O AMOR DE UM ARTIFICIAL

Um menino-robô anseia em tornar-se um menino de verdade, como o Pinóquio, para recuperar o amor de sua mãe humana. Baseado no conto de BRIAN ALDISS “Superbrinquedos Duram o Verão Todo.”
Faço coro a crítica de Lisa Schwarzbaum do Entertainment Weekly escrita logo de cara na capinha do DVD: “A.I. de Steven Spielberg é extraordinário.” É um filme doméstico sobre um filho de brinquedo e uma mãe que o adota para substituir o filho doente, e que depois se transforma em uma odisséia sombria futurista onde humanos e robôs estão vivendo uma guerra civil.
No futuro não muito longe de nosso presente, as calotas polares "irão derreter" devido ao aquecimento global e o aumento resultante das águas dos oceanos, o que "afogará" todas as principais cidades litorâneas do mundo (eles citam: Nova York, Veneza, Amsterdã...) Assim sendo, a raça humana foi recolhida para o interior dos continentes já com sua tecnologia avançada no mundo artificial, chegando ao ponto de criar a imagem de sua semelhança, isto é, robôs com inteligência artificial, realistas e domesticáveis chamados de MECAS para servirem os humanos. Uma das empresas do ramo robótico cria um robô-criança com a aparência do filho morto de um médico e cientista dono da corporação. O nome dele é DAVID, um garotinho artificial que é a primeira máquina a ter sentimentos reais, o que é um debate interminável: não acham que o robô era obsessivo demais? Se bem que o homem também é... Especialmente quando se trata de “um amor sem fim” que a pessoa tem que instalar usando um manual de instruções específico e irreversível recitando palavras doces como: tulipa, golfinho e decibel. Bom, um destes “Davids” é comprado por um casal que tem um filho com uma doença terminal e que esta no estado criogênico. A mãe é MONICA, uma mulher que no começo não esta certa quanto ao robozinho. Ela tem medo, o despreza, mas com o tempo acaba se apegando ao menino. Quando ela liga o botão de amar instantaneamente, David nutre um amor inexplicável por ela, sem fim! Ele não ama o pai e tampouco o irmão, quando o mesmo volta do coma e passa a morar na casa e ocupar o lugar do artificial de estimação.

David ama somente Monica. As mudanças começam radicalmente na presença do menino real que trata o menino-robô como um superbrinquedo, apenas. Isso culmina em uma competição entre irmãos para chamar a atenção da mãe que obviamente sempre atenderá ao filho de verdade. Assim os problemas de David e sua jornada para se tornar um menino de verdade começam. A partir do segundo ato é que o filme fica ainda mais interessante. Depois de ouvir de Monica a fábula do menino de madeira (inspiração assumida para esta estória) Pinóquio, clássico de Carlo Collodi, David, de maneira inocente, cria a fantasia de que se ele pudesse localizar a fada azul e lhe pedisse para se tornar em um menino de verdade, sua mãe finalmente pudesse amá-lo. Depois o filme explica que além da faceta do garoto ser a primeira máquina a nutrir sentimentos, foi também o pioneiro a conseguir sonhar, buscar os seus sonhos e nenhuma outra máquina havia feito, experimentado, sentido isso antes de David. Tudo também é muito questionável. Será que um dia a nossa máquina de lavar irá amaciar as nossas roupas com mais carinho? Ou a cafeteira irá fazer um expresso do jeitinho que todo mundo gosta? Ou quem sabe um dia a geladeira passe a gelar a água em cubinhos de coração!? Sonhos humanos e não das máquinas, compreende? Nós depositamos os nossos sonhos quando criamos as nossas extensões. A extensão da nossa perna, por exemplo, é o automóvel. E, um dia o homem não sonhou em voar? Resultado: a aeronave!
