MULHERES SILENCIADAS
Na
estréia de mais um post especial do Cinema Rodrigo, entra em cartaz; A SESSÃO SURPRESA! Filmes sem aviso prévio na coluna das Próximas Sessões. Eis um dos mais
enigmáticos filmes de Pedro Almodóvar (Fale
Com Ela/ Hable Con Ella, 2002) Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original e indicado para Melhor Diretor daquele ano, grande obra deste espanhol que superou
as emoções e o calor humano logo após o sensacional Tudo
Sobre Minha Mãe (1999).
Dois homens criam uma amizade incomum depois que
as mulheres de suas vidas encontram-se num coma profundo.
Falando Francamente, este é o filme que, revendo, é
o ápice absoluto de ALMODÓVAR. E as palavras-chave são: Pina Bausch, Caetano Veloso, Amante Minguante, Cinema Mudo,
“Cucurrucucu Paloma”, “Por Toda A Minha Vida”, Elis Regina, Tourada, “The Fairy
Queen”, Henry Purcell, “Café Müller”, dança, ufa! Preciso dizer algo mais?
Benigno
Martín (Javier Cámara de Má Educação) é um enfermeiro que à primeira vista
parece ser homossexual enrustido e confuso, mora com a mãe e reside em frente a
uma academia de ballet. Com sucessivas espiadas pela sua janela indiscreta, ele
acredita estar apaixonado por uma aluna bailarina, Alicia (Leonor Watling) que
depois de conhecê-lo pessoalmente, só que por muito pouco, vem a sofrer um
acidente fatal (nunca presenciamos o fato, mas há uma cena tensa dela
atravessando a rua e seu amado preocupado observando-a do outro lado) que a
deixa em coma e obviamente sob os cuidados de Benigno que cada vez mais
torna-se obsessivo por ela a ponto de manter conversas enfermeiro-paciente
enquanto passa cremes em seu corpo, corta suas unhas, ajeita seu cabelo, limpa
sua vagina em período menstrual, etc, mas também com a ajuda de outras
enfermeiras (Mariola Fuentes e Lola Dueñas), mas é ele (que se diz gay) que fica a
maior parte do tempo de plantão. Há ainda mais uma sub-trama que se cruza com a
história de Benigno e Alicia, outro casal, um jornalista, Marco Zuluaga (o
ótimo Darío Grandinetti) que se envolve com uma toureira famosa, Lydia González
(Rosario Flores) e que sofrem um drama parecido: depois de uma apresentação na
arena, Lydia é acidentada pelo touro e também fica em coma no mesmo hospital
que Alicia, assim sendo, Marco acaba ficando amigo de Benigno, trocam confidências, numa trama cheia
de nuances, reviravoltas, mistério e enredos que se entrecruzam num típico
cenário de Almodóvar.
Provavelmente,
a figura mais notável é a grande GERALDINE CHAPLIN numa participação especial
como a professora de balé, Katerina Bilova que tem grande afeto por Alicia e
a trata como se fosse sua própria filha.
O
personagem Benigno, segundo o próprio Pedro, é uma homenagem ao amigo (e nem
sabia que eles eram próximos) Roberto
Benigni (A Vida É Bela...)
A
sequência da tourada é uma filmagem de um evento real, até mesmo o sangue sob o
touro. Odeio essa prática, apesar do significado cultural para os espanhóis e
não me admira que um grupo protestante ecológico de Madrid fez de tudo para processar Almodóvar devido aos maus-tratos
dos animais e que segundo o diretor, ele havia tido permissão dos proprietários
dos touros para utilizá-los como tal e matá-los se necessário e que o tal grupo
estava tentando ganhar publicidade em torno do caso. Nem queria entrar neste
mérito na crítica, mas não pude evitar ao ler tamanha grosseria de Almodóvar.
