segunda-feira, 6 de agosto de 2018

ūüé¨ Instinto Selvagem (1992) ūüé• Paul Verhoeven

MATAR E GOZAR PODE SER DIVERTIDO 


Um violento detetive do departamento de homic√≠dios investiga um assassinato brutal, no qual uma mulher manipuladora e sedutora poderia estar envolvida.


Existem aqueles que acreditam que o cineasta holand√™s PAUL VERHOEVEN (Soldado de Laranja, Louca Paix√£o, O Quarto Homem, Sem Controle, O Amante de Kathy Tippel ) tenha perdido a credibilidade ou tenha sofrido perda de personalidade ao aceitar dirigir filmes em Hollywood, por exemplo, algumas produ√ß√Ķes de grande escala como Tropas EstelaresVingador do Futuro e Robocop. E de que a melhor fase at√© aquele momento (a d√©cada de 1990) j√° havia passado e que seus melhores feitos est√£o nas fitas europeias que lhe ensinou o of√≠cio de diretor. Admito que muitos filmes que fez com Rutger Hauer s√£o verdadeiras obras de arte, mas discordo quanto a sua perda da no√ß√£o ao ingressar nesta fase nos Estados Unidos. √Č cego aquele que n√£o quer ver ...  j√° que ele realizou filmes de grandes resson√Ęncias, at√© mesmo o falacioso Showgirls (idem, 1995)
Posso ser suspeito ao falar de Verhoeven, assim como Hitchcock, o cara se tornou um dos meus diretores de cinema prediletos. Tamanha √© a minha confessa admira√ß√£o por sua obra. Aprendi a amar e odiar certos filmes seus a cada nova revisita. Showgirls se tornou uma daquelas guilty pleasures da minha vida. Felizmente, ele voltou com tudo em uma nova fase. Um novo ciclo. Voltando as origens realizando filmes na Europa. A Espi√£ se tornou imediatamente o meu filme de cabeceira, assim como "Elle” (com Isabelle Huppert) que falarei mais adiante na pr√≥xima sess√£o... Na verdade, al√©m de fazer um cinema de autor mesmo em produ√ß√Ķes mainstream hollywoodianas, Verhoeven √© um cara que sempre adorou se reinventar cada vez mais. 

Seu filme mais comentado, INSTINTO SELVAGEM, esse que vos falo, √© certamente a fita mais provocante dos anos 90. Mas, √© um filme que divide opini√Ķes. N√£o chegou a ser taxado de lixo e de a pior fita da d√©cada, como aconteceria com Showgirls, a mesma parceria do diretor e seu roteirista, JOE ESZTERHAS.  Instinto √© um filme que agu√ßa a nossa intelig√™ncia e imagina√ß√£o. √Č um truque muito bem feito pelo seu diretor e roteirista. Uma trama onde tudo pode ser √≥bvio, mas ao mesmo tempo d√ļbio. 

Foi indicado ao Globo de Ouro  na categoria Melhor Atriz (SHARON STONE) e fez festa no  MTV Movie Awards ao vencer nas categorias Atriz (Stone) e Atriz Desej√°vel, ops, Stone √© claro! No Oscar, apenas indica√ß√Ķes para Montagem (Frank J. Urioste) e Melhor Trilha Sonora Musical para o mestre JERRY GOLDSMITH (1929-2004) que vinha com o sucesso de "O Vingador do Futuro - Total Recall" com o diretor, depois fariam novamente a trilha de O Homem Sem Sombra (2000), mas √© Instinto o melhor feito do compositor e, em minha opini√£o, o melhor de sua carreira que merecia o Oscar sem d√ļvida. Goldsmith traz ao filme toda a ousadia empolgante do perigo desde o tema central nos cr√©ditos e passando pelas cenas de sexo e viol√™ncia. Deu at√© mesmo para o  furador de gelo um tema musical. 

