sábado, 20 de fevereiro de 2010

DAVID O. SELZNICK | E O VENTO LEVOU

AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA
Obviamente o ano de 1939 foi o melhor de Hollywood em grande atividade.

É curioso falar desta obra prima de Margaret Mitchell que tem muito em comum com a obra infantil de L. Frank Baum - O Mágico de OZ, ambos falam da importância do lar, e foi apenas uma coincidência (o acaso existe) que o diretor VICTOR FLEMING tenha assumido o papel principal na direção destes filmes clássicos e grandiosos em 39.
Já falei do ano de 1939 e de OZ aqui, agora é o momento certo para resenhar E O VENTO LEVOU, pelo fato de me encontrar na situação romântica e clássica, há muito tempo queria escrever sobre a produção deste filme único hollywoodiano. A perfeição em película e o melhor exemplo de um trabalho de equipe.
Sim, leitor, comprei recentemente o pack do filme, edição de aniversário 70 anos! E devo dizer que devorei os extras, assisti minuciosamente cada documentário à respeito desta fita magistral.

O que mais posso dizer de E O Vento Levou? Curiosamente minha postagem anterior fala do filme do mesmo produtor independente DAVID O. SELZNICK que reinou absoluto na década de 30 e 40, responsável por clássicos inestimáveis ( Retrato de Jennie), este é absoluto!

Na premissa de .. e o vento.. a guerra civil estadunidense leva à ruína, uma família rica - sulista orgulhosa de sua terra chamada TARA. A filha deles, Scarlett O´Hara, faz de tudo para salvar o lugar (seu LAR), chegando a se casar três vezes sem amor, para sustentar a família e manter Tara.


O enredo parece simples nas palavras, mas extremamente difícil na execução, e durante décadas E O vento Levou foi o filme de maior bilheteria de todos os tempos (antes de surgir um certo James Cameron). Na verdade, se hoje forem feitos os cálculos de inflação, de aumento de população e do preço dos ingressos; ainda deve manter o posto. Nem que seja resquícios, mas estará lá no ranking.

Certamente é o que de mais impressionante e notável Hollywood já produziu, pra mim ultrapassa os filmes épicos de hoje com toda tecnologia atual. E o Vento Levou é tecnologia da presteza, trabalho árduo e magia. O mais curioso é que o filme não é obra de um único diretor, ou seja, o suntuoso e artesão Victor Fleming, ou mesmo de um grande estúdio. Foi criado, produzido e finalizado por um produtor independente, SELZNICK, e a METRO - a marca do LEÃO - só ficou com os direitos de distribuição (outro feito parecido nesta categoria - George Lucas com Star Wars), porque o público exigiu que CLARK GABLE, astro do estúdio, fizesse o papel central.


E o vento...surgiu primeiro como best-seller (mais vendido) escrito por uma senhora de Atlanta, Georgia, MS. MARGARET MITCHELL. Selznick comprou os direitos do livro e realizou uma das campanhas publicitárias mais longas, durou anos, promovendo a procura dos atores ideais para os personagens. Fora Gable, a escolha de OLIVIA DE HAVILLAND (AINDA VIVA!) e LESLIE HOWARD, que fazem o outro casal, foi tranquila. O problema foi encontrar uma moça para a figura central de Scarlett O´Hara. Houve dezenas de garotas testadas, entre elas, KATHERINE HEPBURN , JEAN ARTHUR e a favorita, PAULETTE GODDARD. Mas quando é para ser... a escolhida foi uma jovem inglesa desconhecida que estava em Hollywood com o namorado LAURENCE OLIVIER e foi assistir a rodagem desta primeira cena, o incêndio de Atlanta, interpretada por uma dublê. E a escolha não podia ser mais acertada.


VIVIEN LEIGH tornou Scarlett inesquecível. Coquete, fútil, vaidosa, ela também é uma mulher de uma força e personalidade inquebrantável, capaz de tudo, até enfrentar soldados inimigos para defender sua família e sua casa de fazenda, Tara. É capaz de tudo, até mesmo de casar-se três vezes sem AMOR. Mas mesmo sendo tão esperta para sobreviver, é também estúpida e cega, não é capaz de reconhecer e conservar o verdadeiro amor de sua vida, Rhett "Gable" Butler... só vê isso quando é tarde demais..na última cena!

