Melhor do que Proposta Indecente de Adrian Lyne ou Femme Fatale de Brian De Palma, ou mesmo Instinto Selvagem de Paul Verhoeven, Corpos Ardentes marca a estréia na direção do prestigiado roteirista Lawrence kasdan
(amigo de George Lucas, escreveu O Império Contra- Ataca e Os Caçadores Da Arca Perdida). Este filme confirmou o talento de William Hurt e revelou Katheelen Turner. Ambos tornaram-se estrelas. É triste ver que Turner teve problemas com a artrite, aqui ela esbanja sensualidade em excelente forma física. Outro ponto de Corpos e que atraiu kasdan, foi a falta de bons diálogos no cinema. Ele propôs um filme que usasse um tipo de diálogo brilhante, acentuando o estilo visual e montando um clima adequado ao melodrama. Por isso, fez a escolha certa, partiu para uma estilização (semelhante a Ridley Scott, diria) e não o realismo. O diretor tem outro filme cult: " O Reencontro", mas este é melhor.
Um brilhante trabalho de recriação do estilo 'Film Noir'. Um trabalho onde tudo é preciso, bem dosado e, ao mesmo tempo, original e acadêmico. Embora o filme tenha artifício modernos para 1981, segue uma linha tênue do clássico cinema hollywoodiano. Um roteiro muito bem escrito, no que propõe. Syd Field em seu "Manual do roteiro" - começo, meio e fim. O filme pode lembrar o também ótimo " O Destino Bate a Sua Porta" remake (no mesmo ano) dirigido por Bob Rafelson, com Jack Nicholson e Jessica Lange. Mesmo gênero, só que ainda mais bem feito. É o retorno da referência aos filmes policiais da década de 40, geralmente extraídos dos livros de James Cain ou Raymond Chandler. Todos tinham elementos fatalistas, uma 'femme fatale' que conduzia os homens ao crime e à ruína (usando a arma poderosa da vagina). Um reflexo da desilusão do imediato pós -guerra.
No entanto, Kasdan não quis simplesmente copiar ipisis literis o gênero existente ou muito menos parodiá-lo. Ele fez algo onde há muitas semelhanças daquela época em relação a sua geração que assistiu esses filmes de cabeceira. Talvez Kasdan achava que ia mudar o mundo, até descobrir que isso não era verdade. Ele tinha que trabalhar, retratar, como cineasta, coisas em que não acreditava. Há uma tendência em querer vingança da sociedade, arrumar a vida sem muita dor. Corpos, não é um filme naturalista, os personagens e as situações transcorrem em um mundo muito particular, fortemente influenciado pelos anos 40; seja na cenografia, vestuário e na belíssima trilha musical de John Barry (compositor dos filmes de 007).
A grande ideia foi situar a ação numa cidade pacata da Flórida, onde todos sofrem o efeito de uma onda de calor, o sexo fica favorável e factível. Não é por acaso que o filme começa com uma fumaça de um incêndio: é o passado do herói que queima futilmente e que todos se queixam do calor, como diz o Policial: " É uma atmosfera de crise, tempo de emergência". E que a heroína Matty , Kathleen Turner, ou melhor anti heroína, use sempre roupas brancas, a vestimenta tradicional das vamps. Quando ela entra na sala com uma saia vermelha, também é sinal de perigo. 'Corpos Ardentes' é um dos melhores filmes dos anos 80 mais ricos em clima, em sugestões visuais, refletindo as intenções do realizador.
O filme mais erótico, censurado, mas nunca explícito. Consegue transmitir de forma empolgante o envolvimento ardente do casal. Sua ligação sensual, se não justifica, ao menos explica o crime e o teor do filme.
Nesse ponto, roteiro e direção se casam magistralmente e fica muito bem marcado que Ned, William Hurt, o herói , a vítima da viúva negra, não prima pela inteligência. ( Pensa com o seu Pênis). O otário perfeito para Matthy. Mas se a trama tem um tom familiar, lembrando todos os filmes noir e, propositalmente Pacto de Sangue e Billy Wilder, todos os pontos de virada são surpreendentes e, o que é mais importante, convincentes.
