quarta-feira, 29 de março de 2017

David Lean | Lawrence da Arábia (1962) Lawrence of Arabia

MIRAGEM CINEMATOGRÁFICA 
Nos anos de 1930, um homem sofre  um acidente de motocicleta. Logo após, conta-se a vida do lendário autor de Os Sete Pilares da sabedoria, T. E. Lawrence (1888- 1935), que teve importante papel na I Guerra Mundial lidando com os árabes. 


Uma falha pessoal é nunca ter resenhado antes um filme do mestre DAVID LEAN (1908-1991) certamente o diretor mais influente na visão de Steven Spielberg. E Lawrence é o filme que tem grande parcela de responsabilidade nessa influência. Dentro dos filmes mais bonitos, mais bem fotografados - trabalho de outro mestre, o diretor de fotografia FREDDIE YOUNG - em outras palavras, mais perfeitos, reserve sempre um lugar especial para os filmes, toda a obra de David Lean. Não há exceções. Nos últimos anos, ele começou a se tornar mais lento e mais exigente (vide outros cineastas, por exemplo, Stanley Kubrick, que também não conhecia a palavra atalho), mas mesmo em início de carreira não havia melhor contador de histórias que Lean. Seu passado como montador, dava-lhe já na cabeça toda a estrutura que precisava de que necessitava uma película. E, depois do sucesso mundial de A PONTE DO RIO KWAI (1957), ele conseguira o poderio de fazer superproduções e nesse quesito, à época, ninguém o superava! 

Contudo, o projeto desta obra-prima não foi fácil. Houve uma primeira tentativa em 1955 com o diretor Anthony Asquith, que seria estrelado por Dick Bogarde, mas foi abortado por causa de um golpe de Estado no Iraque. O produtor SAM SPIEGEL ( 1901-1985 - que também produziu A Ponte do Rio Kwai) é quem decidiu levar a ideia adiante, contratando, primeiro Lean, e depois o roteirista de O Planeta dos Macacos, MICHAEL WILSON e, em 1960, anunciou que o filme seria estrelado por Marlon Brando ( que trabalhou com ele em Sindicato de Ladrões - leia post no blogue). Mas Brando preferiu fazer a refilmagem de O Grande Motim. Ao mesmo tempo houve uma peça teatral sobre o personagem, escrita por Terence Rattigan e estrelada pelo grande ALEC GUINNESS. E ainda assim foi um grande feito um produtor judeu como Spiegel realizar um filme em território árabe. O que me faz pensar que no mundo do cinema quando é pra ser tudo está escrito. 



Antes de sua morte, Lean (já com o título de Sir) ainda teve tempo de supervisionar a restauração do filme - e foi aí que ele passou um tempo com Spielberg que o admirava -, que foi relançado em sua versão completa, incluída uma cena polêmica onde o herói era violentado pelo árabe interpretado por JOSÉ FERRER, deixando mais clara a orientação homossexual posterior do protagonista. 

Lawrence deve ser assistido em widescreen e de preferência numa televisão de cinquenta polegadas pra cima, onde pode-se contemplar melhor todo o seu esplendor visual. Pessoalmente, já admirava a fita, o DVD, e agora na mídia Blu-ray tudo fica ainda mais entorpecente.  

É bom ressaltar que o filme lançou de vez a carreira do até então desconhecido ator irlandês PETER O ´TOOLE (1932-2013), um querido artista que sempre foi um dos meus atores prediletos e felizmente o conheci assistindo-o pela primeira vez neste filme. Lean o havia descoberto num papel menor no filme O DIA EM QUE ROUBARAM O BANCO DA INGLATERRA (1960, direção de John Guillermin), depois de terem sido considerados para o papel após a saída de Brando nada menos do que outros grandes nomes: Albert Finney, Anthony Hopkins e inclusive Guinness, que era velho demais para o papel. 

O antigo Ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, Anthony Nutting, ajudou O´Toole a pesquisar o enigmático T.E. Lawrence e serviu de contato com os países árabes. Com seu cabelo pintado de loiro (e ainda uma operação plástica para tornar mais reto seu nariz), ele teve também de controlar suas lendárias bebedeiras para que Lean o aceitasse para o papel (depois o mesmo conta que  após o último dia de filmagens, foi beber num bar com o amigo Sharif). O problema, no entanto, nem eram as saideiras, mas as difíceis condições climáticas no set. Foi difícil durante as filmagens porque ele teve uma longa sucessão de queimaduras, ligamentos quebrados e outros problemas semelhantes. Além de ter sido mordido e derrubado por camelos diversas vezes. 

