quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A PROFECIA

 O CAPETINHA

 OUTUBRO DAS BRUXAS
Embaixador americano (GREGORY PECK) descobre que o seu filho, Damien (HARVEY STEPHENS) é o anticristo. Terror dirigido por RICHARD DONNER (SUPERMAN – O Filme) e escrito por David Seltzer.


O filme do Damien é uma fita de grande impacto e não poderia faltar nesta coleção do Outubro Das Bruxas. Antes de se consagrar com Superman – O Filme, o diretor RICHARD DONNER concebeu esta outra obra prima do horror que acrescenta um ótimo suspense que faz jus a frase de Hitchcock quando diz que somente existe o verdadeiro terror na antecipação de um murro. Imaginem uma criança ser filha do diabo? Se você é pai, se você é mãe, consegue imaginar o horror que seria se o seu filhote não fosse aquilo que aparenta ser através de um rostinho inocente? 

A premissa criada por David Seltzer apresenta um casal influente: Robert Thorn e Katherine Thorn (GREGORY PECK e LEE REMICK), que à primeira vista parece ser um casal feliz, pois eles são ricos e tem de tudo, além do mais, são realmente felizes em seu casamento. Robert é embaixador dos EUA na Inglaterra e ele e sua esposa desejam ter filhos. Quando Katherine tem um filho natimorto, ou seja, que morreu ainda em seu útero (ou pode acontecer durante o parto), Robert é interceptado por um Padre (PATRICK TROUGHTON) no hospital e o reverendo lhe sugere que eles adotem um recém-nascido saudável, cuja mãe acaba de morrer no parto. Coincidência? O cara faz isso sem contar para a sua esposa da tragédia e decide fazer do menino o seu filho. Anos depois eles se mudam para Londres e acontecimentos estranhos – como os avisos de um sinistro sacerdote – faz com que Robert acredite que a criança é mal encarnada. Em meio a simbolismos, o filme sugere que o menino nasceu no ano da besta, com a sequência numérica 666.

CHARLTON HESTON, ROY SCHEIDER, DICK VAN DYKE e WILLIAM HOLDEN (que atuou na continuação), recusaram o papel do pai embaixador. Gregory Peck aceitou protagonizar a fita e lhe dá muito mais credibilidade. São tantos os clássicos que Peck atuou: “A princesa e o Plebeu” (1953) com Hepburn, “O sol é Para Todos” (1962) e outros como: “Círculo do Medo” (1962 do diretor J. Lee Thompson com Robert Mitchum, versão original de Cape Fear [Cabo do Medo de Scorsese]) que fizeram dele uma figura importante do cinema Hollywoodiano. Mas, é no início da reta final de sua carreira, com este filme, que Peck ganha mais status. Provavelmente A PROFECIA é um filme que tem o respeito do público e da crítica que aceitaram a temática forte de um filme que segue a onda de filmes de terror com Igreja Católica. Até então somente O EXORCISTA (1973) havia feito a audácia. 

O padrão de qualidade da fita dirigida por Donner e produzida por HARVEY BERNHARD e MACE NEUFELD para a Twentieth Century Fox é certamente um empate justo com o filme de terror da Warner Brothers que causou furor em sessões três anos antes.

Algumas curiosidades não poderiam faltar nesta sessão, ainda mais se tratando de um filme como este. Assim como “O Exorcista”, o filme teve alguns acontecimentos bizarros envolvendo as estrelas e membros da equipe de produção. Algumas histórias podem ser lendas, mas outras realmente não são como, por exemplo, um vôo para Israel que Peck havia cancelado. Depois se sabe que este mesmo avião havia caído – a aeronave teria fretado- e matando todos a bordo. Reza a lenda que outros aviões que embarcavam o roteirista Seltzer e o ator Peck, haviam sido atingidos por raios. Outras fontes afirmam que até mesmo o diretor Donner não escapou das “maldições”. Ele estava hospedado na época da produção, em um hotel que teria sido bombardeado por terroristas do IRA. Dizem também que o diretor sofreu um grave acidente. Foi atropelado por um carro! Quando o produtor Bernhard estava em Roma para rodar algumas cenas do filme, um raio teria atingido o próprio (não creio neste caso em particular), obviamente o velho teria morrido na hora, mas continua bem. Atualmente aposentado, seus últimos trabalhos como produtor foram: OS GOONIES (1985) ao lado de Steven Spielberg e Donner, OS GAROTOS PERDIDOS (1987 – cult de Joel Schumacher) e o filme para TV A PROFECIA IV – O DESPERTAR (1991). 

