sexta-feira, 5 de abril de 2013

REBOBINE, POR FAVOR

VAMOS “SUECAR”?

Depois que todos os filmes VHS de uma antiga locadora são desmagnetizados, dois amigos tentam reproduzi-los de forma amadora em versões de 20 minutos.

Antes é preciso explicar de onde vem a palavra “suecar”, que é o tema desta simpática comédia. É basicamente regravações de obras cinematográficas que são realizadas de forma artesanal, totalmente independente e de baixo custo (ou muitas vezes custo zero, improvisando com o que se tem em casa), tal prática que foi nomeada de Sweeded, literalmente, suecar! Esses filmes são elaborados sem a intenção de fazer qualquer paródia, embora seja impossível não associar a ideia, e sim de fazer remakes amadores das grandes produções do cinema. Na verdade tudo é realizado na maior brincadeira e se os filmes suecados tiverem o mínimo de criatividade, podem funcionar muito mais como homenagens, se preferir. É, naturalmente, a mesma premissa do filme copiado com locações de natureza rústica e tudo tecnicamente amadorístico. Tudo é proposital e de um jeito que não se leva a sério, com pouca verba, esses curtas nada lembram os originais, além do mais, o elenco é geralmente atores não profissionais, bom, já deu pra compreender, não?
Suecando "Os Donos Da Rua" -  Boyz n the Hood - de John Singleton
O mais interessante nisso tudo é o diretor francês MICHEL GONDRY, que já foi meu objeto de estudo na minha monografia de conclusão de curso da faculdade (o famoso TCC – que escrevi com uma amiga, Flávia Rocha, para o curso de Rádio e Televisão). Gondry é um dos principais incentivadores e porque não dizer, criador do gênero, que é explorado em sua obra, inclusive em alguns dos inúmeros videoclipes que realizou, aliás, algumas obras primas neste formato, para artistas excêntricos como a cantora islandesa Björk!
Em qualquer trabalho visual que tenha feito dentro deste estilo cenográfico, é neste filme, REBOBINE, POR FAVOR (Be Kind Rewind, 2008), que ele descreve com precisão toda a fórmula já citada. Ele próprio já dirigiu um filme suecado, trata-se de uma reprodução divertida do clássico de Scorsese, Taxi Driver (Idem, 1976). A moda pegou, tanto que na internet, no You Tube, existem vários filmes caseiros que seguem à risca o dogma do Sweeded, e que nem expliquei mais um detalhe, a palavra é uma derivação da própria Suécia, país que, segundo os personagens do filme, criou tais produções inovadoras!
Eu até gosto do filme, a simpatia é mais pelo fato de lembrar meu TCC, mas hoje, revendo, pode ser um tanto enjoativo. De qualquer forma, o projeto parece ter nascido para ser cult, mesmo que a trama não tenha qualquer lógica com a realidade. É sobre um rapaz engraçado que trabalha em um ferro-velho, não por acaso escolheram o ótimo JACK BLACK (de Escola do Rock, 2003), como Jerry, que reclama por ter dores de cabeça. Black é o rei da mala sem alça, sua vantagem é por ser um sujeito engraçado. Bom, ele acha que essas dores são decorrência de uma rede de energia elétrica que se localiza próximo ao seu trailer. Seu plano mirabolante e idiota (pior que ele convence o amigo de participar), é sabotar o lugar, mas obviamente que tudo sai errado e ele acaba sendo eletrocutado! Parece desenho animado, o cara não morre, porém, fica magnetizado. Isso faz com que ele apague todas as fitas que estão na prateleira de uma velha vídeo-locadora que leva o título do filme por causa da citação daquela velha frase das locadoras de antigamente que pediam gentilmente para os clientes rebobinarem as fitas antes de devolvê-las. O atendente, no caso, é MOS DEF (de 16 Quadras, 2006 de Richard Donner com Bruce Willis), Mike, que se encrenca todo com a situação já que era o responsável por cuidar da loja na qual o dono é vivido pelo veterano DANNY GLOVER (de A Cor Púrpura, 85), O Sr. Fletcher. Então é isso, quando os clientes fiéis chegam à locadora requisitando os filmes, será preciso suecar os pedidos para substituir o problema causado pela magnetização. Ou seja, é uma palhaçada juvenil e é preciso entrar no clima e não ficar bolado com a falta de verossimilhança. 
Black e Def tentando reproduzir "Os Caça-Fantasmas" para uma cliente!
Para muitos espectadores, tudo é bonitinho num primeiro momento, por exemplo, quando eles fazem uma versão de vinte minutos do primeiro filme suecado, o clássico dos anos 80, OS CAÇA FANTASMAS, Ghostbusters, 84 de Ivan Reitman. Mas, as brincadeiras, lá pelo qüinquagésimo filme, já soam repetitivas e até sem graça. O único grande problema do filme é exatamente este. O que eu mais gosto são algumas participações especiais, começando pela querida MIA FARROW como a Sra. Falewicz, a primeira cliente a receber uma fita suecada. Não sei por qual razão ela queria alugar Os Caça-Fantasmas, o máximo de explicação é que a velha queria muito assistir a um filme de terror. Portanto, como ela era quase meio senil e nem sequer conhecia o filme, eis que a dupla se aproveitou para cobrir o erro. Eu ainda gosto do momento em que eles refazem A Hora Do Rush 2 (de Brett Ratner), O Rei Leão, (da Disney, 94) De Volta Para O Futuro (85 de Zemeckis), Robocop – O Policial Do Futuro (87 de Verhoeven – e é claro que Black se fantasia à caráter), Os Donos Da Rua (Boys n The Hood de John Singleton, lançado em 91) e o emocionante Conduzindo Miss Daisy (1989 de Bruce Beresford com Morgan Freeman e Jessica Tandy, aliás, um belo filme) um dos grandes pedidos de Farrow. Logo após, os demais filmes são mostrados numa sucessiva passagem de tempo que usa o artifício óbvio de letreiros para explicar qual filme em questão (2001: Uma Odisséia No Espaço, Boogie Nights, Homens de Preto, enfim, citando apenas mais alguns) embora nem fosse necessário, ao menos para os cinéfilos, pelo menos a maioria, que gostaria de ter gostado mais da brincadeira se não fosse tão comum, digo, a forma de apresentação pouco antes do clímax. Tudo acaba se repetindo, infelizmente.
O que me incomoda é que a graça, o delírio e o besteirol, são acompanhados por um melodrama piegas, forçado, daquele tipo de filme que não consegue te manipular usando uma lenda do Jazz, Fats Waller (1904-1943) como um pano de fundo, recriando a vida do cara (até mesmo como filme suecado) do que teria sido a sua vida onde ele teria vínculos com aquele lugar, o prédio em que se localiza a locadora que esta prestes a ser demolida por ser uma construção antiga. Além disso, é difícil de entrar no clima de nostalgia, até mesmo com relação aos VHS, e na emoção patética de que a vizinhança se mobilizou para ajudá-los quando Black e Def se tornas as estrelas destes filmes, salvando o negócio da locadora que estava na falência. Enfim, seria muito melhor manter o espírito zombeteiro cômico, aproveitando Black naquilo que ele sabe fazer de melhor, do que mudar o tom da fita querendo tirar lágrimas do público.
O filme ainda conta com a aparição especial de uma das estrelas originais de Caça-Fantasmas, a querida SIGOURNEY WEAVER, mas fazendo outro papel, uma agente do FBI que é mandada lá para acabar com todas as cópias suecadas a mando dos estúdios de Hollywood, já que existe (e nem acho ela a vilã do filme por causa disso) a lei do copyright©”. Óbvio que eles estariam infringindo a lei ganhando dinheiro com as reproduções ilegais, o que sempre vinha escrito nas fitas, nas sobrecapas e num anúncio antes dos trailers. Quem não lembra?
Gondry é mais prático aqui do que inteiramente criativo. Não que o filme seja uma total decepção, mas poderia ser melhor, em vista disto nas revisões. No entanto, seu toque pessoal é notável e parece mesmo com um filme do diretor do sensacional, a obra prima pós moderna, BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004 - e um dos motivos deste filme ser genial é pelo fato de ter script também assinado por Charlie Kauffman), certamente, ainda, o seu melhor longa metragem. Gondry também estava inspirado quando realizou SONHANDO ACORDADO (The Science of Sleep/ La Science dês Revês, 2006, com Gael García Bernal e Charlotte Gainsborg) outro grande momento do cineasta que trazia elementos fantásticos de sua fase videoclíptica, mas perdeu a mão no medíocre BESOURO VERDE (The Green Hornet, 2011) blockbuster decepcionante que recria a série televisiva criada por George W. Trendle - e que trazia o astro do Kung fu Bruce Lee - e mesmo com um elenco que incluem; Cameron Diaz, Christoph Waltz e Seth Rogen.

