quinta-feira, 13 de julho de 2017

Wolfgang Petersen | O Barco: Inferno no Mar (1981) Das Boot

CLAUSTROFOBIA SUBMARINA


Durante a Segunda Guerra Mundial; tédio, sujeira, medo, terror em um mundo claustrofóbico dentro de um U-boat alemão. Baseado no livro de Lothar G. Buchheim (1918-2007).


Antes de mais nada é preciso fazer uma breve retrospectiva do cineasta WOLFGANG PETERSEN que realiza este filme espetacular e que é o seu grande feito! Indicado a seis Prêmios Oscar, uma revolução em se tratando de filme estrangeiro. Foi, de fato, esta fita que deu fama internacional ao seu diretor - uma das mais caras produções alemãs. Petersen é mais comercial que Wenders e Herzog, não é menos talentoso, conseguindo fazer uma boa carreira em Hollywood com produções mainstream Classe A. Já se tornou assistente de direção aos dezenove anos durante sua fase teatral em Hamburgo. Estudou Arte Dramática e depois, já em Berlim, Cinema e Televisão por volta de 1964-66 até trabalhar na TV, para depois ingressar em curtas-metragens, além de ter escrito, também, peças infantis para o Rádio.  

Soube enveredar muito bem em diferentes gêneros; HISTÓRIA SEM FIM, de 1984, foi um daqueles filmes especiais de minha infância, aliás, fora uma produção anglo-alemã que trazia uma inteligente fábula para crianças sobre a importância da fantasia. Certamente, outra grande realização sua. Depois, seguiram-se diversos exemplos, o cult INIMIGO MEU (1985), estrelado por Dennis Quaid e Louis Gossett Jr., foi um projeto que ele assumiu depois que o diretor Richard Locraine foi demitido. Uma fita, a priori, esquisita, mas que foi ganhando a minha predileção ao passar dos anos. E, claro, Petersen é responsável por fazer de Harrison Ford Presidente dos Estados Unidos no divertido FORÇA AÉREA UM (1997) e Clint Eastwood um agente secreto no ótimo NA LINHA DE FOGO (1993). É dele também outro Thriller sobre um vírus mortal (depois reutilizado por Soderbergh em "Contágio"), EPIDEMIA (1995) um filme tipicamente "sessão super-cine", mas muito bom, com um elenco daqueles... Dustin Hoffman, Morgan Freeman, Rene Russo (quando ainda era estrela nos anos 90), além de dirigir um drama criminal em BUSCA MORTAL (1991), com Tom Berenger, Bob Hoskins e Greta Scacchi. Mas nada se compara com os seus filmes passados no mar, com exceção de TRÓIA (2004) uma super-produção épica que foi sucesso de bilheteria, e que é um bom filme, mas outro que é o meu favorito do diretor é sem dúvida MAR EM FÚRIA (2000), um drama de pescadores inspirado em fatos verídicos, estrelado por George Clooney, Mark Wahlberg e grande elenco e, que, segundo Petersen, o segundo de sua "Trilogia do Mar", iniciado em "O Barco" e concluída naquele que é a refilmagem irregular de POSEIDON (2006), mesmo que tenha tido êxito com efeitos especiais bacanas. Filmes que chamam a atenção? Sim! Contudo, nem todos deles são ressonantes como História sem Fim, por exemplo, e o melhor de sua filmografia ainda continua sendo; O BARCO: INFERNO NO MAR - DAS BOOT (1981)  - este que vos escrevo agora, uma poderosa premissa de uma tripulação de um submarino, baseado no livro semi-autobiográfico "Das Boot", de Lothar-Guenther BuchheimA perigosa viagem de ida e volta de uma embarcação alemã entre La Rochelle, na França ocupada, e a Espanha em 1941 e o medo e a claustrofobia debaixo do mar são recriados com realismo, enquanto o sentimento é decididamente anti-nazista.

Além das indicações da Academia, o filme foi transformado em uma mini-série de seis episódios  entre 1985-86. Outro fato curioso é que Petersen emprestou o submarino U-boat para o colega, o diretor STEVEN SPIELBERG , quando o mesmo rodava uma cena com Harrison Ford de OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981), a famosa cena em que Indiana Jones escapa à francesa do barco de Katanga e sobe no submarino nazista enquanto está prestes a submergir... 

Bem, voltando ao "O Barco"... é realmente impressionante o realismo criado por Petersen. Ele captura com riqueza de detalhes o autêntico medo de lugares confinados, o visual claustrofóbico e, mais incrivelmente, os efeitos sonoros de uma legítima guerra submarina. E, além do mais, é bom ressaltar que Petersen deixa de lado questões nacionalistas (mas cada espectador pode enxergar o filme pelo olhar político se assim almeja), mas o que vejo neste filme é o foco sobre a tensão de comandar um submarino em meio à guerra. Em outra palavras, só não o considero um road-movie porque ele se passa no mar. Mas, é basicamente a rota aquática em meio ao caos e o terror "torpedeado" da guerra! Uma batalha naval do ponto de vista interno do "barco". 