Já disse, embora assinado por Victor Fleming (Dois no Céu; O Mágico de Oz), E O VENTO LEVOU foi dirigido por vários outros ótimos cineastas, em particular, o diretor de arte WILLIAM CAMERON MENZIES ( que depois fez o clássico " Invasores de Marte"), SAM WOOD e GEORGE CUKOR - que iniciou a fita mas foi dispensado a pedido de Gable ( reza a lenda que os dois se detestavam). No entanto, foi Selznick o precursor desta obra adaptada e quem lhe deu o formato definitivo. Fora ele quem brigou com a censura para deixarem usar uma palavra proibida ao final na frase: " Frankly, my dear, I Don´t give a Damn", e que fez o filme mais longo do cinema até então, com 222 minutos.
Premiado com os Oscars de filme, atriz (Vivien), direção (Fleming), atriz coadjuvante ( a primeira negra a ganhar um Oscar - HATTIE McDANIEL), roteiro adaptado, direção de arte, fotografia COLORIDA ( SIM, existia esta categoria, rs!), montagem e o prêmio THALBERG para Selznick; além de outro Oscar especial para o diretor de arte William Cameron Menzies.

Curiosamente (como Dicaprio - lembrando outro colosso Titanic) Gable não ganhou o Oscar naquele ano, perdendo para ROBERT DONAT por Adeus, Mr. Chips (outro exemplo maravilhoso de 39). O filme teve uma continuação feita para TV, em 1994, chamada SCARLETT, com JOANNE WHALEY e o James Bond TIMOTHY DANTON, porque os direitos autorais do livro estavam prestes a cair em domínio público, por isso fizeram esta grosseira porcaria.

E o vento...foi a obra - prima de arte cinematográfica que o produtor Selznick (1902-1965) não conseguiu repetir com o mesmo êxito colossal. Passou o resto de sua existência, fazendo fitas para a sua amada esposa JENNIFER JONES ( O Retrato de Jennie - é cult) e tentando provar para o mundo que ele era algo muito mais além do cara responsável pelo sucesso mundial de E o vento levou. O que não foi pouco. O maior feito dele é, sem dúvida, a escolha do elenco. Não há risco em afirmar que o filme não resistiria sem Vivien. Leitor você descorda? Acho Vivien Leigh uma das mulheres mais lindas e sensuais do cinema, uma lenda viva. E que por outro lado, Gable é o Rhett Butler ideal, melhor que os concorrentes ao papel: RONALD COLMAN, GARY COOPER e ERROL FLYNN ( este que sempre teve cara de ROBIN HOOD).

Se o filme tem alguma falha é justamente tentar convencer que Scarlett seria capaz de ficar apaixonada por Ashley tanto tempo, especialmente, porque, e me desculpem, o personagem é feito pelo feioso, inespressivo e pálido magrecela - Leslie Howard. Além de tudo, ele era velho demais para ser galã.

Ninguém se conforma com a cegueira histérica de Scarlett "Vivien" O´Hara, quando o marido Rhett - tão evidente sintonia de virilidade - está apaixonado por ela e a heroína insiste em perseguir o outro, casado com sua melhor amiga, a doce Olivia de Havilland e como diz Rhett no filme: " Uma dama". Havilland está irretocável como a benevolente Melanie, que como diziam os diálogos: " É boa demais para ser verdade."

Há problemas também com o alívio cômico que parece excessivamente marcado, como quando: na lua de mel de Scarlett, em que ela come como uma camponesa ou nos trejeitos cômicos da adorável criada negra Prissy, feito por BUTTERFLY McQUEEN, são racialmente discutíveis. Nada disso atrapalha o encanto do filme que resistiu a tudo (até mesmo versões ampliadas para 70 milímetros, depois de uma recente restauração por computador.

