O REI DA PANTOMIMA NOS FAZ SORRIR
CHARLES CHAPLIN, o rei da pantomima, um mímico que resistiu ao cinema falado enquanto pôde, foi um gênio, mesmo nesta comédia que fez apenas uma concessão parcial ao que se poderia chamar de “Modern Times” da indústria cinematográfica. A trilha musical possui composições do próprio cineasta e alguns até o acusaram de roubar velhas canções do vaudeville, efeitos de som (por exemplo seu estômago ronca) e chega mesmo a cantar (mas as palavras não tem sentido!). Artifícios geniais que marcaram o seu personagem mais amável da história da sétima arte.
A Gênese do projeto seria o que ele ouviu sobre os trabalhadores da indústria de Detroit. O filme levou praticamente dois anos em ensaio e ele continuou com sua mania adorável de repetir as tomadas (enlouquecendo os atores) infinitamente até se satisfazer, uma direção que parece com fazer sexo, quando chega ao orgasmo, o take está excelente. Nessas ocasiões, um amigo seu, cirurgião, Dr. Cecil Reynolds (não ator), fez o papel do pregador que visita a cadeia e passara muito tempo com Chaplin no set.
O filme fez sucesso nos Estados Unidos mesmo com muita gente o denominando de “propaganda comunista”. A Alemanha e a Itália baniram a fita e os soviéticos o consideraram “Insultante”. Na França, a produtora TOBIS processou Chaplin acusando-o de plagiar o filme A NÓS A LIBERDADE ( A Nous La Liberté, de 1931) realizado por René Clair, mas teve de desistir do processo quando o autor declarou-se “honrado” com essa possível homenagem, dizendo: “Eu certamente também peguei muito emprestado dele”. Agora, vamos pensar leitores, se nós fóssemos diretores de cinema ou roteiristas, que seja, não seria uma honra um Charles Chaplin fazer uma linda adaptação de um filme nosso?
Enfim, Chaplin (1899-1977) e a estrela PAULETTE GODDARD (1911-1990) ainda não eram casados à época, mas viviam juntos, obviamente não foi por causa das filmagens, o affair já era anterior. Foram forçados a se casarem quando uma revista revelou o fato, provocando um escândalo. Apesar de tudo, foi a única das ex-esposas de quem ele falou bem.
Não há como negar a beleza imagética de TEMPOS MODERNOS e só na década de 1970 foi que Chaplin permitiu que seus longas-metragens mais famosos (como THE KID [1921]) fossem reprisados, certamente porque havia recebido o pedido oficial de desculpas de Hollywood, com seu Oscar honorário em 1971.
Nove anos depois de O CANTOR DE JAZZ (Alan Crosland, Warner Bros. [1927]) ter provocado uma revolução sonora com o cinema falado, Chaplin ainda insistiu bravamente no que é basicamente um filme mudo: poucas falas e música sincronizada (nenhum artista fazia isso lindamente). Feito em plena depressão econômica, o filme foi uma crítica violenta ao sistema capitalista. E a crítica de um poeta, de um artista que usa mensagens desajustadas como a dos operários que se assemelhavam a carneiros. Por isso, hoje fica meio complicado entender o porquê de a fita ter criado tanta histeria em terras norte-americanas. Ela agora ficou apenas ingênua e engraçadinha, também emocionante, mas não tanto como LUZES DA CIDADE sua outra obra magistral. E não, necessariamente, superada.
Carlitos, o “vagabundo” é o anti-herói, sempre, um sujeito pobre e sem sorte, vítima das circunstâncias. As grandes fábricas são pesadelos futuristas. Na linha de produção, o trabalho é bitolado, portanto ele acaba ficando maluco de tanto apertar parafusos, cada vez mais rapidamente. Depois, encontra uma órfã “menor” e abandonada que vai ser levada pela polícia. Juntos vão tentar ganhar a vida, primeiro, como vigia noturno de uma grande loja, depois, como garçom-cantor.
Não há propriamente uma história mais emocional como Luzes Da Cidade Ou O Garoto, apenas uma série fantástica de Sketchs: o pesadelo das fábricas modernas, das máquinas devoradoras de homens, a mão-de-obra trabalhadora e Carlitos servindo de cobaia para a mais terrível forma de se economizar tempo com a máquina de fazer comida!
