ÚLTIMA PARTE
"M"
O Vampiro de Dusseldorf

É curioso encerrar a minha maratona de filmes em P&B com uma película estranha. 'M' de Fritz Lang o saudoso cineasta egocêntrico, e com uma filmografia repleta de filmes cabeças e por vezes divertidos. 'M' se passa na cidade alemã de Dusseldorf, onde um psicopata ataca criancinhas. Os próprios marginais resolvem caçá-lo e julgá-lo. Para identificá-lo é escrito a letra "M" em suas costas.
Premissa interessante não? Bizzaro e impiedoso. Um filme para adultos e não criancinhas. Os bastidores desta película teve lá seus acontecimentos. Vejo que Lang e sua esposa, co- roteirista Thea Von Harbou, devem ter se inspirado num caso real, de Peter Kurten , preso em maio de 1930, enquanto elaborava minha pesquisa sobre este filme, li que este cara - Kurten fora o responsável por uma série de crimes (assassinatos) na cidade de Dusseldorf em pleno anos sombrios da pior década do século que passou. Porém ao contrário do personagem do filme, chamado Franz Becker , este matava adultos e crianças, indiscriminadamente. Sua última vítima foi uma garotinha de oito anos, nos jardins de um zoológico da cidade.

O filme, embora falado, foi feito inteiramente sem música, quase todo rodado em estúdio. Tudo isso aumenta a força dramática quando se utiliza uma ária de Peer Gynt de Grieg (músico, compositor), assoviada pelo criminoso.
Para evitar problemas com dublagens em outras línguas, Lang evitou fazer Closes dos atores, a não ser do astro da fita Peter Lorre.
Em geral a versão em inglês, os atores dublaram a si mesmos e o assovio era do próprio Lang (segundo o mesmo, mas como acreditar nele?, rs!). Foi refilmado fielmente nos Estados Unidos pelo mesmo produtor, como O Maldito ( M, 1951) por Joseph Losey com David Wayne e Howard Da Silva.
Não entendo qual foi o problema que Lang teve com os nazistas depois, mas teve que fugir dos caras e ir trabalhar no cinema americano, deixando sua esposa Thea, para trás, isso em 1934, mesmo porque ela se tornaria nazista e ele era metade judeu.
Ouvi, li e assisti as opiniões de muita gente, que acham que este filme não tem tanto do expressionismo nem da variante Kammerspiel (que pedia unidade de: tempo, lugar e espaço), mas tinha a ver com o movimento chamado: ' A Nova Objetividade', defendido pelo teatro de Bertold Brecht (de onde veio o grande ator de origem húngara, LORRE, e seus olhos esbugalhados), pedindo em vez do radicalismo e otimismo;o cinismo, a negação da fé e das dependências externas. E, na verdade, o filme tem certas semelhanças com A Ópera dos Três Vinténs - Die Dreigroschenoper, peça de Brecht, que descreve o mesmo ambiente criminoso.
O mais impressionante neste filme esquisito (algo bizarro neste formato só em 1991 com " O Silêncio Dos Inocentes - a nível de obra-prima), como Anthony Hopkins(ao contrário - com os melhores diálogos do roteiro), Lorre faz um trabalho incrível, em que ele pouco fala (ao menos até o discurso final no julgamento) e todo o clima ameaçador é feito por efeitos de luz e sombra. Toda narrativa ainda é concebida visualmente. E há até mesmo uma certa tentativa de compreender como funcionaria a mente criminosa e doentia e mesmo uma mensagem contra a pena capital, que eram raras e ousadas na época.
Com cenários ao mesmo tempo realistas e estilizados, com impressionantes resultados visuais - como a caçada e o julgamento - , o filme senão prenuncia a chegada de HITLER e do Nazismo, ao menos reflete a atmosfera de mal-estar, o ambiente nefasto que existia na sociedade daquela época turbulenta e de um país conturbado. Uma autêntica aula de cinema numa fita que até hoje é perturbadora.
É curioso encerrar este especial, com um filme sem um final feliz e com um começo infeliz,mas na contrapartida, é um filme que recomendo pela sua beleza visual. O lado sombrio da sociedade humana, num belo expressionismo em preto e branco...
'M'

