O MESTRE ESTA DE VOLTA!
Uma
mulher comete assassinato em legítima defesa, ela e o noivo, um policial da Scotland Yard, são chantageados por um
homem que testemunhou o crime.
Estão familiarizados com aquela
bela canção do Claudinho e Buchecha, “Fico
Assim Sem Você?” Pois é; avião sem
asa, piu-piu sem frajola, circo sem palhaço, amor sem beijinho, é o mesmo
que Cinema Rodrigo sem Hitchcock,
meu ídolo e mestre do suspense. Já era hora de voltar com mais uma obra de arte
de sua vasta filmografia. Este aqui é o seu décimo longa metragem, ainda na
fase britânica, e o seu primeiro filme sonoro depois de ter realizado
magistrais películas mudas e se consagrado como o mestre do gênero em,
principalmente, O
Pensionista
(The
Lodger: A Story of the London Fog, 1927). O filme é uma bem feita
adaptação do próprio Hitch a partir de uma peça teatral escrita por Charles Bennett (1899-1995), que já
trabalhou com o cineasta em outras fitas: a primeira versão de O Homem Que Sabia Demais (1934) e conseguintemente sua
refilmagem americana de 1956 reescrita por John
Michael Hayes; o ótimo Os
39 Degraus
(39
Steps, outro belo filme inglês do mestre, 1935) e Correspondente Estrangeiro (que já mencionei em outros posts, 1940).
É basicamente uma trama sobre
assassinato (óbvio) e chantagem, passa-se na velha Londres da década de 1920 e um homem que testemunha um homicídio,
chantageia, atormentando a mocinha que matou em legítima defesa e seu noivo
policial que é o encarregado do caso e obviamente faz de tudo para protegê-la.
Hitch escreveu o script, mas os
diálogos são de Benn W. Levy
(1900-1973 – que escreveu Old Dark House, 1932, terror de James Whale para a Universal) e também
do futuro cineasta inglês que não recebe os devidos créditos, Michael Powell (de Os
Sapatinhos Vermelhos, Narciso Negro e A Tortura Do Medo).
Inicialmente, o projeto foi
concebido para ser rodado como um filme mudo, mas depois de alguns longos minutos,
surgem os primeiros diálogos em cena. A estrela principal, ANNY ONDRA (1902-1987) teve que ser dublada por JOAN BARRY que mais tarde atuaria para
Hitch em RICH AND STRANGE (1931).
A famosa aparição de Hitchcock
se dá como um dos passageiros no metrô que é ofuscado por um garoto sapeca. A
fita teve uma versão muda com 75 minutos, a versão sonora apresentava 81 min.
Chantagem e Confissão (Blackmail, 1929) foi o
filme responsável por consolidar a carreira do jovem diretor e o encaminhou de
uma vez por todas numa brilhante carreira no cinema, embora seu talento já
fosse notável e autoral nas primeiras fitas e também como: criador de títulos,
diretor de arte, assistente, editor e até mesmo roteirista. Fez a cenografia de
The White Shadow em 1924 dirigido por Graham Cutts, e com ele fez outros
filmes, trazendo seu apurado conhecimento do expressionismo alemão que sempre
teve predileção. Conheceu sua amada para toda a vida Alma Reville (1899-1982) num set
de filme e assim foi ganhando liberdade artística até passar a direção
principal. É notável o enigmático The
Pleasure Garden,
o primeiro suspense, de 1925 e é como um artista da vanguarda que Hitchcock,
genialmente, soube ser comercial e esta fita é uma clara ambição do diretor de
driblar os obstáculos técnicos da época e reformulando um filme que era para
ser mudo e acabou, no meio das filmagens, tornando-se o primeiro filme falado
da Inglaterra, o marketing que se vendeu sabiamente. Mesmo neste estágio da
carreira, Hitch já conseguia convencer os donos do dinheiro, produtores, que
entravam no seu jogo, mas também sabendo que o talento do rapaz era notável –
ele com apenas 30 anos de idade – e, portanto, arcar com as inovações técnicas
era um bom investimento.
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| Hitchcock nos bastidores |
Como o cinema naquela época
ainda não estava sólido para se fazerem produções sonoras, Hitch é capaz de
utilizar técnicas em desenvolvimento para contar lindamente um melodrama
sombrio, que além de tudo, consegue ser eficiente no quesito psicológico e como
é sua marca registrada, mesclar elementos híbridos, a antecipação e toda aquela
vibração tensa de seu suspense e divertindo com um pouco de alívio cômico,
geralmente humor negro.
