quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Herbert Ross - Sonhos de um Sedutor (1972)

CASABLANCA LOVER


Um crítico de cinema neurótico, e apaixonado pelo filme CASABLANCA, ouve conselhos do próprio Humphrey Bogart sobre como deve fazer para conquistar as mulheres, inclusive a de seu melhor amigo. 


Woody Allen no topo. Fazendo o que sempre soube como ninguém. Curiosamente, SONHOS DE UM SEDUTOR é uma obra que bem que poderia ter sido dirigida por ele. Mas, a direção é do competente HERBERT ROSS (1927-2001) um cineasta novaiorquino, aliás, tão novaiorquino e cinema lover quanto Allen e de filmes como: Adeus, Mr. Chips (1969), Momento de Decisão (1977) e Footloose - Ritmo Louco (1984) citando alguns. Certamente, diferente de Woody, Ross arriscava mais e produziu filmes bem diferentes ao longo das décadas demonstrando ser um artesão versátil. Aliás, duas vezes indicado ao Oscar por "Momento de Decisão" (pra mim o seu melhor feito). Mas, a bem da verdade, este filme fora realizado especialmente para o deleite dos críticos de cinema e todos os cinemaníacos cinéfilos e todos com idades suficientes para ter conhecido Bogart e ter assistido a um dos maiores filmes de todos os tempos: Casablanca, 1942 de Michael Cutiz

É claramente uma homenagem a Bogart e a Casablanca a partir de seu título original: "Play it Again, Sam" (Toque de novo, Sam) - uma referência ao diálogo em que Ingrid Bergman pedia ao pianista Sam (Dooley Wilson) para tocar mais uma vez a canção As Time Goes By. E, curiosamente, Ingrid nunca chega a dizer exatamente a frase título deste filme, mas sim: "Play it, Sam ... for old time´s Sake" ( Toque Sam, em nome dos velhos tempos...) Ou seja, falta o again. E, como sempre, a lenda é quem manda...

O filme é baseado numa peça de Woody que ele fez na Broadway com Diane Keaton. E ambos iniciaram neste período um longo relacionamento na vida real e numa série de filmes (fez grande sucesso em montagem teatral em Paris). E, vale ressaltar que foi este filme que revelou Woody, principalmente no Brasil, que ainda se sentia inseguro demais como realizador para dirigi-la (muito embora tenha tido três experiências anteriores como diretor, sobretudo com um de meus prediletos deste fase;  Bananas de 1971) , assim, chamou o amigo Herbert Ross, mas isto é inteiramente pró-forma. Nota-se que a fita é de Woody, numa versão viva do herói do complexo de Portnoy, o intelectual judeu, crítico de cinema que sonha em se tornar um amante tão perfeito quanto Bogart. 

Na premissa, quando sua esposa, Susan Anspach de Cada Um Vive Como Quer (1970), o abandona, porque está com vontade de esquiar, ele não consegue se ajustar à vida de solteiro e pede socorro aos melhores amigos, um casal feliz e comum: o marido trabalha na bolsa de valores (Tony Roberts), sempre deixando seu número de telefone em qualquer lugar que entra. Ela (Keaton); uma modelo de dona de casa. 

Há, então, todas as tentativas de encontrar uma mulher para Woody, com sua falta de jeito, seus desastres, seu anti-sex-appeal. Às vezes, o próprio Bogart, interpretado por um sósia, Jerry Lacy, interfere, dando-lhes conselhos e mostrando exemplos tirados de seus filmes; um deles, recriando uma cena idêntica com Lizabeth Scott, em Confissão (Dead Reckoning, 1947). Film-Noir de  John Cromwell

A maior parte das cenas realmente eram mesmo para quem ainda não conhecia o estilo de Allen - com o perdão da má palavra: hilariante. Engraçadíssima é a forma de definir a sequencia em que Woody tenta conquistar Diane no sofá, com Bogart lhe dando dicas. Dito isso, é preciso ter imaginação e senso de humor para levar de boa e embarcar nas comédias dele. Woody replica: "Esta é uma frase que só Fred Astaire conseguiria dizer e não ser vaiado". Ou todas as referências ao filme Casablanca - sempre muito bem colocadas. Enfim, é realmente, preciso ser um gênio para ter a ousadia de fazer uma comédia romântica referencial a um filme famoso. Com diálogos sagazes a todo momento. 

O filme começa com trechos de Casablanca quando Woody beija Diane toca As Time Goes by e, no fim, há uma recriação divertida da conclusão deste clássico, no aeroporto, com Woody dizendo as frases de Bogart e depois agradecendo: "Toda minha vida sonhei em encontrar um momento para repetir essa frase". Ou Woody explicando: "Fiz o possível para que meus pais se divorciassem, mas não deu certo". 

A inteligência e o bom gosto se reuniram para descobrir a mágica e a mitologia no cinema a serviço do humor. Um filme que nos faz vibrar. Ao menos eu vibro e me acabo com boas risadas. Não é qualquer dia que alguém faz um filme para nossa tão desprestigiada classe. Não somente críticos, mas hoje, blogueiros, cinéfilos, enfim, todos que trabalham, editam vídeos e ou/ escrevem em mídias independentes. Acredito que deste filme em diante, é para se tornar um fã de Woody Allen, tolerando até suas idiossincrasias e a vontade de imitar Bergman ou Fellini. Mas, por outro lado, ele já fez (e ainda faz) tanto isso (um filme por ano há décadas!) que acabo que me acostumando. 


EUA
COMÉDIA-ROMANCE
1h 25min. 
COR 
🎥  Herbert Ross 
★★★★☆




Paramount Pictures Apresenta
Uma Produção Arthur P. Jacobs       Um filme de Herbert Ross

Woody Allen   Diane Keaton
“ PLAY IT AGAIN , SAM”
Tony Roberts    Jerry Lacy como Bogart   Susan Anspach
Jennifer Salt   Joy Bang   Suzanne Zennor
Diana Davila  Mari Fletcher
Michael Greene  Ted Markland   e Viva

Roteiro de
Woody Allen
Baseado em peça de sua autoria

Fotografia de Owen Roiszman  
Música de Billy Goldenberg
Edição de Filmagem Marion Rothman
Direção de Arte Ed Wittstein
Produtores Executivos Charles Joffe . Jack Rollins
Produzido por Arthur P. Jacobs
Dirigido por Herbert Ross

© 1972  Paramount Pictures, Rollins-Joffe Productions, APJAC Productions


2 comentários:

Amanda Aouad disse...

Boa lembrança em tempos de um Woody Allen menos criativo de Roda Gigante.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Putz, Amanda, ainda não assisti "Roda Gigante". Certamente mais um filme que divide o público.

Beijos