Além do menino-robô aparece outro Meca, JOE, um robô-prostituto que atende mulheres solitárias substituindo dildos e homens. Joe ensina ao David como o mundo dos mecas funciona e ajuda o menino a encontrar a fada azul numa aventura noir futurista. Mas ele não é o grilo falante de David, e sim o ótimo ursinho pimpão: TEDDY que também “foi” um superbrinquedo e o bichinho tem voz de adulto e aconselha David a nunca botar o dedo na tomada. Certamente os personagens são carismáticos, tão bem delineados graças ao toque original de STANLEY KUBRICK. Por falar em Kubrick, seria ele o diretor de A.I., mas infelizmente o grande cineasta nos deixou pouco depois de concluir “De Olhos Bem Fechados” e o projeto caiu no colo de SPIELBERG. Aliás, Steven tem uma relação antiga com o projeto desde 1984 quando o misterioso Kubrick lhe apresentou o projeto pela primeira vez e contou sobre essa fábula futurista de seres artificiais. Spielberg disse que foi uma das melhores histórias que alguém já lhe contou e melhor ainda que este alguém seja um Stanley Kubrick.
Era a primeira vez que Stanley, que vivia uma amizade pessoal com Steven durante 15 anos, havia compartilhado com ele uma premissa para um filme. Segundo Steven: “...ele nunca havia me mostrado “Nascido Para Matar” ou “O Iluminado”, era a primeira vez que Stanley me mostrou uma história.” O motivo era simples, Kubrick sempre achou que Spielberg era o mais adequado para esta adaptação e teve a idéia de ser apenas o co-roteirista e produtor da fita que Steven iria dirigir. Pasmo com o convite, inicialmente Spielberg aceitou, mas trocando faxes diretos com Kubrick durante 10 anos trabalhando no projeto (um era o secretário do outro e mais ninguém tinha acesso ao material), elaborando storyboards, escrevendo o script, etc, no fim, já nos anos 90, Spielberg achou que esta história era ideal para Kubrick – tinha tudo para ser um filme realizado por ele (o próprio Steven disse que preferia), só que mesmo assim, ainda quando Kubrick era vivo, o mesmo mandava a direção para Steven. Ficou um jogando o filme na mão do outro até que finalmente, já na quase pós-produção de ‘Eyes Wide Shut’, Kubrick resolveu que iria ser o diretor e Spielberg o produtor. Bom, o resto vocês já sabem, a trágica morte de Stanley Kubrick em março de 1999 comprometeu A. I. quase que para sempre. Christiane Kubrick (esposa de Stanley) pediu pessoalmente ao Spielberg que ele o fizesse, ou então, segundo ela – o que disse na entrevista a produtora BONNIE CURTIS – “Esse filme jamais verá a luz do dia Steven, se você não o dirigir.”
Portanto, para homenagear o amigo, Spielberg aceitou. Esse respeito que Steven tinha por Kubrick, toda uma admiração pelo saudoso cineasta e pelo fato dele ter amado esta história é claramente visto na fita, um filme que tem muito do toque de Kubrick (nos diálogos principalmente) e acabou sendo o melhor, provavelmente único, GRANDE FILME DE STEVEN SPIELBERG no século XXI (vamos esperar pelos próximos). Acho que Steven fez o seu filme menos pessoal aqui resultando numa fita bem diferente dentro da obra do cineasta. Claro, que mesmo assim, o roteiro (reescrito inteiramente por Spielberg) teve mudanças interessantes e ele adicionou o seu toque também, contudo, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL é mais como “um filme presente” em memória de Kubrick (é dedicado para ele) que acabou sendo o responsável por adiar outros futuros projetos de Spielberg naquele período, que queria dedicar-se profundamente no filme. A.I. confirmou a aclamação de Spielberg ainda mais após o Oscar por O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998). Foi mesmo uma fase boa.
O filme teve colaboradores de ambas às partes (de Kubrick e Spielberg) que imprimiram trabalhos inspirados em todos os departamentos artísticos. O artista conceitual CHRIS BAKER, na época contratado pessoalmente por Kubrick, continuou a trabalhar na elaboração dos ambientes futuristas. Acho os desenhos dele espetaculares que mostra um viaduto futurista com túneis em formato de faces que “engolem os automóveis” levando-os a “Rouge City” e também toda a arena do “Mercado de Peles”, uma das partes mais bacanas do filme. O produtor JAN HARLAN, de todos os filmes de Kubrick desde “Laranja Mecânica”, também produz o filme e, os artistas de sempre a serviço de Spielberg: o diretor de fotografia JANUSZ KAMINSKI sem duvida, em minha opinião, supera-se aqui colaborando com a fotografia e de todos os filmes do diretor, depois de A Lista de Schindler, é o melhor trabalho dele. A perspectiva da luz é fantástica, sobretudo no último ato.
