segunda-feira, 23 de outubro de 2017

de David Lynch - Veludo Azul (1986)

UNIVERSO LYNCHIANO



A descoberta de uma orelha humana cortada em estado de decomposição encontrada em um campo leva um jovem a uma investigação relacionada a uma bela e misteriosa cantora de discotecas e a um grupo de fanáticos criminosos psicopatas que sequestraram seu marido e filho em troca de prazeres aviltantes


Bem vindo ao UNIVERSO LYNCHIANO, certamente um dos cineastas mais ousados e geniais de nosso tempo. DAVID LYNCH é um nome que faz a minha cabecinha pirar. Primeiro foi o responsável pela minha fobia por coelhos ao mesmo tempo que me apresenta um mundo onírico, mas sem deixar a maldade humana de fora. Desde que criei o meu blogue estou devendo mais resenhas de qualquer item da obra do diretor. Estou aqui corrigindo a falha postando sobre o meu filme predileto, aliás, um entre tantas outras obras-primas.  IMPÉRIO DOS SONHOS (este demorei pra gostar porque achei, a priori, confuso demais!) e ERASERHEAD foram 2 fitas dele que já postei aqui. E sempre tentei escrever sobre as demais. Mas, como disse Stravinsky: "Nunca entendi completamente uma obra de arte. Eu somente a vivi." VELUDO AZUL (BLUE VELVET, 1986) , apenas com uma indicação ao Oscar na categoria Melhor Diretor, mas vencedor do extinto Festival de Avoriaz, do Cinema Fantástico, para o próprio Lynch, é um filme que merece várias revisitas e, agora, creio que já posso fazer uma breve análise. 

É bom ficar claro que Lynch é um cara de erros (a tentativa de adaptar a obra da ficção-científica, DUNA de Frank Herbert, 1984, para o lendário produtor linha dura Dino de Laurentiis) e acertos ( a obra magistral seriática e fílmica TWIN PEAKS [1990-2017]) no que se diz respeito a sua obra de arte. Multifacetado, ele não só é um cineasta como também, ator, músico, escritor, quadrinista, pintor e escultor.  Sim, ele tem muitas facetas e é de uma imaginação fértil tão infinita quanto o vácuo do universo. Fico aqui imaginando de onde ele tira tantas histórias (quando não é apenas o diretor). Tão peculiar, ele já deixou a sua marca através de várias formas artísticas, ainda assim, é na sétima arte que a sua reputação se consolidou. Reforçando este breve resumo, é recomendável que você assista ao documentário "David Lynch: A Vida de um Artista", 2016, dirigido por Jon Nguyen, Rick Barnes. 

Acredito que o retorno majestoso de Twin Peaks este ano (estou revendo as temporadas antigas...) tenha me despertado a vontade de mergulhar ainda mais neste universo. Dito isso, resolvi adentrar de vez em VELUDO AZUL... uma trama que me arrepia os cabelos, balança meus sentidos, me apavora, me faz crer no amor, enfim, um híbrido de sentimentos na qual é difícil descrever. Pra começo de conversa, Veludo tem uma atmosfera neo noir. Sim. Lynch passeia nesse gênero e é ousado em todos os sentidos. Em sua essência, descreve o momento exato em que um jovem suburbano, o típico norte-americano bonitão e atlético dos filmes que toda garota do bairro se apaixona fácil, no caso, o grande ator e parceiro do diretor, KYLE MacLachlan, que abandona  a idealização da fase crucial da vida, a adolescência,para adentrar na feroz brutalidade  adulta. Aliás, é uma ideia, ao menos pra mim, muito inteligente de meio que subverter a diegese clássica da jornada do herói. E, evidentemente, o elemento catalisador de tal mudança, da borboleta saindo do casulo para voar, é o mundo em si. Um lugar que evidencia uma beleza e esconde o horror. Lynch trabalha com o Filme Noir detetivesco, policial, suspense, terror, drama e romance lindamente. 



