quinta-feira, 11 de maio de 2017

Ingmar Bergman | Gritos e Sussurros (1972) Viskningar och rop

ENFERMA


Enquanto Agnes agoniza e a criada cuida dela, as duas irmãs vêm visitá-la na mansão familiar.  A doença de Agnes piora e o médico declara que ela tem pouco tempo de vida. 


Parafraseando Stravinsky: "Nunca entendi completamente uma obra de arte. Eu somente a vivi." A obra de Bergman (1918-2007) é o cinema em seu ápice. A perfeição técnica. Todos os seus filmes ecoam em minha mente e ele é um dos poucos cineastas que nunca errou a mão. Depois de publicar duas resenhas críticas do diretor (O Sétimo Selo e O Ovo da Serpente), grandes sucessos aqui no blogue, já estava mais do que na hora de escrever sobre outra obra-prima do mestre, este que é também um dos filmes mais essenciais da sétima arte: GRITOS E SUSSURROS, 1972. Uma verdadeira obra de arte em película. Acabada, perfeita, complexa, sujeita a mil interpretações e ainda assim simples e acessível ao nível de emoção. 

Fora premiado com o Oscar de fotografia (Sven Nykvist), indicado a filme, roteiro e direção. 

Bergman numa carta à equipe descreveu seus personagens centrais: "Agnes é a dona da casa, onde vive desde a morte de seus pais. Tem vagas intenções artísticas, pinta um pouco; tudo de maneira um pouco patética. Nenhum homem entrou em sua vida. Para ela, o amor foi apenas um segredo bem guardado. Perto dos 30 anos ficou com câncer e prepara-se para deixar o mundo com a mesma calma e resignação com que viveu.
Karin, dois anos mais velha, casou-se com um homem rico e mais velho e instalou-se em outra região. O casamento é um fracasso. Não foi tocada nem pelos cinco filhos nem pela tristeza de sua união. Mas dissimula um rancor contra a vida. Sua tristeza e desespero manifestam-se apenas em seus sonhos. 
Maria é a caçula das irmãs, rica e bem casada, com homem bonito e boa posição social. com uma filha mimada. Acha-se bonita e está satisfeita com as possibilidades de prazer que seu corpo oferece. Não tem a menor ideia do mundo que a cerca. Basta-se a si mesma e nunca é limitada por regras morais ou dos outros.
Ana, a empregada da casa, muito jovem teve uma filha e Agnes cuidou dela e da criança, criando um grande laço entre elas. A criança morreu quando tinha 3 anos, mas a amizade permaneceu. Ana é difícil e está sempre presente: tudo espia e tudo escuta. Nunca diz nada, talvez nem pense tampouco."



A ação acontece no início do século passado, porém é inútil precisar a data; as mulheres vestem roupas caras, que tanto as dissimulam quanto as valorizam e o figurino (da brilhante Marik Vos-Lundh) pretende estar de acordo com o desejo do diretor de sugerir sensualidade. 

A mesma coisa com a cenografia funcional que permite a iluminação, sugerindo "auroras que não parecem crepúsculos"; a luminosidade adocicada de um bosque; a misteriosa claridade indireta dos dias de névoa; a luz atenuada de uma lâmpada a querosene; a doçura dos dias de outono ensolarado; uma neve perdida nas trevas da noite e todas as sobras que se movem quando um personagem em particular atravessa um quarto rapidamente. 

Se hipoteticamente uma catástrofe destruísse a civilização humana bastaria que fosse preservada uma cópia deste filme para que os arqueólogos do futuro pudessem ter uma ideia precisa de todo o esplendor da natureza humana. 

Esta fita é um resumo de todos os temores, fraquezas, ilusões, misérias e alegrias da alma. É um grito louco, desesperado, urgente; uma prece sussurrada; um uivo de agonia; é o ser humano desnudo e impotente diante dos grandes mistérios para os quais não há resposta. E Bergman foi um gênio ao falar da vida, morte, felicidade, o relacionamento entre um homem e uma mulher, da fraternidade e das diferentes classes sociais.  O tempo impassível que devora as horas; tudo isso Bergman filtrou nesta sua obra-prima. Um filme que redime o cinema. 

Com tudo isso,  ao assistir, estamos diante de uma obra cinematográfica perfeita, ou seja, fica difícil com absoluta certeza fornecer explicações. Em outras palavras, é uma aula de cinema. São quatro atrizes extraordinárias, impossíveis de serem destacadas. Mas porquê o diretor utilizou um ambiente vermelho e fez as mudanças de cena sempre com essa cor? O próprio Bergman não soube explicar muito bem (uma das pautas discutidas em meu curso de cinema, em 2006, ministrado pelo saudoso Walter Webb, discutíamos sobre isso e ele me dizia o quanto Bergman não procurava se explicar). O que ele disse era de que lembrava de uma primeira imagem que teve: mulheres de branco andando por quartos vermelhos e, numa análise mais profunda, chegando a um velho mito infantil: a identificação da alma como uma grande membrana vermelha. 

Este é um filme diferente dos anteriores de seu diretor, primeiro porque as filmagens foram numa boa; depois, Bergman chegou a confessar, que foi tudo como um sonho. Disse: "deixei os personagens evoluírem como queriam, como sentiam - sem saber exatamente o que eu pretendia. Escrevi a trama para saber o que essas quatro mulheres, no quarto vermelho, queriam de mim. Por isso, me sinto um pouco médium". Mas também admite que foi sua primeira tentativa de retratar sua própria vida, descrevendo-a sob a forma de quatro figuras femininas diferentes. 

