REALIDADE
VIRTUAL EM TEMPO DE BALA
Hacker de
computador que atende pelo nickname
Neo aprende com rebeldes a verdadeira natureza de sua realidade e o seu papel
como o escolhido numa guerra contra seus controladores, máquinas de
inteligência artificial.
Matrix (The Matrix, 1999) continua com frescor. Um blockbuster muito bem sucedido que conseguiu o feito único de
hibridizar de forma inteligente e eficaz filosofia, ciência, tecnologia,
teologia, história em quadrinhos, cinema, contos de fada, literatura (tem
mais?) numa fita fantástica repleta de muita ação, efeitos especiais de última
geração (e ainda não envelheceram) além de espertas coreografias de luta Kung
Fu de tirar o fôlego!

Criado
pelos irmãos Wachowski,
Andy e Larry,
fascinados pelo universo nerd e das HQ´s, a dupla misturou lindamente assuntos
pertinentes e reflexivos numa trama original e entorpecente. Na época tive
dificuldade para compreender as nuances e até mesmo a narrativa principal. Foi
necessária uma segunda revisão para entender o gênio dos Wachowski, que com
este grande sucesso de bilheteria, gerou inúmeras imitações e pareciam ter
concebido o melhor filme que jamais poderiam repetir de tão bom e, aliás, de
fato, as continuações são apêndices e até desnecessárias, embora divertidas.
A
premissa consegue citar mitos como Alice No País Das Maravilhas de Lewis Carroll (Siga o coelho
branco...), A Bela Adormecida (a questão das pílulas), O Mágico de Oz (a
interface de Matrix se inspira em Oz e a realidade de Zion, o Kansas) e até
mesmo, logicamente, a própria Bíblia sagrada. Enfim, algumas das
teorias que consegui captar e que são de maior importância neste universo
futurista apocalíptico. O que me fascinou em Matrix na época, era o fato de que
nada era o que parecia ser e foi até um choque descobrir a terrível verdade,
somos como o Neo nesta primeira viagem, novatos, e desconectados literalmente
da tomada!
Lançado
há 14 anos (No Brasil apenas em 21 de maio de 99, dois meses depois), o projeto
nasceu com pretensões épicas e custou cerca de 65 milhões de dólares e rendeu
além do imaginado. Em 2003 foram lançados simultaneamente (e filmados da mesma forma) mais dois capítulos que faziam parte de
uma trilogia: Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas sem a mesma pegada e
curiosidade do original. Meros entretenimentos light, sobretudo o segundo.
O
apelo da obra tem um valor significativo para a cultura cyberpunk com todo um
cenário arrojado e tecnológico. Vejo uma mistura interessante que passa pelo
clean, dark e néon, seja nos figurinos e também direção de arte. Pode-se
afirmar sem medo que Matrix é uma obra de arte multimídia, capaz de gerar
inúmeras tramas expandindo este universo, e foi o que os irmãos Wachowski
fizeram no período em que produziam o término da trilogia com a série de
animações fabulosas e surrealistas, em vários estilos por vários cineastas e
roteiristas (na maioria japoneses), num trabalho em conjunto que gerou o ótimo
(e bem melhor que os próprios filmes seguintes) Animatrix (The Animatrix, 2003).
Meu predileto é a primeira animação que conta uma premissa que é narrada entre
o segundo e terceiro episódios (live action) numa criação animada de última
geração, perfeita e impressionante. Há os demais capítulos seguintes, derivados
do que se tem de mais criativo no mundo da animação e que torna ainda mais
convidativo.
O
filme recriou um estilo inspirado em obras de cineastas como John Woo, Sam Peckinpah e porque não dizer Quentin Tarantino, já que o script
é repleto de diálogos extensivos e de auto-afirmações? É um balé de artes
marciais e tiroteios em câmera lenta, violência gráfica e menções honrosas a
astros como Bruce Lee como, por exemplo, esfregar o nariz com o polegar antes
do combate e fazer um gesto de “vem pro pau!” com a mão, etc. São artifícios
que me faziam pirar quando era moleque.
John
Bowring, consultor de armas para o filme, afirmou que todos os protótipos
utilizados por Reeves na famosa cena perto do clímax, a sequência no lobby e do
elevador quando ele e Trinity almejam resgatar Morpheus, eram na verdade de
plástico e conseguintemente leves. Bowring se responsabilizou por criar modelos
fiéis MP5K, que pesava em torno de 150-200 gramas, assim, Reeves poderia
manejar com mais facilidade e depois de descobrir este curiosidade, é possível
notar a facilidade que o ator tem ao manuseá-las.
