NA ESTRADA...MONTADAS!
Eis um dos meus road-movies prediletos. Com cenas musicais "de outras pessoas"- elas dublam por suas vidas. Um trio totalmente diferente do que havia visto quando assisti pela primeira vez, adolescente. Uma encantadora, romântica, trágica, musical, engraçada, aventura pelo Outback australiano e, como meio de transporte, um ônibus velho redecorado com amor e batizado de Priscilla, A Rainha do Deserto.
Bem, apesar do sotaque australiano "pesado" que só fui descobrir muito recentemente (aliás, foi minha primeira experiência num filme australiano, diga-se. Acredito que vi este primeiro até antes do Mad Max original!) é um filme na qual tenho grande predileção. Adquiri recentemente em blu-ray. Finalmente encontra-se na minha coleção particular onde merece pertencer, mas sempre quando passa na televisão é irresistível e sempre assisto até o final. Mesmo se pego ele pela metade. Sempre revendo-o na TV. Foi assim durante todos esses anos a minha experiência com PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO (THE ADVENTURES OF PRISCILLA, QUEEN OF THE DESERT, 1994) do diretor STEPHAN ELLIOTT, que havia feito uma comédia de humor negro, também estrelada por HUGO WEAVING; "O Mago da Chantagem"(Frauds, 1993), e que, infelizmente, após o êxito de Priscilla, nunca mais acertou.
Ganhou merecidamente o Oscar de Melhor Figurino. Trabalho de LIZZIE GARDINER e TIM CHAPPEL.
Na verdade, este filme parece ter sido o divisor de águas de todo um subgênero representativo para o público LGBT. Curioso que após o seu sucesso, outras obras foram surgindo como o também ótimo PARA WONG FOO, OBRIGADA POR TUDO! JULIE NEWMAR (To Wong Foo Thanks for Everything, Julie Newmar), de 1995. Uma fita que foi patrocinada por Steven Spielberg e dirigida pela diretora Beeban Kidron (que depois faria a sequência de "Bridget Jones"). E, não muito coincidentemente estrelada também por outro trio, no caso, o saudoso Patrick Swayze, John Leguizamo e o mais improvável vestido de mulher, Wesley Snipes. Mesma estrutura narrativa, filmes de estrada com algumas paradas, música, figurinos e altas confusões! O diferencial é que as três (é melhor colocar no feminino mesmo!) de Priscilla não são como as de Wong Foo, ou seja, simplesmente maquiadas e rainhas escandalosas. Não. Há um diferencial que torna a Pri mais especial. Em outras palavras, é genuinamente tocante como o caráter de cada uma delas é retratado. Elas são diferentes. Com desejos diferentes. Com sonhos, ambições, senso de humor, tudo diferentes! Evidencia, além de tudo, e o filme é excelente nesse ponto (provavelmente o único que vi até agora...) o quanto o artista drag têm em seu coração. Sua humanidade para ser mais exato. Elas são fracas e ao mesmo tempo fortes para aguentar o tranco, o ranço do preconceito. Com altos e baixos e, sim, são sentimentais. O mais bacana mesmo são as motivações de cada uma delas:
Uma quer escalar, montada, o Ayers Rock, a outra quer finalmente conhecer o filho, fruto de um passado, uma relação heterossexual (as cenas de sonhos e delírio são hilárias e Weaving é realmente um ator extraordinário!) e, finalmente, Bernardette, a transgênero vivido magnificamente por TERENCE STAMP (que chocou o público na época por aceitar um papel completo de uma transexual, mas obviamente o assunto era mais tabu há 20 anos atrás do que hoje em dia...), que almeja encontrar um novo amor para, enfim, ter algum acalento em sua vida. Ela é a mais velha do grupo e consequentemente a mais experiente e vivida, mas nem por isso tem muita paciência para orientar as pupilas. Embora, é claro, seja uma mãe de bom coração.
O jovem ator GUY PEARCE (depois conhecido pelo papel central no filme AMNÉSIA, do Nolan) também rouba as cenas. Já considero clássico o momento em que ele (montada!) em pé no ônibus enquanto viaja pelo deserto, com uma enorme echarpe prateada arrastada atrás de si pelo vento. E, obviamente para causar um maior efeito, ela move os lábios como se cantasse a ópera em questão. Pearce faz também o personagem mais imaturo e subversivo. Quer, por exemplo, o tempo todo andar montada causando grande atenção para si em comunidades locais.