O músico compositor JOHN WILLIAMS, também deixa a sua marca e que pela primeira vez, compõe algo diferente com música eletrônica que se converge com sua típica e fantástica música operística (o tema musical em que David é deixado na floresta é impressionante) e sem contar no trabalho da equipe dos estúdios de STAN WINSTON que faz toda a parte “artificial” do filme, construindo robôs que em parte são efeitos de CGI (Teddy, quando os robôs velhos estão procurando partes no ferro velho) e em parte realmente física e que também faz um trabalho crucial colaborando na maquiagem – sobretudo do personagem JOE que mudava de colorização em cada programa. Só uma coisa que Spielberg não abriu mão e dividiu créditos, o próprio roteiro. E concordo com ele. Como Spielberg era, além de Kubrick a única pessoa a entender a premissa, passar as idéias centrais a um outro roteirista seria um erro e provavelmente o filme perderia muita coisa e aquele toque original que Spielberg queria manter.
Assim, depois de anos ele sentou e escreveu um roteiro completo (só havia feito isso em CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU). Claro que Steven é um daqueles diretores como Hitchcock que sempre não leva crédito pelos roteiros de todos os seus filmes. Ele colabora sim, bastante (como todo bom e competente cineasta deve interferir), mas segundo ele, os créditos que recebeu em alguns filmes (como POLTERGEIST) não deixavam de ser colaborações, a diferença é sentar e escrever um roteiro para um filme, sozinho. Ele o fez, e acho que Spielberg imprimiu um lindo trabalho de roteiro. Felizmente ele não só preservou Kubrick (se prestar atenção nas falas e se conhece os filmes do diretor decerto saberá o que estou dizendo), como também fez mudanças necessárias. No entanto, assim como Spielberg, acredito (e acho que todos os cinéfilos também) que A.I. ficaria ainda mais espetacular e filosófico totalmente nos moldes Kubrikianos.
Quanto ao elenco, acho que localizaram as pessoas certas começando por David. Segundo Spielberg: “HALEY JOEL OSMENT foi a minha primeira e última escolha.” E não é para menos! Depois de o guri ter encantado a todos no filme de M. Night Shyamalan – O SEXTO SENTIDO (1999), era correto que Haley, naquele momento, teria que ficar com o papel. É incrível como o garoto é bom, consegue emocionar pedindo a fada que lhe transforme em um menino de verdade, ou quando é deixado na floresta sem dó nem piedade (cena difícil), e mesmo quando fica irritado quando descobre que existem outros mecas como ele em uma linha de fabricação. Mas, a cena mais emocionante é quando ele diz que Monica era a mamãe dele e a abraça.
Particularmente acho esquisito o surto dele em ter que se jogar, cometendo o suicídio, isso me provoca e perturba para entender a condição de amor que ele sentia. Isso confunde e se contradiz um pouco, confesso – ainda não sei se é proposital ou o que quer dizer – mas tudo vira uma espécie de obsessão quando David não encontra respostas matemáticas para o amor não correspondido. Ele tem tiques de querer a mãe só para ele em tempo integral, mesmo sendo doce e inocente, um fofo. Provocações à parte, o filme não deixa de ser vigoroso. JUDE LAW faz muito bem o gigolô-Joe com suas dancinhas imitando Fred Astaire e certamente é um galã envolvente, continua bonito. Acho FRANCES O´CONNOR excelente, e acredito que o papel da mãe humana seja o mais complicado de fazer. Uma mulher maternal dividida entre o seu cachorrinho de estimação e o próprio filho e no fim, cortando o seu coração de uma maneira meio fria, a fim de proteger o robozinho (ela ia devolver ele a empresa que o construiu, só que lá eles iriam o destruir já que a programação não tinha volta), o abandona na floresta e não olha para trás. É bem dúbio, como o é as obras de Kubrick em cada nuance. WILLIAM HURT deixa o seu jeito habitual presente ao interpretar o cientista, gosto dele, e BRENDAN GLEESON (da série HARRY POTTER) faz uma ponta como o dono do mercado de peles que detém a artificialidade, destruindo robôs para divertimento local.