Terem alterado o título do filme de “O Anticristo” para “The Birthmark”, parecia ser vítima de uma maldição sinistra, uma prévia dos estranhos acontecimentos, que segundo dizem, fora do set. O fato é que na época houve coincidências mortais que relacionaram com o filme. A namorada de um dos caras que trabalhou nos efeitos especiais de ‘The Omen’ (JOHN RICHARDSON também da série Harry Potter) foi decapitada em um acidente durante a realização de outro filme: “Uma Ponte Longe Demais” ( A Bridge Too Far de 1977 do diretor Richard Attenborough). Decerto, o acidente ajudou a criar mais um culto fanático de um filme de terror polêmico (videm O Exorcista e Poltergeist) e as inúmeras fofocas que se tornaram em lendas urbanas.

O clima do filme ajuda a sugerir esses fanatismos e medo, sobretudo quando a Igreja Católica faz de tudo para desmerecer a obra. Já no início, nas titulagens, somos transportados para um típico cenário, que pode não assombrar os céticos, mas aterroriza os religiosos e inocentes, frente a um filme com melodia aterradora composta pelo genial JERRY GOLDSMITH. A sombra da cruz que reflete sobre o menino já sugere o que vem por aí. Aliás, que menino assustador, não? E, foi idéia do diretor Donner mudar a cor do cabelo do jovem Harvey Stephens que era loirinho, para moreno. Assim laçou o temido DAMIEN. 

A audição para escolher o papel do menino foi um ato insano por parte de Donner. Ele entrevistou inúmeros garotinhos e durante a entrevista ele pedia para a molecada atacá-lo, como se estivessem fazendo aquela cena com Lee Remick em que sua personagem é atacada na cena do casamento na Igreja. Entre todos os moleques, Stephens foi o mais capetinha. Ele arranhou o rosto de Donner e ainda lhe deu um chute nos iarbos. Além de ter gritado muito! Com isso, ele era de longe o mais apropriado para o papel principal. Só que Stephens era tão jovem que Donner descobriu que a melhor maneira de dirigi-lo (usando de sua psicologia infantil) era provocar reações genuínas diante a câmera. Só para exemplificar, quando, no filme, Damien esta irritado sendo levado para a Igreja, Donner de modo sacana e perverso não oferecia um pirulito no término da cena, e sim gritava zangado para o menino e dizendo expressões do tipo: “O que você esta olhando pestinha?” “Vou aí de dar umas palmadas...” Portanto, em todas as cenas que envolvem um close em Damien zangado, certamente é Donner que esta por trás irritando o guri. Já na cena final, Donner com sua psicologia inversa para conseguir uma reação infantil, dizia para Stephens: “Não se atreva a rir moleque. Se você rir, não vou mais ser o seu amigo.” No entanto, de forma natural, Stephens queria rir e ele, ao invés de ficar sério, sorri diabolicamente diante a câmera só para provocar Donner, o que fez o diretor ficar feliz com o resultado.E o resultado esta na fita.
Algumas participações especiais devem ser mencionadas, como a do ator LEO McKERN (1920-2002) que faz uma ponta. Ele é conhecido pelo filme vencedor do Oscar O HOMEM QUE NÃO VENDEU SUA ALMA (1966 de Fred Zinnemann) e de outras fitas famosas como “A Lagoa Azul” (1980 – clássico das sessões da tarde) e LADYHAWKE (1985) também de Richard Donner. O ator DAVID WARNER (de TITANIC) tem um destaque coadjuvante no papel de Jennings. O ator e o seu personagem sofrem no filme. Na cena em que ele é atacado pelo cão, o seu dublê sofreu gravemente uma mordida. E era intenção de Donner filmar e editar a cena em que Jennings é decapitado para fazer o público tremer nas poltronas com os olhos fechados, que depois espiam a cabeça flutuando lindamente pelo ar. Uma das cenas mais horripilantes do filme, com efeitos físicos até inocentes.
Em meio a tantas cenas antológicas, esta o momento em que Lee Remick esta com o garotinho no carro e uns babuínos começam a atacar. Para realizar a cena um funcionário do Zoológico ficou escondido no banco de trás do veículo com um babuíno bebê para fazer uma reação nos bichos. Nada aconteceu. Sendo assim, os funcionários do parque tiveram que bater nas cabeças dos bichinhos para provocá-los. Se existe um ato de vergonha na feitura deste filme, é este. Mas, na cena em que o aquário cai no chão, sardinhas foram pintadas de laranja, já que Donner se recusava a matar um animal para fazer um filme. 

