A vida de Jake La Motta, campeão mundial de peso-médio: sua ascensão, apogeu e queda é retratada na cinebiografia dirigida pelo mestre MARTIN SCORSESE em mais uma fita estrelada por ROBERT DE NIRO.
Foi indicado para OITO OSCARS, ganhou apenas o de ator, o segundo para De Niro e o de montagem para a veterana Thelma Schoonmaker.
Teria que ser aqui, nesta fita, que Scorsese deveria ter ganho o seu Oscar já que não ganhou na outra obra prima Taxi Driver (1976) ou na sua divertida produção Depois de Horas (1985) ... são tantos os filmes merecedores, enfim. Indignação!
Embora Os Infiltrados seja ótimo, foi estranho Scorsese receber a estatueta tardiamente. Particularmente não gostei, até nas fitas Cassino ou Os Bons Companheiros, ele podia ter sido venerado.
Touro... acabou sendo votado o melhor filme da década pelos críticos americanos. Para muitos é a obra-prima de Scorsese (pra mim é complicado escolher uma, mas acabo tendo uma predileção maior por Goodfellas!). E, outros, o chamam de o melhor filme de boxe (melhor que Rocky do Stallone) já realizado até hoje. Concordo em número e grau. Não há dúvidas. Scorsese parou as filmagens durante 4 meses para que De Niro pudesse ficar entre 160 para 125, quase trinta quilos - um fato inédito no cinema, só semelhante ao de Tom Hanks, em Náufrago (Robert Zemeckis, 2000) sendo que, neste caso, o filme ficou parado um ano e o ator teve de perder peso.


CATHY MORIARTY, indicada ao Oscar como coadjuvante, mas não ganhou, estreou neste filme e era uma modelo de 19 anos descoberta por JOE PESCI (que anos mais tarde ganharia Oscar de coadjuvante noutra fita com De Niro e claro, de Scorsese: Os Bons Companheiros - The GoodFellas). Pesci, na época, não tinha qualquer sucesso e dirigia um restaurante no Bronx e , durante as filmagens, teve duas costelas machucadas nas cenas de luta. Quanto a loira, Moriarty, ainda era inexpressiva demais sendo apenas uma Doll, peça de decoração do filme. Ela melhorou muito como atriz mais adiante.

Há casos frequentes em que a crítica não sabe fazer justiça a alguns filmes, que só tempos depois são reconhecidos como importantes. Ou até obras-primas. Foi o caso de TOURO INDOMÁVEL, que ganhou apenas 2 Oscar (sendo que o de De Niro foi mais por causa do feito físico de forma tão óbvia). Hoje, porém, ele tem status e valor de obra-prima e cult ao mesmo tempo. Caso raro, diria até único no cinema. Não parecia, à primeira vista (não no meu caso que nasci 6 anos depois e mais 12 anos depois já curtia cinema com olhos de crítico e cinéfilo, portanto já notei que o filme nasceu cult e obra-prima), um filme assim tão especial. O que impressionava, provavelmente os críticos naquele período, era o fato de que Robert De Niro, na época, já com fama de grande ator, treinou primeiro para convencer como boxeador profissional (como quando foi dirigir um taxi de verdade), depois engordou quase trinta quilos peso-médio, algo inédito no cinema na época e que obrigou as filmagens a serem interrompidas. Realmente, De Niro aparece na parte final completamente deformado. Embora eu ache que notável mesmo seria se ele conseguisse esse feito sem ter engordado, só com a sua interpretação. Sempre me pareceu mais um caso de força de vontade que talento.
Foi ousado criar um protagonista tão desagradável e chauvinista quanto Jake La Motta, campeão mundial de peso-médios, nos anos 40 e 50. Ele é péssimo marido, mau caráter, atraiçoa o irmão e aliena todas as pessoas próximas. No ringue, luta como um touro indomável e enfurecido, sua decadência é tão evidente e drástica quanto merecida.
O filme já começa com ele como apresentador de um night-club, em 1964, para depois retratar sua ascensão, mas nunca chega a ser uma biografia convencional.