Claro que ele não consegue evitar o sentimentalismo. A figura da órfã fugitiva da polícia – sempre instrumento de injustiça – está sempre a um passo do piegas. Mas as piadas são tão inventivas que não há como não rir (mesmo com aquele riso que parece peidinhos) Carlitos patinador à beira do desastre por ser atrapalhado.
Seu “barato” inconsciente na prisão; seu mergulho matinal no “palácio”, na favela ou no momento memorável em que pega uma bandeira vermelha caída na rua e acaba sendo confundido com um líder grevista, e todos o seguem! Às vezes dá-se o luxo de também gozar o cinema sonoro, como na noite dos ruídos, ao tomar o seu chá e os musicais, evidente. Sua estréia é cantando um texto improvisado e sem o menor sentido quando esquece a letra. Ou melhor, quando leva a cola na manga e sem querer a joga longe.
Claro que ele não consegue evitar o sentimentalismo. A figura da órfã fugitiva da polícia – sempre instrumento de injustiça – está sempre a um passo do piegas. Mas as piadas são tão inventivas que não há como não rir (mesmo com aquele riso que parece peidinhos) Carlitos patinador à beira do desastre por ser atrapalhado.
Seu “barato” inconsciente na prisão; seu mergulho matinal no “palácio”, na favela ou no momento memorável em que pega uma bandeira vermelha caída na rua e acaba sendo confundido com um líder grevista, e todos o seguem! Às vezes dá-se o luxo de também gozar o cinema sonoro, como na noite dos ruídos, ao tomar o seu chá e os musicais, evidente. Sua estréia é cantando um texto improvisado e sem o menor sentido quando esquece a letra. Ou melhor, quando leva a cola na manga e sem querer a joga longe.
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| A linda PAULETTE GODDARD. A melhor Chaplin girl! |
Esta antológica comédia social, com instantes geniais, trazia dentro de si o germe de uma futura, lenta e inevitável decadência. Como o cinema mudo, Chaplin tinha seus dias até contados. Por isso é tão triste e simbólica a imagem final, o vagabundo e a órfã andando pela estrada solitária cheios de esperança.
Até hoje, a música é a famosa SMILE, que dizia que você deve sorrir mesmo que o coração esteja doendo. É duplamente emocionante. Pela primeira vez, o vagabundo não está sozinho. Mas Carlitos, o personagem, nunca mais retornaria. Seu próximo filme seria O GRANDE DITADOR [1940], já sem Carlitos. Nunca mais.
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| THE END |
EUA-1936
COMÉDIA
87 min.
PRETO E BRANCO
LIVRE
FULLSCREEN
WARNER – COLEÇÃO CHAPLIN. Também Dispovível pela CONTINENTAL
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
“MODERN TIMES”
TAMBÉM ESTRELANDO
PAULETTE
GODDARD
CO-ESTRELANDO:
HENRY BERGMAN CHESTER CONKLIN
TINY
SANDFORD HANK MANN CECIL
REYNOLDS
Fotografia de
ROLLIE TOTHERON IRA MORGAN
Montagem CHARLES
CHAPLIN WILLARD NICO
Direção de Arte
CHARLES D. HALL
J. RUSSELL
SPENCER
Música,
roteiro, produção e direção
CHARLES
CHAPLIN














11 comentários:
Chaplin dispensa comentários.
Seus filmes são obras de arte.
Abraço
Um dos grandes momentos do nosso cinema. Até mesmo a chatinha Paulette Goddard está comovente.
Cumprimentos cinéfilos!
O Falcão Maltês
Belíssima lembrança, Rodrigo. Tempos Modernos é mesmo um marco, a junção de Carlitos com a máquina é um dos momentos marcantes da história.
bjs
Rapaz, até vinhas bem com a saraivada de informações boas e válidas do início do texto, mas daí a vires dizer que "Tempos Modernos" ficou "ingênuo e engraçadinho", capaz de gerar "risos como peidinhos" (?!), insultaste um fã ardoroso de Chaplin!!! Olha, e não sou eu quem digo, são as faculdades de Sociologia, Filosofia e afins que até hoje reprisam "Tempos Modernos" para seus alunos como AULA sobre tópicos como o capitalismo selvagem, a ânsia pelo socialismo ou alguma estrutura similar que respeitasse mais o trabalhador, a angústia daqueles tempos de depressão norte-americana... Jesus, o filme é mais do que atual (e "Luzes da Cidade", na minha opinião, é bem menor, apesar de também genial!)! E "peidinhos"?! Caramba, Rodrigo, a gente está falando de Chaplin: eu dou gargalhadas com o que ele conseguiu criar em termos de pantomima, uma arte tão engraçada quanto os diálogos verborrágicos de hoje em dia...