Ironicamente, o filme obteve duas nomea√ß√Ķes para o Framboesa de OuroPior Ator (MICHAEL DOUGLAS) e Pior Atriz Coadjuvante (JEANNE TRIPPLEHORN). Ali√°s, Douglas foi sumariamente criticado no filme, tudo bem que as cenas dele com a Tripplehorn, a psiquiatra, francamente, inclusive a cena de sexo deles que culmina em um tosco e violento sexo anal, √© puro deboche, mas creio que intencional. Mas, para mim, Douglas se entrega ao papel e muito se comentou na √©poca (e at√© hoje) o quanto o personagem afetou a vida pessoal do ator que, segundo ele, tornou-se um viciado em sexo. Sua compuls√£o era tanta que teve que se internar numa cl√≠nica para se curar e evitar uma j√° poss√≠vel sociopatia. A alega√ß√£o eram motivos pessoais com sua ex-mulher (no tempo em que ele ainda n√£o havia sossegado com a atual esposa, a tamb√©m atriz, Catherine Zeta- Jones). Foram dois filmes cruciais na vida de Douglas quanto a mexer com sua sexualidade:  Atra√ß√£o Fatal e Instinto. Mas √© claro que Instinto foi muito mais al√©m da conta. Por mais que o cinema americano tenha freado Verhoeven em todos os filmes que dirigiu para o sistema de censura, mesmo que o puritanismo seja latente, o diretor ainda consegue driblar nuances e momentos-chave porque sua agressividade em seus filmes √© crua e direta. 

Embora Douglas j√° tivesse uma carreira estabelecida, n√£o somente como ator, mas como produtor, por outro lado, Stone, muito embora tamb√©m j√° havia estrelado em alguns filmes (com o diretor havia trabalhado anteriormente em Vingador) foi realmente o filme que a transformou em estrela e em um dos maiores s√≠mbolos sexuais do cinema e em outras √°reas, tamb√©m. Ela ficou marcada interpretando o tipo de mulher fria, cruel e sexualmente ativa. Uma gata no cio. Uma vamp capaz de seduzir e quem sabe matar. Como atriz, Instinto √© importante em sua carreira, mas sou da opini√£o de que ela teve uma oportunidade ainda maior quando Scorsese a contratou para papel central de Cassino (1995- Com Pesci e De Niro). 

Curiosamente, o filme, originalmente, teria uma mudan√ßa de protagonista, quando os produtores ofereceram o papel para outra sex symbol, Kim Basinger, mas ser√° mesmo que ela seria uma inesquec√≠vel Catherine Tramell? Como toda boa hist√≥ria de bastidores, como toda a magia do cinema, existem coisas predestinadas. Stone transformou a Tramell num papel s√≥ seu. Ela foi capaz de desenvolver um jeito insinuante que √© a marca registrada da personagem. Conhecemos Catherine assim, insinuando-se a todos ao seu redor. Ali√°s, gra√ßas √† maneira h√°bil de Stone de entender Tramell e dar vida a ela no sentido literal do voc√°bulo insinua√ß√£o: habilidade de se fazer aceitar, de seduzir pelas palavras e maneiras. √Č que podemos, ent√£o, discutir a famosa cena da cruzada de pernas que definitivamente marcou a vida da atriz. 

√Č bom ressaltar que a cena foi rodada sem que a pr√≥pria Sharon soubesse que o p√ļblico perceberia que ela estava sem calcinha no momento. A atriz apenas soube durante uma exibi√ß√£o-teste, quando viu a cena j√° dentro do pr√≥prio filme. Irritada com o fato, Sharon apenas foi convencida a permitir a manuten√ß√£o da cena pelo pr√≥prio Paul Verhoeven, que disse que este poderia ser seu passaporte para a fama. Eles se desentenderam culminando em um tabefe que Paul levou de Sharon, mas que, depois, na medida do poss√≠vel, acabaram fazendo as pazes. E a cena √© a mais comentada do filme. Pode haver certa irritabilidade com o machismo latente na sequ√™ncia do interrogat√≥rio, por mais que a vil√£ esteja no controle da situa√ß√£o e bem acima de seus algozes. Nem sei se podemos chamar os policiais de algozes, sendo ela a mulher fatal e g√©lida que seduz e engana. Mas, ser√° mesmo que ela √© culpada? Ou sendo quem demonstra ser √© apenas uma autodefesa contra o patriarcado? 