Spielberg foi criticado por não terminar o filme no anfitecóptero em que mostrava David preso olhando uma imagem da Fada Azul no fundo do oceano. Ele resolveu avançar no tempo mostrando que os seres humanos estavam extintos e que os robôs (com cara de ET`s) se tornaram os dominantes do Planeta Terra a 2 mil anos no futuro! Bom, eu gosto deste novo e último ato proposto por Spielberg e sem ele o filme teria menos ainda o seu toque. É interessante saber que os robôs tratam os humanos como nós tratamos os dinossauros, como seres pré-históricos. Assim, a fita se torna ainda mais um panfleto de ficção-científica. E, é deslumbrante também ver todos aqueles efeitos visuais e Frances O´Connor em mais um último momento em cena doméstica com Haley Joel Osment. Aqui confirma a química que eles tinham como mãe e filho, uma relação nem um pouco artificial. Emociona quando ela morre e ele volta a sonhar...
“A.I.” ainda será um filme que irá encantar, entorpecer e intrigar o público com sua mensagem reflexiva. Na dúvida: “David é um menino de 11 anos... seu amor é real, mas ele não é.”
No futuro não muito longe de nosso presente, as calotas polares "irão derreter" devido ao aquecimento global e o aumento resultante das águas dos oceanos, o que "afogará" todas as principais cidades litorâneas do mundo (eles citam: Nova York, Veneza, Amsterdã...) Assim sendo, a raça humana foi recolhida para o interior dos continentes já com sua tecnologia avançada no mundo artificial, chegando ao ponto de criar a imagem de sua semelhança, isto é, robôs com inteligência artificial, realistas e domesticáveis chamados de MECAS para servirem os humanos. Uma das empresas do ramo robótico cria um robô-criança com a aparência do filho morto de um médico e cientista dono da corporação. O nome dele é DAVID, um garotinho artificial que é a primeira máquina a ter sentimentos reais, o que é um debate interminável: não acham que o robô era obsessivo demais? Se bem que o homem também é... Especialmente quando se trata de “um amor sem fim” que a pessoa tem que instalar usando um manual de instruções específico e irreversível recitando palavras doces como: tulipa, golfinho e decibel. Bom, um destes “Davids” é comprado por um casal que tem um filho com uma doença terminal e que esta no estado criogênico. A mãe é MONICA, uma mulher que no começo não esta certa quanto ao robozinho. Ela tem medo, o despreza, mas com o tempo acaba se apegando ao menino. Quando ela liga o botão de amar instantaneamente, David nutre um amor inexplicável por ela, sem fim! Ele não ama o pai e tampouco o irmão, quando o mesmo volta do coma e passa a morar na casa e ocupar o lugar do artificial de estimação.
David ama somente Monica. As mudanças começam radicalmente na presença do menino real que trata o menino-robô como um superbrinquedo, apenas. Isso culmina em uma competição entre irmãos para chamar a atenção da mãe que obviamente sempre atenderá ao filho de verdade. Assim os problemas de David e sua jornada para se tornar um menino de verdade começam. A partir do segundo ato é que o filme fica ainda mais interessante. Depois de ouvir de Monica a fábula do menino de madeira (inspiração assumida para esta estória) Pinóquio, clássico de Carlo Collodi, David, de maneira inocente, cria a fantasia de que se ele pudesse localizar a fada azul e lhe pedisse para se tornar em um menino de verdade, sua mãe finalmente pudesse amá-lo. Depois o filme explica que além da faceta do garoto ser a primeira máquina a nutrir sentimentos, foi também o pioneiro a conseguir sonhar, buscar os seus sonhos e nenhuma outra máquina havia feito, experimentado, sentido isso antes de David. Tudo também é muito questionável. Será que um dia a nossa máquina de lavar irá amaciar as nossas roupas com mais carinho? Ou a cafeteira irá fazer um expresso do jeitinho que todo mundo gosta? Ou quem sabe um dia a geladeira passe a gelar a água em cubinhos de coração!? Sonhos humanos e não das máquinas, compreende? Nós depositamos os nossos sonhos quando criamos as nossas extensões. A extensão da nossa perna, por exemplo, é o automóvel. E, um dia o homem não sonhou em voar? Resultado: a aeronave!
