domingo, 30 de maio de 2010

DENNIS HOPPER | SEM DESTINO


DENNIS HOPPER E O SEU FILME DE ESTRADA

Admiro e até postumamente, a carreira deste ator, mesmo em filmes horríveis e trash como O MASACRE DA SERRA ELÉTRICA PARTE 2 de Tobe Hopper ou até o blockbuster VELOCIDADE MÁXIMA, de Jan DeBont, que como vilão é popularmente reconhecido.
Certamente será lembrado por SEM DESTINO - EASY RYDER seu longa metragem de 1969 e em outros trabalhos como ator: VELUDO AZUL de David Lynch; AMOR À QUEIMA ROUPA, roteiro de  Quentin Tarantino e direção de Tony Scott e o ótimo APOCALYPSE NOW de Coppola. O cara teve até pontas em filmes clássicos como GIANT de George Stevens e REBEL WITHOUT A CAUSE de Nicholas Ray (era amigo do astro JAMES DEAN). Enfim, uma carreira promissora nos anos 50, sólida nos anos 60 -70 e 80 e até canastra nos anos 90. Hopper teve altos e baixos, mas era um ator respeitado e O Cinema Rodrigo apresenta a saga do filme que será para sempre o seu maior legado: O Road Movie, SEM DESTINO.



Uma fita lendária, em que dois motoqueiros, traficando drogas, atravessam os Estados Unidos em direção ao carnaval de New Orleans. O filme foi co-produzido por PETER FONDA (filho de Henry e irmão de Jane) e o diretor Hopper, também financiou a fita que custou 24 mil dólares e rendeu em sua primeira exibição, mais de 40 milhões!


EASY RYDER foi descoberto no Festival de Cannes onde ganhou um prêmio de diretor estreante, acabou provocando uma revolução em Hollywood e na contracultura, no comportamento juvenil que desde então, o cinema americano foi invadido por cineastas como Hopper, jovens e cabeludos - com frequência drogados.

Todos quiseram repetir o fenômeno e quebraram a cara (outras fitas do gênero só nas décadas seguintes. Posso citar: Os Embalos de Sábado à Noite, 1977; Picardias Estudantis, 1980), inclusive, o próprio Hopper que nunca mais dirigiu um filme de sucesso. Mas sem dúvida, Sem Destino foi um filme inovador, principalmente no Brasil. Foi responsável por popularizar o consumo de cocaína e maconha (pela primeira vez mostradas de forma aberta num filme) e um gesto insultuoso com o dedo do meio levantado - totalmente desconhecido no Brasil.


Criou também um gênero chamado de Road Movie (filme de estrada) e foi também o primeiro a utilizar canções de rock famosas em sua trilha musical.

Outro fato importante, revelou para o mundo o talento de JACK NICHOLSON que teve uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante, apesar de já ser um ator sólido em Hollywood. Ele entrou às pressas para substituir o ator RIP TORN ( lembram dele em Homens de Preto?) que havia discutido com o diretor Hopper. Por longos anos Peter Fonda e Hopper também estavam brigados e Torn chegou a processar Hopper, acusando- o de calúnia. Muitas cenas foram realmente improvisadas e rodadas sobre efeito de maconha e do LSD, inclusive a do cemitério em Nova Orleans, um dos momentos-chave da trama.

Este clássico da Excelência da contracultura dos anos cabeludos 60´s tirou seu título da expressão easy rider, gíria do Sul dos EUA para identificar o coronel, o gigolô, o homem que vive com uma prostituta. Segundo seus criadores; Fonda e Hopper, isso também aconteceu com a América; a liberdade tornou-se uma puta - vadia- prostituta e todos estão se aproveitando dela!

Os criadores "drogados", ainda, descrevem seu modesto filme como "Cinema Verdade" - que veio da França (no Brasil Cinema Novo), contando em termos alegóricos. Assim, Peter seria o Capitão América, representando todo mundo que acha que a liberdade pode ser comprada ou que pensa que a encontra, comprando uma motocicleta ou fumando maconha. Insiste Fonda: "Este é o filme sobre a falta de liberdade em que meus heróis não estão certos e só poderiam terminar mal, numa espécie de suicídio."



O simbolismo fica claro nas roupas dos dois heróis. Fonda com a bandeira norte-americana e Hopper no lugar de tenente, como Dom Quixote e Sancho Pança. Ambos partem em busca de um país, como dois velhos heróis em busca da última fronteira. Não se dá explicações e os diálogos pouco informam (tudo é mais imagético do que funcional). A violência não é previsível. Como a liberdade, dizem os autores, a trilha musical comenta a ação (isso é fantástico, nenhum outro filme fez isso tão perfeitamente). Nunca se permite que o público se identifique com os personagens e, por isso, Jack Nicholson rouba o filme, como advogado bêbado, porque é o único que tem passado.

