mesmo para um verdadeiro herói. No entanto, é certo de que ele irá, eventualmente, se ferrar bonito! Esta amizade o levará ao desastre, uma vez que esse rebelde, um verdadeiro demônio na persona de Bobby De Niro, e sim,  ele me dá medo, ao contrário de Charlie, ele não se preocupa com que os outros pensam, acaba irritando um agiota, feito por RICHARD ROMANUS (mais conhecido por este papel) não apenas deixando de lhe pagar - e para um agiota ele foi até muito paciente - mas também por ficar tirarando um sarro do dito cujo, humilhá-lo em público, etc. Evidente, haverá sangue! 



"Caminhos..." é um filme impactante. De Niro, já na sua cena de entrada explode uma caixa de correio e Keitel é tão intenso quanto contemplativo e respeitoso. Ambos, são personagens de suma importância do ciclo de cinema americano da Nova Hollywood dos anos 70. Neste filme, todos eles estabeleceram um tipo diferente de criminoso nas telas e explorariam em uma série de excelentes filmes de Scorsese além de outros. Considero este uma versão juvenil de OS BONS COMPANHEIROS (outra obra-prima dele, lançada em 1990 - ainda a minha predileta). Mas, nunca que ignoraria o fato de Mean Streets ser um filme igualmente inesquecível. Seu final é apoteótico, em meio a um tipo original de violência e sangue, isto é, uma estética visual única de  Scorsese. 
Bang Bang mesclado a um acidente automobilístico e os vivos e os mortos, juntos (mas não é possível fazer a identificação). Uma sequência de arrepiar os cabelos.  E, para não ficar dizendo que o filme é só tragédia, Scorsese pincela tudo com uma trilha sonora inigualável. A um desprendimento de toda a violência da típica vida de gangster, ao mesmo tempo que este submundo é visível no momento em que Harvey Keitel entra em um bar com luzes de néon elegantemente vestindo o seu terninho.  

















Estados Unidos
Drama Criminal – Thriller
1h 52min.
UMartin Scorsese 
  ★★★★★  


A MARTIN SCORSESE PICTURE
MEAN STREETS
© 1973 por Warner Bros. Inc. Todos os Direitos Reservados

Estrelando: ROBERT DE NIRO   HARVEY KEITEL
DAVID PROVAL  AMY ROBINSON  RICHARD ROMANUS
CESARE DaNOVA  VICTOR ARGO  GEORGE MENNOLI
LENNY SCALETTA  JEANNIE BELL   MURRAY MOSTON
DAVID CARRADINE LOIS WALDEN  HARRY NORTHUP  CATHERINE SCORSESE e MARTIN SCORSESE

Direção de Fotografia KENT L. WAKEFORD
Trilha Sonora
(do acervo vinil pessoal de Scorsese)
ERIC CLAPTON  BERT HOLLAND
MICK JAGGER e KEITH RICHARDS

Montagem SIDNEY LEVIN  Gerente de Produção PAUL RAPP
Roteiro MARTIN SCORSESE  MARDIK MARTIN
Produzido por
E. LEE PERRY   MARTIN SCORSESE  JONATHAN T. TAPLIN
Direção 
MARTIN SCORSESE

Um comentário:

Hugo disse...

É um belo filme, com Scorsese explorando história e personagens ligados as suas lembranças de infância e adolescência.

Assim como vc citou, meu preferido dele sobre a Máfia também é "Os Bons Companheiro".

Abraço

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