Apesar das dificuldades de realizar a história, o filme deu aquele sucesso de verão lucrativo para o estúdio que continuou a série original em uma trilogia: DAMIEN: A PROFECIA II (1978 com direção de DON TAYLOR) com um novo garoto no pedaço, Jonathan Scott-Taylor, muito apático e agora WILLIAM HOLDEN e LEE GRANT como os pais. E, A PROFECIA III – O Conflito Final (1981) de Graham Baker, agora estrelado por SAM NEILL (Jurassic Park) no papel de Damien Thorn adulto. Ainda querendo uma coleção de apêndices, surge uma continuação feita para TV em 1991 com elenco desconhecido, e agora sendo uma garotinha, a capetinha, em: A PROFECIA IV – O Despertar. Ignorem. Nos anos 2000 com a febre de rever os clássicos em refilmagens, fizeram um novo A PROFECIA (2006) de JOHN MOORE, que acho bem irregular, estrelado por JULIA STILES e LIEV SCHREIBER e com vários exemplares mirins no papel de Damien. O Damien original (Stephens) faz uma ponta aqui, adulta, como um repórter de tablóide numa participação nostálgica e especial. O bom deste filme é que os tempos mudaram e não houve nenhum relato de maldição durante as filmagens, pelo menos que eu saiba. 


Como parte da campanha publicitária do filme em seu pré-lançamento, os produtores apontam a importância de mencionar os “três números seis” como sendo o sinal do próprio satã. E os cartazes nos cinemas diziam: “Hoje é o sexto dia do sexto mês de mil novecentos e sessenta e seis!” O truque funcionou muito bem e criou-se o mito do meia, meia meia!

É um filme inesquecível para quem assiste. “The Omen” garante 111 minutos de terror psicológico que culmina em uma série de slachers e ainda antecipa aquele suspense profundo, do mais puro medo. O ápice do estilo artesão artístico de Richard Donner – “Dick Donner” – um cineasta que se meteu com superproduções, super-produtores, super-filmes e super-homens! E mais, “A Profecia” pode ser um filme de roteiro duvidoso e premissa safada, pegando carona no sucesso de demônios, bestas e padres, em uma produção que não quer poupar despesas e nem sustos, mas a imagem daquele capetinha ninguém esquece.

Falem a verdade: eu parecia com o Damien quando criança? Rs!




EUA/INGLATERRA – 1976
SUSPENSE/TERROR
WIDESCREEN
COR
111 min.
14 ANOS
FOX
      EXCELENTE


TWENTIETH CENTURY FOX APRESENTA
UMA PRODUÇÃO
HARVEY BERNHARD-MACE NEUFELD
GREGORY PECK. LEE REMICK
THE OMEN
DAVID WARNER. BILLIE WHITELAW
PATRICK TROUGHTON. MARTIN BENSON
HARVEY STEPHENS como DAMIEN
Diretor de Fotografia GILBERT TAYLOR
Direção de arte CARMEN DILLON
Edição STUART BAIRD
Música de JERRY GOLDSMITH
Produtor Associado CHARLES ORME
Produtor Executivo MACE NEUFELD
Escrito por DAVID SELTZER
Produzido por HARVEY BERNHARD
Dirigido por RICHARD DONNER
The Omen ©1976 Fox Films Corporation.

7 comentários:

renatocinema disse...

Esse capetinha é meu predileto no gênero.

Sobre o filme O Palhaço - Selton Mello bebe muito em Fellini e mesmo em Chaplin. A questão do Tarantino é mais ligada ao resgate desses talentos.

Mas, em termos de narrativa acredito que ele foge do padrão americano.

Abraços

ANTONIO NAHUD disse...

Grande momento do cinema de terror. Realmente assustador. A sequência também é bem interessante.

O Falcão Maltês

Rodrigo Mendes disse...

RENATO: Esse capetinha já azucrinou muita gente, rs! Um grande filme sem dúvidas...

pois é amigo, não sei se entendi o que vc quis dizer do Tarantino nos filmes do Selton. Entendi a relação que vc faz quando diz sobre o resgate dos atores. Tem até o Moacyr Franco na fita de Mello, não? Mas no seu texto vc compara outras coisas como trilha sonora diferenciada, os roteiros fora do padrão e uma direção forte.
'Tarantino´s Mind' é um charme e adoro a teoria de Selton, rs!

Bom, vou assistir O Palhaço e observar no filme o que vc apontou e preciso rever "Feliz Natal" para perceber estes achados. Não deixa de ser interessante.
Abs.

ANTONIO: Acho a continuação bem abaixo do original por causa do menino que é bem apático no segundo filme.
Abs.

Hugo disse...

Ótimo filme, com boas cenas de suspense e um clima assustador em alguns momentos.

A refilmagem é competente, mas inferior ao trabalho de Donner.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

HUGO: A fita de Donner deixa o remake no chinelo.

Abs.

Unknown disse...

Genial, genial e Genial!!!
Ainda tenho arrepios com esta película... Damien conseguiu ser sutil, mas, assustador. Algo difícil de se alcançar com uma criança...

Excelente, de fato!

;D

Rodrigo Mendes disse...

KARLA: Este guri arrepia a nossa espinha. Um filme que marcou gerações.

Beijos.

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