sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Alfred Hitchcock | O Inquilino (1927)

O LOCATÁRIO SUSPEITO

Londres está ameaçada por um terrificante serial killer de mulheres loiras. Baseado no livro homônimo de Marie Belloc Lowndes. 

Estava à procura deste grande e monumental filme do mestre do suspense há muitos anos, até finalmente conseguir obtê-lo em minha coleção pela Versatil Home Video, o box colecionável, "A Arte de Alfred Hitchcock", lançado em 2016 em DVD. Há um culto e mistério envolto de O INQUILINO (The Lodger: A Story of the London Fog, 1927, Mudo, 91 min.) considerado o primeiro filme de suspense da carreira de Hitchcock. A priori, Hitchcock pretendia dar um final ambíguo ao filme, mas o estúdio não permitiu. O filme é baseado em um livro homônimo escrito por Marie Belloc Lowndes (1868-1947) e ganhou outras versões todas originalmente de mesmo nome, mas que por aqui ganharam outras traduções, tais são:  ÓDIO QUE MATA (1944), dirigido por John Brahm, com Merle Oberon, George Sanders e Laird Cregar; O ESTRANHO INQUILINO (1953), trazendo características de Film-Noir , direção de Hugo Fregonese e estrelado por Jack Palance, mas sob o título de "Man in the Attic" e, finalmente, uma recente adaptação medíocre estrelada por Alfred Molina, homônimo, 2009 com direção de David Ondaatje, apesar de trazer um elenco bom de atores, além de Molina. 
O filme também é conhecido pelos nomes de "O Pensionista" e "O Locatário", até que ganhou o seu definitivo em português, "O Inquilino", certamente o filme pontapé inicial que ajudou a moldar Hitch. 



A premissa é a seguinte... um serial killer inicia uma série de assassinatos em Londres, tendo como elemento comum o fato de sua vítimas serem todas mulheres loiras. Um novo hóspede, Jonathan Drew (Novello  e ou/ simplesmente o "Lodger" misterioso), chega ao hotel do casal Bounting (MARIE AULT e ARTHUR CHESNEY, respectivamente), em Bloomsbury, e aluga um quarto. O homem tem estranhos hábitos, como o de sair em noites nevoentas. Ele também guarda a foto de uma moça loira em seu quarto. Daisy (JUNE TRIPP), a filha dos Bouting, que também é loira, além de modelo e está noiva de Joe Chandler (MALCOLM KEEN), um detetive. Incomodado com a presença do homem misterioso, Joe  o prende, acusando-o de ser o terrível assassino.


Jack, o Estripador foi inspiração para o livro que deu origem ao filme, mas na trama o assassino é conhecido como "Avenger", talvez pelo fato da verídica e insolúvel história de Jack ainda ser tabu na época. 

Eis um dos grandes momentos de ALFRED HITCHCOCK e toda a sua inventividade nos tempos áureos de sua FASE INGLESA, muito embora o próprio cineasta afirmava que ainda era um amador. Para Hitchcock, o público era essencial. O diretor de filmes atemporais como UM CORPO QUE CAI, PSICOSE e JANELA INDISCRETA tinha apenas 27 anos quando dirigiu o seu primeiro filme, que não era este, mas, THE PLEASURE GARDEM - O JARDIM DOS PRAZERES,  de 1925, com Virginia Valli. Mesmo sendo uma fita que revela um diretor iniciante, ainda assim, marcaria o estilo de autor dele. Por exemplo, ele, neste celuloide, já evidenciou alguns dos temas que apareceriam em muitos filmes. Começa com uma cena de puro voyeurismo, da mulher entrando no palco e uma série de homens sedentos da plateia que olham para a deslumbrante visão feminina em close-up, e eles usam binóculos de ópera que apenas focalizam para as pernas da moça. Com isso, estabelece uma cena de tensão sexual entre homem e mulher, ao mesmo tempo que ele já falava da opressão da mulher pelo homem e que, sim, se prestarmos atenção, um dizer que permeia incessantemente em seu trabalho. 
O seu segundo filme, THE MOUNTAIN EAGLE (1926) perdeu-se no tempo, mas o mesmo afirmava que era um trabalho ruim. Agora, quanto ao seu terceiro longa metragem, O Inquilino, este sim, é o primeiro e legítimo filme de Hitchcock, também palavras do próprio. Fecha aspas! 



E qual a razão de tal afirmação? Bem, é possível verificar no filme ... em se tratando de Hitch ... a primeira noção de crime (assassinato) e sexo hibridizados. Sutilmente, Hitchcock foi um mestre em unir estes dois elementos lindamente. Sua obsessão por assassinatos e mulheres loiras o transformaram em um diretor de uma única linha dramática e o mesmo dizia com humor: "Se eu filmasse Cinderela, a plateia pensaria que haveria um cadáver na carruagem." 