SEM DESTINO é um filme com a perspectiva dos jovens da época (hoje qualquer revolta juvenil seria um tédio), que diziam : " Os mais velhos nos traíram, a América nos traiu." Aquela máquina com dinheiro escondido no tanque e que, a qualquer momento, podia explodir: seria a própria América.



Reduzido para 94 minutos, depois de um ano de montagem e muita briga (a primeira versão tinha 240 minutos - eles realmente estavam doidões!), o filme inovou ao ser o primeiro a mostrar o chamado efeito flash-forward o oposto do flash-back, ou seja, uma imagem rápida daquilo que irá suceder-se. A fita simplifica as coisas, colocando de um lado os bons (os hippies) e os maus (os sulistas capazes de matar alguém por ter cabelo comprido).

Embora os dois atores centrais sejam figuras passivas, em todo o filme há um amor pelos espaços abertos, dentro da melhor tradição americana, uma sinceridade refrescante que nos faz perdoar alguns clichês. A distância do tempo demonstrou que o sonho deles não se tornou realidade, mas que o filme, pelo menos, tornou-se um belo exemplo de uma época em que ainda se podia sonhar em mudar o mundo. Ou ao menos o sistema.

A trancos e barrancos, Dennis Hopper sobreviveu as drogas e cortou o cabelo. Tornou-se um senhor simpático. Vilão, romântico e canastrão. 


'R.I.P' Hopper. Um grande fã seu. E obrigado por me mostrar o destino...

                                              DENNIS HOPPER (1936-2010)


SEM DESTINO
'EASY RYDER'
de Dennis Hopper
EUA- 1969
Road Movie/Drama
94'
✩✩✩✩✩ EXCELENTE

EASY RIDER 
Produzido pela BBS/Pando/Raybert - Distribuição COLUMBIA PICTURES


ESTRELANDO:
Dennis Hopper   Peter Fonda
e Jack Nicholson

Co-estrelando:
Robert Walker
Luana Anders   Karen Black   Antonio Mendonza
Keith Green  
e Lea Marmer

Roteiro de
Peter Fonda e Dennis Hopper e Terry Southern

Fotografia 
Laszlo Kovacs

Direção: Dennis Hopper

7 comentários:

Hugo disse...

Ontem também escrevi sobre Dennis Hopper e "Sem Destino" no meu blog.

Sua carreira teve muitos altos e baixos por causa das drogas, problema que ele se livrou apenas no final dos anos oitenta.

Vou corrigir apenas um detalhe no seu texto, ele dirigiu um outro sucesso chamado "Colors - As Cores da Violência", um drama policial polêmico sobre as gangues de Los Angeles que tinha Sean Penn e Robert Duvall nos papéis principais.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

oi HUGO: sim eu sei que ele dirigiu este filme. Como também: 'The last Movie', 'Cathfire', 'Homeless'...eu quis dizer que nunca mais ele acertou como realizador.

'Colors' não teve o impacto de Easy Ryder. Mesmo! Mas obrigado!

Abs, vou ler o que vc escreveu!

Dewonny disse...

Tbm acho "Sem Destino" o filme mais marcante desse ator q fez na maioria dos seus filmes papéis de vilão, uma perda considerável para o cinema!
Abs! Diego!

Davi Coelho disse...

Adoro o material que você reune em cada post, Rodrigo.
Abraço :)

Rodrigo Mendes disse...

Diego Dewonny: IDEM. Abs amigo e bem vindo de volta!

Dave Coelho: Obrigado. Abração. Volte sempre. Vou visitá-lo!

Cristiano Contreiras disse...

Não me recordo direito deste filme, preciso mesmo rever..e é uma tristeza sem tamanho observar que Hopper poderia ter tido uma carreira ainda mais expressa, sim: não foi um ator de grandes filmes e nem grandes atuações. Mas, teve sim um bom impacto e significado, ao longo do tempo.

RIP!

Belo post!

Cristiane Costa disse...

Mais uma vez adorei seu texto. Nunca assisti este filme, acredita? Mas é como se eu tivesse intimidade com ele considerando a forma como você ressaltou várias informações importantes, contextuais e reflexivas. Obrigada! RIP Hopper,uma pena o Cinema perder figuraças como estes coroas. bjs!

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