quinta-feira, 1 de junho de 2017

Stanley Kubrick | Spartacus (1960)

EU SOU SPARTACUS!



O escravo e gladiador Spartacus lidera uma violenta rebelião contra o regime totalitário da República Romana.

Escravo. Gladiador. Guerreiro. Um personagem que já apareceu em diversos filmes, documentários e séries épicas. É sem dúvida um dos mais ressonantes. Serviu de inspiração para diretores como Ridley Scott quando concebeu o seu superestimado "Gladiador". Creio nisso, afinal, a storyline é muito semelhante. Mas, talvez o que poucos sabem é que ele de fato existiu. Em português é conhecido também como Espártaco (em latim: Spartacus) e pelo alfabeto grego: Σπάρτακος. Um dos homens mais misteriosos de toda a história. Um paradoxo: bárbaro ou herói? Viveu por volta de 109 A.C. até 71 A.C. Era de origem trácia e o líder da sanguinolenta revolta que se sucedeu após não suportar mais o tratamento contra os escravos. Causou uma revolta titânica na Roma Antiga num período que foi conhecido como A Terceira Guerra Servil. Por sua responsabilidade, um exército rebelde contou com cerca de 40 mil ex-escravos e gladiadores que passaram a saquear, matar, raptar romanos e gregos, enfim, numa contra-ofensiva violenta. Obviamente, Spartacus não terminou vitorioso. Perde a guerra contra as legiões de Crasso (e ou/ Crassus), que era um dos membros do primeiro triunvirato romano. Sentenciado a morte (na época eram ainda as crucificações), seus restos mortais permanecem na incógnita. Seu corpo nunca foi encontrado pelos líderes romanos...

DOUGLAS e KUBRICK 
Popular, a trama de Spartacus já foi utilizada em diversas obras. Sam Raimi produziu na Starz uma série extremamente gráfica, de sexo quase explícito e cenas de violência extrema no ótimo SPARTACUS (2010-2013), criado por Steven S. DeKnight na qual cada temporada contava com um subtítulo. O seriado é honesto ao evidenciar todo barbarismo da época. Obviamente que esta fita de 1960 e dirigida por STANLEY KUBRICK (1928-1999) é amena nessas questões. Parece mais um embate de xadrez do que simplesmente um filme de guerra. Certamente é o filme dentro da obra do diretor que mais se afasta de sua autoria, embora tenha muito de sua personalidade, não foi um projeto em que ele obteve o absoluto controle. Assumiu quando outro diretor foi dispensado pelo astro e produtor KIRK DOUGLAS. Trata-se de ANTHONY MANN (1906-1967), diretor de um outro épico, EL CID (lançado a posteriori, 1961) e de outros títulos importantes como o faroeste WINCHESTER' 73 (1950 - em minha opinião a sua obra-prima), além do musical MÚSICA E LÁGRIMAS (1954), um drama biográfico do musicista de jazz Glenn Miller e curiosamente um filme sobre Roma no regular A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO (1964) já na reta final de sua carreira. Citando alguns, eis os filmes deste outro importante cineasta. 

Embora tenha sido demitido de Spartacus pelo mandachuva Douglas logo depois do início das filmagens, algumas das cenas dirigidas por Mann no deserto foram mantidas. Coube a Kubrick, a tarefa árdua , e que aliás, só aceitou porque era uma grande oportunidade para ele (embora já tivesse se consagrado com GLÓRIA FEITA DE SANGUE, também estrelada por Douglas, obra-prima que já o colocara no panteão dos diretores), mas, por motivos de publicidade, era bom para a carreira do jovem Stanley. Assim sendo, assume um projeto repleto de estrelas de cinema (reza a lenda de que LAURENCE OLIVIER ( 1907-1989)CHARLES LAUGHTON (1899-1962) se odiavam e mal se falavam no set) e é claro, com vários outros problemas técnicos. 