Há no filme uma cena autobiográfica: a da menina atrás da cortina branca que olha a mãe escondida. Bergman, novamente, explora o universo feminino, que considerava mais interessante. Duas cenas chocantes tornaram o filme famoso: quando Ingrid Thulin mutila-se com um caco de vidro para não ter relações com o marido e a agonia de Agnes (Harriet Andersson, aliás, ela e a saudosa Ingrid eram velhas parceiras de Bergman em muitos filmes, assim como a querida Liv); certamente um dos momentos mais angustiantes e realistas do cinema. 

Tudo é realizado à luz clara de um entardecer, pois, para Bergman, não existe nada mais aterrador que a luz forte do sol. O personagem da empregada Ana é o que mais surpreende (além de sua maravilhosa versão da obra Pietà de Michelangelo que é aqui recriada), já que representa outra classe e, por isso, é meio pária. Mas o importante é que ela ama de uma forma natural, instintiva, sem refletir e sem medir nada em troca. Não se importa em ser maltratada. O amor verdadeiro é quase sempre muito maltratado - confirma ele. 

O mais difícil de aceitar no filme é justamente a sequência em que Ana, depois da morte de Agnes, sente durante à noite seu grito de desesperado de socorro. Um apelo ao qual as irmãs - por falta de amor - são incapazes de atender. A explicação oficial do diretor é que "depois da morte, nada existe. Passa-se de um estado concreto ao nada absoluto". No último terço do filme passa-se de uma descrição real a um estilo de narração próximo da lenda ou da saga. Para depois retornar à realidade. 

Assim toda a cena de Agnes no leito poderia muito bem ser o sonho da empregada ou qualquer outra coisa. Fica o campo livre para qualquer interpretação. Diz Bergman: "Minha opinião pessoal; morreu. Morreu, graças a Deus". Essa explicação não me convence, se Bergman não acreditava em Deus, estava caminhando para isso. Quando o pastor fala de Agnes é como se o próprio Bergman pedisse socorro: "Se há algum Deus na plateia, que se apresente e nos ajude, a nós que ainda continuamos vivos". A partir daí o desespero de Agnes ou de sua alma atormentada - que não pode deixar aquela casa, no entender dos espiritualistas - só é superado, em sensibilidade, pela imagem final. 

As quatro mulheres andando no jardim; "Estar cercada das pessoas que se ama, isso deve ser o que chamam de felicidade", dizem elas. Talvez, estejam certos também os que enxergam em "Gritos e Sussurros" uma homenagem ao autor russo Tchecov que escreveu As Três Irmãs como um adeus à grandeza da burguesia decadente, o último suspiro de uma época pré-revolucionária. Ou mesmo os que admitem que o personagem de Thulin, essa dama intelectual e um tanto neurótica, tome frequentemente a forma de um auto-retrato do autor. A última palavra é dele: "Infelizmente somos e permanecemos analfabetos em termos de sensibilidade e de sensações morais. Todos nós bloqueamos nossos sentidos. Na escola aprendemos tudo sobre história ou matemática, mas nada sobre como funciona a alma e o espírito. 

Eis um filme para ver e rever por toda a vida. Não tenho certeza que eu mesmo entenda cada frame e nuance. Por isso mesmo citei Stravinsky e creio que continuarei citando-o enquanto assisto a qualquer filme do Bergman. 

Suécia
Drama
1h 31min.
 UIngmar Bergman
★★★★★



UM FILME DE INGMAR BERGMAN
CRIESAND
WHISPERS  
(VISKNINGAR OCH ROP)
Estrelando: HARRIET ANDERSSON  INGRID THULIN
KARI SYLWAN   LIV ULLMAN
ERLAND JOSEPHSON   HENNING MORITZEN
e GEORG ÅRLIN
Música CHOPIN e BACH
Direção de Fotografia SVEN NYKVIST
Montagem SIV LUNDGREN
Direção de Arte  MARIK VOS-LUNDH
Produção INGMAR BERGMAN – LARS-OWE CARLBERG
Roteiro e Direção
INGMAR BERGMAN
©1972 Cinematograph AB / Svenska Filminstitutet (SFI)


4 comentários:

Cleber Eldridge disse...

Olha, eu preciso de forma urgente assistir os filmes do Bergman, até agora não vi nenhum, mas o farei o quanto antes.

21thcenturycinema.blogspot.com.br

Rodrigo Mendes disse...

Cleber, obrigado pelo comentário.

Sua obra é pulsante e significativa para o cinema. Acredito que irá apreciar os seus filmes.

Abraço.

Amanda Aouad disse...

Oi, Rodrigo, sempre textos bons de ler, cuidadosos e completos. E Bergman é sempre Bergman, não é? Ainda que este não seja o filme que mais me encanta nele, é uma grande obra.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Amanda: obrigado, querida.
Bergman é indiscutível, quer dizer, ame ou odeie. O mais fascinante é viver os filmes de sua obra pq se formos tentar esmiúça-las acredito que perderá todo aquele encantamento. Não sei se tenho um favorito, já pensei muito a respeito. Certamente "O Sétimo Selo" seja, de fato, o filme mais ressonante. Qual seria o seu?

Beijos