Creio que por causa da força da personagem de Scarlett (mimada, extravagente, cínica, praticinha e indomável), algumas cenas sejam inesquecíveis: ela subindo as escadas enquanto se espalha a notícia do começo da guerra; a chegada da lista dos mortos; a despedida de Scarlett e Rhett nas proximidades de Tara; os antológicos Travellings que encerram a primeira e segunda partes e a imagem que se abre para mostrar os feridos na estrada de ferro e ainda a trilha musical..quer dizer, magistral de MAX STEINER.
As pessoas só não se conformam com o final - minha avó sempre reclama - e reparem como grande parte dos melhores e mais populares filmes tem finais infelizes. Mas, para os espectadores do mundo inteiro, o que parecia ser esse final triste tornou-se uma mensagem de esperança. Porque, afinal com aquela sobrancelha inestimável de Vivien: "
Tomorrow is another
day/Amanha Será outro dia."!


'E O VENTO LEVOU'
GONE WITH THE WIND
EUA- 1939
217 min.
WARNER
✩✩✩✩✩ EXCELENTE




UMA PRODUÇÃO DE 
DAVID O. SELZNICK 


De 
MARGARET MITCHELL

estrelando: 
CLARK GABLE   VIVIEN LEIGH
LESLIE HOWARD    e OLIVIA DE HAVILLAND

co estrelando:
HATTIE McDANIEL   THOMAS MITCHELL
BARBARA O´NEIL   BUTTERFLY McQUEEN
VICTOR JORY   EVELYN KEYES   LAURA HOPE
ANN RUTHERFORD  HARRY DAVENPORT  e WARD BOND

ROTEIRO 
SIDNEY HOWARD 
Baseado no livro de MARGARET MITCHELL

PRODUZIDO POR 
DAVID O. SELZNICK

fotografia principal
ERNEST HALLER e RAY RENNAHAN

fotografia adicional WILFRID M. CAINE 

MÚSICA DE
MAX STEINER

DIREÇÃO DE ARTE
WILLIAM CAMERON MENZIES

DIREÇÃO 
VICTOR FLEMING
SAM WOOD
GEORGE CUKOR
© 1939 A SELZNICK INTERNACIONAL Picture 

6 comentários:

Clenio disse...

Oi, Rodrigo, coincidentemente também estou escrevendo um post sobre E O VENTO LEVOU pra inaugurar um blog dedicado somente a filmes... e gostei muito do teu texto, que dá a exata noção do que é esta obra-prima.
Já perdi a conta de quantas vezes já assisti e pretendo ainda continuar assistindo.
Grande abraço, cara.
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com

Paulo Alt disse...

Rô,

Ahh, eu já falei que adorei você ter feito sobre esse filme. É uma coisa que penso faz tempo, algum dia ainda vou com a cara e a coragem postar ele como você fez, rs. Ah, a propósito, você leu a Super Interessante desse mês? Veio uma reportagem comparando Avatar como sendo o novo ...E O Vento Levou. Tem até uma foto-desenho "imitando" a primeira ilustração sua aqui. E também comentava sobre a questão da inflação comparando as idas ao cinema dos anos 30 até hoje em dia.

De verdade acho que não saberia condensar todas as informações, ou pela menos parte delas, que tinha visto pelos extras da edição de 4 discos que eu tenho. Mas tem coisas aqui que não lembro de ter visto e nem olhado dessa forma. I don't give a damn, foi uma delas. Eu ri com o "SIM, existia essa categoria", haha.

Sobre a continuação para a TV já vi o dvd trocentas vezes na locadora e pesquisei. A sua classificação de "grosseira porcaria" foi a mais sutil de todas, rs, por isso desisti de assistir. Essa continuação é do livro tb? Ou... viajaram só? E eu não discordo de que o filme não resistiria sem Vivien. Mas tenho que confessar... mesmo sendo Rhett do jeito que todos sabem... nunca gostei muito do Gable. Mas admito... TINHA que ser ele, assim como TINHA que ser ela. Sei lá, parece tosco ou fanatismo redundante dizer isso, mas digo.

E compartilho sobre as opiniões da cena. E adorei o final, sou umas das pessoas fora da legião dos que reclamam. Um fim perfeito e sempre grandiosamente relembrado, de efeito, pra uma anti-heroína amada.