"M"
O Vampiro de Dusseldorf
de Fritz Lang

É curioso encerrar a minha maratona de filmes em P&B com uma película estranha. 'M' de Fritz Lang o saudoso cineasta egocêntrico, e com uma filmografia repleta de filmes cabeças e por vezes divertidos. 'M' se passa na cidade alemã de Dusseldorf, onde um psicopata ataca criancinhas. Os próprios marginais resolvem caçá-lo e julgá-lo. Para identificá-lo é escrito a letra "M" em suas costas.Premissa interessante não? Bizzaro e impiedoso. Um filme para adultos e não criancinhas. Os bastidores desta película teve lá seus acontecimentos. Vejo que Lang e sua esposa, co- roteirista Thea Von Harbou, devem ter se inspirado num caso real, de Peter Kurten , preso em maio de 1930, enquanto elaborava minha pesquisa sobre este filme, li que este cara - Kurten fora o responsável por uma série de crimes (assassinatos) na cidade de Dusseldorf em pleno anos sombrios da pior década do século que passou. Porém ao contrário do personagem do filme, chamado Franz Becker , este matava adultos e crianças, indiscriminadamente. Sua última vítima foi uma garotinha de oito anos, nos jardins de um zoológico da cidade.

De acordo com a imprensa da época, os marginais teriam ajudado a perseguir o assassino, porque ele atrapalhava suas ''outras'' atividades ilegais. Lang sempre negou este tipo de pesquisa para o roteiro de seu filme, mas ele era famoso mentiroso e dissimulador. O filme iria se chamar Mörder Unter Uns - O Assassinato está entre nós, título que causou problemas com os censores que achavam ser uma referência a situação política do país e, segundo o diretor, eles discutiram a possibilidade do crime ser anunciado através de cartas anônimas. Todavia, acabaram optando por um assassino de crianças ( o que é pior), um pedófilo ( o que é pior ainda); personagem que seria mais forte?
O filme, embora falado, foi feito inteiramente sem música, quase todo rodado em estúdio. Tudo isso aumenta a força dramática quando se utiliza uma ária de Peer Gynt de Grieg (músico, compositor), assoviada pelo criminoso.
O elenco não era todo profissional e, durante a cena do julgamento, foram utilizados marginais autênticos.
Para evitar problemas com dublagens em outras línguas, Lang evitou fazer Closes dos atores, a não ser do astro da fita Peter Lorre.
Em geral a versão em inglês, os atores dublaram a si mesmos e o assovio era do próprio Lang (segundo o mesmo, mas como acreditar nele?, rs!). Foi refilmado fielmente nos Estados Unidos pelo mesmo produtor, como O Maldito ( M, 1951) por Joseph Losey com David Wayne e Howard Da Silva.
Apesar da minha crítica negativa a pessoa Fritz Lang, não há dúvidas de que este diretor de cinema é o mais famoso e melhor realizador do cinema expressioniosta alemão, responsável por obras como Metropolis,1927 (aquele visual arrojado foi inspiração de muitos cineastas, incluindo George Lucas, na concepção de Star Wars). Quando fez este, seu primeiro filme falado, certamente é a obra-prima desta sua fase.
Não entendo qual foi o problema que Lang teve com os nazistas depois, mas teve que fugir dos caras e ir trabalhar no cinema americano, deixando sua esposa Thea, para trás, isso em 1934, mesmo porque ela se tornaria nazista e ele era metade judeu.
Ouvi, li e assisti as opiniões de muita gente, que acham que este filme não tem tanto do expressionismo nem da variante Kammerspiel (que pedia unidade de: tempo, lugar e espaço), mas tinha a ver com o movimento chamado: ' A Nova Objetividade', defendido pelo teatro de Bertold Brecht (de onde veio o grande ator de origem húngara, LORRE, e seus olhos esbugalhados), pedindo em vez do radicalismo e otimismo;o cinismo, a negação da fé e das dependências externas. E, na verdade, o filme tem certas semelhanças com A Ópera dos Três Vinténs - Die Dreigroschenoper, peça de Brecht, que descreve o mesmo ambiente criminoso.
O mais impressionante neste filme esquisito (algo bizarro neste formato só em 1991 com " O Silêncio Dos Inocentes - a nível de obra-prima), como Anthony Hopkins(ao contrário - com os melhores diálogos do roteiro), Lorre faz um trabalho incrível, em que ele pouco fala (ao menos até o discurso final no julgamento) e todo o clima ameaçador é feito por efeitos de luz e sombra. Toda narrativa ainda é concebida visualmente. E há até mesmo uma certa tentativa de compreender como funcionaria a mente criminosa e doentia e mesmo uma mensagem contra a pena capital, que eram raras e ousadas na época.
Com cenários ao mesmo tempo realistas e estilizados, com impressionantes resultados visuais - como a caçada e o julgamento - , o filme senão prenuncia a chegada de HITLER e do Nazismo, ao menos reflete a atmosfera de mal-estar, o ambiente nefasto que existia na sociedade daquela época turbulenta e de um país conturbado. Uma autêntica aula de cinema numa fita que até hoje é perturbadora.
É curioso encerrar este especial, com um filme sem um final feliz e com um começo infeliz,mas na contrapartida, é um filme que recomendo pela sua beleza visual. O lado sombrio da sociedade humana, num belo expressionismo em preto e branco...
'M'
Drama /Suspense
Alemanha - 1931
111'
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
M
Estrelando: Peter Lorre
Com: Otto Wernicke
Gustaf Gründgens
Co- estrelando: Theo Lingen Theodor Loos
Ellen Widmann & Georg
John
Roteiro:
Thea Von
Harbou & Fritz Lang
Produção:
Seymor Nebenzall
Nero
-Film, A. G. Vereinigte Star-Film
Fotografia: Fritz Arno Wagner & Gustav Rathje
Direção de
Arte:
Karl
Vollbrecht & Emil Hasler
Montagem: Paul Falkenberg
Música e
efeitos: Peer Gynt de
Grieg
Direção:
FRITZ LANG