Na cena do acidente de moto, a última filmada, quase que o ator realmente morreu quando o veículo se desmontou inteiro. A arte querendo imitar a vida literalmente. 

O filme transformou outro integrante do elenco em astro, o egípcio OMAR SHARIF (1932-2015) e que mais tarde faria com o mesmo diretor, o papel título de DOUTOR JIVAGO (1965)

Todas as cidades (Damasco, Cairo, Jerusalém) foram recriadas na Espanha e, para interpretar mulheres muçulmanas, algumas foram realmente trazidas do Egito (se bem que são figuras participativas - do elenco principal somente homens) e também é o último filme importante de outra figura que integra o elenco masculino, o lendário ator CLAUDE RAINS (Casablanca, Interlúdio, O Homem Invisível) e que mais tarde faria papéis na TV e sendo seu último filme, o épico sobre Jesus Cristo "A Maior História de Todos os Tempos", de 1965 co-dirigida por Lean (sem créditos) numa produção de George Stevens. Aliás, Rains (e Guinness) foram dos poucos em destaque que não se puseram a passar cenas no deserto. 

O filme ganhou 7 Oscars: filme, direção, direção de arte em cores, fotografia em cores, montagem, trilha musical (o primeiro para MAURICE JARRE) e som, mas não de ator (O´Toole perdeu para Gregory Peck) nem coadjuvante (Sharif perdeu para Ed Begley). O filme custou na época a fortuna de 15 milhões de dólares. 


Lawrence é até hoje o exemplo perfeito de como fotografar um filme no deserto. Ninguém conseguiu fazer melhor e creio que nem tentará. Este é um filme definitivo também como biografia, que mostra muito e explica pouquíssimo. Falando de um personagem controvertido e ambíguo, que teve um papel político confuso e, por ter principalmente em sua alma um espírito de aventura, continua tendo um tom mais ficcional, sobretudo para o público atual. É um verdadeiro milagre que o filme sustente o interesse e por vezes até empolgue. É sempre graças ao trabalho de um diretor como Lean, que fotografa as dunas de maneira irretocável, a inesquecível tomada do trem turco, que se dá ao luxo de utilizar o calor da areia formando o que primeiro parece uma miragem e que aos poucos vai tomando forma, no que é a primeira aparição de Omar Sharif no filme, provavelmente a entrada mais impactante de um ator em cena. 

Grandioso sem ser grandiloquente, épico sem cair em exageros, histórico sem se tornar didático, Lawrence da Arábia é um obra-prima no gênero, de tal forma que fica difícil pensar num deserto sem a fotografia de Freddie Young e a música de Maurice Jarre

Inesquecível quando se assiste pela primeira vez. Essencial filme de cabeceira. Importante na vida cinéfila. 





















Inglaterra/Estados Unidos
Aventura- Guerra- Drama –Biográfico
3h 36 min.
Sony (Columbia)
U David Lean
★★★★★

COLUMBIA PICTURES APRESENTA

UMA PRODUÇÃO DE
SAM SPIEGEL-DAVID LEAN

LAWRENCE
OF ARABIA

estrelando: ALEC GUINNESS  ANTHONY QUINN 
JACK HAWKINS  JOSE FERRER  ANTHONY QUAYLE  
CLAUDE RAINS  ARTHUR KENNEDY

com: OMAR SHARIF como “ALI”

e apresentando PETER O´TOOLE como “LAWRENCE”

Montagem ANNE V. COATES, A.C.E.

Música MAURICE JARRE

fotografia de FREDDIE YOUNG, B.S.C. TECHNICOLOR®
FOTOGRAFADO EM SUPER PANAVISION 70®

direção de arte JOHN BOX

roteiro ROBERT BOLT e MICHAEL WILSON
a partir de "The Seven Pilars of Wisdom" de T. E. LAWRENCE

produzido por
SAM SPIEGEL

dirigido por
DAVID LEAN

©1962 Columbia Pictures/Horizon Picture

2 comentários:

Hugo disse...

David Lean, ótimo elenco, cenas de ação grandiosas, belíssima fotografia e trilha sonora.

Clássico absoluto, como são vários filmes de Lean.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Lean deixou um legado de obras-primas, Hugo. Sua dedicação e perfeccionismo valeram a pena. Fazer um filme antigamente era esperar pela luz natural nem que fosse necessário uma eternidade. O deserto nunca foi tão belo.

Abraço.