O roteiro novamente escrito por PAUL SCHRADER ( Táxi Driver) tem o hábito de se fixar apenas em episódios violentos e gritados. Deixa no ar. inclusive, as motivações e justificativas do personagem; tanto de Jake LaMotta quanto de seus comparsas filhos da puta. A esposa, Vickie La Motta personificada por Moriarty, tinha cara de Lana Turner jovem e que, na boa, atrapalha o filme um pouco me fazendo dispersar.
Como narrativa, a ideia/plot mais interessante são os filmes caseiros propositalmente riscados - a única parte do filme que é em cores. Como filme de boxe, houve já muitos outros exemplares que denunciaram a alção de gangster. TRÁGICA FARSA (1956), um drama-noir inspirado na vida do lutador Primo Carnera e MARCADO PELA SARJETA (1956), sobre Rocky Graziano, citando dois, mas Touro é certamente o mais bem filmado deles todos.
As sequências de lutas de boxe nunca são menos do que empolgantes. O branco e preto tem um efeito extraordinário numa montagem rápida, envolvente e espetacularmente fotografada, especialmente, na luta final com Sugar Ray Robinson. Só essas cenas já justificam a grandeza do filme, mas, ao final, há uma explicação do diretor Scorsese, ávido católico, citando São João: "La Motta estava cego para o que se passava à sua volta. Por isso, perde família e amigos. Tudo. Dediquei este filme a um velho professor armênio, Haig Monoogian, porque foi ele também que me abriu os olhos". A citação seguinte: " Os que não vêem, isto é, os humildes de coração, sejam iluminados pela minha doutrina, mas os sábios, os orgulhosos, os fariseus se tornem cegos espiritualmente..."
Talvez se possa fazer uma leitura do personagem de La Motta nas suas repressões e verdades: católica, sexualidade, que acabam se desenvolvendo numa forma de sadomasoquismo e autodestruição. Mesmo assim, isso ficou mais na cabeça dos realizadores que na tela.
O filme basicamente é um retrato de um sujeito repulsivo com quem o público não consegue se identificar. Ao contrário, o observa com distância crítica (eu pelo menos, embora não o julgue, mas é complicado gostar dele). E nisso, ajuda muito a interpretação antológica de De Niro e as magníficas cenas de luta, até hoje ainda não suplantadas. A desgraça como conflito é o sucesso de cinebiografias. Nada pode ser um comercial de margarina. Touro Indomável é o melhor do gênero.

TOURO INDOMÁVEL
'Raging Bull'
Direção: Martin Scorsese
EUA- 1980
P&B
Drama
UNITED ARTISTS
UNITED ARTISTS
128 min.
✩✩✩✩✩ Excelente
✩✩✩✩✩ Excelente
A MARTIN SCORSESE PICTURE
RAGING BULL
Roteiro: Paul Schrader e Mardik Martin
Baseado na Biografia de Jake La Motta
Produção: Chartoff/Winkler
Fotografia: Michael Chapman
Estrelando: Robert De Niro Com: Joe Pesci
Apresentando: Cathy Moriarty
co- estrelando: Frank Vincent.Nicholas Colasanto
Theresa Saldana e John Turturro




10 comentários:
Filme incrível e é daqueles em que você se depara como é a vida real de um campeão nos ringues mas fora dele um qualquer mas não qualquer um e sim um ser humano que é nocauteado pelos erros... Transformação em preto e branco... !!!
Às vezes, passa na televisão, só que não tenho tempo de sentar e assiti-lo de verdade. Um dia, vou me organizar para vê-lo, pois tenho muita curiosidade sobre este filme.
Obrigada pelo elogio ao meu blogue. Fique à vontade para visitá-lo.
Abraços e tenha um bom-dia.
Oi Rodrigo!!
Obrigado pelos comentários lá no 1/3...valeu pela ajuda!!
Ainda não vi Touro Indomável, mas ultimamente tenho ouvido falar muito dele..parece ser bom!!! Seu etxto tem muitas informações que instigam mais ainda minha vontade de vê-lo..parabens pelo texto!!
