‘Todos nós enlouquecemos às vezes’
Uma jovem que roubou quatrocentos mil dólares de sua empresa perde-se na estrada e hospeda-se no Motel BATES, onde é misteriosamente assassinada. Enquanto isso, a polícia, a irmã e o namorado, procuram-na.

Psycho é um tipo de filme para ser visto inúmeras vezes. HITCHCOCK ousa e usa toda a sua criatividade de gênio para conceber esta fita que marcou a sua carreira. Em 1960 ele procurava uma história modesta para um filme barato. Não queria uma super-produção colorida e trabalha com uma equipe de televisão ( de sua série de TV que abordava mistérios: Alfred Hitchcock´s Presents). O filme é uma divisão em sua filmografia, vindo de um sucesso dourado como INTRIGA INTERNACIONAL com seu astro predileto Cary Grant. Aqui, resolve minimizar a produção de seu 59º filme.

Baseado no romance de Robert Bloch PSYCHO, Hitch trabalha com o ótimo roteirista JOSEPH STEFANO. Na verdade fora Stephano quem lhe apresentou a premissa do filme, que é praticamente dois filmes em um, ou melhor MARION CRANE é a própria “McGuffen” que nos leva ao personagem principal, NORMAN BATES. A história que o mestre do suspense queria contar era realmente de um psicopata, que sofria de uma doença mental que o fazia ter uma “psicose”, ou seja, dupla personalidade. Tudo seria muito “gore”, sombrio e macabro demais para rodar a cores. Por isso opta pelo preto e branco. No entanto, ele não queria fazer um filme de terror “barato” no sentido criativo, e sim contava com uma premissa que desviasse a atenção do público, que praticamente assiste a dois episódios numa história.

Primeiro, temos esta moça, Crane ( JANET LEIGH), que é amante de um homem quase divorciado (nem era pra tanto, mas naquela época era preciso namorar às escondidas), assim o filme já começa num quarto de motel. Ambos estão na cama, na hora do almoço, planejando o futuro. O cara é o bonitão JOHN GAVIN (de Spartacus) e trabalha fora da cidade (Fairvaille, eles estão no Arizona). Crane esta ansiosa para assumir o compromisso respeitadamente sem soar como desrespeito, mas a situação deles, financeiramente não está muito boa. Encarregada de depositar no banco uma quantia de 400 mil dólares para um cliente de seu chefe, estupidamente ela resolve fugir com a grana. Sem destino encosta numa estrada e é abordada por um policial (fobia de Hitchcock) e decide trocar de carro para despistá-lo. Mas o suspense já toma conta do espectador, sempre atento assistindo a um filme de Hitchcock. Em meio à estrada, à noite e na chuva, a mocinha começa a imaginar as conseqüências de seu sumiço, e sem muita opção para num Motel beira de estrada para passar a noite. Agora que a segunda parte começa.

Lá conhece o proprietário eremita NORMAN BATES (ANTHONY PERKINS), aparentemente um sujeito tímido e tem alguns momentos de desabafo com ele. “As pessoas caem em suas próprias armadilhas”, portanto era hora de Crane se livrar de sua própria armadilha e tentar concertar o roubo. Até então, nota-se um pouco a ambiência do lar de Bates.

Um lugar realmente assustador, com uma casa imensa, sombria atrás do Motel e uma presença aterradora que se apresenta como a Mãe de Bates (outra curiosidade são os pássaros embalsamados no escritório fazendo quase que uma menção a próxima fita de Hitch!).
Pronta para descansar e tomar uma ducha à la Craine, a moça parece feliz por ter parado naquele lugar e ter papeado alguns minutos com o jovem Bates, mas subitamente uma silhueta aparece por trás da cortina do Box...e o resto a humanidade cinéfila já sabe...




