segunda-feira, 11 de março de 2013

CHANTAGEM E CONFISSÃO


O MESTRE ESTA DE VOLTA!

Uma mulher comete assassinato em legítima defesa, ela e o noivo, um policial da Scotland Yard, são chantageados por um homem que testemunhou o crime.


Estão familiarizados com aquela bela canção do Claudinho e Buchecha, “Fico Assim Sem Você?” Pois é; avião sem asa, piu-piu sem frajola, circo sem palhaço, amor sem beijinho, é o mesmo que Cinema Rodrigo sem Hitchcock, meu ídolo e mestre do suspense. Já era hora de voltar com mais uma obra de arte de sua vasta filmografia. Este aqui é o seu décimo longa metragem, ainda na fase britânica, e o seu primeiro filme sonoro depois de ter realizado magistrais películas mudas e se consagrado como o mestre do gênero em, principalmente, O Pensionista (The Lodger: A Story of the London Fog, 1927). O filme é uma bem feita adaptação do próprio Hitch a partir de uma peça teatral escrita por Charles Bennett (1899-1995), que já trabalhou com o cineasta em outras fitas: a primeira versão de O Homem Que Sabia Demais (1934) e conseguintemente sua refilmagem americana de 1956 reescrita por John Michael Hayes; o ótimo Os 39 Degraus (39 Steps, outro belo filme inglês do mestre, 1935) e Correspondente Estrangeiro (que já mencionei em outros posts, 1940).


É basicamente uma trama sobre assassinato (óbvio) e chantagem, passa-se na velha Londres da década de 1920 e um homem que testemunha um homicídio, chantageia, atormentando a mocinha que matou em legítima defesa e seu noivo policial que é o encarregado do caso e obviamente faz de tudo para protegê-la. Hitch escreveu o script, mas os diálogos são de Benn W. Levy (1900-1973 – que escreveu Old Dark House, 1932, terror de James Whale para a Universal) e também do futuro cineasta inglês que não recebe os devidos créditos, Michael Powell (de Os Sapatinhos Vermelhos, Narciso Negro e A Tortura Do Medo).

Inicialmente, o projeto foi concebido para ser rodado como um filme mudo, mas depois de alguns longos minutos, surgem os primeiros diálogos em cena. A estrela principal, ANNY ONDRA (1902-1987) teve que ser dublada por JOAN BARRY  que mais tarde atuaria para Hitch em RICH AND STRANGE (1931).

A famosa aparição de Hitchcock se dá como um dos passageiros no metrô que é ofuscado por um garoto sapeca. A fita teve uma versão muda com 75 minutos, a versão sonora apresentava 81 min.

Chantagem e Confissão (Blackmail, 1929) foi o filme responsável por consolidar a carreira do jovem diretor e o encaminhou de uma vez por todas numa brilhante carreira no cinema, embora seu talento já fosse notável e autoral nas primeiras fitas e também como: criador de títulos, diretor de arte, assistente, editor e até mesmo roteirista. Fez a cenografia de The White Shadow em 1924 dirigido por Graham Cutts, e com ele fez outros filmes, trazendo seu apurado conhecimento do expressionismo alemão que sempre teve predileção. Conheceu sua amada para toda a vida Alma Reville (1899-1982) num set de filme e assim foi ganhando liberdade artística até passar a direção principal. É notável o enigmático The Pleasure Garden, o primeiro suspense, de 1925 e é como um artista da vanguarda que Hitchcock, genialmente, soube ser comercial e esta fita é uma clara ambição do diretor de driblar os obstáculos técnicos da época e reformulando um filme que era para ser mudo e acabou, no meio das filmagens, tornando-se o primeiro filme falado da Inglaterra, o marketing que se vendeu sabiamente. Mesmo neste estágio da carreira, Hitch já conseguia convencer os donos do dinheiro, produtores, que entravam no seu jogo, mas também sabendo que o talento do rapaz era notável – ele com apenas 30 anos de idade – e, portanto, arcar com as inovações técnicas era um bom investimento.

Hitchcock nos bastidores

Como o cinema naquela época ainda não estava sólido para se fazerem produções sonoras, Hitch é capaz de utilizar técnicas em desenvolvimento para contar lindamente um melodrama sombrio, que além de tudo, consegue ser eficiente no quesito psicológico e como é sua marca registrada, mesclar elementos híbridos, a antecipação e toda aquela vibração tensa de seu suspense e divertindo com um pouco de alívio cômico, geralmente humor negro.