Além do menino-robô aparece outro Meca, JOE, um robô-prostituto que atende mulheres solitárias substituindo dildos e homens. Joe ensina ao David como o mundo dos mecas funciona e ajuda o menino a encontrar a fada azul numa aventura noir futurista. Mas ele não é o grilo falante de David, e sim o ótimo ursinho pimpão: TEDDY que também “foi” um superbrinquedo e o bichinho tem voz de adulto e aconselha David a nunca botar o dedo na tomada. Certamente os personagens são carismáticos, tão bem delineados graças ao toque original de STANLEY KUBRICK. Por falar em Kubrick, seria ele o diretor de A.I., mas infelizmente o grande cineasta nos deixou pouco depois de concluir “De Olhos Bem Fechados” e o projeto caiu no colo de SPIELBERG. Aliás, Steven tem uma relação antiga com o projeto desde 1984 quando o misterioso Kubrick lhe apresentou o projeto pela primeira vez e contou sobre essa fábula futurista de seres artificiais. Spielberg disse que foi uma das melhores histórias que alguém já lhe contou e melhor ainda que este alguém seja um Stanley Kubrick.
Era a primeira vez que Stanley, que vivia uma amizade pessoal com Steven durante 15 anos, havia compartilhado com ele uma premissa para um filme. Segundo Steven: “...ele nunca havia me mostrado “Nascido Para Matar” ou “O Iluminado”, era a primeira vez que Stanley me mostrou uma história.” O motivo era simples, Kubrick sempre achou que Spielberg era o mais adequado para esta adaptação e teve a idéia de ser apenas o co-roteirista e produtor da fita que Steven iria dirigir. Pasmo com o convite, inicialmente Spielberg aceitou, mas trocando faxes diretos com Kubrick durante 10 anos trabalhando no projeto (um era o secretário do outro e mais ninguém tinha acesso ao material), elaborando storyboards, escrevendo o script, etc, no fim, já nos anos 90, Spielberg achou que esta história era ideal para Kubrick – tinha tudo para ser um filme realizado por ele (o próprio Steven disse que preferia), só que mesmo assim, ainda quando Kubrick era vivo, o mesmo mandava a direção para Steven. Ficou um jogando o filme na mão do outro até que finalmente, já na quase pós-produção de ‘Eyes Wide Shut’, Kubrick resolveu que iria ser o diretor e Spielberg o produtor. Bom, o resto vocês já sabem, a trágica morte de Stanley Kubrick em março de 1999 comprometeu A. I. quase que para sempre. Christiane Kubrick (esposa de Stanley) pediu pessoalmente ao Spielberg que ele o fizesse, ou então, segundo ela – o que disse na entrevista a produtora BONNIE CURTIS – “Esse filme jamais verá a luz do dia Steven, se você não o dirigir.”
Portanto, para homenagear o amigo, Spielberg aceitou. Esse respeito que Steven tinha por Kubrick, toda uma admiração pelo saudoso cineasta e pelo fato dele ter amado esta história é claramente visto na fita, um filme que tem muito do toque de Kubrick (nos diálogos principalmente) e acabou sendo o melhor, provavelmente único, GRANDE FILME DE STEVEN SPIELBERG no século XXI (vamos esperar pelos próximos). Acho que Steven fez o seu filme menos pessoal aqui resultando numa fita bem diferente dentro da obra do cineasta. Claro, que mesmo assim, o roteiro (reescrito inteiramente por Spielberg) teve mudanças interessantes e ele adicionou o seu toque também, contudo, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL é mais como “um filme presente” em memória de Kubrick (é dedicado para ele) que acabou sendo o responsável por adiar outros futuros projetos de Spielberg naquele período, que queria dedicar-se profundamente no filme. A.I. confirmou a aclamação de Spielberg ainda mais após o Oscar por O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998). Foi mesmo uma fase boa.
