terça-feira, 14 de novembro de 2017

de Joon Ho Bong - O Hospedeiro (2006)

FAMÍLIA É FAMÍLIA!


Garotinha é levada por um asqueroso e misterioso monstro. Criatura que aparece no centro de Seul, causando morte, pânico e destruição. 


Vou escrever aqui a minha tamanha predileção pelo cineasta sul-coreano Joon-ho Bong, aliás, é fato que o país vem se destacando com cinema de ponta nas últimas décadas. Contudo, é de Bong um dos grandes filmes responsáveis pela minha porta de entrada, por assim dizer, e familiaridade que viria a sentir após a sessão do filme que considero a sua obra-prima; O HOSPEDEIRO Aka: "The Host" - "Gwoemul" (2006). É dele outros filmaços que recomendo para ontem: MOTHER - A BUSCA PELA VERDADE (2009), EXPRESSO DO AMANHÃ (2013 - este já sendo oficialmente uma co-produção internacional e estrelada, também, por atores não orientais) e o recente filme Netflix - OKjA (idem, 2017). O mais curioso em sua obra é que ele é capaz de conduzir grandes cenas de ação e, com isso, passear por todos os gêneros sem o menor problema. 

Prepara para 2018 um filme curioso, segundo o título, "THE PARASITE",  e pela sinopse, mantêm o estilo de premissa que lhe é autoral: Um homem é infectado com um parasita que muda seu paradigma de maneira imprevista. Veremos. Bem, enquanto isso, vamos ao filme que introduziu ao mundo suas ideias. 

O enredo é simples, mas nem por isso ineficaz. É um daqueles filmes na qual o deleite visual e detalhista do diretor é muito bem planejado. Pode-se dizer que O Hospedeiro é uma espécie de "Godzilla sul-coreano" e seu tom humorístico em várias cenas fazem do filme de terror e ficção-científica uma comédia que não tem medo de parecer ridícula. Bong oscila as emoções magistralmente. Outras obras que já estamos familiarizados como; "A Morte do Demônio", de Sam Raimi e "Todo Mundo Quase Morto", de Edgar Wright (revelando para mim o talento da dupla Simon Pegg e Nick Frost - mais até de Pegg que ficou famoso depois deste, e, não se enganem, este filme é também uma obra-prima!) seguem a mesma linha. Mesmo que estes três filmes sejam de culturas completamente diferentes (um é americano, outro inglês e o outro sul-coreano) todos, a sua maneira, sabem trabalhar a ironia em meio ao caos sobrenatural. São também histórias de pessoas comuns que são envolvidas subitamente no mais bizarro enredo de terror. Contudo, O Hospedeiro sai na frente. Talvez por ainda ser uma cultura mais diferente e, assim, distante do que o público ocidental está acostumado. E por mais que este paradigma tenha mudado e os filmes destes países estejam mais solidificados. Principalmente quando Hollywood faz sucessivas releituras de filmes que se inspiraram neles, sejam em fantasmas de garotinhas asiáticas e ou/ os adoráveis monstros gigantes que vierem do outro lado do mundo (e quem não gosta de um kaiju, né?). O fato é que Bong traz algo a mais para o filme de terror, por exemplo, emprega a mistura de dois elementos fundamentais sem a menor culpa. Sem o menor medo de arriscar. E, lindamente, seu filme é óbvio, no sentido de gritar para o público as razões por que deve sentir medo. Esta é uma categoria. A outra, e a mais eletrizante (o prazer de se ir ao cinema, diga-se) é fazer com que a plateia pule da poltrona justamente quando parece não haver razão para temer a ameaça. E o que mais me assombra. Ele ainda hibridiza muito mais ambas categorias no terceiro ato - quando o monstro é totalmente revelado e vemos a sua dimensão, poder e magnificência num clímax horripilante, sanguinolento e cheio de suspense e ação. 

As sequências de ação são espetaculares como quando no maravilhoso momento em que a besta faz a sua primeira aparição no centro de Seul (Seoul's Han River) e começa a atacar turistas e jovens locais numa interminável e impressionante perseguição criada por um verdadeiro mestre - aonde, também, um grande ator em cena, Kang-ho Song, como o pai, este homem comum, fracassado, entediado e bobalhão, faz de tudo para deter o monstro e salvar a filha - outra grande interpretação da garotinha, Ah-sung Ko. E já é clássica, icônica, a cena em câmera lenta quando é capturada pelo monstro e levada (em suas "garras") rio adentro. Agonizante em todos os sentidos da palavra. Sim. Há muita ação que pode soar desmedida no filme, mas Bong também nos lembra dos momentos de horror assumido. Ele também utiliza o suspense de forma criativa. Ou vai me dizer que você já se esqueceu daquela parte em que a tela fica negra e ouve-se ruídos que sugerem grunhidos, mas que são, na verdade, o encanamento velho do Hospital. É assim que deve ser utilizado a antecipação, mesmo que, posteriormente, revela-se nada de mais. "Ah, não! É apenas inofensivo!" "Aham! Até parece..."
Isso tudo nos prepara para a verdadeira ameaça. Se bem que, toda a agitação no Rio Han já tenha sido um baita baque para o espectador despreparado. Mesmo assim, é legal que, ao longo da fita, Bong prefere continuar com esses pequenos elementos que ajudam e enriquecem a proposta do filme que assume ser várias coisas: comédia, terror, suspense, drama, ação e ficção-científica, citando o básico.  E, por falar em comédia (o ponto alto do filme), adoro o clima de humor negro. Só que é um tipo de humor rasgado e, sim, muito engraçado. Ficou claro, não é?  Vou repetir: É MUITO ENGRAÇADO!!!!! 

