"A Maior Trapaça do diabo foi convencer o mundo de que ele não existia".
Criminoso sobrevivente faz um acordo com a polícia e é interrogado. Ele começa a contar o que aconteceu em um navio acoplado no porto de Los Angeles (baía de São Pedro) na qual sucedeu um massacre maciço que envolvia outros suspeitos, drogas e com isso várias perguntas que precisam ser respondidas.
Os Suspeitos é um nome porreta pra filme! Recentemente, o diretor Denis Villeneuve (Sicario, Incêndios, A Chegada, Blade Runner 2049) realizou uma outra obra-prima de mistério e drama policial no filme Prisoners (2013), totalmente o oposto deste "Suspeitos" de 1995, mas igualmente intrigante. Curiosamente, ambos os filmes tem títulos originalmente diferenciados e não ao pé da letra. Os Suspeitos sempre soou melhor em português nos dois casos e que, aliás, a ideia do nome em inglês (que também é boa, admito) veio da famosa fala de Claude Rains no clássico dos clássicos de todos os tempos Casablanca (Michael Curtiz, 1942) onde ele diz: "Prendam os suspeitos de sempre!" - round up the usual suspects). Esta fita do então jovem diretor Bryan Singer (muito antes de se enveredar na saga X-Men e outros blockbusters, certamente uma mudança brusca de personalidade dentro de sua obra) que já é um clássico contemporâneo inspirado em Rashomon (1950), de Akira Kurosawa e nas fitas policiais e de gangster antigas em preto e branco (filmes de Cagney, Bogart, etc) é um envolvente quebra-cabeça que nos inspira em querer revê-lo diversas vezes e prestar atenção em nuances e até mesmo em pontas soltas que, no final das contas, acabam por divertir.
Diferente dos filmes de Martin Scorsese (aliás, Marty trouxe de volta o gangster clássico num cenário atual), Singer e o roteirista vencedor do Oscar Christopher McQuarrie (hoje trabalha em filmes para Tom Cruise. Foi diretor do recente "Missão:Impossível") procuram fazer algo original e ressonante com viradas e guinadas de roteiro súbitas e brilhantes. Há flashbacks e narração básicas, mas que ganham a sua grandiosidade com base em uma trama complexa. E, o mais fascinante; a criação de um personagem que é uma força onipresente durante toda a sessão: Keyser Söze - um diabólico criminoso que parece ter sido tirado das populares lendas urbanas do mundo do crime. Um nome que faz os bandidos do filme, assim como o espectador, tremer na base. Quem é Keyser Söze? Um questionamento que me faz querer mergulhar de cabeça no filme e não desviar os olhos da tela.
O filme começa quando as autoridades de Nova York (melhor cenário para um filme não há) seguem uma pista anônima e prendem cinco suspeitos com diferentes personalidades. E que elenco! O excelente Kevin Spacey (Beleza Americana, House of Cards, ganhou o seu primeiro Oscar [Ator Coadjuvante] ) no papel de um aleijado, a priori, digno de compaixão, e que, segundo o personagem: "As pessoas dizem que falo muito." Roger "Verbal" Kint, ótimo para arquitetar planos, ironicamente o cérebro da operação e que faz a narrativa à qual nos agarramos. Os outros quatro, Gabriel Byrne, Dean Keaton, mostra-se mais "chefe" do que Kint, um ex-tira desonesto que forjou sua própria morte. Byrne é importante devido a sua personalidade perfeita para interpretar anti-heróis e tem uma incrível presença no filme que já começa com sua morte (?) logo início; o ótimo Stephen Baldwin no papel de sua vida (mas já tinha visto ele no filme de minha adolescência, Três Formas de Amar, Threesome, 1994) como Michael McManus, e que acaba por ser, também, um alívio cômico, um bandido durão ligado a uma implacável quadrilha e parceiro de longa data de Fenster, o primeiro filme na qual notei o talento do porto riquenho Benício Del Toro (também alívio cômico, afinal. Sobretudo, na famosa cena em que, numa fila de identificação, tem que dizer: "Hand me the keys, you fucking cocksucker!", mas acaba rindo e não deixa de mostrar o sotaque carregado: ) e, finalmente, Kevin Pollack (Toddy Hocney - de filmes como "Questão de Honra", 1992 e "Cassino", 1995), um especialista em armas e hardware. Ele é um paradoxo de finesse com o típico fora da lei desprovido de boas maneiras.
O roteiro de McQuarrie é lindamente repleto de palavrões. Um trabalho em sua perfeição escrita assemelhando-se a David Mamet e Quentin Tarantino. É bom ressaltar, também, a maneira intricada da história. O filme verbaliza respostas inteligentes através das bocas de seus personagens machões e isso também é um ponto positivo da direção. Bryan Singer é confiante nesse ponto. Talvez tenha se inspirado em Cães de Aluguel ou em Os Bons Companheiros. O fato é que o grande ardil que o cineasta concebeu foi o de convencer o público (não somente de que o Diabo não existia) a assistir o filme logo em seguida. Rever Os Suspeitos cria-se uma ilusão quanto ao seu eletrizante desfecho, isto é, ao que sucede-se antes na qual podemos solucionar completamente o mistério. Contudo, a sacada do filme é não explicar e sim criar não só um, mas vários plot point sagazmente.