Na premissa, uma antiga estrela de rock de nome Johnny Boz (Bill Gable), morre brutalmente picado por um furador de gelo enquanto fazia sexo com uma misteriosa mulher loura. N√£o vemos o seu rosto. N√£o podemos ter certeza de que a pessoa ali √© Tramell. E, genialmente, Verhoeven deixa a mesma d√ļvida pairar durante toda a proje√ß√£o. Tanto √© que a cena pode ter sido feita por uma dubl√™ de corpo de Sharon, mesmo que seja conhecida a nudez de seu corpo, o formato de seus seios, etc. Mas, rola a cena... e logo de in√≠cio um crescente suspense com a m√ļsica de Goldsmith ao fundo e a f√ļria da assina que escondia o seu furador... o pobre Boz est√° morto! Mas, se restar algum consolo, morreu tendo um orgasmo! Assim s√£o as piadas desmedidas proferidas pelos policiais fotografando o local do crime, entre eles, Nick Curran (Douglas) um detetive sombrio por ter um passado de viol√™ncia, drogas e alcoolismo, embora j√° esteja andando na linha e passando por uma s√©rie de sess√Ķes psiqui√°tricas. Devoto ao trabalho, Curran √© bom no que faz e sente-se preparado para voltar √† ativa quando a principal suspeita √© a namorada do falecido, Catherine Tramell (Stone), uma atraente e manipuladora romancista que mantinha uma rela√ß√£o apenas sexual com Boz. A psiquiatra da pol√≠cia, Beth Gardner (Tripplehorn - que √© usada na trama para confundir o espectador), ex-namorada de Nick, √© convidada a participar nas investiga√ß√Ķes, depois de se descobrir que o homic√≠dio de Boz foi copiado diretamente de um dos romances de Catherine. Nick acaba por se envolver demasiado e todos parecem ser suspeitos. Eis que √© a√≠ que o filme sabe criar uma brincadeira de gato e rato e √°libis tacanhos em um jogo ardiloso de sedu√ß√£o e perigo. Curran deseja Tramell ao mesmo tempo em que almeja prend√™-la em busca por provas, mas em compensa√ß√£o, acaba tendo d√ļvidas e passa a am√°-la. Ser√° mesmo que a pr√≥pria suspeita retribui o romance e esta confusa com seus sentimentos com rela√ß√£o a ele...ou √© apenas mais um jogo dela? 

Na verdade, Verhoeven bebe na fonte do Film-Noir e faz algo interessante com o filme j√° mesmo na primeira cena onde ele, lindamente, condensa bem a aura de um estilo neo-noir do come√ßo at√© o final. Verhoeven criou uma patente em seus filmes quanto √†s cenas elaboradas de sexo. Em todos eles, n√£o diferente em Instinto, a transa √© um movimento intenso e fugaz que precede o gozo. No primeiro assassinato em quest√£o, existe a imin√™ncia do crime, este consumado ap√≥s a tal mulher, por cima e totalmente em transe org√°stico, matar a golpes de picador de gelo o ex-roqueiro. Incomum, ao menos no cinema, um homem passivo a uma mulher daquela maneira, de m√£os atadas como num ritual sat√Ęnico, na cabeceira da cama. √Č morte e sexo tudo junto e misturado. Com isso, desde o in√≠cio, o filme apresentar√° uma narrativa das mais intrigantes em sua indefin√≠vel exatid√£o em um cen√°rio t√≠pico de filmes de mist√©rios policiais. Verhoeven faz refer√™ncia ao universo de Alfred Hitchcock aqui com toda certeza! Alude esse estilo de filme com maestria. Mas, tamb√©m, sabe subverter as coisas por incorporar o sexo em si (nos filmes de Hitch o sexo era impl√≠cito) de maneira mais intensa e feito de um jeito t√£o viciante que √© imposs√≠vel desviar o olhar da tela. 

