sexta-feira, 19 de maio de 2017

Bryan Singer | Os Suspeitos (1995) The Usual Suspects

"A Maior Trapaça do diabo foi convencer o mundo de que ele não existia".


Criminoso sobrevivente faz um acordo com a polícia e é interrogado. Ele começa a contar o que aconteceu em um navio acoplado no porto de Los Angeles (baía de São Pedro) na qual sucedeu um massacre maciço que envolvia outros suspeitos, drogas e com isso várias perguntas que precisam ser respondidas. 


Os Suspeitos é um nome porreta pra filme! Recentemente, o diretor Denis Villeneuve (Sicario, Incêndios, A Chegada, Blade Runner 2049) realizou uma outra obra-prima de mistério e drama policial no filme Prisoners (2013), totalmente o oposto deste "Suspeitos" de 1995, mas igualmente intrigante. Curiosamente, ambos os filmes tem títulos originalmente diferenciados e não ao pé da letra. Os Suspeitos sempre soou melhor em português nos dois casos e que, aliás, a ideia do nome em inglês (que também é boa, admito) veio da famosa fala de Claude Rains no clássico dos clássicos de todos os tempos Casablanca (Michael Curtiz, 1942) onde ele diz: "Prendam os suspeitos de sempre!" - round up the usual suspects). Esta fita do então jovem diretor Bryan Singer (muito antes de se enveredar na saga X-Men e outros blockbusters, certamente uma mudança brusca de personalidade dentro de sua obra) que já é um clássico contemporâneo inspirado em Rashomon (1950), de Akira Kurosawa e nas fitas policiais e de gangster antigas em preto e branco (filmes de Cagney, Bogart, etc) é um envolvente quebra-cabeça que nos inspira em querer revê-lo diversas vezes e prestar atenção em nuances e até mesmo em pontas soltas que, no final das contas, acabam por divertir. 

Diferente dos filmes de Martin Scorsese (aliás, Marty trouxe de volta o gangster clássico num cenário atual), Singer  e o roteirista vencedor do Oscar Christopher McQuarrie (hoje trabalha em filmes para Tom Cruise. Foi diretor do recente "Missão:Impossível") procuram fazer algo original e ressonante com viradas e guinadas de roteiro súbitas e brilhantes. Há flashbacks e narração básicas, mas que ganham a sua grandiosidade com base em uma trama complexa. E, o mais fascinante; a criação de um personagem que é uma força onipresente durante toda a sessão: Keyser Söze - um diabólico criminoso que parece ter sido tirado das populares lendas urbanas do mundo do crime. Um nome que faz os bandidos do filme, assim como o espectador, tremer na base. Quem é Keyser Söze? Um questionamento que me faz querer mergulhar de cabeça no filme e não desviar os olhos da tela. 

O filme começa quando as autoridades de Nova York (melhor cenário para um filme não há) seguem uma pista anônima e prendem cinco suspeitos com diferentes personalidades. E que elenco! O excelente Kevin Spacey (Beleza Americana, House of Cards, ganhou o seu primeiro Oscar [Ator Coadjuvante] ) no papel de um aleijado, a priori, digno de compaixão, e que, segundo o personagem: "As pessoas dizem que falo muito." Roger "Verbal" Kint, ótimo para arquitetar planos, ironicamente o cérebro da operação e que faz a narrativa à qual nos agarramos. Os outros quatro, Gabriel Byrne, Dean Keaton, mostra-se mais "chefe" do que Kint, um ex-tira desonesto que forjou sua própria morte. Byrne é importante devido a sua personalidade perfeita para interpretar anti-heróis e tem uma incrível presença no filme que já começa com sua morte (?) logo início; o ótimo Stephen Baldwin no papel de sua vida (mas já tinha visto ele no filme de minha adolescência, Três Formas de Amar, Threesome, 1994) como Michael McManus, e que acaba por ser, também, um alívio cômico, um bandido durão ligado a uma implacável quadrilha e parceiro de longa data de Fenster, o primeiro filme na qual notei o talento do porto riquenho Benício Del Toro (também alívio cômico, afinal. Sobretudo, na famosa cena em que, numa fila de identificação, tem que dizer: "Hand me the keys, you fucking cocksucker!", mas acaba rindo e  não deixa de mostrar o sotaque carregado: ) e, finalmente, Kevin Pollack (Toddy Hocney - de filmes como "Questão de Honra", 1992 e "Cassino", 1995), um especialista em armas e hardware. Ele é um paradoxo de finesse com o típico fora da lei desprovido de boas maneiras. 

O roteiro de McQuarrie é lindamente repleto de palavrões. Um trabalho em sua perfeição escrita assemelhando-se a David Mamet e Quentin Tarantino. É bom ressaltar, também, a maneira intricada da história. O filme verbaliza respostas inteligentes através das bocas de seus personagens machões e isso também é um ponto positivo da direção. Bryan Singer é confiante nesse ponto. Talvez tenha se inspirado em Cães de Aluguel ou em Os Bons Companheiros. O fato é que o grande ardil que o cineasta concebeu  foi o de convencer o público (não somente de que o Diabo não existia) a assistir o filme logo em seguida. Rever Os Suspeitos cria-se uma ilusão quanto ao seu eletrizante desfecho, isto é, ao que sucede-se antes na qual podemos solucionar completamente o mistério. Contudo, a sacada do filme é não explicar e sim criar não só um, mas vários plot point sagazmente. 