O diretor Stephan Elliott foi o único cineasta, a meu ver, que conseguiu retratar o mundo das drag-queens como deve ser, um lugar paralelo cor-de-rosa, ainda que um tanto manchado por seus constantes temores...o pesadelo que não reina somente no universo "organicamente feminino"... isto é, de ficarem velhas e feias. Isso mesmo. Tick/Mitzi, Hugo Weaving - que depois ganharia fama com a trilogia MATRIX e O SENHOR DOS ANÉIS - é o que consegue as melhores cenas sobre o assunto. o pânico de ter que conhecer o filho, a vergonha, o medo, um passado que nem mesmo suas amigas sabem, a crise de meia-idade que não é masculina, mas feminina. É um híbrido de cenas hilárias e dramáticas. Um equilíbrio muito bem pontuado no filme. Contudo, é basicamente um clássico road-movie, este com muitos figurinos (plumas, paetês, salto-alto, etc) na qual dois homens gays de Sidney ganham a oportunidade de montar um grande show drag no deserto. Levam consigo a amiga de luto (Stamp-Bernadette), que, com um pretinho básico e lenços de papel, chora pela morte de seu jovem amante e se une à dupla em busca de distração. Adam/Felicia (Pearce) compra um ônibus e... pronto! Elas darão um show à parte em cada parada. E para deixar a trama ainda mais interessante, entra em cena o "homão da porra", mas gentil e cavalheiro ( o que é raridade segundo Bernardette), o veterano ator australiano BILL HUNTER (1940-2011) o interesse romântico da nova etapa de Bernadette. E, para alívio cômico, porém bizarro, Hunter faz o marido acidental de uma prostituta tailandesa (creio eu!) pompoarista e bem "dirty" interpretada pela "Rita Repulsa" dos Power Rangers, a esquisita JULIA CORTEZ , que pode chegar a irritação, mas que pelo bom senso saí de cena o quanto antes.
E é claro, não poderia deixar passar em branco o fator homofobia. O retrato de uma violência tipicamente reclusa em cidades interioranas que, neste árido cenário australiano, enche a viagem delas de graves perigos. Sobretudo quando Pearce, insiste mais uma vez, mas agora por pirraça, em andar pelas ruas à noite em trajes de mulher. Se oferece aos caipiras locais e a coisa "fede". Ademais, PRISCILLA é um filme alegre e que foi bastante impactante na minha vida pessoal. Pude observar e entender que o mundo pode ser mais diferente de que eu poderia imaginá-lo. A bem da verdade, Elliott nos dá de presente uma raríssima visão, do olhar por trás do berrante, o maravilhoso, o deslumbre colorido, chamativo, enfim... trajes de drag-queens... e que por ali, abaixo de toda aquela maquiagem, vivem seres humanos na qual eles(as) escondem. E acredito que tal esconderijo é uma proteção do mundo exterior.
Austrália
Comédia- Drama – Cenas musicais
1h 44min.
U Stephan Elliott
★★★★☆
POLYGRAM FILMED ENTERTAINMENT EM ASSOCIAÇÃO COM
THE AUSTRALIAN FILM FINANCE CORPORATION APRESENTAM
UMA
PRODUÇÃO LATENT IMAGE/SPECIFIC
FILMS
TERENCE STAMP HUGO
WEAVING GUY PEARCE
E BILL HUNTER
THE ADVENTURES OF
Priscila, QUEEN OF THE DESERT
DESENHISTA
DE PRODUÇÃO OWEN PATERSON
DESENHISTAS
DE FIGURINOS LIZZY GARDNER E TIM CHAPPEL
EDITOR DE
FILMAGEM SUE BLANEY DIRETOR DE FOTOGRAFIA BRIAN J. BREHENY
MÚSICA DE GUY GROSS PRODUTOR
EXECUTIVO REBEL PENFOLD-RUSSELL
PRODUZIDO
POR
AL CLARK E MICHAEL HAMLYN
ESCRITO E
DIRIGIDO POR STEPHAN ELLIOTT
©1994 Distribuição Nacional: Fox/M-G-M







3 comentários:
Um marco do gênero mesmo. Deu vontade de rever.
bjs
Maravilhoso, Amanda!
Bjos.
Eu amo demais esse filme. Tenho em bluray e não canso de rever
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