O filme teve colaboradores de ambas às partes (de Kubrick e Spielberg) que imprimiram trabalhos inspirados em todos os departamentos artísticos. O artista conceitual CHRIS BAKER, na época contratado pessoalmente por Kubrick, continuou a trabalhar na elaboração dos ambientes futuristas. Acho os desenhos dele espetaculares que mostra um viaduto futurista com túneis em formato de faces que “engolem os automóveis” levando-os a “Rouge City” e também toda a arena do “Mercado de Peles”, uma das partes mais bacanas do filme. O produtor JAN HARLAN, de todos os filmes de Kubrick desde “Laranja Mecânica”, também produz o filme e, os artistas de sempre a serviço de Spielberg: o diretor de fotografia JANUSZ KAMINSKI sem duvida, em minha opinião, supera-se aqui colaborando com a fotografia e de todos os filmes do diretor, depois de A Lista de Schindler, é o melhor trabalho dele. A perspectiva da luz é fantástica, sobretudo no último ato.
O músico compositor JOHN WILLIAMS, também deixa a sua marca e que pela primeira vez, compõe algo diferente com música eletrônica que se converge com sua típica e fantástica música operística (o tema musical em que David é deixado na floresta é impressionante) e sem contar no trabalho da equipe dos estúdios de STAN WINSTON que faz toda a parte “artificial” do filme, construindo robôs que em parte são efeitos de CGI (Teddy, quando os robôs velhos estão procurando partes no ferro velho) e em parte realmente física e que também faz um trabalho crucial colaborando na maquiagem – sobretudo do personagem JOE que mudava de colorização em cada programa. Só uma coisa que Spielberg não abriu mão e dividiu créditos, o próprio roteiro. E concordo com ele. Como Spielberg era, além de Kubrick a única pessoa a entender a premissa, passar as idéias centrais a um outro roteirista seria um erro e provavelmente o filme perderia muita coisa e aquele toque original que Spielberg queria manter.
Assim, depois de anos ele sentou e escreveu um roteiro completo (só havia feito isso em CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU). Claro que Steven é um daqueles diretores como Hitchcock que sempre não leva crédito pelos roteiros de todos os seus filmes. Ele colabora sim, bastante (como todo bom e competente cineasta deve interferir), mas segundo ele, os créditos que recebeu em alguns filmes (como POLTERGEIST) não deixavam de ser colaborações, a diferença é sentar e escrever um roteiro para um filme, sozinho. Ele o fez, e acho que Spielberg imprimiu um lindo trabalho de roteiro. Felizmente ele não só preservou Kubrick (se prestar atenção nas falas e se conhece os filmes do diretor decerto saberá o que estou dizendo), como também fez mudanças necessárias. No entanto, assim como Spielberg, acredito (e acho que todos os cinéfilos também) que A.I. ficaria ainda mais espetacular e filosófico totalmente nos moldes Kubrikianos.
Quanto ao elenco, acho que localizaram as pessoas certas começando por David. Segundo Spielberg: “HALEY JOEL OSMENT foi a minha primeira e última escolha.” E não é para menos! Depois de o guri ter encantado a todos no filme de M. Night Shyamalan – O SEXTO SENTIDO (1999), era correto que Haley, naquele momento, teria que ficar com o papel. É incrível como o garoto é bom, consegue emocionar pedindo a fada que lhe transforme em um menino de verdade, ou quando é deixado na floresta sem dó nem piedade (cena difícil), e mesmo quando fica irritado quando descobre que existem outros mecas como ele em uma linha de fabricação. Mas, a cena mais emocionante é quando ele diz que Monica era a mamãe dele e a abraça.