Discordo, evidentemente, do cineasta. Apesar de me fascinar com as cenas até
mesmo poéticas e todo aquele ritual com a atriz Rosario Flores (minha parte
predileta é quando ela esta sendo vestida à caráter e closes são dados nos
detalhes da vestimenta [e como a cintura daquela mulher é magérrima]...),
realmente fiquei chateado com o pensamento cultural e retrógrado de Pedro e
custei a creditar que ele havia perdido o bom senso e de não ter preservado o uso
de animais em cena. Ah, mas se tivesse acontecido em Hollywood com a “American Humane Association” se
esgueirando por lá, ele pensaria duas vezes! Polêmica cultural local à parte
“Fale Com Ela” é um filme estupendo. É um contraponto na obra de Almodóvar,
totalmente diferenciado de suas comédias do passado ou mesmo os dramas
recentes. Fale..., acaba resultando, também, em um filme contido e desconcertante.
Não é nada eufórico no sentido cômico e dramático (e é comum Almodóvar escrever
situações opostas praticamente numa mesma cena) como em Volver ou
mesmo Tudo Sobre Minha Mãe, neste
caso, a trama sugere um tom mais melancólico. Almodóvar realiza um filme bem
mais elegante e acabado com estrutura clássica, presenças notáveis, trilha
sonora belíssima (Alberto Iglesias também dá o seu toque) e apesar de manter
seu estilo berrante, com cores fortes e presentes, a fita ainda consegue ser,
curiosamente, evasiva, escapando daquela “desordem social” e das relações
descontroladas que ele sempre obteve como fórmula em seus scripts.
Na
verdade, e a prova de que o filme é sofisticado, Almodóvar faz um
prólogo/apresentação dos mais inesquecíveis e maravilhosos dos últimos tempos
com a presença espacial da dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009), dando a entender o que nos aguarda numa
premissa atípica. Sua dança no espetáculo de balé, Café Müller é
uma complexa obra artística com coreografias de tirar o fôlego evidenciando as
identidades humanas em completa competição, fundindo-se num jogo de braços e
olhos fechados onde duas mulheres são “perseguidas” num palco repleto de
cadeiras ao som de Purcell e Bausch completamente em estado de hipnose. Isso
mostra o gênio de Almodóvar ao incluir este espetáculo nas primeiras cenas de
seu filme, além de, é claro, de seu bom gosto (o que lhe falta quando não
resolve recriar a cena do touro!). O espectador não chega a ver a apresentação
completa, mas pelos poucos minutos já vale o ingresso. Depois que as cortinas
se abrem e presenciamos o balé de Pina, bom, estaremos sendo cúmplices de dois
homens distintos sentados na plateia (Marco e Benigno) em que suas motivações,
ações e reações subjetivas farão parte de um cotidiano tumultuado quando suas amadas mulheres estarão presas em seus corpos vegetativos e carentes de uma
atenção especial, por isso até mesmo o título do filme é subjetivo. Falar o quê
com ela? Bom, aí meu amigo é com você porque é de cada um.
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| PINA! |
Marco
tem mais dificuldade de falar com Lydia por ser um homem objetivo e realista
(quase ateu!) já Benigno vive suas próprias fantasias com Alicia (o que lhe
acaba com a própria vida), seus altos papos com ela vão muito mais além do que
se pensa, é de corpo e alma literalmente, e sentimentos que se confundem e o
fazem perder a capacidade de ter senso e ética profissional. É o enfermeiro da
moça, mentiu sobre sua sexualidade para poder ficar com ela e fazer um trabalho
de cuidados íntimos, mas um homem bom e o responsável por trazê-la de volta dos
mortos, algo que só poderíamos acreditar em um filme de Almodóvar! Com isso,
entra um dos momentos mais carismáticos do filme quando Benigno conta para
Alicia o enredo de um filme mudo que ele assistiu intitulado: “Amante Minguante”.
Até porque, esta metalinguagem diferencial é também a prova de que Almodóvar é
capaz de manipular a plateia criando com sutileza um estupro através de um
filme surrealista sobre uma cientista, Amparo
(Paz Vega) que descobre uma fórmula
que faz com que seu namorado, Alfredo
(Fele Martínez) encolha absurdamente
virando um homenzinho do tamanho de um polegar num dos momentos mais marcantes
e comentados do filme quando o mesmo entra na vagina da amante e desaparece
para sempre (num set que teve que ser especialmente construído em tamanho
gigantesco, os pelos pubianos, as pernas e a própria punani como uma passagem gigante sob um fundo verde onde o ator
Fele Martínez se transformava nesta ilusão).