O filme é famoso por duas sequências antológicas de geniais - a primeira é um close que contrasta a paz (mentirosa, diga-se) do american way of life do subúrbio dos Estados Unidos da América. Tal contraste se dá com os insetos (besouros) que vivem debaixo da terra. Muito embora quem ama o feio bonito lhe parece...creio que para Lynch, existe uma feiura nesses bichinhos. A segunda já é um zoom in no fundo de uma orelha decepada que irá gerar um impulso por toda a trama. O fio condutor para um subgênero folhetinesco,destes de detetive. A princípio, banal, mas que esconde, por trás de uma cortina de "normalidade", aquilo que todo ser humano tem de mais íntimo - seus próprios impulsos sexuais, seus gostos mais diabólicos, seu fetiches mais estranhos e bizarros. Ou vai me dizer que o voyeurismo, a misoginia e o estupro são coisas na qual nossa espécie deva se orgulhar? É em momentos (e cenas) assim que Lynch choca e encanta os cinéfilos. Não irei negar que o filme é de uma força emocional poderosa, sobretudo na belíssima e antológica interpretação de ISABELLA ROSSELLINI em seu melhor momento no cinema. E digo mais, são as personagens femininas as responsáveis por este lado emotivo. Devo admitir que a querida LAURA DERN, outra parceira de longa data (e musa) do diretor, faz jus a isto. Por exemplo, a cena em que ela fala sobre o seu sonho me faz, sem brincadeira, quase chorar! 

Veludo é um mundo estranho, de fato. Por ser em grande parte sombrio e perturbador gerou controvérsias. Afinal, em meio a tudo isso, existe um lugar florido e bonito. Mas Lynch gosta de provocar tais sentidos. Mais do que isso, é polêmico ainda hoje em dia devido a sua temática de violência sexual nada latente. Em outras palavras, a assustadora (e a melhor da carreira deste cara) e chocante encenação do saudoso DENNIS HOPPER (1936-2010) como um psicopata sádico é algo que nunca esqueceremos. Sua entrega ao papel é terrificante. Ele não é especialmente bonito e sutil como Norman Bates (ainda o psicopata perfeito) ou culto como Hannibal Lecter. É um homem nojento, asqueroso, hostil e falastrão. Nunca havia presenciado nada excepcionalmente bizarro como Frank Booth, que por ser descrito assim, confesso, às vezes chega a irritação. Um velho grotesco que cospe obscenidades e tem um vício incomum por tanque de oxigênio. E é esta figura que faz de reféns a família de uma cantora (Rossellini) que não tem outra saída a não ser tolerar - como uma masoquista - a brutalidade do tirano e cruel Frank. Mas, tal façanha da violência ninguém do mundo superior enxerga, apenas Jeffrey Beaumont (MacLachlan) e, pelo seu ponto de vista voyeur à la Hitchcock, é que somos testemunhas. Toda maldade...e daí entra o filme de terror na visão de Lynch - esconde-se sob a superfície de uma sociedade suburbana, de classe média que vive sobre as rédeas normas filosóficas do ascetismo. Já vimos isso em inúmeros filmes (Beleza Americana, Sam Mendes, Alan Ball, 1999) e séries (Desperate Housewives , Marc Cherry, 2004-2012, aqui de um maneira mais leve, mas com toque de humor negro), mas nunca tão magnífico como em Veludo, até porque nada é exatamente sutil à maneira de David Lynch. 

Repleto de estilo, é também um filme com ótimas combinações. Há um mistério envolto e uma maneira irônica de mostrar toda a subtrama investigativa já que a própria cultura americana é satirizada por Lynch. Há várias tonalidades (e não falo apenas de cores) que passeiam pelo excêntrico e o romântico. Duas linhas paralelas que se cruzam. O jovial e o velho. Os enamorados (MacLachlan e Dern) e os mais velhos ( o mundo de Hopper e Rossellini). Contudo, tudo é muito estilizado. Além disso, o incompatível parece querer se chocar o tempo todo. Lynch trabalha muito bem com a astúcia, o inocente, o funambulesco, o familiar. Eis que, fazendo isso, Lynch se consagra na categoria Cinema de Autor. Não por acaso, Twin Peaks tornou-se fenômeno cultural na década de 90...assim como outras obras que se sucederam como;CIDADE DOS SONHOS, CORAÇÃO SELVAGEM e A ESTRADA PERDIDA, citando alguns. 