Alice
White (Ondra)
discute com Frank Webber, o detetive
vivido por JOHN LONGDEN, seu
namorado/noivo (aquele tipo de relacionamento com elegância de uma época), e
num ímpeto, acompanha um “artista” lascivo com más intenções, interpretado
brilhantemente por CYRIL RITCHARD
até sua morada. Lá, o calhorda tenta estuprá-la, mas a heroína se defende
dando-lhe uma baita punhalada fatal (e Hitch mais uma vez mostra como é difícil
e repugnante matar um homem), desorientada, nervosa, não por pouco, foge da
cena do crime. Os traumas são inevitáveis e o uso da palavra faca faz com que ela tenha surtos (e
Hitchcock em seu deleite visual representa com artifícios eficientes).
Histérica, Alice praticamente confessa seu crime. Um turbilhão de emoções
confusas sente-se culpada, e mesmo que em legítima defesa.
Naquela época, a maioria dos
diretores do cinema mudo que almejavam trabalhar com o som fazia dos diálogos
uma coisa fora do comum focando totalmente suas atenções na fala, uma
prioridade na elocução como se caso fracassassem (muitos diretores foram contra como por exemplo, Charles Chaplin, até certo momento alegava não ter futuro), mas
Hitchcock era o extremo oposto, não que ele esnobasse o poder imagético sem o efeito sonoro, mas quando o futuro mestre se utiliza de uma trilha sonora,
praticamente brincando com ela, na cena em que Ondra entra em pane, é de se
admirar. Ou seja, uma ousadia incomum naqueles tempos. Eis uma forma mais
atraente para o público e de lhes contar uma boa estória e fazê-los ficar
entorpecidos na poltrona.
Hitchcock, além de tudo, teve
que dirigir uma dublagem, já que a tcheca Ondra não tinha um inglês muito bom e
dominava mesmo o alemão e o que aconteceu? Barry teve que dizer as falas da
atriz por de trás da câmera enquanto a mesma fazia mímicas com a boca! A
decisão de Hitch em fazer isso comprova suas táticas inventivas de solucionar
problemas durante a feitura de um filme e pode parecer tolo, mas tal recurso
foi raramente repetido e as interpretações conseguem ser convincentes, tanto a
fala de Barry como a pantomima de Ondra e tudo sob o olhar cirúrgico e técnico
de seu diretor.
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| Hitchcock Cameo! |
Ondra tem a honra de ser
considerada a primeira de uma série de louras atormentadas de Hitchcock. Ela
tem uma beleza, graça e inocência geniais. Consegue me cativar como uma
assassina que não teve intenção de matar. Ela passa alguma frigidez também, mas
não é o principal de seu desempenho, além do que, a premissa concentra-se em um
asqueroso homem que a chantageia e numa inversão de valores morais, um sujeito
comum, torna-se um terrível vilão!
Claramente visual e sonoro. Um
filme estupendo de Hitchcock.
INGLATERRA
1929
DRAMA/SUSPENSE/POLICIAL
PRETO E BRANCO
96 min.
UNIVERSAL (+ o filme “Assassinato!” de 1930)
Também pela CONTINENTAL
★ ★ ★ ★ ★
Alfred
Hitchcock´s
Blackmail
Estrelando:
ANNY ONDRA SARA ALLGOOD
CHARLES PATON
JOHN LONGDEN
DONALD CALTHROP
CYRIL RITCHARD
HANNAH JONES
HARVEY BRADAN
EX-DET. SARGENT BISHOP JOHNNY ASHBY
Música
Original Por..... JIMMY CAMPBELL
REGINALD
CONNELLY & HUBERT BATH
Fotografado
por JACK COX Edição EMILE de RUELLE
Direção
de Arte W.C. ARNOLD NORMAN G. ARNOLD
Assistente
de Direção FRANK MILLS
Departamento
de Som
DALLAS
BOWER. HAROLD V. KING. HARRY MILLER
Produzido
por JOHN MAXWELL
Baseado
na Peça Teatral de CHARLES BENNETT
Diálogos
por BENN W. LEVY & MICHAEL POWELL
Adaptado
& Dirigido por
ALFRED
HITCHCOCK
Blackmail ©1929 British
International Pictures Ltd. (BIP)/ Gainsborough













2 comentários:
Fiquei curioso com esse filme, com as duas versões, a muda e a dialogada.
A muda deve ser mais interessante, acho eu... rs
Abração Rodrigo.
http://livronasmaos.blogspot.com.br/
Markos: Ele é parcialmente mudo, mas é o primeiro sonoro do Hitchcock.
Assista!
Abs.
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