THE END
7 comentários:
Muito bom seu blog, estou seguindo-o!
Caso goste do meu também, fique a vontade pra seguí-lo também.
http://loreniitaahh.blogspot.com/
Um abração carioca,
LL
Oi Rodrigo, parabéns por esta resenha, você sempre me impressiona.
Na verdade, penso que o expressionista alemão era um grito bem ecoado na escuridão destas trevas da História Alemã. Era necessário (de)formar a realidade formando-a em uma nova linguagem dentro das Artes.
Parece-me que matar criancinhas é uma hedionda, porém exata metáfora no filme para expressar o que esta sociedade viveu ou estava em vais de vier, pelo menos, durante o Nazismo. Hitler não poupou nem mulheres e nem crianças, ele é o próprio psicopata.
bjs e abs!
Grande Rodrigo, não acredito que estou perdendo nas minhas férias suas resenhas sobre filmes em preto e branco!!!!!!!!!!
Ma me aguarde que assim que retornar, virei ler letra por letra.
Só estou dando uma passadinha rápida para deixar um abraço.
Ah, este me cativou!
Estou aqui com o torrent aberto, quem sabe não baixo ele agora mesmo? Onde encontro?
Ouvi falar muito dele e já tinha visto o poster num site onde colocava os 999 melhores posters do cinema.
A premissa me parece interessante...mas, será que terei medo deste assovio ai? rs
Belo texto!
abs
Esperei um pouco pra comentar mas tô aqui. E nem sei dizer em outras palavras, mas esse filme é um tanto bizarro e me assombra. E não, nunca assisti =/
É, do seu especial, os especiais pra mim de primeira foram o "... hi, i'm baby jane hudson..." que me fez rir e ficar preso e agora esse.
Em uma aula de história há um belo tempo atrás... história ou sociologia, já nem me lembro, falaram desse filme. E o período de produção dele é outra coisa que intriga também né?
E esse título ai em português? Expressivo na sua opinião? curioso no mínimo. é uma pena mesmo que estou sem espaço no pc, se não iria pelo mesmo caminho do cris ai.
parabéns pelo especial! mesmo. faça isso mais. e olha, tá faltando os movimentos do cinema hein... rs foram filmes fortes, gostei mesmo. não foram "quaisquer coisas..."
Abraço!
Olá rodrigo.
Obrigado pelo comentário no cine Freud. Sem dúvida, teus pontos de vista serão super bem vindos.
Achei muito interessante estas postagens que tens feito. Cinema preto e branco é único; e realista, é marcante, é detalhista. Amo demais!
Não conheço este título, mas vou procurá-lo. Até mesmo pelo ano, 1931. De longe já seria possível deduzir que é um trabalho bastante original. Parabéns pelo post!
Um abraço!
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