Particularmente acho esquisito o surto dele em ter que se jogar, cometendo o suicídio, isso me provoca e perturba para entender a condição de amor que ele sentia. Isso confunde e se contradiz um pouco, confesso – ainda não sei se é proposital ou o que quer dizer – mas tudo vira uma espécie de obsessão quando David não encontra respostas matemáticas para o amor não correspondido. Ele tem tiques de querer a mãe só para ele em tempo integral, mesmo sendo doce e inocente, um fofo. Provocações à parte, o filme não deixa de ser vigoroso. JUDE LAW faz muito bem o gigolô-Joe com suas dancinhas imitando Fred Astaire e certamente é um galã envolvente, continua bonito. Acho FRANCES O´CONNOR excelente, e acredito que o papel da mãe humana seja o mais complicado de fazer. Uma mulher maternal dividida entre o seu cachorrinho de estimação e o próprio filho e no fim, cortando o seu coração de uma maneira meio fria, a fim de proteger o robozinho (ela ia devolver ele a empresa que o construiu, só que lá eles iriam o destruir já que a programação não tinha volta), o abandona na floresta e não olha para trás. É bem dúbio, como o é as obras de Kubrick em cada nuance. WILLIAM HURT deixa o seu jeito habitual presente ao interpretar o cientista, gosto dele, e BRENDAN GLEESON (da série HARRY POTTER) faz uma ponta como o dono do mercado de peles que detém a artificialidade, destruindo robôs para divertimento local.
Spielberg foi criticado por não terminar o filme no anfitecóptero em que mostrava David preso olhando uma imagem da Fada Azul no fundo do oceano. Ele resolveu avançar no tempo mostrando que os seres humanos estavam extintos e que os robôs (com cara de ET`s) se tornaram os dominantes do Planeta Terra a 2 mil anos no futuro! Bom, eu gosto deste novo e último ato proposto por Spielberg e sem ele o filme teria menos ainda o seu toque. É interessante saber que os robôs tratam os humanos como nós tratamos os dinossauros, como seres pré-históricos. Assim, a fita se torna ainda mais um panfleto de ficção-científica. E, é deslumbrante também ver todos aqueles efeitos visuais e Frances O´Connor em mais um último momento em cena doméstica com Haley Joel Osment. Aqui confirma a química que eles tinham como mãe e filho, uma relação nem um pouco artificial. Emociona quando ela morre e ele volta a sonhar...
“A.I.” ainda será um filme que irá encantar, entorpecer e intrigar o público com sua mensagem reflexiva. Na dúvida: “David é um menino de 11 anos... seu amor é real, mas ele não é.”

FICÇÃO-CIENTÍFICA/AVENTURA/DRAMA
WIDESCREEN
146 min.
COR
WARNER/DREAMWORKS/LIVRE
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
WARNER
BROS PICTURES
e
DREAMWORKS
PICTURES Apresentam
Uma
parceria
AMBLIN/STANLEY
KUBRICK
UM
FILME DE
STEVEN
SPIELBERG
ESTRELANDO
HALEY JOEL OSMENT JUDE LAW
FRANCES
O´CONNOR
BRENDAN GLEESON
SAM ROBARDS JAKE
THOMAS
E WILLIAM HURT
Co Estrelando
KEN LEUNG
CLARK
GREGG
ASHLEY
SCOTT
KATHRYN
MORRIS
E
as vozes de
JACK
ANGEL “Teddy”
ROBIN WILLIAMS “Dr.Know”.
MERYL
STREEP “Fada
Azul”
BEN
KINGSLEY
CHRIS
ROCK
Artista
Conceitual CHRIS
BAKER
Figurinos BOB RINGWOOD
Terapeuta
de maquina Sentimental
JEANINE
SALLA
Robos
desenhados por
STAN
WINSTON
Efeitos
Visuais criados por
INDUSTRIAL
LIGHT e MAGIC
Trilha
musical
JOHN
WILLIAMS
Montagem
MICHAEL
KAHN
Cenografia RICK CARTER
Fotografado
por JANUSZ
KAMINSKI
Produtores
Executivos
JAN
HARLAN
WALTER F PARKES
PRODUZIDO
POR
STEVEN
SPIELBERG
KATHLEEN KENNEDY
BONNIE CURTIS
Roteiro
e Argumento original
STANLEY
KUBRICK e IAN WATSON
BASEADO
NO CONTO
“Supertoys Last All Summer
Long”
DE
BRIAN
ALDISS
Escrito
e Dirigido por
STEVEN
SPIELBERG
Warner Bros/Dreamworks/Amblin©2001

11 comentários:
Nossa, amo esse filme. Ele é belíssimo e não consigo ficar sério naquele final doce. Inteligência Artificial é um filme que eu veria de novo, de novo e de novo, e aposto que me emocionaria todas as vezes. Ah, texto excelente à propósito. Nem sabia desse rolo todo com Stanley Kubrick, só vi Spielberg na direção e fiquei feliz.