Contudo, Kubrick assumiu o risco e cumpriu com brilho, dando vida à obra do escritor HOWARD FAST (1914-2003) e adaptada num roteiro sensacional de DALTON TRUMBO (1905-1976 - que estava na Lista Negra, mas que finalmente foi creditado!), isto é, nomes de peso por todos os lados. 

Kubrick combina cenas que tratam de disputas de poder no Senado (aliás, cenas extremamente bem dirigidas, sobretudo a dos rivais Olivier e Laughton) com outras que exploram os sentimentos de fraternidade existentes entre escravos. Gosto, por exemplo, da cena em que os gladiadores vão lutar até a morte a mando de duas romanas. Enquanto ouvimos dois deles lutando bravamente - só ouve-se os sons das espadas - Kubrick nos mantêm junto e dentro da "jaula" com Douglas e o ator negro, o ótimo WOODY STRODE (depois faria outra obra clássica, ERA UMA VEZ NO OESTE, de Leone) até chegada a hora do embate entre eles que culmina na ação principal de toda a trama. 



Tudo começou com Douglas. O audacioso ator e produtor procurava por uma história épica. Ele havia tido uma experiência em outro filme do mesmo gênero, tratava-se de BEN HUR (1959 - que acabou levando os 11 Oscars), do diretor William Wyler e Douglas insistiu que o papel principal deveria ser dele, mas Wyler escolhera Charlton Heston como o valente herói e ofereceu a Douglas o papel antagonista, o traiçoeiro Messala. Irritado, ele o recusou e assim decidiu ele mesmo fazer o seu filme épico romano a revelia de Wyler. Foi infantil, mas o que realmente aconteceu para fazê-lo prosseguir como artista independente. Douglas deu a "resposta" a produção de Ben Hur, sob a égide de sua firma, a Bryna Productions Company. Basicamente, Spartacus nasceria como sendo um filme diferente entre todos os épicos bíblicos daquela década. E a razão seria com uma fórmula simples: não haveria sequer nenhum tom religioso. Eis o motivo, também, que fez Kubrick aceitar dirigir o projeto tempos depois. E. não sei, mas talvez tenha sido essa divergência criativa que fez com que Mann tivesse problemas com o astro. Douglas negociara os direitos da controversa história que havia sido lançada pelo autor Fast em 1952, que se tornou uma leitura popular na cúpula comunista. Foi uma sábia decisão de Douglas contratar o homem ideal para escrever uma adaptação para à tela; o polêmico Dalton Trumbo, um dos membros dos Dez de Hollywood, que havia sido preso por se recusar a cooperar com o Comitê de Atividades Antiamericanas e que passou a assinar roteiros (a maioria de filmes B) sob pseudônimo e isso por mais de uma década! Douglas quem ajudou a destruir a tal Lista Negra ao permitir a Trumbo usar o seu nome nos créditos. Curiosamente, fui notar, anos depois (e depois de tomar mais conhecimento sobre a vida do roteirista ao assistir o ótimo  "Trumbo: Lista Negra", com Bryan Cranston) de que sutilmente há uma referência no roteiro mostrando os espiões da Era McCarthy. Próximo do final da fita, após a revolta ser esmagada e onde o tirano Crassus anuncia ameaçadoramente: "Em cada cidade e província, listas de desleais foram compiladas." 