A causa, motivo, razão ou circunstância, é assassinada a facadas na cena do chuveiro e podemos agora conhecer o misterioso universo de Bates.
Crane era só um impulso para apresentar o psicopata (e a cena do chuveiro parece um videoclipe que está divulgando a real do filme). Depois da sequência em que ele apaga o seu crime (livrando-se do corpo, limpando o sangue, etc.) já esquecemos quem era Marion Crane e agora queremos saber quem é Norman Bates ou sua “mãe”. Se em Intriga Internacional um tal microfilme era a causa da perseguição à Grant e o espírito de uma falecida encarnada numa loura era o motivo da premissa de UM CORPO QUE CAI, pode-se afirmar que Crane e o dinheiro são um canal da narrativa para nos levar ao que realmente interessa. Marca registrada do mestre. Agora, o suspense aumenta quando um detetive particular entra na história e vai investigar o desaparecimento da moça e também é assassinado ( o ótimo MARTIN BALSAM como Arbogast). Lila Crane (VERA MILES, a favorita de Hitchcock que iria estrelar VERTIGO) também decide fazer as suas próprias investigações e resolve envolver o “cunhado” (Gavin) na jogada. Quando Arbogast é interceptado pela “Mãe” o grau de medo e suspense fica ainda maior, quando o casal decide se hospedar no Bates e Lila vasculhar pessoalmente os porões daquela casa mal-assombrada.
No clímax final, o filme tem um segundo “choque”. Descobrimos quem é realmente a Sra. Bates e Perkins revela-se um ator capaz de assustar vestido de mulher e com aquele tipo de expressão homicida.

O filme teve continuações, sempre estreladas por Perkins (1932-1992). Em 1983, PSICOSE II; em 1986 (dirigido por Perkins) PSICOSE III e, em 1990, um filme para TV; PSICOSE IV – A Revelação com Perkins e HENRY THOMAS (o Elliot de E.T), como o jovem Bates, e OLIVIA HUSSEY,como a mãe. Obviamente são filmes apêndices ao clássico do mestre, mas ao menos curiosos.
Deu origem também a uma série de TV de curta duração, já anos depois da morte de Hitchcock (BATES MOTEL de 1987). Em 1998, Gus Van Sant fez uma refilmagem homônima, utilizando o mesmo script: com ANNE HECHE, JULIANNE MOORE, VINCE VAUGHN e VIGGO MORTENSEN.
A aparição habitual de Hitchcock é logo no começo em pé diante da entrada do escritório. A voz da mãe foi dublada pela atriz VIRGINIA GREGG. John Gavin, que faz o amante/namorado de Janet, mais tarde seria embaixador dos Estados Unidos no México. A filha de Hitchcock (PAT HITCHCOCK) faz colega de escritório que oferece pílulas a Crane.
Este estrondoso sucesso até hoje, ainda guarda mais curiosidades. Durante a estréia do filme, o diretor proibiu a entrada de pessoas no meio das sessões – à época as sessões eram corridas –

o que acabou provocando curiosidade e maior sucesso. Sem contar na promoção do próprio Hitchcock nos cartazes e trailer oficial (naquela altura já era o mais famoso dos cineastas).

O filme chegou a ter indicações ao malfado Oscar: direção, cenografia, fotografia e atriz coadjuvante (Janet).
Um choque, à época, foi matar a estrela do filme na metade da história na famosa cena do chuveiro , planificada por story-board pelo famoso artista gráfico SAUL BASS e que, ao contrário da lenda, foi totalmente dirigida por Hitchcock. O sangue foi feito com calda de chocolate e também foi o primeiro filme a mostrar uma privada; algo, até então, proibida pela censura.
Anthony Perkins ficou tão marcado pelo personagem que isso prejudicou a sua carreira futura, que infelizmente foi encerrada pela Aids.
E, não resta dúvida, foi preciso acontecer a estúpida e desnecessária refilmagem de 1998 para dar-se o justo valor ao gênio de Hitchcock. Se existe o MONALISA por Leonardo Da Vinci, existe o filme Psicose por Alfred Hitchcock! E, como foi usado o mesmo roteiro no filme de Van Sant, deu para notar claramente a inteligência das opções de Hitch: de filmar em preto e branco para o vermelho do sangue não tornar a fita repulsiva (e só a idéia de levar facadas tomando banho já diz tudo) e de escolher, obviamente, o elenco correto. Não é à toa que Perkins ficou estigmatizado, afinal seu psicopata é perfeito.