Abraço!

Gema disse...

Eu comprei recentremente uma ediçao (nao e a dos 70 anos) so que ainda nao consegui ve-la.
É um grande classico do cinema e como sempre tive curiosidade, acebei por comprar ;)
Bjks

Cristiano Contreiras disse...

Parabéns pelo post, Ro!!!

Eu já estava aguardando, afinal você estava todo aí eufórico com sua mega edição especial do dvd do filme!
*inveja branca!!! rsrs*

Não vejo a hora de poder comprar também, adquirir esta é, sem dúvida, qualquer fetiche de um cinéfilo que se preze, né mesmo? rs

É um filme mesmo clássico no mais amplo sentido, jamais vai envelhecer - ao contrário de muitos por aí que, hoje em dia, não sinto tão...clássicos...nem inesquecíveis, pois perderam a força que tinham, sabe - e adoro a atuação voraz e intensa da agressiva perfeitinha Vivien Leigh! Confesso que ainda prefiro ela como Blanche DuBois no Uma rua chamada pecado, claro...mas, sua imortalidade está mesmo é conferida no ...E o vento levou, fato.

Adorei reler as curiosidades - já tinha lido bastante e já tinha visto um documentário, anos atrás, na TVE sobre o filme.

Deu vontade de rever...em minha edição de pobre de 1 dvd apenas, rs.

Abraço!

Rodrigo Mendes disse...

CLENIO: O "Lennys Mind" é senssacional. Adoro as suas poesias, e quero muito ler o que você tem a dizer sobre este clássico inestimável.
Obrigado..ABS!

PAULO: OI amigo,não li esta matéria na Super Interessante, aliás eu nem conheço esta revista, rs...eu devorei mesmo os extras desta edição de NIVER 70 anos e li em algumas revistas velhas de cine que tenho aqui. Uma delas fala exclusivamente da Vivien Leigh.

Escreve SIM!!! sobre o filme, quero ler o que vc tem a dizer. faço coro a vc o que disse ao Clenio. Ah, e vc poderia resenhar o trabalho da distribuidora e dos produtores sobre este lançamento de NIVER do filme. Gostaria de saber o que você tem a dizer sobre o produto!

O filme da TV é uma pseudo "estúpida" continuação. É como saber o que acontece quando uma criança acaba de pular amarelinha sabe? O que vem depois do Céu? rs!

Sobre o "I don't give a damn" já tinha lido o fato a muito tempo. E sim Gable e Vivien formaram o casal central perfeito. Sem eles não rolaria.

Entao..o final é antológico e com muita verossimilhança. Grandes filmes tem finais infelizes como na vida real.

Abs!

GEMA: Qualquer edição e ou cópia deste filme é um privilégio tê-lo na prateleira. Mas vc não viu esta edição ou o filme? Bjs!

CRIS: Obrigado!
Inveja branca? Olha que olho gordo minha vó tem a receita contra já te disse....rs!

E bota fetiche nisto. Esta edição é melhor que ganhar na loteria e daqui a 100 anos terá uma melhor dentro de um ship.kkk

E O Vento Levou tem uma aura imbatível. Pode ter falhas, mas Deus não criou o mundo em 7 minutos né?

Como disse no texto, é um colosso (aliás esta escrito isso na sua versão simples do DVD rs..na contracapa).

Gosto mais da Vivien também em Streetcar...mas poucos a lembram neste filme. Não tem jeito, ela sempre será Scarlett. Tanto que quando eu vi Um Bonde..com a minha avó ela apontou para atriz e disse: " Olha a Scarlett aí!"

E nenhum épico a la James Cameron ou Cecil B DeMille vence esta produção do Selznick. Como filme e produção.

Assista mais uma vez SIM. Vale a pena ver de novo. O que importa é o filme, os extras e toda a frescurada de cinéfilo é uma atividade complementar, rs!

ABS!

Anônimo disse...

Rodrigo, você abriu o baú mesmo...rs...
Realmente são clássicos e valem a pena ser assistidos, filmes que marcaram época.

Abs

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