sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

ALFRED HITCHCOCK | INTRIGA INTERNACIONAL

PADRÃO HITCHCOCK DE QUALIDADE


O mestre do suspense sempre foi fascinado pelo glamour, essa é sua marca registrada. Intriga Internacional pode ser considerado o último filme de Hitchcock em grandes tomadas Technicolor.


A premissa desta charmosa e engraçada obra-prima esta envolta de um sujeito, confundido por um homem que não existe, no caso o herói é um publicitário de Manhattan com sua própria secretária particular, um homem distinto, elegante e atraente personificado pelo igualmente astro com essas características, Cary Grant em seu quarto filme com o mestre, os anteriores foram: Suspeita, 1941 com Joan Fontaine; Interlúdio, 1946 com Ingrid Bergman e Ladrão de Casaca, 1955 com Grace Kelly. Este homem envolve-se em uma trama surreal por um espião (James Mason) e uma agente dupla feito pela bela Eva Marie Saint (que obviamente acaba se apaixonando por ele). No filme Grant é acusado de sequestro e assassinato, por isso, o cara é perseguido pelas autoridades do país. O filme apresenta a memorável sequência por um avião em uma plantação de milho e o clímax no alto do monte Rushmore.


O que mais posso dizer deste, thriller, com performances maravilhosas, tecnicamente perfeito, com dose certa de humor Hitchcockiano, com locações magníficas, com ótimas cenas de suspense e ainda com uma pitada de sexo?
Intriga Internacional une todos esses elementos no filme que está no topo entre os melhores de Hitchcock. A fita, agora muito bem restaurada comemorando os seus 50 anos de vida trás excelentes curiosidades da produção e um perfil perfeito do padrão de elegância e qualidade da obra de Hith.


Um dos elementos curiosos nos filmes do mestre é o objeto sem importância. Há sempre algo em cada filme de Hitchcock que significa muito para os personagens, mas não faz o menor sentido para o espectador, e de fato, não precisa fazer sentido, visto que, em I.I. há um objeto que muda os rumos dos personagens - neste caso, um microfilme que só aparece no final e que liga o motivo dos porquês que eles faziam tudo aquilo. Todavia, quando a gente assiste, isso não faz diferença, pois o filme é recheado de cenas tão cinemáticas e situações tão surreais que este objeto acaba sendo indiferente. Hitchcock chamava este termo de Macguffin, ou seja, algo que os personagens buscam, mas que a plateia realmente não está interessada, ou mesmo é induzida a não interessar-se. Este objeto faz o enredo se desenvolver do ponto de vista dos personagens no filme ( é como se os personagens estivessem se assistindo). Estes artefatos de cenas dos filmes do mestre, eram meros disfarces - este "microfilme" acaba sendo o motivo (para Cary Grant) de toda perseguição e intriga. Questionado sobre a questão, Hitchcock respondeu a real pergunta com sua leve pitada de humor e a resposta fora uma piada sobre um sujeito que está em um trem e vê um artefato estranho e diz: " Senhor, o que é este pacote estranho em cima de sua cabeça?" "Isso?" , responde o homem que diz: " ah, meu jovem é um Macguffin." Então o sujeito diz: "Mas o que é isso, e para que serve?" E ele: " Serve para prender leões nas montanhas escocesas." Ao que o outro homem disse: "Mas senhor, não há leões nas montanhas escocesas." E o senhor responde: "Então isso não é um Macguffin."


Este humor macabro, ferino e poucas vezes leve, faz parte da marca de Hith e o que torna a sua obra mais fascinante. Sempre elegante, inteligente, um verdadeiro cavalheiro inglês. Intriga... é um dos filmes em que o humor é uma pausa perfeita antes do choque. Este humor está presente em grande parte do filme. Grant era um ator tão performático ao pastelão que Hitch foi quem insistiu em escalá-lo. Apenas Grant poderia correr do jeito que corre na famosa cena quando é perseguido pelo avião numa estrada deserta filmada em East Bakersfield, Califórnia. Aliás esta sequência é considerada a melhor sequência de ação da história do cinema, por ser magistral em trabalhar efeitos sonoros e cortes. Ela tem 8 minutos do mais puro silêncio e depois um som vibrante do avião que faz o herói acabar entrando numa velha plantação de milho, correr de volta a estrada e praticamente quase morrer atropelado ao pedir socorro a um caminhão tanque que por ali passava ao longe. O avião se choca com o caminhão e há uma deslumbrante explosão atrás do herói que corre magnificamente. Realmente é pura comédia ver Grant correr do jeito que corre e ele faz isso durante metade para o final da trama.

No filme há outros momentos clássicos, como foi dito, a cena final no alto do monumento Rushmore com os rostos esculpidos dos presidentes americanos, filmada em locação na Metro. Um set incrível e muito bem feito. E o falha nossa clássico, na cena em que Eva Marie atira em Grant, no fundo há um garotinho figurante que se antecipa e tapa as orelhas antes dela dar o tiro.


A fita custou 3 milhões de dólares, padrão alto para época. O estúdio desenhou os figurinos de Eva Marie, mas Hitchcock recusou todas as sugestões, então ele foi pessoalmente numa loja chique de Nova York e escolheu todo o guarda roupa da estrela. Pode-se dizer que o figurino dela foi "desenhado" por Hitch. A cena no prédio da ONU foi filmada sem autorização. Quando Grant sai do Taxi e entra no prédio, Hitch esconde uma câmera num caminhão de tapetes e filma escondido toda a cena.