A trilha musical de BERNARD HERRMANN ajuda a criar o clima ideal para o filme, que (de outra forma) pareceria arrastado. Há alguns momentos de bravura criativa, além, da cena do chuveiro, como: a morte do detetive e a visão da casa dos Bates. Embora não seja o melhor filme do cineasta (ainda prefiro VERTIGO, JANELA INDISCRETA e A SOMBRA DE UMA DÙVIDA), aqui, o status de gênio, legendário, marcou todo o gênero de terror e principalmente o de suspense. Pura aula de cinema. Sempre.

EUA-1960
TERROR/SUSPENSE
FULLSCREEN
109min.
PRETO E BRANCO
14 ANOS
UNIVERSAL
✩✩✩✩✩ EXCELENTE

PARAMOUNT PICTURES
apresenta
ALFRED HITCHCOCK´S
Uma produção SHAMLEY
PRODUCTIONS
Estrelando ANTHONY
PERKINS VERA MILES JOHN GAVIN
Co-estrelando: Martin Balsam John McIntire
Co-estrelando: Martin Balsam John McIntire
e JANET LEIGH como
Marion Crane
Simon Okland. Frank Albertson. Pat Hitchcock
John Anderson. Mort Mills
Cenografia por: Joseph Hurley Robert Clatworthy
Fotografia por John L. Russell Edição George Tomasini
Figurinos por Rita Riggs Assistente de Direção Hilton A. Green
Titulagens Saul Bass
Simon Okland. Frank Albertson. Pat Hitchcock
John Anderson. Mort Mills
Cenografia por: Joseph Hurley Robert Clatworthy
Fotografia por John L. Russell Edição George Tomasini
Figurinos por Rita Riggs Assistente de Direção Hilton A. Green
Titulagens Saul Bass
Escrito por JOSEPH
STEFANO
Baseado no livro de ROBERT BLOCH
Música de BERNARD HERRMANN
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK
Música de BERNARD HERRMANN
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK




7 comentários:
Lembro a primeira vez que conferi o longa e me vi perplexo ao ver a mocinha morrer nos quarenta e cinco minutos iniciais da fita, rs Com certeza, o grande persnagem e triunfo do filme é Norman Bates, pra mim o psicopata número um do cinema!!!! Muito bom o filme, também né, impossivel dizer o contrário...
Rodrigo, valeu mesmo por selo. Acabei de postar!!!
[]s
"Se existe a Monalisa por Da Vinci, existe Psicose por Hitchcock". Sem mais.
Perfeita síntese deste filme primal que apresentou uma verdadeira revolução em termos de narrativa e conceito.
Como sempre vc educa seu leitor com deliciosos insights sobre a produção e curiosidades cinéfilas. Psicose é, sem dúvidas, uma das grandes sessões do Cinema Rodrigo.
Quero agradecer pelo selo de qualidade que vc me estende. Significa muito Rodrigo. Mesmo. Ainda mais vindo de um leitor tão embasado e inteligente como vc.Muito obrigado mesmo!
Grande abraço
Belíssimo, post. Psicose é mesmo uma obra-prima. E você tem toda a razão quando diz que a refilmagem só serviu para comprovar a genialidade de Hitchcock. Principalmente na cena do chuveiro, até a hora que a música entra em cena é equivocada na nova versão.
bjs
Para mim é e sempre será o melhor filme de Hitchcock ;)
Poa Rodrigo, vc pega um clássico dos clássicos, faz esse excelente texto e ainda disponibiliza pra comentar?
comentar o que se tu disse tudo?
E muito obrigado pelo selo! o/
vou completar a minha coleção rapidinho hehehe!
abraço!
TODOS: É um filme que expressa a genialidade de Hitchcock. O melhor cineasta da história!
Abs à todos!
Rodrigo
Roteiro genial. Apesar de Hitch nunca ser o roteirista oficial dos filmes, todos têm a sua marca registrada.
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