O que é aquela cena em um velório público, na qual, desolados, os parentes rezam e choram pelos mortos, seus entes queridos, que não conseguiram escapar do cerco em Han? 

Há fotos, flores e velas para todos os lados e, uma briga familiar inesperada resulta em risos constantes, contagiantes. É uma quebra de clima que não chega a ser um anti-clima. Funcional por ser exagerada e fora da curva. É certamente o meu momento predileto de todo o filme. Acreditem!





















Funciona também, obviamente, como filme de conspiração governamental, com intervenção militar e de autoridades opressoras, que escondem a verdade da população, capaz de transformar o cidadão comum em cobaia. Um tanto diferentes dos japoneses que cultuam sociedades secretas e cientistas amalucados, Bong é esperto em atualizar o filme para os dias atuais. Assim sendo, o governo fica com o cargo. São os  típicos vilões do "apocalipse viral". Há uma substância química importante no filme. Ela é tóxica e conhecida como "agente amarelo" que, além de dar ao clímax do filme um visual majestoso e enevoado, faz com que os personagens principais e os demais civis sangrem pelas orelhas! 

Do elenco, destaca-se também a atriz que interpreta a tia da garota desaparecida, personificada por Doona Bae, mais tarde conhecida pelos papéis na obra das Irmãs Wachowski. Tais quais, a série SENSE8 (2015-2018) e o filme A VIAGEM (Cloud Atlas, 2012). Com seu arco e flecha, ela garante grandes momentos (que também são inesperados!).

Há também uma ligeira participação de Scott Wilson (da série The Walking Dead) na primeira parte - como um médico legista arrogante. E sua parte é falada em inglês. 

Sem meandros ou alegorias, Bong narra de maneira simples e direta a trama de uma menina. Uma criança muito querida pelo avô, tios e o pai viúvo - embora este seja um irresponsável - que é "raptada" viva por um monstro (este que a mantêm presa em uma fonte de esgoto para poder comê-la mais tarde), tal "elo perdido da natureza", ou melhor, da arrogância humana, que supostamente seria o portador/hospedeiro de um novo e letal vírus. Este é um ótimo pano de fundo, mas, na real, Bong quer mesmo contar a vida de uma família disfuncional. Embora briguentos uns com os outros e um tanto malucos, se veem em uma situação que mudará os rumos de suas vidas. Como é típico em cenários apocalípticos. O sobrenatural faz com que este amor que eles sentem pela menina seja a receita mais que suficiente para resolverem suas diferenças e unirem forças para encontrá-la. Custe o que custar. Mas, obviamente, o monstro nem é o principal empecilho. O maldito Governo não medirá esforços para mantê-los calados, afinal, a histeria coletiva que se sucede devido ao vírus, acaba dificultando para todos os envolvidos. De um lado os familiares, as pessoas comuns, que só querem encontrar a menina com vida e do outro o sistema armado até os dentes que almeja limpar a sujeira. 

É, sim, um filme espetacular e contado de maneira surpreendente. O Hospedeiro tornou-se rapidamente numa produção das mais bem sucedidas da história da Coréia. Por mais que a aura do Filme B esteja  presente, eis um diretor que soube pintar tudo isso com um belo verniz. 

Quem diria que veríamos um cult moderno Classe A que bebeu da fonte do mais trash e banal se transformar em um clássico instantâneo? 


Coréia do Sul
Terror/Ação/Suspense/Ficção-científica/Comédia
2h
U Joon Ho Bong
★★★★★


Um Filme de Joon Ho Bong
 GWOEMUL
골목
(The Host)

Estrelando: Kang-ho Song  Hee-Bong Byun
Hae-il Park   Doona Bae  Ah-sung Ko
Dal-su Oh  David Anselmo 
Philip Hersh & Scott Wilson

Fotografia  Hyung-ku Kim    Música Byung-woo Lee  Edição Sun-min Kim

Roteiro Joon Ho Bong   Jun-won Ha  & Chul-hyun Baek

Produção Yong-bae Choi

Direção
Joon Ho Bong

© 2006 Showbox Entertainment / Chungeorahm Film
Boston Investments / CJ Venture Investment Cowell Investment Capital Co.
Happinet/ IMM Venture Capital/ Knowledge & Creation Ventures
M-Venture Investment / OCN/  Sego Entertainment
Seoul Broadcasting System (SBS)/ Tube Pictures 

2 comentários:

Hugo disse...

É um premissa de filme B muito bem desenvolvida. É um ótimo longa de ficção.

Foi um dos primeiros filmes sul-coreanos que assisti.

Hoje a quantidade de ótimos filmes produzidos naquele país é enorme.

Abraço

Amanda Aouad disse...

Belo texto, Rodrigo, como sempre. E sim, os sul-coreanos sabem fazer cinema, de terror principalmente rs.


bjs

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