Outros
famosos estiveram cotados para viver Neo no cinema e o papel chegou a ser
oferecido para Nicolas Cage, que estupidamente recusou, assim como Tom Cruise, Leonardo DiCpario e Will Smith,
o favorito, mas este preferiu rodar o estúpido e fracasso de bilheteria do
mesmo ano, As Loucas Aventuras de James
West! Foi uma grande oportunidade para o já famoso KEANU REEVES (de pérolas
como; Velocidade Máxima provando através deste, outro sucesso com Sandra
Bullock, ter o feeling para ação). Não consigo imaginar outro Neo,
personagem tão marcante na carreira de Reeves que, infelizmente, depois do
boom, atrofiou a carreira do cara que depois faria poucos bons papéis em alguns
filmes notáveis, provavelmente Constantine (2005 de Francis
Lawrence) seja o único exemplo.
Antes
das filmagens, os atores principais passaram vários meses com especialistas em
artes marciais para assim aprenderem os movimentos de luta, de outubro de 1997
a março de 1998. O coreógrafo de luta responsável é o genial Woo-Ping Yuen que dispensa maiores comentários
(KILL
BILL, Máscara Negra, Kung-Fusão, O Mestre Invencível com Jackie Chan, etc.)
Carrie-Anne
Moss, a eterna Trinity (outra
que infelizmente só ficou marcada por este personagem posteriormente, mas que
até tem feito bons papéis como em Amnésia, 2000, de Christopher Nolan)
torceu o tornozelo durante a gravação de uma de suas cenas, mas decidiu não
contar a ninguém até depois das filmagens. Outro que se machucou foi Laurence
Fishburne, fraturando um braço. Hugo Weaving foi outro, conseguiu
machucar o pescoço! Ironicamente, Reeves foi o único que passou longe da
enfermaria.
Para
o papel do Oráculo, os produtores escolheram a veterana Gloria Foster (1933-2001) e sua
morte repentina durante as filmagens do Reloaded
e Revolutions fez com que fosse
substituída, sem brilho, por Mary Alice no
último filme.
Não foi tão fácil escolher o braço direito do herói e
mentor, Morpheus.
Fishburne foi capaz de imortalizá-lo com sua seriedade, articulação e
tranqüilidade, aliás, o tom habitual do ator. Antes foi cogitado Gary Oldman e até mesmo Samuel L. Jackson, que
acredito, seria interessante. O marcante vilão, o agente Smith, foi uma sábia escolha
dos diretores (o francês Jean
Reno recebeu a oferta, mas
desistiu para fazer Godzilla!)
e Hugo Weaving, magnífico ator e que sempre trabalha nas produções dos W. (vide o subestimado V de Vingança, 2004
e o recente A Viagem!)
e que ganhou o papel depois que os irmãos viram sua interpretação no filme A Prova, Proof, 1991 de Jocelyn Moorhouse - sobre um
fotógrafo cego que é cuidado por uma dona de casa.
Impossível não associar Weaving e sua voz marcante, causando arrepios quando ele se aproxima
do herói dizendo: “Mr.
Anderson!”
![]() |
| Smith, o vilão icônico |
A
produção ficou a cargo do lendário produtor magnata de filmes de ação e
espetáculos audaciosos, JOEL SILVER, da Silver Pictures (Máquina Mortífera, Duro de Matar e tantos
outros exemplares chegando num total de 112 produções assinadas por ele!).
Ligeiro, Silver enxergou grandes possibilidades ao ler o roteiro, mas correndo
o risco de ser um dos maiores fracassos de sua carreira. Pensando bem, é mais
complicado investir, patrocinar, do que dirigir, até porque o cara tem que
confiar nos artistas contratantes, mas Silver parece que nasceu com olho
clínico para os negócios. Matrix, ainda é o grande investimento de sua
profissão. Sua relação com os W. se proliferou por bastante tempo até chegar no
fracasso de Speed Racer, idem, 2008.
Depois disso, a parceria se esgotou. Só que, antes, Silver se deu muito bem com
eles desde a época do filme “Assassinos”
(Assassins, 1995) dirigido por Richard
Donner, na qual Silver também foi produtor e o roteiro de argumento deles,
escrito em parceria com Brian Helgeland
(que futuramente ganharia um Oscar por L.A. Cidade Proibida de Curtis Hanson e
ainda se tornaria um diretor mediano). Com este filme, os irmãos
conseguiram boas relações com Silver para conceber Matrix. Ainda assim,
acredito que foi o sucesso inesperado de Ligadas Pelo Desejo (Bound, 1996 com Gina Gershon e Jennifer Tilly), um
ótimo thriller sensual lésbico, o verdadeiro
cartão de visitas dos irmãos para Hollywood.