O elenco está formidável, é co- estrelado por Jessie Royce Landis que interpreta a mãe de Grant ( na vida real ela era apenas um ano mais velha que ele) além de James Mason, como um vilão frio e sofisticado que é subordinado pelo assassino que sempre abre seus olhos, feito pelo estreante Martin Landau. Além do casal protagonista Grant e Eva Marie que tem uma ótima química sexual (a cena final eles fazem amor, mas não vemos, aliás nunca vemos, no entanto Hitch termina o filme com um trocadilho visual engraçado que tira risos do espectador, uma alusão ao sexo: O trem está entrando no túnel).
 Eva Marie revelada em Sindicato de Ladrões de Elia kazan disse como ela foi dirigida por Hitchcock, e isso me fez conhecer mais os métodos do cineasta e me reavaliar, observando os tracejo de outras obras dele. Segundo a atriz, ele não era como Kazan, que sussurrava uma direção particular maravilhosa no seu seu ouvido. Hitch era mais cinemático e técnico e deu à ela três dicas na direção: 1) abaixe sua voz; 2) não use as mãos e 3) sempre olhe nos olhos de Cary Grant. Aí eu revejo as suas "loiras" em outros filmes seus. O quanto elas eram sedutoras, frias, calculistas e românticas. É um híbrido de personalidades nestas mulheres. Uma preferência, um fetiche no inconsciente do cineasta? Sempre as loiras tem os melhores papéis em seus filmes, geralmente as morenas não dão certo nas tramas Hitchcockianas. Eva Marie é a agente dupla perfeita, assim como Janet Leigh fora a ladra perfeita em Psicose.

Tudo isso são aspectos que fazem um filme de Hitchcock um padrão de qualidade. O charme, os trocadilhos humorísticos ou simples humor macabro, as vestimentas elegantemente para as situações mais estranhas, e acima de tudo, o misto de suspense. Não há um sucessor que faça do suspense uma marca, uma obra de arte. Hitch foi o precursor neste quesito, o primeiro cineasta visual a ousar.


Visualmente perfeito, o filme tem uma tomada fantástica mostrando um edifício em plongée. Intriga Internacional é uma perseguição dos diabos, um filme de ação e uma corrida sensacional cheia de emoções, e após cinquenta anos não envelhece, é como vinho só melhora. E embora os filmes de Hitchcock se passam nos anos dourados, a premissa continua moderna. Deliciosa e apavorante a cada sessão. Um dos pesadelos mais convincentes que eu já experimentei. O máximo da genialidade de Alfred Hitchcock reunindo em um só filme elementos fundamentais em sua obra. 

 

'Intriga Internacional' - North By Northwest
de Alfred Hitchcock
EUA - 1959
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



MGM APRESENTA
ALFRED HITCHCOCK´S
Estrelando: 
CARY GRANT   EVA MARIE SAINT  
JAMES MASON
Co- estrelando: Jessie Royce Landis
Leo G. Carroll. Martin Landau 
Josephine Hutchinson
Fotografia de Robert Burks
Edição George Tomasini Direção de Arte Robert Boyle
Sequência de créditos Saul Bass 
Música de Bernard Herrmann
Roteiro de Ernest Lehman 
Dirigido por  
ALFRED 
HITCHCOCK


4 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Sem dúvida o universo Hitchcock me atrai, como você deixou claro: jamais envelhece! Ele realmente sabia conduzir seu fetiche pelas atrizes loiras!

Gostei da forma como inclui as curiosidades da produção e concebimento do filme aqui, mas poderia falar mais um pouco do psicológico dos personagens! Roger O. Thornhill e Eve Kendall tinham pontos interessantes a serem abordados..mas, deixa, eu vou postar sobre este filme futuramente e falarei minha visão quase "erótica" dos dois, rsrs

Belo texto seu, como sempre!

abraço!

Anônimo disse...

CAra, estou no meio de uma maratona Hitchcock e vc acredita que não gostei tanto de Intriga Internacional? Digamos que é um blockbuster hitchockiano e isso, sem dúvida, quer dizer qualidade. Há momentos de tensão ao limite, como a cena na estrada, mas me pareceu um filme excessivamente longo e cansativo, coisas nem um pouco comuns na filmografia do mestre.

abraçs

Rodrigo Mendes disse...

Cris,
fale sim! Quero ver seu lado sexy pimenta deste filme. Na verdade não quis abordar este lado psique das personagens. Queria falar mesmo do aspecto visceral e imagético do filme...

...o que me leva a responder o comentário do Intratecal,
respeito sua opnião,mas descordo, visto que I.I. é o mais direto filme de ação do mestre. Como Longo e cansativo?
Reveja..amigo vale a pena ver de novo, rs!

Abs! e valeu os coments.

Cristiane Costa disse...

Oi Rodrigo,

Muito elucidativo o seu texto e mostra que você domina e vive Hitchcock e, adoro intriga internacional. Parabéns, foi um deleite!

Vou assistí II para expor meu ponto de vista, aliás, tenho um forte tesão por Cary Grant, pena que não sou loira, mas sou romântica, calculista, fria e sedutora rsrs...

Penso que esta questão do objeto sem importância é um lance interessante porque provoca o fator surpresa na audiência e/ou pelo menos move a ação dos personagens como se a atenção ao objeto fosse um tipo de neurose. Gosto disso! E Só lamento Hitchcock não gostar das morenas.

bjs!

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