Há uma excelente estratégia caracterizando os personagens secundários, tanto que os atores se transformaram em astros depois de Corpos Ardentes: Ted Danson do seriado 'Cheers' e do filme 'Três Solteirões e um Bebê'. Aqui ele faz o promotor e o sinistro e ótimo Mickey Rourke , o dedo-duro! Também o adequado uso de simbolismos, como a primeira vez que Ned vai à prisão, uma porta fecha-se atrás dele, já profetizando seu destino. Eu gosto disso em filmes. Há um densidade de detalhes, uma visualização brilhante de cores, na qual só assistindo para sentir as sensações de puro prazer. O calor dos amarelos, dos marrons e dos vermelhos dão lugar aos azuis e cinzas quando a história se torna trágica. É um filme que oscila para o tenso e o leve.
O ponto alto: a sucessão e apogeu cult de Corpos Ardentes deve-se a William Hurt, então pouco conhecido que depois ganharia o Oscar no estranho filme de Babenco - O Beijo Da Mulher Aranha. Um ator cuja técnica impecável nunca esconde sua humanidade. Uma interpretação (merecia o Oscar aqui como Ned) de tanta qualidade que chega a ofuscar a revelação da estreante Kathleen Turner, então magérrima, linda e que a partir deste longa se tornaria a mulher mais sensual e sedutora e a atriz mais interessante daquela década da moda jeans e K-7.
EUA- 1981
114'
Roteiro : Kasdan
Distribuição Warner Bros.
Produtora: Ladd
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
UM FILME DE
LAWRENCE KASDAN
WILLIAM HURT. KATHLEEN TURNER
BODY HEAT
Também Estrelando Richard Crenna. Mickey Rourke e Ted Danson
Fotografia de RICHARD H. KLINE Música de JOHN BARRY
Direção de Arte BILL KENNEY Montagem CAROL LITTLETON
Produtor Executivo GEORGE LUCAS -Sem Créditos -
Produzido por FRED T. GALLO
Produzido por FRED T. GALLO
Produtor Associado ROBERT GRAND
Escrito e Dirigido por
LAWRENCE KASDAN



8 comentários:
Rapaz, você me incentivou a ver esse filme!
Já havia lido bastante a respeito; tratam-no como um grande filme, incendiário de desejos. Quero vê-lo logo, contemplá-lo, afinal, sua resenha me fez crer que seja um filme para se apreciar, não somente "assistir".
Não vou me arrepender, né?!
=)
Luís
O filme é considerada umas maiores estréias de um diretor na história do cinema, perdendo talvez apenas para Orson Welles em "Cidadão Kane".
Abraço
Muito boa a resenha, bem apimentada! hauahauaha!
O filme é muito bom mesmo, roteiro ardente, elenco conciso...
Preciso até revê-lo!
Abraço
Não conheço o filme, mas você me instigou a conhecê-lo, pois, assim como tu, gosto de uma película que contenha densidade de detalhes e que abuse de simbolismos como recursos estéticos.
Abraço!
Luis: Confie no Rodrigo aqui e assista! Abs amigo!
Hugo: Closer to Kane, foi mesmo, pena que o Kasdan fez depois algo como " O Apanhador de Sonhos" =/
Abs!
Cris: Apimentei bem né? rs! Obrigado amigo abs!
Danilo: Este é o fime que tu gosta, ele é "It Was Red", rs! Será de cabeceira. Confira! Abs!
Oi Rodrigo!
Como citei no texto anterior, este filme é excelente para vc ver num belo escurinho, muito bem acompanhado.
Brincadeiras a parte, o considero uma boa opção. A história muito bem escrita, direção competente do Lawrence Kasdan, elenco afinadíssimo e a Kathlen Turner, um furacão de sensualidade. Realmente, uma pena, ela não ter conservado a beleza, o tempo não foi amigo dela. Outra atriz que não envelheceu bem foi a Daryl Hannah, tão linda em Splash, hj ta muito feia.
Enfim, excelente texto e uma ótima dica para os amantes do cinema.
Um abraço.
Cintia: Realmente a kathleen Turner teve azar. mas ele teve artrite sério. Em KIll BIll nota-se como a Daryl Hannah estragou seu corpo,rs!
Bjs!
Oi, Rodrigo
"Corpos ardentes" é uma pequena obra-prima, com um roteiro de tirar o chapéu e uma dupla de protagonistas invejável.
Mas eu adoro "O reencontro", também, pena que não saiu em dvd no Brasil.
Grande abraço
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com
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