Certamente, o que mais importa assim, de cara, √© saber que estamos longe de inten√ß√Ķes prosaicas ou puramente comerciais. Verhoeven fez carreira falando a respeito de apar√™ncias, revestindo ele mesmo o cinema de um car√°ter complexo por debaixo de tramas a priori simplistas ou de relativo mau gosto. √Č um diretor que sabe filtrar o cinema de g√™nero como poucos. Fez recentemente no excelente Elle (2016) quando parecia estar adormecido de sua plena vibe criativa. E, Parece estar fazendo o mesmo com o seu pr√≥ximo filme; Benedetta (2019), sobre uma freira do s√©culo 17 que sofre de perturbadoras vis√Ķes religiosas e er√≥ticas... 

Instinto Selvagem, embora comercialmente americano e diferente de suas fitas holandesas, √© um protesto do diretor a velha express√£o cinematogr√°fica j√° ultrapassada. N√£o somente as cruzadas de pernas de Sharon e a doen√ßa sexual de Douglas que explodem e fervem na tela com veracidade, mas o prazer pecaminoso libidinoso que √© assistir a qualquer filme de sua obra. √Č o nosso instinto b√°sico. 



- Infelizmente, houve uma continua√ß√£o ap√™ndice e extremamente desnecess√°ria que acaba com a magia e de toda a ideia do primeiro. Sharon Stone retorna como Catherine Tramell estupidamente confessa dos crimes em: Instinto Selvagem 2 (Basic Instinct 2, 2006) de Michael Caton-Jones, co-estrelado por David Morrissey. Inequ√≠voco e sem gra√ßa. 


Eua
Drama - Policial - Suspense 
2h 7min. 
★★★★☆ 

                                      
                                     
                                     MARIO KASSAR apresenta
uma produção CAROLCO/LE STUDIO CANAL +
um filme de PAUL VERHOEVEN
BASIC INSTINCT
estrelando: MICHAEL DOUGLAS   SHARON STONE 
com: GEORGE DZUNDZA   e JEANNE TRIPPLEHORN
co-estrelando: Denis Arndt    Leilani Sarelle   Bruce A. Young 
Chelcie Ross     Dorothy Malone   Wayne Knight   Daniel von Bargen  
Stephen Tobolowsky    Benjamin Mouton 
Jack McGee    e Bill Cable
m√ļsica JERRY GOLDSMITH
figurinos ELLEN MIROJNICK
montagem FRANK J. URIOSTE, a.c.e.
cenografia TERENCE MARSH
fotografia JAN DE BONT, A.S.C.
produtor executivo MARIO KASSAR
escrito por JOE ESZTERHAS
produzido por ALAN MARSHALL
dirigido por PAUL VERHOEVEN
© 1992 STUDIO CANAL IMAGE. 

Um coment√°rio:

Hugo disse...

Também gosto muito dos trabalhos de Paul Verhoeven, apesar de ainda ter de conferir seus filmes antigos da fase holandesa.

Al√©m de ser ic√īnico por tudo que vc citou no texto, "Instinto Selvagem" √© tamb√©m um √≥timo longa de suspense policial, que vai al√©m da pol√™mica do sexo.

Também considero "A Espiã" um filmaço, tendo um desinibida Carice van Houten como protagonista.

Eu citaria ainda o violento "Conquista Sangrenta", que foi o primeiro filme do diretor em Hollywood e que tinha Rutger Hauer e Jennifer Jason Leigh nos papéis principais.

Abraço

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