TRUMBO 

Evidentemente, Douglas encontraria problemas com a escalação de Trumbo e a chata da Hedda Hopper (a colunista fifi que era amiga de Joan Crawford) denunciou Douglas e a Legião Americana fez piquete na pré-estreia em Los Angeles. O Caos estava armado! Mas, Douglas não deixaria barato e contratou Trumbo para assinar mais dois filmes de sua produção. Problemas e mais problemas e com um custo de 12 milhões, Spartacus foi até então o filme mais caro já feito. A saída de Mann fez com que o orçamento estourasse, mas daí chegou o jovem Kubrick e salvou Douglas de maiores encrencas. Concordando em não ser o "autor", mas deixando claro a sua marca como diretor em inventivas sequências. As lutas mostravam intensidade na violência, mas nunca de forma tola e gratuita, há no filme aquela vívida proximidade (sobretudo na cena em que o escravo desafia os romanos que os assistem lutar até a morte - mas admito que há um desfecho trash quando Olivier corta o pescoço de um deles e o sangue jorra em sua face!) e a climática batalha entre escravos e legiões de soldados romanos (havia ali mais de dez mil extras!), de fato, uma grandeza de tirar o fôlego. Kubrick tinha um elenco formidável, e finalmente Douglas se liberta totalmente como ator vivendo Spartacus. A sutileza nunca foi o seu forte, mas sua intensidade  incontida dá uma carga emotiva genuína às tiradas apaixonadas do personagem e, evidente, muito bem ajudado pela parceira de cena, a linda e exuberante JEAN SIMMONS (1929-2010) que deixa qualquer homem encantado quando entra na cela de Spartacus e lindamente fotografada num ambiente úmido e escuro ao som da bela melodia de ALEX NORTH (1910-1991) um dos mais subestimados compositores mesmo obtendo uma lista de 15 indicações no Oscar e mesmo sendo reconhecido quase no fim da vida com um prêmio honorário. Ainda, vitalidade maior, são os coadjuvantes. Além dos já citados Olivier e Laughton, PETER USTINOV (1921-2004) era um ator formidável. Ganhou o seu Oscar por este trabalho merecidamente e depois por outra beleza de fita; "TOPKAKI"(1964, de Dassin). A priori, o vemos como um dos vilões do filme e a bem da verdade, Ustinov é o que mais soube captar as podres maquinações do poder político na Roma antiga ou da sociedade contemporânea, diga-se, para quem quiser medir comparações. 

Provavelmente o pior ator do elenco principal seja o pobre e galã JOHN GAVIN (Psicose) como Júlio César. Um fraquíssimo Júlio César. O pior Júlio César que já vi na vida. Mas, vida que seque... 

com a colaboração de outro grande entre os grandes, está o magistral TONY CURTIS (1925-2010) corajoso ao fazer cenas homossexuais veladas  com Olivier (cenas estas que só foram adicionadas na restauração do filme!) e de assumir um papel evidentemente gay.  Curtis é o que mais me emociona no filme. Seu empenho é de um jovem que parece ter caído do céu, um anjo, justamente pelo modo como fala e sua inteligência e vulnerabilidade. Ainda no elenco, nomes como o de NINA FOCH (1924-2008) como Helena Glabus, a moça que causa o rebuliço na casa de Batiatus, HERBERT LOM (1917-2012) conhecido na série "A Pantera Cor-de-rosa", como Tigranes Levantus, além de Crixus, vivido por JOHN IRELAND (1914-1992) de filmes como o clássico de Hawks; "Rio Vermelho", de 1948, foi também um dos grandes nomes do cinema americano e JOHN DALL (1918-1971), o Marcus P. Glabrus, que também visita a casa de Batiatus, conhecido pelo cult noir "Mortalmente Perigosa" (também escrito por Trumbo, mas com o pseudônimo de Millard Kaufman) e como o Brandon de "Festim Diabólico" (1948, Hitchcock). 


O filme foi restaurado em 1988 e ANTHONY HOPKINS dublou os diálogos perdidos de Olivier. Spartacus continua sendo um trabalho soberbo de Kubrick, Douglas e Trumbo. Muitos vivem dizendo que Kubrick sempre foi um diretor frio, calculista e que seus filmes não priorizam a emoção. Essas pessoas não viram Glória Feita de Sangue, Barry Lyndon e certamente Spartacus. Para se ter uma amostra disto é só assistir a cena final em que Jean Simmons, a amada de Spartacus, Varinia, segura seu filho para que ele possa vê-lo antes de morrer crucificado ao lado de seus seguidores fiéis. Ela clama por sua morte para que o mesmo não sofra. E o filme termina. Os olhos já estão marejados.

