quinta-feira, 28 de março de 2013

MATRIX


REALIDADE VIRTUAL EM TEMPO DE BALA
Hacker de computador que atende pelo nickname Neo aprende com rebeldes a verdadeira natureza de sua realidade e o seu papel como o escolhido numa guerra contra seus controladores, máquinas de inteligência artificial.

Matrix (The Matrix, 1999) continua com frescor. Um blockbuster muito bem sucedido que conseguiu o feito único de hibridizar de forma inteligente e eficaz filosofia, ciência, tecnologia, teologia, história em quadrinhos, cinema, contos de fada, literatura (tem mais?) numa fita fantástica repleta de muita ação, efeitos especiais de última geração (e ainda não envelheceram) além de espertas coreografias de luta Kung Fu de tirar o fôlego!


Criado pelos irmãos Wachowski, Andy e Larry, fascinados pelo universo nerd e das HQ´s, a dupla misturou lindamente assuntos pertinentes e reflexivos numa trama original e entorpecente. Na época tive dificuldade para compreender as nuances e até mesmo a narrativa principal. Foi necessária uma segunda revisão para entender o gênio dos Wachowski, que com este grande sucesso de bilheteria, gerou inúmeras imitações e pareciam ter concebido o melhor filme que jamais poderiam repetir de tão bom e, aliás, de fato, as continuações são apêndices e até desnecessárias, embora divertidas.
A premissa consegue citar mitos como Alice No País Das Maravilhas de Lewis Carroll (Siga o coelho branco...), A Bela Adormecida (a questão das pílulas), O Mágico de Oz (a interface de Matrix se inspira em Oz e a realidade de Zion, o Kansas) e até mesmo, logicamente, a própria Bíblia sagrada. Enfim, algumas das teorias que consegui captar e que são de maior importância neste universo futurista apocalíptico. O que me fascinou em Matrix na época, era o fato de que nada era o que parecia ser e foi até um choque descobrir a terrível verdade, somos como o Neo nesta primeira viagem, novatos, e desconectados literalmente da tomada!

Lançado há 14 anos (No Brasil apenas em 21 de maio de 99, dois meses depois), o projeto nasceu com pretensões épicas e custou cerca de 65 milhões de dólares e rendeu além do imaginado. Em 2003 foram lançados simultaneamente (e filmados da mesma forma) mais dois capítulos que faziam parte de uma trilogia: Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas sem a mesma pegada e curiosidade do original. Meros entretenimentos light, sobretudo o segundo.
O apelo da obra tem um valor significativo para a cultura cyberpunk com todo um cenário arrojado e tecnológico. Vejo uma mistura interessante que passa pelo clean, dark e néon, seja nos figurinos e também direção de arte. Pode-se afirmar sem medo que Matrix é uma obra de arte multimídia, capaz de gerar inúmeras tramas expandindo este universo, e foi o que os irmãos Wachowski fizeram no período em que produziam o término da trilogia com a série de animações fabulosas e surrealistas, em vários estilos por vários cineastas e roteiristas (na maioria japoneses), num trabalho em conjunto que gerou o ótimo (e bem melhor que os próprios filmes seguintes) Animatrix (The Animatrix, 2003). Meu predileto é a primeira animação que conta uma premissa que é narrada entre o segundo e terceiro episódios (live action) numa criação animada de última geração, perfeita e impressionante. Há os demais capítulos seguintes, derivados do que se tem de mais criativo no mundo da animação e que torna ainda mais convidativo.

O filme recriou um estilo inspirado em obras de cineastas como John Woo, Sam Peckinpah e porque não dizer Quentin Tarantino, já que o script é repleto de diálogos extensivos e de auto-afirmações? É um balé de artes marciais e tiroteios em câmera lenta, violência gráfica e menções honrosas a astros como Bruce Lee como, por exemplo, esfregar o nariz com o polegar antes do combate e fazer um gesto de “vem pro pau!” com a mão, etc. São artifícios que me faziam pirar quando era moleque.
John Bowring, consultor de armas para o filme, afirmou que todos os protótipos utilizados por Reeves na famosa cena perto do clímax, a sequência no lobby e do elevador quando ele e Trinity almejam resgatar Morpheus, eram na verdade de plástico e conseguintemente leves. Bowring se responsabilizou por criar modelos fiéis MP5K, que pesava em torno de 150-200 gramas, assim, Reeves poderia manejar com mais facilidade e depois de descobrir este curiosidade, é possível notar a facilidade que o ator tem ao manuseá-las.