Passado o desabafo E APESAR DE SÉRIAS INJUSTIÇAS SUAS (reveja seus conceitos urgentemente, ré,ré), gostei muito da sua postagem (como sempre) e, mais ainda, da lembrança de uma obra-prima em meio a tantas críticas a filmes de somenos importância, como os heróis esquálidos que têm se apresentado ultimamente na tela grande... Ei, mas eu falo disso nos Morcegos! Bem, eu tentei falar deles bem pouco, em comparação, na verdade, com o que aqueles grandes heróis do passado mereciam... O quê, ainda não viste a volta dos Morcegos?! Pois corre, lá, meu amigo! Abração!
Coisa linda!
Lembro eu ainda mt pequeno assistindo a "Tempos Modernos", ingênuo de tudo, não percebia a crítica do filme ao sistema mercantil de produção e me matava de rir de Chaplin fazendo aqueles movimentos repetitivos e tentando apertar o peito da tiazinha, a cocaína hahahahaha!
Minha mãe, q é prof de história e geografia tinha o VHS em casa e ela passava com frequência para os seus alunos. Essa lembrança me faz uma pessoa melhor, sério mesmo rs.
Esse é um grande momento para o cinema. Filme absolutamente crepuscular, coisa de gênio. Pauline Goddard encanta mesmo, gosto mt dela e Chaplin, ah, eu nem gosto de usar mt o nome do deus em vão rs. Ele é o melhor!
grande abraço!
Lindo texto! Transbordante em contexto histórico e temperado pela nostalgia cinéfila que faz de Chaplin essa figura irresistível!
Abs
Olá HUGO: Chaplin só precisa do seu sobrenome para qualquer cinéfilo da terra dispensar comentários. Abs.
ANTONIO: Eu gosto muito da Paulette Goddard não acho ela chata! Um grande filme com certeza. Abs.
AMANDA: As imagens deste filme eu não esqueço nunca. Carlitos apertando os parafusos e a pantomima de Chaplin. Inesquecível! Beijos.
DILBERTO: Agradeço o seu comentário embora exagerado e acho que você não entendeu os meus elogios ao filme. Você que exagerou aqui, rs! Chaplin me passa sorrisos amenos que se misturam com emoções. Eu não costumo rolar de RIR com Chaplin. Gênios não precisam de tantas ovações. E, se você esta acostumado a ler os meus textos sabe que eles, além de informativos, são muito pessoais e crônicos. Desculpe meu amigo, aqui você levou tudo ao pé da letra. Não posso fazer nada!
Obrigado pelo debate esperto.
ELTON: Bacana amigo! Palmas para a sua mãe por mostrar a várias gerações esta obra magnífica.
É não podemos usar o santo nome em vão, a mão que afaga é a mesma que bate. Rs! Abraço.
REINALDO: Obrigado meu caro. Esta figura irá voltar em futuras sessões. Adoro! Abs.
Amigo, venha participar do novo QUIZ!
Abraços,
O Falcão Maltês
Não, Rodrigo, eu que não posso fazer nada: a AACC (Associação de Adoradores de Charles Chaplin) se reunirá na próxima semana para peticionar uma ação de reparação de perdas e danos em memória de Chaplin pelos seus insultos ("peidinhos", que que é isso...?!): contacte logo o seu advogado e...
Que é isso, meu caro: quem tomou tudo ao pé da letra foi você, ré, ré! Tranquilo: só faltando sua presença na volta dos Morcegos! Até lá!
Parabéns pelo post. O que mais me impressiona em Chaplin é que ele nunca se torna ultrapassado. Sua atuação é universal, seus gestos não se prendem a barreiras. E nem precisa dizer o quanto seus filmes continuam atuais...
ANTONIO: Obrigado pelo convite. Passarei no Falcão + tarde. Abraço.
RODRIGO: Obrigado pela visita xará. Concordo com vc, Chaplin transcenderá eternamente no tempo...
Gostei do seu site Café com Pop. Linkado!
Abraço.
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