Abração!
Ótimo filme.
É o Pinóquio do século 21... pena que o destino do protagonista não foi o mesmo. :(
Eu gosto muito do filme, mas faço coro a maioria e devo discordar de você, apesar de achar interessante essa sua observação em relação aos dinossauros.
Eu acho que o impacto dele terminar ali olhando para a fada azul com aquela narrativa seria maior. O final tira um pouco da busca dele e se tornar uma experiência científica melodramática. E olha que uso o termo melodrama aqui não com significado pejorativo, mas como o que o gênero é em seu principal efeito: emocional.
Spielberg é melodramatico e adoro isso nele em alguns filmes. Mas aqui eu vejo muito de Kubrick mesmo.
Mesmo discordando, ótimo texto, Rodrigo.
bjs
GABRIEL: Obrigado. É...teve muitos contratempos a realização desta produção como todo bom cinema não é? Rs! Kubrick trabalhou muito nele com Spielberg. Se puder, assista os extras do DVD duplo contando tudo isso, na qual esse texto tbm é baseado. Abraços. Tbm adoro o filme, emociona e encanta!
BRITTO: Bom seria demais que ele virasse de fato um menino de verdade, rs! Se bem que Haley Joel Osment passou essa característica emoção. Abraços.
AMANDA: Entendo seu ponto de vista Amanda. Discordamos mesmo. Acho o final deste filme até justo. O filme tinha que ter um pouco do Spielberg como tem muito do Kubrick, afinal ambos trabalharam duro no projeto durante anos. Mesmo se Kubrick o dirigisse, o filme tbm seria de Spielberg. Obrigado por achar interessante a minha observação dos Dinossauros, bom, certamente é algo que observei em meio ao entorpecimento da obra.
Sabe, pensando aqui, aquele final dois mil anos no futuro pode ser não uma lembrança do David e ou/realidade com a raça superior existente de Mecas, mas até um sonho. Quem sabe não assistimos um sonho? Rs!
Mesmo assim vc vai preferir o final proposto por Kubrick - que tbm é uma sequência maravilhosa. A narração da cena é fantástica mesmo!
Beijos
Rodrigo
Esse filme é o máximo, eu adoro! E... caramba! Não fazia a mínima ideia desse lance com o Kubrick. Ótimo texto amigo. Me trouxe uma pontada de nostalgia nessa tarde sonolenta de segunda...
LUIZ: Um filmaço mesmo.
E que bom que pude te levar nostalgia numa segunda feira como toda as outras.
Abs.
Não concordo com Liza Schawarzbaum e, por tabela, contigo ao classificar esse filme como extraordinário. Também não é a bomba que muitos críticos pincelaram. Acho que ele, de alguma maneira, reflete essa indecisão que acometeu a dupla Spielberg-Kubrick. Mas é inegável que é um filme de profundo teor reflexivo e com o DNA de Spielberg muito reconhecível.
Abs
Entendo o seu ponto de vista Reinaldo e discordo. Claro que a produção teve mesmo uma certa indecisão de autoria. Mas temos que reconhecer que era Kubrick com Spielberg, o que é complicado. É bem diferente das parcerias que Steven teve com George Lucas, Robert Zemeckis, Tobe Hooper ou mesmo Peter Jackson.
Ainda me impressiono com o filme.
Abraços.
Gosto muito desse filme. O Haley Joel Osment tá demais.
O Falcão Maltês
Está mesmo Antonio. Aqui e no Sexto Sentido ele se sobressai.
Abs.
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