Outros famosos estiveram cotados para viver Neo no cinema e o papel chegou a ser oferecido para Nicolas Cage, que estupidamente recusou, assim como Tom Cruise, Leonardo DiCpario e Will Smith, o favorito, mas este preferiu rodar o estúpido e fracasso de bilheteria do mesmo ano, As Loucas Aventuras de James West! Foi uma grande oportunidade para o já famoso KEANU REEVES (de pérolas como; Velocidade Máxima provando através deste, outro sucesso com Sandra Bullock, ter o feeling para ação). Não consigo imaginar outro Neo, personagem tão marcante na carreira de Reeves que, infelizmente, depois do boom, atrofiou a carreira do cara que depois faria poucos bons papéis em alguns filmes notáveis, provavelmente Constantine (2005 de Francis Lawrence) seja o único exemplo.

Antes das filmagens, os atores principais passaram vários meses com especialistas em artes marciais para assim aprenderem os movimentos de luta, de outubro de 1997 a março de 1998. O coreógrafo de luta responsável é o genial Woo-Ping Yuen que dispensa maiores comentários (KILL BILL, Máscara Negra, Kung-Fusão, O Mestre Invencível com Jackie Chan, etc.) Carrie-Anne Moss, a eterna Trinity (outra que infelizmente só ficou marcada por este personagem posteriormente, mas que até tem feito bons papéis como em Amnésia, 2000, de Christopher Nolan) torceu o tornozelo durante a gravação de uma de suas cenas, mas decidiu não contar a ninguém até depois das filmagens. Outro que se machucou foi Laurence Fishburne, fraturando um braço. Hugo Weaving foi outro, conseguiu machucar o pescoço! Ironicamente, Reeves foi o único que passou longe da enfermaria.

Para o papel do Oráculo, os produtores escolheram a veterana Gloria Foster (1933-2001) e sua morte repentina durante as filmagens do Reloaded e Revolutions fez com que fosse substituída, sem brilho, por Mary Alice no último filme.

Não foi tão fácil escolher o braço direito do herói e mentor, Morpheus. Fishburne foi capaz de imortalizá-lo com sua seriedade, articulação e tranqüilidade, aliás, o tom habitual do ator. Antes foi cogitado Gary Oldman e até mesmo Samuel L. Jackson, que acredito, seria interessante. O marcante vilão, o agente Smith, foi uma sábia escolha dos diretores (o francês Jean Reno recebeu a oferta, mas desistiu para fazer Godzilla!) e Hugo Weaving, magnífico ator e que sempre trabalha nas produções dos W. (vide o subestimado V de Vingança, 2004 e o recente A Viagem!) e que ganhou o papel depois que os irmãos viram sua interpretação no filme A Prova, Proof, 1991 de Jocelyn Moorhouse -  sobre um fotógrafo cego que é cuidado por uma dona de casa. 