Outro
ponto interessante é que desta vez a voz protagonista em um filme do espanhol
se dá para os personagens masculinos, já que Almodóvar sempre deu foco as
figuras femininas, suas frustrações (principalmente as vividas pela musa Carmen Maura e depois Penélope Cruz) e toda a complexidade da
mulher no mundo em que vivem (na verdade um universo mais particularmente de
Almodóvar). Agora, são Cámara e Grandinetti que seguram as pontas e ambos fazem
lindamente os homens que revelam seu amor no isolado relacionamento que passam
a viver com suas parceiras. Neste ponto, Grandinetti, até mesmo pela natureza
de seu personagem, se sobressai, devido a sua dificuldade de comunicação e
esforço.
Além
da participação de Veloso, mais um momento memorável, Cecilia Roth e Marisa
Paredes, as protagonistas de Tudo
sobre Minha Mãe, fazem uma participação especial enquanto admiram o baiano
fazendo um luau cantando “Cucurrucucu Paloma”. Depois, vem uma cena que
demonstra um afeto curioso entre Almodóvar e Veloso quando Marco sai de cena,
emocionado, e diz para Lydia: “Esse
Caetano me deixa arrepiado!”
Em
outras palavras, Fale
Com Ela é sabiamente um filme inspirador de Almodóvar. No
final das contas, é uma obra-prima que esta em profunda meditação. De corpo e
alma quem assiste jamais esquece. Depois da experiência, nada como falar para
alguém o quão fascinante foi a sessão.
ESPANHA
2002
DRAMA
COR
112 min.
FOX
★ ★ ★ ★ ★
EL DESEO Apresenta
UM FILME DE ALMODÓVAR
“HABLE CON ELLA”
Estrelando: JAVIER CÁMARA DARIO GRANDINETTI
LEONOR WATLING ROSARIO FLORES
MARIOLA FUENTES ROBERTO ÁLVAREZ
ELENA ANAYA LOLA DUEÑAS
LOLES LEON CHUS LAMPREAVE
“AMANTE MINGUANTE” Com: PAZ VEGA &
FELE MARTÍNEZ
Co- estrelando: Adolfo Fernandéz. Ana
Fernandéz. Helio Pedregal
José Sancho. Carmen Machi
Participações Especiais:
GERALDINE CHAPLIN
PINA BAUSCH MALOU
AIRAUDO
CAETANO VELOSO CECILIA
ROTH MARISA PAREDES
Música Original por ALBERTO IGLESIAS
Diretor de Fotografia JAVIER
AGUIRRESAROBE A.E.C.
Maquiagem KARMELE SOLER Penteado
FRANCISCO RODRÍGUEZ
Som MIGUEL REJAS Figurinos SONIA GRANDE
Edição JOSÉ SALCEDO Diretor De Arte
ANTXÓN GÓMEZ
Diretora de Produção ESTHER GARCÍA
Produtor Associado MICHEL RUBEN
Produtor Executivo AGUSTÍN ALMODÓVAR
Escrito & Dirigido por PEDRO ALMODÓVAR
Hable Con Ella ©2002 El Deseo S.A/ Antena 3 Televisión/Good
Machine/ Via Digital














7 comentários:
Belo texto Rodrigo. Gostei, especialmente das palavras-chaves. Está tudo ali. Tb não sabia que o personagem Benigno havia sido batizado em homenagem a Roberto Benigni. É por essas e outras que suas postagens são sempre um deleite cinéfilo. A pendenga com os touros eu me lembro bem e compartilho da sua "desautorização" a Almodóvar. Mas isso posto à parte, como vc bem disse, trata-se de um dos highlights da carreira desse gênio maior. Não me recordo de um filme tão poético e arrebatador nos últimos dez, quinze anos.