Gondry parece ter maior controle com filmes independentes, fez recentemente o ótimo The We and The I (2012) sobre a vida de um grupo de jovens que utilizam o mesmo ônibus como transporte e vivem constantes relacionamentos que evoluem ao passar dos dias até o término das aulas. Recomendo. Prepara outro lançamento, um filme francês com a estonteante Audrey Tautou, L´écume Des Jours. Não faço idéia de quando chagará por aqui, mas é ainda para este ano. Sem dúvida estará em circuito pequeno e nos próximos festivais.

O mais engraçado entre as curiosidades que pesquisei é o fato de Black ter feito a sua versão para o tema musical de Os Caça-Fantasmas porque simplesmente o departamento jurídico não autorizou os direitos para a canção de Ray Parker Jr. Para o filme.

Rebobine, Por Favor  tem seus bons momentos, pode diverti-lo ou entendia-lo. Neste mundo do HD e agora Blu-ray (parece que o DVD e isso para algumas pessoas, já esta ultrapassado, o que eu não concordo e há ainda os aficionados/apaixonados por fitas!) não tem lógica pedir para rebobinar o filme.  Agora, uma coisa que a indústria cinematográfica tem que entender é que o momento de qualquer pessoa produzir seus próprios filmes e da forma que lhe for conveniente é uma realidade e já acontece desde quando a tecnologia se expandiu e popularizou-se. É fácil, barato e divertido.
Gondry só aconselha uma coisa (e faço coro a ele): sejam originais!