Além do trabalho do diretor e do roteirista, John Ottman (que trabalha em todos os filmes de Singer) desempenha funções que contribuem magistralmente. Até então, ao menos para mim quando recebi o filme pela primeira vez, era inusitado as jornadas duplas de editar (montar) e compor a trilha musical para um filme e Ottman faz algo difícil. Intricar as cenas e criar uma música depressiva (não sei o motivo da Academia ignorar quaisquer indicações à Ottman). O cara é tão multifacetado que até já dirigiu, embora sua experiência tenha sido o frustrante terror-teen Lenda Urbana 2 (Urban legends: Final Cut, 2000 e, que ironicamente, envolvia o aspecto de montagem de um filme arquitetada por um assassino de filmes de terror!).
Outro ponto alto da fita é a sequência objetiva na chacina no navio, na qual Verbal descreve o assassinado do colega Keaton (Byrne) por um homem misterioso (seria Söze). Obviamente não quero soltar spoilers, mas a tal sequência é uma especie de "reconstituição policial" durante o interrogatório e que é ao longo do filme, através de sábias passagens de tempo, recorrente e reexaminada. E ainda mais brilhante, imaginada por outro personagem importante, o interrogador de Kint, o agente federal vivido por Chazz Palmiteri (do ótimo "Desafio no Bronx", 1993, dirigido pelo amigo Robert De Niro, aliás, roteiro do próprio Chazz que havia escrito a peça teatral), um homem obcecado em desvendar a verdade e com uma arrogância que o faz afirmar veementemente uma teoria sobre a razão pela qual aqueles homens se juntaram em um fiasco homicida. Tal postura do ótimo Palmiteri faz com que o espectador cometa o mesmo erro. Uma estratégia hábil do roteiro.
Nada no filme é gratuito. Singer cria uma atmosfera moderna e urbana e pontua curtas cenas de ação violentas muito bem coreografadas sem fazer da carnificina no navio algo esquemático. Na verdade, toda esta sequência parece mais um filme de horror com a sombra de Keyser Söze se esgueirando pelo deck do que uma simples sabotagem e traição entre bandidos.
Os Suspeitos é um encontro fortuito e inspirador. Uma obra-prima do cinema. Afinal, um filme que profana o Diabo é algo que a gente nunca esquece.
Estados Unidos/Alemanha
Drama Policial
1h 46min.
U Bryan Singer
★★★★★
UM
FILME DE BRYAN SINGER
THE
USUAL SUSPECTS
Gabriel
Byrne Kevin Spacey Stephen Baldwin
Chazz
Palminteri Pete Postlethwaite Kevin Pollack
Benicio
Del Toro co-estrelando:
Susy Amis
Giancarlo
Esposito Dan Hedaya Paul Bartel
Carl
Bressier Phillip Simon Jack Shearer Christine Estabrook
Direção
de Fotografia Newton Thomas Sigel Música e Edição
John Ottman
Roteiro
Christopher McQuarrie
Produção
Bryan Singer Michael McDonnell
Direção
Bryan Singer
©
1995
Polygram
Filmed/Spelling Films International/Blue Parrot/Bad
Hat Harry/Rosco Film GmbH








8 comentários:
Eu não leio nada relacionado ao filme, simples, ainda não vi!
21thcenturycinema.blogspot.com.br
Embora Bryan Singer tenha feito filmes ótimos ao longo dos anos, entre bons dramas e filmes de foco mais comercial, "Os Suspeitos" é imbatível. Um de meus preferidos.
http://marcelokeiser.blogspot.com.br/p/top-10.html
abraço
Concordo, Marcelo. Os Suspeitos é aquele filme ressonante. A cada revisão uma espécie de epifania. Quando o filme é bem pensado, bem feito, ele dura pra sempre! Abraço.
Cleber, não perca mais tempo. Acredito que vai apreciar. Abraço.
É um filmaço. Assisti no cinema na época .
O roteiro é sensacional.
O "Da Ambição ao Crime" que comentei no blog está disponível no Youtube neste link:
https://www.youtube.com/watch?v=z_Obn1_HtlY
Vários filmes antigos você encontrará no Youtube.
Abraço
Hugo: Obrigado!
Vou assistir o filme pelo youtube e transmitir na minha TV via Chromecast.
Abraço e gratidão!
Bela análise, Rodrigo. Os Suspeitos é uma obra-prima dos filmes de suspense. É uma pena que Bryan Singer não conseguiu repetir todas as felizes escolhas que fez aqui.
bjs
Pois é, Amanda. Ele caiu de cabeça na série X-Men (não que todos da séries sejam ruins), se enveredou nas super-produções que a verve inicial se perdeu. Tentou fazer algo impactante com Operação Operação Valquíria, novamente com McQuarrie mas nem tudo naquela produção teve o êxito de "Suspeitos". Certamente só obteve prestígio com o seguinte "O Aprendiz", adaptação do King.
Bjs
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