Bom,
citada algumas curiosidades da produção, eis o espetacular mundo de Matrix, e
depois disso, nunca mais a minha realidade foi a mesma. Reeves é um programador
em uma empresa de software, que, à noite, atende pelo nome de Neo, um hacker
habilidoso, cético e cartesiano que nem sequer imagina que sua vida não é
aquilo que imagina. O cara vive sua vidinha solitária no mundo da programação e
é um viciado em tecnologia e afins, não é muito diferente dos demais
internautas. Thomas A. Anderson (aka: Neo) é um homem comum, como você e eu,
por isso sua descoberta e jornada torna-se ainda mais atrativa e quando, em um
dia normal, descobre a verdadeira natureza de sua “realidade” através de uma
bela mulher, a misteriosa Trinity (Moos), que o leva para conhecer o lendário
senhor dos hackers-Zen, conhecido como Morpheus (Fishburne – o Pai Mei daquele
mundo!), que Neo, sem saber de muita coisa, aliás, de quase nada, assim como o
espectador aflito e curioso por saber o que virá a seguir, tem que fazer uma
escolha, tarefa árdua dada por Morpheus. Tendo aceito o seu convite de tomar
uma droga capaz de abrir a sua mente para a chocante real verdade, o herói irá
sentir na pele o pesadelo virtual em que vivia, Matrix, é apenas uma ilusão, um
mundo de sonhos em que tudo é possível. Ou seja, Neo, descobre que o mundo em
que “estava vivendo” nada mais era do que um programa virtual gerado por
computadores controlados por máquinas dotadas de inteligência artificial que
nós mesmos criamos anos antes de uma guerra devastadora. Assim sendo, as
futuras gerações mamíferas não passavam de plantações, cultivo de energia para
as máquinas vampirescas que necessitavam da sucção de nossa energia corpórea
para sobreviverem. Loucura? E o exemplo mais genial do filme é quando Morpheus
nos compara com uma pilha Duracel.
Revelado
a nossa passividade diante um mundo de mentiras, e querendo dar um basta nisto,
Morpheus, Trinity e mais alguns rebeldes residentes de Zion, cidade real
construída neste futuro na qual os humanos estão desconectados de suas
incubadoras automáticas (o maior choque do filme foi descobrir ainda de que as
máquinas estavam literalmente gerando mais humanos que já nasciam naquela
situação!), estão á procura de um messias (temática religiosa bastante
pertinente), conhecido como: “The One”, ou “O escolhido”, que será o
responsável pela destruição dos monstrengos robóticos (sobretudo um exército de
sentinelas que parecem espermatozoides! ) e finalmente promovendo a paz nesta
batalha entre humanos e máquinas.
Morpheus
está certo de que Neo é este messiânico. No caminho, o herói irá descobrir
novas verdades e conselhos enigmáticos através de uma senhora simpática
conhecida como “O Oráculo” (Foster) que tenta abrir sua mente e persuadi-lo de
sua grande missão. Os maiores obstáculos
dos heróis são os chamados “Agentes”, um pelotão mal encarado e nada educados, liderados por Smith (Weaving)
parecendo homens do FBI, à caráter, com roupa social, que fazem parte do
sistema de defesa da I.A. computacional. Eles seriam representantes a serviço
do software, uma espécie de protetores, antivirais, capazes de limpar os vírus
que infestam a Matrix. É o que pude associar!
Como
nas tramas clássicas do bem contra o mal, por exemplo, na saga Star
Wars, na qual os rebeldes lutam contra a opressão de um governo ditador
e imperial, Matrix segue a risca uma estrutura clássica sob um cenário moderno.
Uns chegam a dizer que o filme, no âmbito da ficção-científica, significou o
mesmo que 2001: Uma Odisséia No Espaço de Stanley Kubrick nos anos 60. De certa forma, Matrix foi uma
influência poderosa para toda uma nova geração e é por isso que não necessitava
de continuações, apesar de apelar naturalmente para isso, afinal, a obra é,
além de tudo, um entretenimento pipoca.
Sem
cair no piegas, os Wachowski ainda conseguem contar uma love story. Carrie-Anne
Moss consegue dar uma guinada de personalidade de forma surpreendente no filme
quando em primeiro momento, apresenta a sua Trinity apenas como uma exímia
guerreira para depois ser alvo do amor do herói para todo o restante da saga. E
a troca é monogâmica. Apaixonante.
Um
feito único e ainda bastante discursivo. Muito bem arquitetado, este grande
trabalho original de Andy e Lana Wachowski permanece novo e irretocável. As
pirotecnias dos efeitos visuais impressionam muito mais neste primeiro filme
revelador do que qualquer outro posterior.