Não é um filme fácil de assistir, confesso. Toda a ação transcorre em sua maior parte no fedorento, escuro e úmido submarino U96 e para não soar repetitivo, mas já dizendo novamente, claustrofóbico! O tenente capitão Henrich Lehmann-Willenbrock, interpretado pelo sensacional ator JÜRGEN PROCHNOW - e que depois faria uma carreira sólida nos Estados Unidos - é um submarinista veterano na casa dos seus 30 anos e o seu comando é o mesmo de rotina e seguir ordens. É importante a forma como Prochnow (aliás, à época um verdadeiro galã com aqueles olhos azuis penetrantes) tempera a esperada liderança mantendo a disciplina,tendo mão de ferro como deve ser um verdadeiro capitão, mas, por outro lado, sutilmente humilde e que acredito ser verossímil. Já dizia aquele velho e conhecido ditado: quem vê cara não vê coração, algo assim, pois bem, ele é um homem que faz aquilo que tem que fazer, a exemplo, deixando os marinheiros inimigos se afogar em vez de recolher prisioneiros ou mesmo gritando com seus homens para obter relatórios objetivos mesmo quando o seu navio mergulha bem abaixo de seu limite, enquanto rebites da cabine estouram como tiros, enfim, apesar da situação que se encontra, não é um homem sem alma, coração. 

O roteiro trabalha lindamente a verdade emocional dos acontecimentos cruéis que está entre as linhas de suas entradas de diário de bordo. O mais curioso é saber que Paul Newman e Robert Redford eram candidatos ao papel de Prochnow. Seria um equívoco convocar atores internacionais, no caso americanos, para um personagem alemão que é feito por um ator, um patrício, tão bem personificado por alguém como Jürgen. Na verdade, o projeto ainda era uma co-produção Alemanha/Americana até finalmente ser totalmente uma produção da Alemanha Ocidental, mas que também é falada em inglês e francês. 

No excelente elenco de apoio está, HERBERT GRÖNEMEYER, o tenente Werner,  e que é hoje um bem sucedido músico de rock alemão e tendo feito trilhas sonoras de vários filmes, séries de tv e documentários. Seu personagem é baseado no autor Buchheim, que na ocasião foi correspondente de guerra e cujas memórias foram publicadas somente em 1973 e, obviamente, tornando-se um best-seller

E para se ter uma noção do orçamento deste filme foram utilizados três U-boats em escala construídos para satisfazer a produção. Gastando boa parte dos 14 milhões de dólares americanos, aliás, bem gastos, o que é visto na tela! Outro fato curioso é que o filme foi filmado sem som, já que, devido a acústica, era impossível gravar com som direto no interior dos submarinos. Sua versão legendada é considerada a definitiva e quanto os diálogos em alemão e inglês, bem, foram acrescidos posteriormente. 

O BARCO: INFERNO NO MAR é um realismo angustiante, uma experiência tanto sonora quanto visual que merece ser revista e contemplada por cinéfilos de todo o mundo, além de ser um dos grandes filmes sobre a temática da II Guerra Mundial. WWII sempre rende obras-primas! 


Alemanha Ocidental
Drama- Guerra-Thriller-Aventura
2h 29min.
U Wolfgang Petersen
★★★★★





Um filme de Wolfgang Petersen
DAS BOOT
©1981 – Radiant Film GmBh / SDR / WDR /Bavaria Film

estrelando: Jürgen Prochnow   Herbert Grönemeyer
Klaus Wennemann   Hubertus Bengsch  Martin Semmelrogge
Música Klaus Doldinger
Diretor de Fotografia Jost Vacano
Roteiro Wolfgang Petersen
Baseado em livro de Lothar G. Buchheim
Produzido por Günter Rohrbach  Michael Bittins
Dirigido por Wolfgang Petersen

2 comentários:

Amanda Aouad disse...

História sem fim também marcou a minha infância. Amei vê-lo no cinema na reprise do Cinemark. E gosto de alguns filmes de Petersen, ainda que os últimos como Tróia sejam complicados. Mas O Barco nunca vi, vai pra lista. Belo texto, como sempre.

bjs

Hugo disse...

Belo texto. Apesar de filmes irregulares nos últimos anos, Wolfgang Petersen tem uma ótima carreira e concordo que "O Barco" seja seu melhor trabalho.

A claustrofobia e a forma como a tensão cresce dentro do pequeno espaço do submarino são sensacionais.

Filmaço.

Abraço