A direção de arte, impecável, a fotografia, magistral localiza-se em Lumberton, onde passa-se o enredo. As cercas brancas, os canteiros de flores, os gramados extremamente bem cuidados, parece uma cidade dos sonhos construída literalmente de acordo com uma maquete. E, como na maioria dos filmes Hollywoodianos, é um lugar alegre e triste (tons pasteis e escuridão), casas bonitas, mas um centro industrial sem graça numa lanchonete igualmente enfadonha. Cidade pequena sem fortes emoções em matéria de lazer. É evidente que Lynch tem um fraco por cafés e lanchonetes. Lá que os protagonistas brincam de detetives amadores ao mesmo tempo que estão em encontros não casuais. E, em meio a tudo isso, floresce um amor. Sem esquecer, é claro, de que tudo continua fora dos eixos desde que a orelha humana foi encontrada. Lynch alerta o bizarro, sempre. E como bem dizem que a curiosidade matou o gato, Jeffrey começa a viver e experimentar uma aventura perigosa que culmina em angústia. E se existe outro momento em Veludo que é inesquecível é quando ele encontra-se escondido no armário da cantora e acaba testemunhando a submissão dela na polêmica cena de seu estupro enquanto vestia veludo azul...



A trilha sonora é constituída por baladas pop old que são lindamente entremeadas ao genial trabalho do compositor novaiorquino ANGELO BADALAMENTI , outro parceiro antigo de Lynch. Mas, como esquecer IN DREAMS, de Roy Orbison? E, é claro, da canção-título de Bobby Vinton...uma das canções mais lindas já compostas e cantadas. 

Fascinante e principalmente ambíguo, VELUDO AZUL é um filme que chega a perfeição. 


Estados Unidos
Drama – Policial – Romance- Thriller
2h
U David Lynch
★★★★★



UM FILME DE David Lynch
Blue Velvet
Estrelando: Isabella Rossellini
Kyle MacLachlan   
Dennis Hopper
Laura Dern
Hope Lange
Dean Stockwell
George Dickerson
Priscilla Pointer
Frances Bay
Jack Harvey
Ken Stovitz
Brad Dourif
Jack Nance
J. Michael Hunter
Dick Green

Música de Angelo Badalamenti
Fotografia Frederick Elmes
Montagem Duwayne Dunham
Direção de Arte Patricia Norris
Produção Fred C. Caruso
Roteiro e Direção
David Lynch
© 1986 DE LAURENTIIS Entertainment Group (DEG)


6 comentários:

Gustavo H. Razera disse...

Acho que nenhum cineasta expressou melhor o fascínio da estranheza e da malevolência dormentes por trás da fachada de normalidade nas pessoas e nos subúrbios. Com esse filme, ele faz da subversão algo até poético (vide o final). Concordo com os elogios: Veludo Azul é essencial.

Cumprimentos.

Rodrigo Mendes disse...

Gustavo: Lynch mistura beleza e horror e acho que isso é essencial, não somente como sua marca registrada, mas de uma verdade sóbria quanto a humanidade.

Obrigado pela visita. Abraços!

Hugo disse...

Sou um pouco do contra em relação a David Lynch. Meu filme preferido do diretor é seu trabalho mais comum, o drama, "História Real".

Gosto também da primeira temporada original de "Twin Peaks" e deste "Veludo Azul", porém seus filmes mais badalados eu considero viagens malucas sem sentido.

Mas respeito quem curte e sei que o diretor tem uma legião de fãs.

Abraçi

Rodrigo Mendes disse...

Hugo: História Real é muito bonito e mostra que Lynch sabe fazer um filme bem diferente do que lhe é costumeiro. Entendo que não é mesmo para todos os gostos. Eu, como pode ver, adoro!!!

Abraço

Amanda Aouad disse...

Veludo Azul foi minha porta de entrada pro mundo Lynch de fato. Tinha visto Coração Selvagem, mas não me empolgado tanto com a proposta do diretor. Aqui foi diferente, tinha acabado de estudar Surrealismo e o professor tinha feito a comparação da mão de O Cão Andaluz com a orelha aqui, fui procurar e não parei mais, rs. Um belo texto e ótimo resgate, Rodrigo. Vai ver Cidade dos Sonhos no cinema?

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Dalí e Buñuel são mesmo influenciadores. Vejo também como Lynch resgata isso em sua obra até mais em Twin Peaks. Obrigado pela visita mais uma vez, Nanda e, olha, sim...gostaria muito de assistir Cidade dos Sonhos na telona. Aliás, poderia passar Veludo, Coração Selvagem, História Real, enfim, todos! Beijo
😘

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