UMA OBRA MONUMENTAL
O DECÁLOGO de KRZYSZTOF KIESLOWSKI é uma minissérie em dez capítulos, com cerca de 50 minutos cada, realizada para a TV (telefilme) polonesa, inspirados nos DEZ MANDAMENTOS. Nenhum deles traz o mandamento (que você deveria saber de cor), indicando cada capítulo apenas pelo número.


Assim é que se tem:
1 - Pai cria filho pequeno como o "deus" computador, enquanto filha lhe reserva uma triste surpresa;
2- Mulher casada que está com o marido muito doente no hospital tem o dilema de abortar o filho (que é de outro homem);
3- Na véspera de natal, um taxista é visitado por uma ex- namorada que tem a desculpa de estar procurando o marido desaparecido;
4- Uma jovem de 20 anos, apaixonada pelo pai, inventa uma carta falsa para conquistá-lo;
5- Sem motivo aparente, um rapaz, mata um chofer de táxi mas depois terá de sofrer o processo igualmente cruel da punição;
6- Um jovem que trabalha nos correios espia de binóculo a vizinha bela, e mais velha, por quem é apaixonado;
7- Uma jovem mãe deu a criança para a sua própria mãe criar, como se fosse dela. Agora pensa em roubá-la e fugir com ela para o exterior;
8- Uma sobrevivente do Holocausto vem interpelar uma mulher que lhe recusou ajuda quando ela era apenas uma criança;
9- Um marido impotente não aceita as infidelidades da esposa e pensa em se matar e
10- Comédia sobre dois irmãos muito diferentes, um deles cantor de banda de rock, que descobrem que o pai lhes deixou uma fortuna em coleção de selos.


Dito cada premissa, esta obra realizada para a TV, foi consagrada no Quadragésimo Sexto Festival de Veneza onde foi saudado como obra - prima (de fato). Dois episódios foram estendidos como longa metragem e exibidos no Brasil como NÃO MATARÁS (episódio 5), vencedor do Prêmio Especial do Júri em Cannes, quando revelou o diretor internacionalmente; e NÃO AMARÁS (episódio 6).


Dito cada premissa, esta obra realizada para a TV, foi consagrada no Quadragésimo Sexto Festival de Veneza onde foi saudado como obra - prima (de fato). Dois episódios foram estendidos como longa metragem e exibidos no Brasil como NÃO MATARÁS (episódio 5), vencedor do Prêmio Especial do Júri em Cannes, quando revelou o diretor internacionalmente; e NÃO AMARÁS (episódio 6).
Por aqui, a série de TV foi veiculada pela TV Cultura de São Paulo, mas nunca saiu em VHS, somente posterior em DVD. Nos Estados Unidos foi lançada em vídeo, mas só em 2000 foi apresentada no circuito de salas de arte com sucesso notável.
No elenco estão atores conhecidos como: Krystyna Janda ( de O HOMEM DE FERRO de Andrzej Wajda), Daniel Olbrychski (ator preferido de Wajda), Jerzy Stuhr (que depois faria o papel principal de A IGUALDADE É BRANCA, meu favorito e também de Kieslowski) e uma famosa atriz teatral polonesa, Maja Komorowska, que faz a tia do menino. Para cada episódio foi utilizada a mesma equipe técnica com uma exceção marcante: sempre varia o diretor de fotografia.
No sistema europeu não é fora do comum que muitos filmes sejam feitos em co-produção com a televisão (em geral, estatal), como: na Itália, Alemanha e nos países escandinavos, que em geral, os apresentam em formato mais longo, como uma minissérie. Mas este é um caso raro de uma série televisiva feita por um diretor de cinema, então pouco conhecido, que depois obteve repercussão mundial (principalmente depois com A TRILOGIA DAS CORES que todos amam), lançando-se numa brilhante carreira e infelizmente curta.
No sistema europeu não é fora do comum que muitos filmes sejam feitos em co-produção com a televisão (em geral, estatal), como: na Itália, Alemanha e nos países escandinavos, que em geral, os apresentam em formato mais longo, como uma minissérie. Mas este é um caso raro de uma série televisiva feita por um diretor de cinema, então pouco conhecido, que depois obteve repercussão mundial (principalmente depois com A TRILOGIA DAS CORES que todos amam), lançando-se numa brilhante carreira e infelizmente curta.![]() |
É preciso entender, antes, que a Polônia é um país intensamente católico e quando a fita foi realizada ainda estava sob o jugo comunista. Curiosamente, nenhum dos dez "episódios-mandamentos" menciona qual seriam os mandamentos. A obrigação do espectador é conhecê-los e entender a relação, por vezes, um pouco vaga (mas nada quem atrapalhe a obra) com a história. Menciona-se pouquíssimo Deus e mesmo a religião em questão. As tramas são verossímeis do cotidiano.