EUA/INGLATERRA
2008
COMÉDIA
COR
100 min.
EUROPA FILMES
     

New Line Cinema Apresenta
JACK BLACK   MOS DEF   DANNY GLOVER
UM FILME DE MICHEL GONDRY
BE KIND REWIND
MIA FARROW    MELONIE DIAZ
IRV GOOCH   CHANDLER PARKER   ARJAY SMITH
QUINTON AARON   GIO PEREZ   BACIA ROSAS
& SIGOURNEY WEAVER
Música Original por JEAN-MICHEL BERNARD
Direção de Fotografia ELLEN JURAS   Edição JEFF BUCHANAN
Casting JEANNE McCARTHY   Direção de Arte DAN LEIGH
Figurinos RAHEL AFILEY  KISHU CHAND
Co-produção ANN RUARK Produção Associada RAFFI ADLAN
Produtores Executivos TOBY EMMERICH  GUY STODEL
Produzido por
GEORGES BERMANN  JULIE FONG   MICHEL GONDRY 
Escrito & Dirigido por
MICHEL GONDRY
BE KIND REWIND ©2008 New Line Cinema/Partizan Films/Focus Features

6 comentários:

J. BRUNO disse...

Rodrigo, eu nunca assisti o filme e confesso que até então eu não sabia o que era 'suecar'... Pelo teu texto percebo o motivo do filme ter se tornado 'cult', apesar de não funcionar tão bem, como você disse, ele tem um proposta que é ao menos cativante e é isso que me deixa ainda com um pouco de curiosidade em relação a ele...

Amanda Aouad disse...

Ótimo ler seu texto com tantas questões a mais, provavelmente pela pesquisa necessária para o TCC. Gosto do filme, não revi para ver se acho enjoado como você falou, hehe, mas desde a primeira vez achei apenas uma trama divertida mesmo.

bjs

Unknown disse...

Esse filme rende opiniões divergentes. Já ouvi gente falar que odiou. No entanto, eu adoro, até me emocionei com aquela cena final da apresentação do filme feito pela vizinhança. Apesar de por vezes ser exagerado, acho que o filme guarda algumas singelezas.

Abração! Perdão não poder ser mais presente.

Reinaldo Glioche disse...

Olha só... não sabia dessa do TCC. Gondry é um tema interessante. Aposto que o trabalho ficou ótimo! Gondry por Rodrigo, esse texto aqui prova, funciona!
Bem, acho que gostei mais do filme do que vc. Ainda que concorde que a fórmula cansa um pouco. Já "Sonhando acordado" achei bem inferior. Esse novo filme do Gondry com a Tautou acho que é para o final desse ano na França. Aqui só Deus sabe...
Abs

Patt Baleeira disse...

Rô,
Tudo Bem?

Adorei saber sobre o TCC, sempre bom conhecer o lado pessoal dos nossos amigos/colegas blogueiros.

Assim, como Celo Silva me emocionei com o filme. Meu amigo, Giovanne Casareggio, que indicou. Ele sabe que sou uma das poucas pessoas que gosta do Jack Black.
Enfim, no começo achei uma comédia bobinha, depois me entreguei ao jazz, ao enredinho e no final...
...Confesso, que gostei e até chorei,rs.

No fim, acho uma filme ótimo para sessão da tarde...Será, que o grande público entenderia a mente de Gondry? rs.

besos e repetindo o Celo:
desculpe, a ausência por aqui, ok?

besoooos.

Rodrigo Mendes disse...

Bruno: O filme até funciona, só que mais na primeira vez. Assista!
Abs.

Amanda: É...TCC faz parte do nosso Show, rs! Como esquecer...mas foi divertido a pesquisa e tal, Gondry como objeto de estudo foi interessante mesmo. Provavelmente irá apreciar bem menos o filme numa revisão Nanda, hehe
Bjs.

Celo: Sumido mesmo! rs de boa e é ótimo tê-lo aqui. De fato, o filme é bem dividido em questão de plateia. Não odeio, mas não achei essa coca-cola toda. O problema mesmo são as repetições. Há desperdiço de ideias, nas revisões é notável.
Abs.

Reinaldo: É amigo, o TCC ficou bom, pelo menos fui aprovado, rs!
Sonhando Acordado é uma obra que tem mais o estilo e personalidade de Gondry. Acho que quando o cara produz na França é mais feliz. Enfim. Aguardo com alguma ansiedade o filme com a Tautou e espero que Deus saiba e me diga quando será lançado. rs
Abs

Patricia: Oi querida Pati! Sempre simpática comigo, adoro! ;)

Creio que "Rebobine" não teria problemas numa exibição na Sessão Da Tarde. A trama não é tão rocambolesca para o leigo do horário. Acho até bastante funcional neste caso, até porque, a cereja é o próprio Jack Black, famoso e adorado.
Besos!

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