Abs
Filme espetacular, um roteiro genial de Almodóvar, cheio de sensibilidade e criatividade. Que legal seu texto, Rodrigo, mais uma vez cheio de informações, curiosidades e excelentes análises. Abs.
Definiu bem: "ápice absoluto de ALMODÓVAR.".
Espetacular e mágico.
Amo a viagem do personagem por dentro do corpo.....surreal e magia cinematográfica.
abs
Não é o meu predileto do diretor, mas sei reconhecer: é um dos melhores do diretor!
Belo texto, Rodrigo. Gosto muito do filme, apesar de não ser meu preferido. Tem momentos sublimes mesmo.
P.S. A cena da tourada com a música de Tom na voz de Elis é presença obrigatória em minhas aulas sobre o som no cinema, hehe.
bjs
Adorei o texto, Rodrigo! Sempre ótimo revisitar essa bela obra, nem que seja para ler a respeito.
Olha, admito que até hoje minha cabeça entre em pane ao indicar o melhor Almodóvar, na minha opinião. É Tudo Sobre Minha Mãe ou Fale Com Ela. Difícil é escolher. Tenho os dois para mim como grandes e superlativas obras-primas do cinema espanhol, e seu momento mais inspirado.
Desconhecia a informação do nome do personagem ser Benigno por causa do Didi Mocó by Itália rs. Até pensava que o nome de Câmara era este para a indicar a "benignidade" e "esperança" da recuperação da bailarina hospitalizada. Olha só...
Ah, e como eu queria que houvesse "Amante Minguante" HAHAHA! Maravilhosa a história! Bem como o filme lá dentro de "Abraços Partidos", este aqui, rouba a história para si.
E assino embaixo de sua reprovação com Pedroca sobre o touro. Não lembro da repercussão porque não a acompanhei, mas li há pouco sobre isso e é mesmo revoltante. Enfim.
Grande abraço! o/
Reinaldo: Há filmes tão estupendos neste quesito nos últimos anos( acho "Precisamos Falar Sobre o Kevin", "Melancolia", até mesmo "Má Educação" do Pedro, citando alguns), mas acredito que nossa predileção por Fale Com Ela, seja, de fato, a ligação que Almodóvar tem com o Brasil tão evidente aqui.
Abs.
Fabio: Concordo querido. Almodóvar rules!
Muito grato pelos elogios.
Abração!
Renato: Agora você quem disse tudo: "Espetacular e mágico"!
Abs.
Alan: Agora você me lembra eu mesmo com relação ao Alain Resnais. rs
Abs. querido!
Amanda: Apesar da encrenca com relação aos bastidores desta sequência, o resultado é realmente espetacular e utilizar Tom e Elis foi uma sacada de gênio. Cena de grande impacto e meu momento predileto com Rosario Flores.
Bjs.
Elton: Olá meu caro! Tudo Sobre Minha Mãe e Fale Com Ela certamente representam o ápice e apogeu deste espanhol. Bom, pra mim já é difícil escolher qualquer fita de sua obra, exceto "A Pele Que Habito", no quesito qual a minha favorita. "Carne Trêmula", "Má Educação", "Volver", tb são belos exemplos de fitas recentes.
Pois é, Benigno veio do Roberto (Didi mocó da Itália. kkkkk - Só vc mesmo, rs!), mas sua visão/teoria de que o personagem de Cámara esteja relacionado com esta "benignidade" é bem interessante e de certa forma foi ele quem fez Alicia voltar do sono profundo. Não poderia estar mais correto.
'Amante Minguante' é mais um exemplo de metalinguagem foda que este cara é capaz de criar e manipular. Adoro "Garotas e Malas" em "Abraços Partidos" (fazendo lembrar a nostalgia de 'Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos'...) e tb o poderoso "A Visita" em Má Educação, obras que teria muito gosto em conferir na íntegra. rs Adoro!
E sim, infelizmente o Pedroca teve esta infeliz situação com a utilização do touro em cena. Lamentável e cultural. Nada mais (blerg!) espanhol. Mas... "Fale..." é um filme seminal de qualquer forma. Não podemos negar.
Abs.
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