Toda a ação se passa num conjunto de apartamentos de classe média e as vidas dos 25 personagens entrecruzam-se e alguns protagonistas de um episódio fazem meras participações/aparições em episódios alheios.
A Narrativa fica entre a crônica e a metafísica, mas basicamente é um drama existencial com ênfase nas coisas do cotidiano: a avidez, o engano, o sexo, a mentira, a traição, o assassinato e o furto (pouco dos 7 pecados capitais inclusos nas premissas) Por vezes, o sentido da história é muito claro, como no primeiro episódio em que um pai é devoto fiel à lógica de um computador , que é quase como um Deus, remetendo ao Primeiro Mandamento; que é? ( QUERO VER SE ALGUÉM SABE E RESPONDA CERTO NOS COMENTÁRIOS) . Mas os personagens nunca são julgados, eles já vivem num inferno criado por eles mesmos, por sua "liberdade de escolha".
Na verdade, nesse primeiro episódio já se percebe as pretensões e o estilo do diretor. Variando sempre de iluminador e fotógrafo (a luz e a direção de fotografia são sempre feitas pela mesma pessoa no cinema), o filme muda de tom em cada episódio. O primeiro é lírico, delicado, triste - e logo se entenderá o porquê disso; o 'Não Matarás' tem propositalmente uma luz estourada, esverdeada ou amarelada, de forma a causar, até mesmo, repugnância. O importante é demonstrar a mesma frieza de um assassinato sem motivo e um assassinato oficializado pelo Estado (sem brincadeiras ou truques no estilo Hitchcock).
Na verdade, nesse primeiro episódio já se percebe as pretensões e o estilo do diretor. Variando sempre de iluminador e fotógrafo (a luz e a direção de fotografia são sempre feitas pela mesma pessoa no cinema), o filme muda de tom em cada episódio. O primeiro é lírico, delicado, triste - e logo se entenderá o porquê disso; o 'Não Matarás' tem propositalmente uma luz estourada, esverdeada ou amarelada, de forma a causar, até mesmo, repugnância. O importante é demonstrar a mesma frieza de um assassinato sem motivo e um assassinato oficializado pelo Estado (sem brincadeiras ou truques no estilo Hitchcock).Mas sempre Kieslowski tinha uma maneira particular de filmar, sempre atento a detalhes (um copo que cai, um menino olhando uma pomba, uma goteira no hospital) com uma extraordinária sensibilidade, que parece ser única entre seus contemporâneos. Também o trabalho dos atores é de uma enorme naturalidade. Alguns casos, como o do episódio 2 que chega a ter um "solo" de atriz de grande prestígio, sem jamais cair nas armadilhas do telefilme norte-americano, escurecimentos para a entrada de comerciais e suspense.
Praticamente todas as histórias têm um final surpreendente ou irônico. Elas constituem, antes de tudo, um grande painel do comportamento humano, não necessariamente local. E sempre "anti-clichês".O cinema americano nos ensinou a raciocinar de determinada maneira, criando certas expectativas, Kieslowski se esqueceu destas e mesmo assim, ou talvez mesmo por causa disso, é que conseguiu fazer esta fita em que os dez episódios conseguem formar um "todo" convincente, de tal forma, que fica difícil escolher um preferido, embora, obviamente, o 1, o 2, o 4 e o 5 sejam os mais famosos - tão extraordinária, tão pouco usual e, infelizmente, ainda tão pouco conhecida.
O DECÁLOGO
'Dekalog'
de Krzysztof Kieslowski
Polônia - 1988
Drama
COR
50 min. (cada episódio)
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
KRZYSZTOF KIESLOWSKI
Dekalog
Roteiro de Krzysztof Kieslowski
e Krzysztof Piesiewicz
Edição de Ewa Smal
Direção de Arte Halina Dobrowolska
Música de Zbigniew Preisner
Uma Produção TELEWIZJA POLSKA
Em co-produção com S.N.B. (Sender Freies
Berlin)
Fotografia - responsáveis por episódio -
1- Wiesca Wzdotr
2- Edward Klosinski
3- Piotr Sobocinski
4- Krzysztof Pakulski
5- Slawomir Idziak
6- Witold Ademek
7- Darius Kuc
8- Andzej Jarosiwewicz
9- Piotr Sobocinski
10- Jacek Blawut
Estrelando - por episódio -
1-
Henryk Baranowski
Wojchiech Klata
Maja Komorowska
2-
Krystyna Janda
Alexander Bardini
Olgiero Lukaszewicz
3-
Daniel Olbrychski
Maria Pakulnis
Joanna Scepkowswka
4-
Adriana Bledrzynska
Janus Gajos
5-
Miroslaw Baka
Krzysztof Globisz
Jan Tesarez
6-
Grazyne Szapolowska
Olaf Lubaszenko
7-
Anna Polony
Maja Barelkowska
Boguslaw Linda
Katarzyna Piwowarczk
8-
Maria Koscialkowska
Teresa Marczewska
9-
Ewa Blaszcyk
Piotr Machalica
Artur Barcis
10-
Jerzy Stuhr
Zbigniew Zamachowski


8 comentários:
Por enquanto assisti apenas "A Igualdade é Branca" e gostei muito. Estou com os outros dois filmes da trilogia para conferir e pretende em breve procurar "O Decálogo".