Impossível não associar Weaving e sua voz marcante, causando arrepios quando ele se aproxima do herói dizendo: “Mr. Anderson!”  
Smith, o vilão icônico
A produção ficou a cargo do lendário produtor magnata de filmes de ação e espetáculos audaciosos, JOEL SILVER, da Silver Pictures (Máquina Mortífera, Duro de Matar e tantos outros exemplares chegando num total de 112 produções assinadas por ele!). Ligeiro, Silver enxergou grandes possibilidades ao ler o roteiro, mas correndo o risco de ser um dos maiores fracassos de sua carreira. Pensando bem, é mais complicado investir, patrocinar, do que dirigir, até porque o cara tem que confiar nos artistas contratantes, mas Silver parece que nasceu com olho clínico para os negócios. Matrix, ainda é o grande investimento de sua profissão. Sua relação com os W. se proliferou por bastante tempo até chegar no fracasso de Speed Racer, idem, 2008. Depois disso, a parceria se esgotou. Só que, antes, Silver se deu muito bem com eles desde a época do filme “Assassinos” (Assassins, 1995) dirigido por Richard Donner, na qual Silver também foi produtor e o roteiro de argumento deles, escrito em parceria com Brian Helgeland (que futuramente ganharia um Oscar por L.A. Cidade Proibida de Curtis Hanson e ainda se tornaria um diretor mediano). Com este filme, os irmãos conseguiram boas relações com Silver para conceber Matrix. Ainda assim, acredito que foi o sucesso inesperado de Ligadas Pelo Desejo (Bound, 1996 com Gina Gershon e Jennifer Tilly), um ótimo thriller sensual lésbico, o  verdadeiro cartão de visitas dos irmãos para Hollywood. 
Bom, citada algumas curiosidades da produção, eis o espetacular mundo de Matrix, e depois disso, nunca mais a minha realidade foi a mesma. Reeves é um programador em uma empresa de software, que, à noite, atende pelo nome de Neo, um hacker habilidoso, cético e cartesiano que nem sequer imagina que sua vida não é aquilo que imagina. O cara vive sua vidinha solitária no mundo da programação e é um viciado em tecnologia e afins, não é muito diferente dos demais internautas. Thomas A. Anderson (aka: Neo) é um homem comum, como você e eu, por isso sua descoberta e jornada torna-se ainda mais atrativa e quando, em um dia normal, descobre a verdadeira natureza de sua “realidade” através de uma bela mulher, a misteriosa Trinity (Moos), que o leva para conhecer o lendário senhor dos hackers-Zen, conhecido como Morpheus (Fishburne – o Pai Mei daquele mundo!), que Neo, sem saber de muita coisa, aliás, de quase nada, assim como o espectador aflito e curioso por saber o que virá a seguir, tem que fazer uma escolha, tarefa árdua dada por Morpheus. Tendo aceito o seu convite de tomar uma droga capaz de abrir a sua mente para a chocante real verdade, o herói irá sentir na pele o pesadelo virtual em que vivia, Matrix, é apenas uma ilusão, um mundo de sonhos em que tudo é possível. Ou seja, Neo, descobre que o mundo em que “estava vivendo” nada mais era do que um programa virtual gerado por computadores controlados por máquinas dotadas de inteligência artificial que nós mesmos criamos anos antes de uma guerra devastadora. Assim sendo, as futuras gerações mamíferas não passavam de plantações, cultivo de energia para as máquinas vampirescas que necessitavam da sucção de nossa energia corpórea para sobreviverem. Loucura? E o exemplo mais genial do filme é quando Morpheus nos compara com uma pilha Duracel. 
Revelado a nossa passividade diante um mundo de mentiras, e querendo dar um basta nisto, Morpheus, Trinity e mais alguns rebeldes residentes de Zion, cidade real construída neste futuro na qual os humanos estão desconectados de suas incubadoras automáticas (o maior choque do filme foi descobrir ainda de que as máquinas estavam literalmente gerando mais humanos que já nasciam naquela situação!), estão á procura de um messias (temática religiosa bastante pertinente), conhecido como: “The One”, ou “O escolhido”, que será o responsável pela destruição dos monstrengos robóticos (sobretudo um exército de sentinelas que parecem espermatozoides! ) e finalmente promovendo a paz nesta batalha entre humanos e máquinas.
Morpheus está certo de que Neo é este messiânico. No caminho, o herói irá descobrir novas verdades e conselhos enigmáticos através de uma senhora simpática conhecida como “O Oráculo” (Foster) que tenta abrir sua mente e persuadi-lo de sua grande missão.  Os maiores obstáculos dos heróis são os chamados “Agentes”, um pelotão mal encarado e nada  educados, liderados por Smith (Weaving) parecendo homens do FBI, à caráter, com roupa social, que fazem parte do sistema de defesa da I.A. computacional. Eles seriam representantes a serviço do software, uma espécie de protetores, antivirais, capazes de limpar os vírus que infestam a Matrix. É o que pude associar!

Como nas tramas clássicas do bem contra o mal, por exemplo, na saga Star Wars, na qual os rebeldes lutam contra a opressão de um governo ditador e imperial, Matrix segue a risca uma estrutura clássica sob um cenário moderno. Uns chegam a dizer que o filme, no âmbito da ficção-científica, significou o mesmo que 2001: Uma Odisséia No Espaço de Stanley Kubrick nos anos 60. De certa forma, Matrix foi uma influência poderosa para toda uma nova geração e é por isso que não necessitava de continuações, apesar de apelar naturalmente para isso, afinal, a obra é, além de tudo, um entretenimento pipoca.

Sem cair no piegas, os Wachowski ainda conseguem contar uma love story. Carrie-Anne Moss consegue dar uma guinada de personalidade de forma surpreendente no filme quando em primeiro momento, apresenta a sua Trinity apenas como uma exímia guerreira para depois ser alvo do amor do herói para todo o restante da saga. E a troca é monogâmica. Apaixonante.
Um feito único e ainda bastante discursivo. Muito bem arquitetado, este grande trabalho original de Andy e Lana Wachowski permanece novo e irretocável. As pirotecnias dos efeitos visuais impressionam muito mais neste primeiro filme revelador do que qualquer outro posterior.