The
Matrix é a realidade virtual de um cinema imaginativo. Steven Spielberg afirmou
uma vez que “2001” foi o “Big Bang da sua geração.” Acredito que a obra dos
Wachowski permanece como o bullet time dos novos tempos.
Ganhou 4 Oscar: Edição, Efeitos Especiais Sonoros, Efeitos Especiais Visuais e Som.
EUA/AUSTRÁLIA
1999
AÇÃO/FICÇÃO CIENTÍFICA/AVENTURA
136 min.
COR
WARNER
★ ★ ★ ★ ★
WARNER BROS.
PICTURES Apresenta
Em Associação com
VILLAGE ROADSHOW
PICTURES/ GROUCHO II FILM PARTNERSHIP
Uma Produção
SILVER PICTURES
THE MATRIX
KEANU REEVES LAURENCE FISHBURNE CARRIE-ANNE MOSS
HUGO WEAVING GLORIA FOSTER
JOE PANTOLIANO
MARCUS CHONG JULIAN ARAHANGA MATT DORAN
BELINDA
McCLORY ANTHONY RAY PARKER
PAUL GODDARD ROBERT TAYLOR
DAVID ASTON
Casting MALI
FINN/SHAUNA WOLIFSON
Música de DON
DAVIS
Direção de
Fotografia BILL POPE
Edição ZACH
STAENBERG
Desenho de
Produção OWEN PATERSON
Figurinos KIM
BARRETT
Co-produção DAN
CRACCHIOLO
Produtores
Associados CAROL HUGHES. RICHARD MIRISCH
Produtores
Executivos
BRUCE BERMAN
ANDREW MASON.
BARRIE M. OSBORNE. ERWIN STOFF
ANDY WACHOWSKI.
LARRY WACHOWSKI
Produzido por
JOEL SILVER
Escrito e
Dirigido por
THE WACHOWSKI BROTHERS
THE MATRIX © 1999
Warner Bros. Pictures/ Silver Pictures
Village Roadshow/Groucho II
Village Roadshow/Groucho II

















6 comentários:
Um dos marcos do cinema dos anos noventa, feito no momento certo.
O melhor da trilogia.
Abraço
Uma pena que as continuações não entenderam o que realmente fez sucesso nesse filme. Um marco mesmo. E me impactou ainda mais porque entrei no cinema sem saber absolutamente nada sobre a obra, nem sinopse ou trailer eu tinha visto.
bjs
Jean Reno, consegue me deixar com raiva,rs.
Blue Pill. Red Pill. Pilha Duracell. Oráculo.Incubadoras....São tantos aspectos fabulosos neste filme.
Ainda temos o 'delicinha' do Reeves.
Sabe, que este filme foi tema de uma das aulas da minha Pós em Psicologia Transpessoal.
Foi eleito como o filme que retrata 'fielmente', o mais próximo conflito da realidade real, transcedental e até transpessoal que vivemos.
Gosto dos figurinos, do conto de fadas, da ficção e Laurence(que está divino) ah! meu filme de cabeceira.
Adorei a maneira brilhante que você teclou, parabéns!!!!
besos.
Olá Rodrigo, o primeiro filme da trilogia é de fato uma obra-prima, me impressionei com ele desde a primeira vez que o vi. Acho ele genial por conseguir misturar tantas referências, como você comentou, em uma história que ainda consegue ser inovadora. Uma pena que as sequências não se mantiveram à altura.
Abraço forte amigo e feliz páscoa!!!
Rodrigo, acredita que ainda não assisti? :/
Hugo: Sem dúvida!
Abs.
Amanda: Sei como é entrar num cinema e ficar entorpecido por um filme. Comigo aconteceu algumas vezes, provavelmente o mais marcante tenha sido "Cidade De Deus". A fórmula estava fadada a não ser superada nas continuações, aqui por exemplo, mas é claro que não é uma regra. Vide Star Wars: O Império Contra-Ataca, Aliens, O Resgate e outras surpresas hollywoodianas.
Bjs.
Pati: Fiquei curioso agora com relação a este ódio do Reno. rs Acho ele um ator versátil e sempre interessante.
Matrix foi modelo em muitos trabalhos acadêmicos, de fato. Em meu curso de comunicação (RTV) vira e mexe os professores comentavam sobre a trama como modelo, justamente sob o grande tema crítico da 'realidade' humana, etc.
Bjs.
Bruno: Feliz páscoa atrasado! rs
Matrix é genial justamente por toda essa hibridização amigo! Um marco.
Abração!
Jefferson: Acredito. rs
Não é sua praia, sei disso.
Abs.
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