Kieslowski foi um grande diretor, pena que se foi muito cedo.
Abraço
Oi !!
Gostei do desafio! E respondendo a ele, o mandamento empregado neste primeiro episódio da série é: "Amarás a Deus sobre todas as coisas". Adorei seu texto por relembrar esta magnífica obra de Kieslowski, "Decálogo" merece a mesma atenção direcionada à aclamada "Trilogia das Cores".
ok, ok, ok, hehe, como você e outros lembraram lá no post, preciso corrigir essa falha na minha filmografia e procurar logo essa série.
A trilogia das cores já é fantástico, imagino como Kieslowski se saiu nesse.
abraços
Rô, belo post, é bom mostrar o quão denso e profundo é o estilo psicológico e abordagem de Kieslowski. Sou fã do universo dele e, ao contrário de todos, eu prefiro esta série Decálogo a venerada trilogia das cores, rs.
Essa semana estive olhando nos sites, na submarino tem um box importado por 300 reais e outro nacional, mais barato...preciso ter, pois eu baixei aqui a série completa tem uns meses...vi tudo num dia, gosto muito...já apimentei sobre o Não Amarás que acho um espetáculo, tão emocional e tão tocante...
O que mais aprecio no estilo do Kieslowski é sua força firmada na dramaticidade imagética...poucos diálogos...e eu gosto da sensação que ele passa com isso.
De fato, essa série é um marco!
Todos precisam conhecer.
RESPONDENDO A TUA PERGUNTA: "AMAR A DEUS SOB TODAS AS COISAS."
Beijão!
Olá amigo,
Pois é, eu não assisti O Decálogo ainda, mas a trilogia das Cores sim, inclusive fiz teatro de uma cena da Binoche em A fraternidade é vermelha no curso de francês. Era o máximo, só lembrando o texto revendo o filme pra te falar, mas com certeza o farei porque era emblemático. Eu me senti a própria atriz dramática hehe.
Sobre este trabalho que comentaste, acho interessante o recurso de não comentar quais são os mandamentos. É uma forma de validar até que ponto as pessoas só seguem o mandamento como uma 'obrigação' ou se realmente absorveram tal mandamento por algo que realmente querem viver(pelo menos é o que eu penso a respeito).
Lembrei-me das aulas de catecismo quando eu era novinha e embora eu era bem dedicada a elas, hoje eu penso que era muito uma questão de decorar o mandamento. Somente quando a gente vai vivendo a nossa fé a gente absorve a fé, não a doutrina. Eu não gosto mais de doutrinas, acho que Deus está no coração e é o que importa.
A propósito, amará a Deus sobre todas as coisas (este é o princípio básico da fé em Deus).
Bjs!
O primeiro mandamento é aquele que fala pra amar somente a Deus ou algo assim, não é ? rs
Cara, engraçado que muda o diretor de fotografia e não o diretor, ou seja, este filme é uma obra de diretor e não de estúdio, muito bom isso.
Fiquei com muita vontade de conferir, afinal, a premissa do filme é completamente convidativa, e sei lá, dez filmes!
Cara é pra se matar de tanto ver, rs
Enfim, QUERO VER ESTE DECÁLOGO!
ótimo post =D
Aos BLOGUEIROS: Obrigado pelos comentários. Todo mundo acertou o mandamento quem respondeu, rs!
Uma obra maravilhosa. Sugiro sempre! Tudo que Kieslowski realizou em tão pouco tempo é o suficiente. Grande Cineasta!
Abs,
Rodrigo
uma lacuna ainda a ser preenchida. Todos caem de elogios para "Decálogo". Do mesmo diretor, só vi a fabulosa Trilogia das Cores.
abs!
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