Além do trabalho do diretor e do roteirista, John Ottman (que trabalha em todos os filmes de Singer) desempenha funções que contribuem magistralmente. Até então, ao menos para mim quando recebi o filme pela primeira vez, era inusitado as jornadas duplas de editar (montar) e compor a trilha musical para um filme e Ottman faz algo difícil. Intricar as cenas e criar uma música depressiva (não sei o motivo da Academia ignorar quaisquer indicações à Ottman). O cara é tão multifacetado que até já dirigiu, embora sua experiência tenha sido o frustrante terror-teen Lenda Urbana 2 (Urban legends: Final Cut, 2000 e, que ironicamente, envolvia o aspecto de montagem de um filme arquitetada por um assassino de filmes de terror!). 

Outro ponto alto da fita é a sequência objetiva na chacina no navio, na qual Verbal descreve o assassinado do colega Keaton (Byrne) por um homem misterioso (seria Söze). Obviamente não quero soltar spoilers, mas a tal sequência é uma especie de "reconstituição policial" durante o interrogatório e que é ao longo do filme,  através de sábias passagens de tempo, recorrente e reexaminada. E ainda mais brilhante, imaginada por outro personagem importante, o interrogador de Kint, o agente federal vivido por Chazz Palmiteri (do ótimo "Desafio no Bronx", 1993, dirigido pelo amigo Robert De Niro, aliás, roteiro do próprio Chazz que havia escrito a peça teatral), um homem obcecado em desvendar a verdade e com uma arrogância que o faz afirmar veementemente uma teoria sobre a razão pela qual aqueles homens se juntaram em um fiasco homicida. Tal postura do ótimo Palmiteri faz com que o espectador cometa o mesmo erro. Uma estratégia hábil do roteiro. 

Nada no filme é gratuito. Singer cria uma atmosfera moderna e urbana e pontua curtas cenas de ação violentas muito bem coreografadas sem fazer da carnificina no navio algo esquemático. Na verdade, toda esta sequência parece mais um filme de horror com a sombra de Keyser Söze se esgueirando pelo deck do que uma simples sabotagem e traição entre bandidos. 

Os Suspeitos é um encontro fortuito e inspirador. Uma obra-prima do cinema. Afinal, um filme que profana o Diabo é algo que a gente nunca esquece. 



Estados Unidos/Alemanha
Drama Policial
1h 46min.
U Bryan Singer
★★★★★


UM FILME DE BRYAN SINGER
THE USUAL SUSPECTS
Gabriel Byrne     Kevin Spacey     Stephen Baldwin
Chazz Palminteri     Pete Postlethwaite     Kevin Pollack
Benicio Del Toro     co-estrelando: Susy Amis
Giancarlo Esposito     Dan Hedaya     Paul Bartel
Carl Bressier     Phillip Simon     Jack Shearer     Christine Estabrook
Direção de Fotografia Newton Thomas Sigel     Música e Edição John Ottman
Roteiro Christopher McQuarrie
Produção Bryan Singer     Michael McDonnell
Direção Bryan Singer
© 1995
Polygram Filmed/Spelling Films International/Blue Parrot/Bad Hat Harry/Rosco Film GmbH

8 comentários:

Cleber Eldridge disse...

Eu não leio nada relacionado ao filme, simples, ainda não vi!

21thcenturycinema.blogspot.com.br

Marcelo Keiser disse...

Embora Bryan Singer tenha feito filmes ótimos ao longo dos anos, entre bons dramas e filmes de foco mais comercial, "Os Suspeitos" é imbatível. Um de meus preferidos.

http://marcelokeiser.blogspot.com.br/p/top-10.html

abraço

Rodrigo Mendes disse...

Concordo, Marcelo. Os Suspeitos é aquele filme ressonante. A cada revisão uma espécie de epifania. Quando o filme é bem pensado, bem feito, ele dura pra sempre! Abraço.

Rodrigo Mendes disse...

Cleber, não perca mais tempo. Acredito que vai apreciar. Abraço.

Hugo disse...

É um filmaço. Assisti no cinema na época .

O roteiro é sensacional.

O "Da Ambição ao Crime" que comentei no blog está disponível no Youtube neste link:

https://www.youtube.com/watch?v=z_Obn1_HtlY

Vários filmes antigos você encontrará no Youtube.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Hugo: Obrigado!
Vou assistir o filme pelo youtube e transmitir na minha TV via Chromecast.
Abraço e gratidão!

Amanda Aouad disse...

Bela análise, Rodrigo. Os Suspeitos é uma obra-prima dos filmes de suspense. É uma pena que Bryan Singer não conseguiu repetir todas as felizes escolhas que fez aqui.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Pois é, Amanda. Ele caiu de cabeça na série X-Men (não que todos da séries sejam ruins), se enveredou nas super-produções que a verve inicial se perdeu. Tentou fazer algo impactante com Operação Operação Valquíria, novamente com McQuarrie mas nem tudo naquela produção teve o êxito de "Suspeitos". Certamente só obteve prestígio com o seguinte "O Aprendiz", adaptação do King.

Bjs

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