The Matrix é a realidade virtual de um cinema imaginativo. Steven Spielberg afirmou uma vez que “2001” foi o “Big Bang da sua geração.” Acredito que a obra dos Wachowski permanece como o bullet time dos novos tempos.


Ganhou 4 Oscar: Edição, Efeitos Especiais Sonoros, Efeitos Especiais Visuais e Som.


EUA/AUSTRÁLIA
1999
AÇÃO/FICÇÃO CIENTÍFICA/AVENTURA
136 min.
COR
WARNER
           


WARNER BROS. PICTURES Apresenta
Em Associação com
VILLAGE ROADSHOW PICTURES/ GROUCHO II FILM PARTNERSHIP
Uma Produção SILVER PICTURES
THE MATRIX 
KEANU REEVES  LAURENCE FISHBURNE  CARRIE-ANNE MOSS
HUGO WEAVING  GLORIA FOSTER  JOE PANTOLIANO
MARCUS CHONG  JULIAN ARAHANGA  MATT DORAN
BELINDA McCLORY  ANTHONY RAY PARKER
PAUL GODDARD  ROBERT TAYLOR  DAVID ASTON
Casting MALI FINN/SHAUNA WOLIFSON
Música de DON DAVIS
Direção de Fotografia BILL POPE
Edição ZACH STAENBERG
Desenho de Produção OWEN PATERSON
Figurinos KIM BARRETT
Co-produção DAN CRACCHIOLO
Produtores Associados CAROL HUGHES. RICHARD MIRISCH
Produtores Executivos
BRUCE BERMAN
ANDREW MASON. BARRIE M. OSBORNE. ERWIN STOFF
ANDY WACHOWSKI. LARRY WACHOWSKI
Produzido por JOEL SILVER
Escrito e Dirigido por
THE WACHOWSKI BROTHERS
THE MATRIX © 1999  Warner Bros. Pictures/ Silver Pictures
Village Roadshow/Groucho II

6 comentários:

Hugo disse...

Um dos marcos do cinema dos anos noventa, feito no momento certo.

O melhor da trilogia.

Abraço

Amanda Aouad disse...

Uma pena que as continuações não entenderam o que realmente fez sucesso nesse filme. Um marco mesmo. E me impactou ainda mais porque entrei no cinema sem saber absolutamente nada sobre a obra, nem sinopse ou trailer eu tinha visto.

bjs

Patt Baleeira disse...

Jean Reno, consegue me deixar com raiva,rs.
Blue Pill. Red Pill. Pilha Duracell. Oráculo.Incubadoras....São tantos aspectos fabulosos neste filme.
Ainda temos o 'delicinha' do Reeves.
Sabe, que este filme foi tema de uma das aulas da minha Pós em Psicologia Transpessoal.
Foi eleito como o filme que retrata 'fielmente', o mais próximo conflito da realidade real, transcedental e até transpessoal que vivemos.
Gosto dos figurinos, do conto de fadas, da ficção e Laurence(que está divino) ah! meu filme de cabeceira.
Adorei a maneira brilhante que você teclou, parabéns!!!!

besos.

J. BRUNO disse...

Olá Rodrigo, o primeiro filme da trilogia é de fato uma obra-prima, me impressionei com ele desde a primeira vez que o vi. Acho ele genial por conseguir misturar tantas referências, como você comentou, em uma história que ainda consegue ser inovadora. Uma pena que as sequências não se mantiveram à altura.

Abraço forte amigo e feliz páscoa!!!

Jefferson C. Vendrame disse...

Rodrigo, acredita que ainda não assisti? :/

Rodrigo Mendes disse...

Hugo: Sem dúvida!
Abs.

Amanda: Sei como é entrar num cinema e ficar entorpecido por um filme. Comigo aconteceu algumas vezes, provavelmente o mais marcante tenha sido "Cidade De Deus". A fórmula estava fadada a não ser superada nas continuações, aqui por exemplo, mas é claro que não é uma regra. Vide Star Wars: O Império Contra-Ataca, Aliens, O Resgate e outras surpresas hollywoodianas.
Bjs.

Pati: Fiquei curioso agora com relação a este ódio do Reno. rs Acho ele um ator versátil e sempre interessante.
Matrix foi modelo em muitos trabalhos acadêmicos, de fato. Em meu curso de comunicação (RTV) vira e mexe os professores comentavam sobre a trama como modelo, justamente sob o grande tema crítico da 'realidade' humana, etc.

Bjs.

Bruno: Feliz páscoa atrasado! rs

Matrix é genial justamente por toda essa hibridização amigo! Um marco.
Abração!

Jefferson: Acredito. rs
Não é sua praia, sei disso.
Abs.

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