quinta-feira, 4 de outubro de 2018

🎬 Bergman: A Hora do Lobo (1968)

OUTUBRO DAS BRUXAS ðŸŽƒ

Predadores 
Enquanto estava de férias numa remota ilha escandinava com sua jovem esposa grávida, um artista tem um colapso emocional enquanto enfrenta seus desejos reprimidos.



INGMAR BERGMAN um dos maiores mestres da sétima arte está de volta no CINEMA RODRIGO. é sempre trabalhoso escrever sobre seus filmes, dissecá-los. Ao menos estou tentando, vide: O SÉTIMO SELO, O OVO DA SERPENTE e GRITOS E SUSSURROS. O especial Outubro das Bruxas deste ano entrará em um novo nível com A HORA DO LOBO (1968) e mesmo sendo um melodrama, mas assumidamente filme de gênero, o selo Bergman garante um dos maiores filmes de horror de todos os tempos. Com folga. Por outro lado, muitos o consideram uma obra menor do diretor. É um filme sobre o tormento espiritual do artista envaidecido e frágil, mas que fique claro, nunca é retratado como um enigma que vem do mundo exterior, como acontece, por exemplo, em outra obra do cineasta: PERSONA - QUANDO DUAS MULHERES PECAM (1966), mas é um representação diretamente do ponto de vista interior do artista, aliás, aqui brilhantemente encenado através de textos de seu diário pessoal. Bergman inspira-se em E. T. A. Hoffman, diga-se, embora convencionais e que no filme são propositais. A começar pelos nomes dos personagens, eis uma fita de completo horror sobre um homem sensível, mesmo que não muito amigável, feito espiritualmente em pedaços por seus críticos demoníacos e pelo público. Uma atuação digna de prêmios do grande MAX VON SYDOW melhor até do que em O Sétimo Selo. 

O projeto teve alguns intercalços. O guião original havia sido escrito em 1964 e chamava-se "Os Canibais" e toda a ideia de Bergman era criar algo gigante, monumental. Obviamente que os custos de produção apresentava um orçamento exorbitante. Naquele período, Bergman ficou muito doente com uma forte crise de pneumonia e foi decidido, durante sua convalescença no hospital, de dirigir primeiro Persona, uma fita de baixo orçamento. Assim sendo, Bergman retrabalhou o argumento deste filme durante o período em que rodava Persona para que então este se tornasse uma obra complementar, numa escala menor do que originalmente e ambiciosamente concebida  (e talvez nem teria a mesma personalidade igual a este resultado final). Portanto, aqui ressurge a metáfora do vampiro que também fora simbolicamente trabalhada em Persona, ou seja, a enfermeira vivida por Bibi Andersson sonha que a atriz Elisabet Vogler, a sempre presente e musa do diretor, LIV ULLMANN sugue o seu sangue. Já aqui, o pintor vivido por Von Sydow, Johan Borg, encara seus benfeitores feudais e burgueses no castelo do Barão von Merkens (ERLAND JOSEPHSON) como mortos-vivos, criaturas da noite com uma necessidade vampiresca (o que é bem curioso) de se tornarem predadores ("lobos")  de um artista em particular. Para sua diversão sádica, ele é convidado a uma festa apenas para ser tratado como um mero bobo da corte. Suas pretensões de liberdade artísticas são abertamente ironizadas enquanto seus carrascos apresentam uma versão de teatro (a paixão de Bergman e sempre presente em seus filmes...) de bonecos, uma leitura de A FLAUTA MÁGICA de Mozart, e então elogiam a obra como um produto, sugerindo que seu valor deriva do fato de ter sido um obra feita sob encomenda. E deixando as melhores cenas para o final, a outra humilhação acontece na cena em que Johan se descobre utilizando uma maquiagem de palhaço e recebe provocações de sua amante Veronica Vogler, a impactante INGRID THULIN (1926-2004). 

Mais do que o medo de ser humilhado, mas Bergman, pelo menos na minha interpretação, recria imagens de pesadelo (os algozes de Johan observando no escuro as gargalhadas), entretanto, Bergman também sugere que Johan não merece confiança enquanto narrador. Os vilões possuem qualidades sobrenaturais e um conhecimento incomum de sua psique que, em último momento, se revelam como projeções das forças destrutivas que vivem no interior de todo artista. E é aquilo que Bergman sempre propõe às vezes diretamente ou indiretamente quanto a relação do público e o artista. Palco e poltronas. A troca. A crítica. As reações, os olhares. 




É um dos momentos mais sombrios do diretor, muito embora não seja o único filme de sua obra a dissecar o lado sombrio da natureza humana, mas é o raro filme de terror do mestre. 


Suécia 
Drama/Terror
1h 30min.
★★★★★






UM FILME DE  INGMAR BERGMAN
Vargtimmen

MAX VON SYDOW ...    Johan Borg
LIV ULLMANN      ...   Alma Borg
GERTRUD FRIDH ...    Corinne von Merkens
GEORG RYDEBERG    ...    Lindhorst
ERLAND JOSEPHSON   ...    Baron von Merkens
NAIMA WIFSTRAND    ...    Old Lady with Hat
ULF JOHANSSON   ...    Heerbrand
GUDRUN BROST   ...    Gamla Fru von Merkens
BERTIL ANDERBERG  ...    Ernst von Merkens
INGRID THULIN   ...    Veronica Vogler

música LARS JOHAN WERLE     figurinos MAGO
fotografado por SVEN NYKVIST FSF
montagem ULLA RYGHE   
direção de arte MARIK VOS
produzido por LARS-OWE CARLBERG
roteiro e direção
INGMAR BERGMAN

Svensk Filmindustri (SF) © 1968

2 comentários:

Leo Rib disse...

Acabou me lembrando O Babadook (2014), que é outro filme de terror 100% metafórico.

Rodrigo Mendes disse...

Leo, O Babadook é um ótimo filme! Bem citado.

Abraço.

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