Um filme de amor, dedicação. justiça e compromisso. 







Estados Unidos
Drama – Romance – Aventura – Biográfico
3h 17min.
U Stanley Kubrick
★★★★★





UNIVERSAL PICTURES APRESENTA
UMA PRODUÇÃO BRYNA

Um filme de   Stanley kubrick

Kirk Douglas ... COMO SPARTACUS
LAURENCE OLIVIER ... COMO CRASSUS
JEAN SIMMONS ... COMO VARINIA
CHARLES LAUGHTON ... COMO GRACCHUS
PETER USTINOV ... COMO BATIATUS
JOHN GAVIN ... COMO JULIUS CAESAR
E TONY CURTIS ... COMO ANTONINUS

SPARTACUS

CO-ESTRELANDO:
NINA FOCH    JOHN IRELAND
HERBERT LOM   JOHN DALL
CHARLES MCGRAW  JOANNA BARNES
HAROLD J. STONE  WOODY STRODE
PETER BROCCO  PAUL LAMBERT
ROBERT J. WILKE  NICK DENNIS
JOHN HOYT   FREDERICK WORLOCK

MÚSICA COMPOSTA E CONDUZIDA POR ALEX NORTH

MONTAGEM ROBERT LAWRENCE

DIREÇÃO DE ARTE ALEXANDER GOLITZEN

FOTOGRAFADO POR RUSSELL METTY . CLIFFORD STINE

ROTEIRO DALTON TRUMBO
BASEADO NO LIVRO DE HOWARD FAST

PRODUZIDO POR EDWARD LEWIS

PRODUTOR EXECUTIVO KIRK DOUGLAS

DIREÇÃO STANLEY KUBRICK


©1960 Universal City Studios /Bryna Productions, Inc.

9 comentários:

Pamela Sensato disse...

Obaaa mais um blog de filmes eu adoro!
Tudo bem Rodrigo???
Já estou seguindo viu.

Então eu não me recordo em ter assisto esse filme.....rsrsrsrs embora vejo que passa tv filmes parecidos mas nunca reparei se era esse.

Beijinhosss
Blog Resenhas da Pâm

Rodrigo Mendes disse...

Olá, Pamela! Seja muito bem vinda. Irei segui-la também.

Beijos.

Nequéren Reis disse...

Que maximo blog maravilhoso sobre filmes, sucesso arrasou,
bom final de semana, obrigado pela visita.
Blog: https://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br/
Canal:https://www.youtube.com/watch?v=DmO8csZDARM

Veronica Lucy disse...

Wonderful post, love it! :)
Maybe follow for follow? :)

veronicalucy.blogspot.com

Cleber Eldridge disse...

Um dos poucos do Kubrick que ainda não vi, o farei logo logo.

http://21thcenturycinema.blogspot.com.br/

Rodrigo Mendes disse...

Nequéren Reis: Opa, obrigado, querida! Arrasou em seu blog também. Vou me inscrever em seu canal. Beijos.

Veronica Lucy: Thx! Right. I'll follow you too! Xoxo

Cleber: Assista. É um grande filme. Não a obra-prima do Kubrick, até mesmo pelo fato dele ter aceitado dirigir um projeto que não era dele, mas é sem dúvida o melhor filmes épico sobre gladiadores e muito mais...

Abs.



Agnaldo Junior disse...

Show de bola,não acredito que não conhecia teu blog,show esse post,eu já assiti esse filme,faz muitooo tempo,mas eu curti bastante,já estou te seguindo,abraço,,
http://lorraneejunior.blogspot.com.br/

Amanda Aouad disse...

Mais um belo post, Rodrigo. Spartacus merece mesmo destaque. Destaco duas cenas marcantes, "Eu sou Spartacus" e "Ele é livre".

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Obrigado, Amanda.
Duas cenas belíssimas e de tirar o fôlego. E há quem diz que Kubrick era um diretor frio sendo que seus filmes são de uma emoção ímpares.

Beijos