Abrs
É um grande filme, nada mais a acrescentar.
Gostei de sua lembrança no texto sobre o também ótimo "Marcado pela Sarjeta" com Paul Newman.
Abraço
Porra Rodrigo! rs
Tenho uma puta vontade de conferir este filme, mais ainda não tive a chance (assim como TAXI DRIVER), espero conseguir vê-lo em breve!
Ótimo post!
Abs.=)
Oi Rodrigo!
Teus comentários sobre este trabalho estão excelentes! a história parece ser realmente autêntica... até então eu conheço pouco do Scorsese, vou ver este!
Abraços
Muito boa sua análise! Parabéns! E realmente se trata de uma obra excelente, com uma direção incrivel e com um roteiro que trás reflexões bem reais e diretas.
Abraço!
Como você apontou, complicado decidir qual a maior obra-prima de Scorsese porque você pode até se sentir injusto em preterir um a outro. Pra mim, os projetos mais expressivos são "Taxi Driver", "Os Bons Companheiros" e esse fabuloso "Touro Indomável", o meu preferido se for analisar o geral.
Parabéns pelo texto, Rodrigo. Além de adicionar curiosidades pertinentes à produção da época, faz uma ótima análise da obra. Mas 9? Dou 10 sem pensar duas vezes, embora concorde contigo que Cathy Moriarty não faz absolutamente nada como a esposa de Jake, uma atuação amadora e completamente aquém do filme, De Niro devora a coitada em cena.
E como tu disse, é uma cinebiografia que não é comercial de manteiga. "Touro Indomável" é corajoso e pungente, mosra tanto a ascensão como a queda de uma figura ignorante e reprovável. Elogiar De Niro e Scorsese é chover no molhado, talvez o melhor trabalho da carreira de ambos, mas isso é muito relativo e deve ser mesmo analisado à risca, já que estamos falando de 2 dos melhores que já pisaram em Hollywood, cada um em sua função.
Grande abraço, meu caro!
Oi amigo,
Excelente crítica. Jake é repulsivo mesmo e o fato de ter o auge e a decarrota em um esporte fisicamente violento dá uma dimensão ainda mais trágica a este personagem. Gostei da frase 'este não é um comercial de margarina', porque não há como ter vontade de gostar de Jake. Este fime é super cult, vai estar no meu MaDame Cult, só não sei quando, rs!
beijo e ótima semana!
MARCELO: Filme muito verossímel sobre a vida de LaMotta. E o tratamento em P&B é soberbo. Abraços!
MARCIA: Seu blog é classicamente adorável. Veja o filme o quanto antes. Beijos!
GUI:Obrigado pelos elogios preciso ir 1/3 quero ver oa clássicos que você postou recentemente..abraços meu caro!
HUGO: Esta fita com Paul Newman tbm é ótima, alias lembro que vc postou sobre e sua resenha estava ótima. Abraços!
ALAN: Então vc já sabe da obrigação: Martin Scorsese, rs! Abraços amigo e obrigado!
RENATO: Muito obrigado. Procuro levar curiosidades além filme para explorá-lo melhor e apresentá-lo melhor aos leitores que ainda não o viram. Grande abraço! E confira a fita!!
ALYSON: Valeu cara! Realmente o filme é um soco!
ELTON: Obrigado. Não há um favorito, mas faço coro a vc quanto a Touro Indomável estar num certo nível elevado, mas Taxi, GoodFellas, de fato são impactantes também. O meu nove foi com pesar, mas justo na minha opinião, pq a Cathy não deveria estrelar a fita naquele momento de sua carreira. Mas nada que atrapalhe. O filme é obra prima!!
Forte abraço!!
MADAME: Saudades de vossa madame aqui, rs! Obrigado amiga concordamos plenamente quanto ao filme. E graças a deus o filme tem caldo o suficiente para não ser um comercial de margarina. A vilania de La Motta consegue entorpecer o espectador. Beijos!!
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