The Lodger, é ambientado em uma Londres sombria e nebulosa e já começa com a descoberta de um corpo, a última vítima de um psicopata incógnito apenas nomeado de Avenger. O assassinato coincide com a chegada de um homem quase esfíngico, de rosto encoberto, interpretado por IVOR NOVELLO (1893-1951), e que aliás, ficou marcado por este papel. Ele, uma figura que incomoda os assustados locadores e frequentadores da pensão, logo criam uma imaginação obsessiva levando a crer que ele é o responsável pelos crimes. Logo, vira alvo de uma caçada violenta. 

Curiosamente, quando Hitch fez o filme, Novello já era um dos atores mais bem pagos e famosos da era do cinema europeu mudo, e por conseguinte facilmente reconhecido pelo público que o transformaram em ídolo das matinês. Portanto, era necessário mudanças que poderiam ser confundidas como drásticas, mas que veio a calhar. Explico. Foi dito a Hitch que ele não poderia ser vilão, ou seja, havia de ter uma maneira de provar que ele era inocente. Eis que surge outro tema recorrente nas fitas do diretor: O homem errado. Em outras palavras, Hitchcock pensou em duas temáticas estratégicas que são a sua diegese fundamental:
1 - o homem em fuga e
2- o falso assassino

E, brilhantemente, ao longo das décadas de uma carreira de sucesso, somente ele conseguia fazer este tipo de construção de roteiro se repetir sem nunca ser enfadonho. Sempre criativo, buscando novas narrativas visuais, às vezes sutil, outras evidentes. 


O filme é conhecido por outros momentos inesquecíveis: o jogo de sombras (e acredito que começou daí a noção, o primórdio dos filmes noir, mas, também, ele bebe na fonte do EXPRESSIONISMO ALEMÃO) e as cenas do andar de cima utilizando um teto transparente, artifício que muito diretor(a) atuais não encontram o bom senso de usar. Enfim, isso só demonstra a criatividade e inventividade daquele homem! 




Com tanta inovação, choque, no melhor do suspense e ação (as cenas de perseguição são fantásticas, culminado em Novello algemado e preso nas lanças de uma grade), O Inquilino fora um grande sucesso comercial. Foi o primeiro filme a colocar o nome de Hitchcock no topo para grande público que já se familiarizou. Também é a primeira vez em que ele aparece na sua habitual pontinha, que mais tarde seria usado como marketing. No entanto, aqui, ele não o fez como marca registrada ou para se promover, mas por mera necessidade. Tudo começou quando um figurante se atrasou e não conseguiu chegar nas filmagens a tempo. Reza a lenda que Hitch tinha pouco tempo para começar a rodar e resolveu fazer pessoalmente a figuração. Tratava-se de um pequeno papel, na qual ele ficava de costas para a câmera trabalhando como o editor de um jornal. 



Antigamente, diretores eram conhecidos como apenas técnicos bem pagos, e foi Hitch que mudou tudo isso. Seu nome tornou-se tão famoso e passou a ser mais importante nos filmes do que seus próprios astros e estrelas. 

Hitch se reencontrou  com Novello em seu próximo filme... DOWNHILL (Decadência, também de 27). Mas, antes das filmagens, ele se casou com a mulher de sua vida, ALMA REVILLE, montadora e continuísta, a dama oculta por trás da obra. 



Inglaterra
Policial – Drama – Suspense
1h 8min.
U Alfred Hitchcock
★★★★☆




DE
ALFRED HITCHCOCK

THE LODGER:
A Story of the London Fog

Estrelando: IVOR NOVELLO
Com: MARIE AULT   ARTHUR CHESNEY 
JUNE TRIPP (como “June”)  e MALCOLM KEEN

Baseado no livro de MARIE  BELLOC LOWNDES
Scenario ELIOT STANNARD  ALFRED HITCHCOCK

Produção MICHAEL BALCON  CARLYLE BLACKWELL
Música Adicionada em 1999 por ASHLEY IRWIN

Fotografado por BARON VENTIMIGLIA e HAL YOUNG

Montagem 
IVOR MONTAGU

Direção de Arte por 
WILFRID ARNOLD e BERTRAM EVANS

Assistente de Direção ALMA REVILLE

Direção
ALFRED HITCHCOCK

©1927 Gainsborough Pictures / Piccadilly Pictures.. Ltd.

2 comentários:

Hugo disse...

Assisti dois filmes de Hitchcock faz poucos dias e logo irei postar.

Este de 1927 eu ainda não assisti. É uma verdadeira raridade.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Hugo: Opa, lerei suas publicações...
Sim, baita raridade, A Versatil lançou este box que falo no texto. Procure, vale a pena!

Abraço.

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