Alice White (Ondra) discute com Frank Webber, o detetive vivido por JOHN LONGDEN, seu namorado/noivo (aquele tipo de relacionamento com elegância de uma época), e num ímpeto, acompanha um “artista” lascivo com más intenções, interpretado brilhantemente por CYRIL RITCHARD até sua morada. Lá, o calhorda tenta estuprá-la, mas a heroína se defende dando-lhe uma baita punhalada fatal (e Hitch mais uma vez mostra como é difícil e repugnante matar um homem), desorientada, nervosa, não por pouco, foge da cena do crime. Os traumas são inevitáveis e o uso da palavra faca faz com que ela tenha surtos (e Hitchcock em seu deleite visual representa com artifícios eficientes). Histérica, Alice praticamente confessa seu crime. Um turbilhão de emoções confusas sente-se culpada, e mesmo que em legítima defesa.

Naquela época, a maioria dos diretores do cinema mudo que almejavam trabalhar com o som fazia dos diálogos uma coisa fora do comum focando totalmente suas atenções na fala, uma prioridade na elocução como se caso fracassassem (muitos diretores foram contra como por exemplo, Charles Chaplin, até certo momento alegava não ter futuro), mas Hitchcock era o extremo oposto, não que ele esnobasse o poder imagético sem o efeito sonoro, mas quando o futuro mestre se utiliza de uma trilha sonora, praticamente brincando com ela, na cena em que Ondra entra em pane, é de se admirar. Ou seja, uma ousadia incomum naqueles tempos. Eis uma forma mais atraente para o público e de lhes contar uma boa estória e fazê-los ficar entorpecidos na poltrona.


Hitchcock, além de tudo, teve que dirigir uma dublagem, já que a tcheca Ondra não tinha um inglês muito bom e dominava mesmo o alemão e o que aconteceu? Barry teve que dizer as falas da atriz por de trás da câmera enquanto a mesma fazia mímicas com a boca! A decisão de Hitch em fazer isso comprova suas táticas inventivas de solucionar problemas durante a feitura de um filme e pode parecer tolo, mas tal recurso foi raramente repetido e as interpretações conseguem ser convincentes, tanto a fala de Barry como a pantomima de Ondra e tudo sob o olhar cirúrgico e técnico de seu diretor.

Hitchcock Cameo!

Ondra tem a honra de ser considerada a primeira de uma série de louras atormentadas de Hitchcock. Ela tem uma beleza, graça e inocência geniais. Consegue me cativar como uma assassina que não teve intenção de matar. Ela passa alguma frigidez também, mas não é o principal de seu desempenho, além do que, a premissa concentra-se em um asqueroso homem que a chantageia e numa inversão de valores morais, um sujeito comum, torna-se um terrível vilão!

Claramente visual e sonoro. Um filme estupendo de Hitchcock.  


INGLATERRA
1929
DRAMA/SUSPENSE/POLICIAL
PRETO E BRANCO
96 min.
UNIVERSAL (+ o filme Assassinato! de 1930)
Também pela CONTINENTAL
           




Alfred Hitchcock´s
Blackmail
Estrelando: ANNY ONDRA   SARA ALLGOOD
CHARLES PATON   JOHN LONGDEN
DONALD CALTHROP  CYRIL RITCHARD
HANNAH JONES  HARVEY BRADAN
EX-DET. SARGENT BISHOP   JOHNNY ASHBY
Música Original Por..... JIMMY CAMPBELL
REGINALD CONNELLY & HUBERT BATH
Fotografado por JACK COX Edição EMILE de RUELLE
Direção de Arte W.C. ARNOLD   NORMAN G. ARNOLD
Assistente de Direção FRANK MILLS
Departamento de Som
DALLAS BOWER.  HAROLD V. KING.  HARRY MILLER
Produzido por JOHN MAXWELL
Baseado na Peça Teatral de CHARLES BENNETT
Diálogos por BENN W.  LEVY  & MICHAEL POWELL
Adaptado & Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK
Blackmail ©1929 British International Pictures Ltd. (BIP)/ Gainsborough

2 comentários:

Markos Queiroz disse...

Fiquei curioso com esse filme, com as duas versões, a muda e a dialogada.
A muda deve ser mais interessante, acho eu... rs

Abração Rodrigo.

http://livronasmaos.blogspot.com.br/

Rodrigo Mendes disse...

Markos: Ele é parcialmente mudo, mas é o primeiro sonoro do Hitchcock.
Assista!

Abs.

🚪 Acervo de Películas

00's 007 10's 20's 30's 3D 40's 50's 60's 70's 80's 90's ALIEN ANG LEE ARNOLD SCHWARZENEGGER Adoro Cinema Akira Kurosawa Al Pacino Alec Guinness Alfonso Cuarón Almodóvar Angelina Jolie Animação Arthur P. Jacobs Audrey Hepburn Aventura Ação Batman Bela Lugosi Bernardo Bertolucci Bette Davis Billy Wilder Blake Edwards Blaxploitation Bob Fosse Boris Karloff Brian De Palma Bryan Singer Buster Keaton CINE TRASH CINEASTAS CINEMA PRETO & BRANCO CULTS Carl Laemmle Carol Reed Carrie Fisher Cary Grant Cecil B. DeMile Chaplin Charlton Heston Christopher Nolan Cine-Doc Cinebiografia Cinema Asiático Cinema Europeu Cinema LGBT Cinema MUDO Cinema Marginal Cinema Rodrigo Clark Gable Claude Rains Clint Eastwood Clássicos Colin Trevorrow Comédia Coppola Crepúsculo Curt Siodmak Curta-metragem Curtis Hanson DANNY BOYLE DAVID LYNCH DC Comics Daniel Craig Danny DeVito Dario Argento Darren Aronofsky David Bowie David Cronenberg David Fincher David Lean David O. Selznick Denzel Washington Disney Documentário Drama Drogas ESPECIAIS Eduardo Coutinho Eisenstein Elia Kazan Elvis Presley Erotismo Errol Flynn FERNANDO MEIRELLES FILMES IRREGULARES FOX FRANK CAPRA FRANÇOIS TRUFFAUT Fantasia Fatos Reais Fellini Filmes Natalinos Frank Darabont Frank Oz Fritz Lang GUEST SERIES Gangsters Gene Wilder George A. Romero George Cukor George Lucas George Miller George Stevens George Waggner Georges Méliès. Giallo Gillo Pontercorvo Grace Kelly Greta Garbo Guerra Guillermo del Toro Gus Van Sant Gérard Depardieu HARRY POTTER HQ Halloween Harold Lloyd Harrison Ford Henri-Georges Clouzot Henry Selick Hitchcock Home Video Homem-Aranha Howard Hawks Humphrey Bogart INDIANA JONES Infantil Ingmar Bergman Ingrid Bergman Irmãos COEN Isabelle Huppert Ivan Reitman J.J. Abrams JAMES WHALE JEAN-LUC GODARD JOHN HUGHES Jack Arnold Jack Nicholson Jacques Tourneur James Cameron James Ivory James Stewart Janet Leigh Japão Jason Jim Henson Joan Crawford Joel Schumacher John Carpenter John Ford John Huston John Landis John Waters Jonathan Demme Joon Ho Bong Joseph L. Mankiwicz José Mojica Marins Judy Garland KING KONG KRZYSZTOF KIESLOWSKI Kate Winslet Katharine Hepburn Kevin Spacey Kirk Douglas Lars Von Trier Lawrence Kasdan Leonardo DiCpario Liza Minnelli Lon Chaney Jr Luc Besson Luca Guadagnino Luis Buñuel M.Night Shyamalan MARVEL MONSTERS COLLECTION Marilyn Monroe Mark Hamill Marlene Dietrich Marlon Brando Martin Scorsese Matinê Mel Brooks Melhores do Ano Michael Curtiz Michael Douglas Michael Haneke Michael Jackson Michael Powell Michel Gondry Michelangelo Antonioni Milos Forman Monstros Musicais Mário Peixoto NOUVELLE VAGUE Nacional Noir O Senhor Dos Anéis Oliver Stone Olivia de Havilland Orson Welles Oscar Outubro Das Bruxas P.T. ANDERSON PERFIL PETER JACKSON PIXAR Pam Grier Paramount Park Chan-wook Paul Verhoeven Peter Bogdanovich Philip K. Dick Pier Paolo Pasolini Pierce Brosnan Piores do Ano Pipoca Planeta Dos Macacos Policial Pânico Quentin Tarantino RIDLEY SCOTT RKO Rian Johnson Richard Donner Road-Movie Robert De Niro Robert Rodriguez Robert Wise Robert Zemeckis Roger Moore Rogério Sganzerla Roman Polanski Romance SAM RAIMI SESSÃO TRAILER SEXTA-FEIRA 13 SUPER HERÓIS Sam Mendes Sam Peckinpah Sangue Scarlett Johansson Sci-Fic Sean Connery Sean Penn Sergio Leone Sessão DUPLEX Cinema MUDO Sessão Da Tarde Sessão Dinossauro Sessão Surpresa Sexo Sharon Stone Sidney Lumet Sigourney Weaver Sofia Coppola Spielberg Stan Lee Stanley Donen Stanley Kubrick Star Trek Star Wars Stephen King Suspense TOD BROWNING TV Terror Thriller Tim Burton Timothy Dalton Tom Cruise Tom Hanks Tom Tykwer Trash UNIVERSAL STUDIOS Uma Thurman Universo Jurassic Park Victor Fleming Violência Vivien Leigh Wachowski Walter Hugo Khouri Walter Salles Warner Wes Craven Western William Castle William Friedkin Wolfgang Petersen Wong Kar Wai Woody Allen Zé do Caixão Épico Época