Aristocrata se casa com sua secretária, Marnie, uma ladra compulsiva, mentirosa, frígida e com problemas psicológicos.
Foi o filme que minha avó assistiu no cinema com o namorado em 1964 e trazia SEAN CONNERY, na época James Bond, no papel de Mark Rutland, um bom homem, que se excita por uma ladra compulsiva e mentirosa que vai trabalhar para ele e tenta roubá-lo. Ela é a MARNIE do título (´TIPPI’ HEDREN de Os Pássaros).
O filme é um retrato introspectivo e fascinante de uma mulher estranha, perturbada e é também sobre um homem que tenta ajudá-la de todas as maneiras a ponto de se casar com ela sem uma noite de núpcias e, sem ao menos receber o seu amor. Ele a ama, mas ela não ama nenhum homem. Certamente é o tema mais polêmico dentro da obra do mestre. “Marnie” não é aquele suspense popular e aclamado que se assistia em UM CORPO QUE CAI ou JANELA INDISCRETA é apenas uma viagem digressiva na mente de uma mulher difícil, que se disfarça de várias maneiras (Hedren mudando de peruca, tingindo o próprio cabelo, figurinos ao longo da fita) e que usa vários nomes falsos. Sabemos que seu nome é mesmo Marnie, mas até o herói descobrir... para ele, ela poderia ser Margareth, Louise, Amanda, etc.
O filme se concentra na relação complicada do casal central, que se apaixonam por um jeito incomum, mas já começa com a ladra escapando com uma bolsa contendo dinheiro. A atmosfera é tão expressionista (Hitch vem do cinema expressionista alemão) que o público já sabe que esta misteriosa mulher esta fugindo com artefatos roubados. É uma cena muda, sem música, diálogos, apenas ao som de passos, e acompanha de costas, a personagem de Hedren. Logo após a sequência inicial dos títulos, Hitch já aguça a imaginação e inteligência do espectador. Olha, não é muito comum um diretor conseguir extrair o máximo de atenção envolvendo o indivíduo já conectado ao filme somente nos poucos minutos de fita. É puro cinema.
O mais curioso em MARNIE é que podemos dizer que é a versão inversa de LADRÃO DE CASACA. Grace Kelly fazia uma moça que se excita por um sujeito ladrão (mesmo ele sendo o homem errado na ocasião – mas era Cary Grant né?) e também tenta ajudá-lo, mesmo se arriscando, ao longo da trama. Aqui é o homem que se envolve com a ladra, não de casaca, mas suéter.
O filme é baseado no romance de WINSTON GRAHAM e primeiramente foi escrito um primeiro tratamento do roteiro – uma sinopse detalhada com diálogos – pelo ótimo JOSEPH STEFANO (PSICOSE) e seria estrelado originalmente por GRACE KELLY. Na época ela já era a princesa de Mônaco e partiu dela o interesse de regressar ao cinema sendo dirigida pelo seu mentor pessoal, Hitch. Assim sendo, Hitchcock lhe enviou o romance de Graham e lhe explicou o papel. Kelly adorou a idéia e estava certa que faria o filme. No entanto, por problemas pessoais (na sua côrte) ela decidiu não fazer mais o filme. Estava acabada sua carreira de atriz. O fato chateou Hitchcock a tal ponto que ele cancelou o projeto. Fez outros trabalhos, como Os Pássaros, Stefano não pode voltar a trabalhar no filme porque estava ocupado escrevendo episódios da série Alfred Hitchcock Presents, e assim, naquela altura do campeonato Hitch decidiu que Tippi poderia interpretar o papel. Sinceramente, gostaria que fosse a Grace Kelly. Não que Hedren seja ruim, mas ela às vezes parece exagerar nas histerias da personagem e se apresenta irritante e artificial. O problema de Marnie é justamente o problema de Marnie. Uma personagem extremamente complexa e que seria perfeita para uma atriz mais teatral, experiente (até uma Bette Davis seria ideal). Tippi naquele tempo ainda era uma amadora e o seu papel em “Os Pássaros” era mais leve, sem um perfil psicológico tão profundo (alias, era apenas uma loira que era bicada por criaturas aladas e só). Aqui é o oposto total. Não sei qual foi o motivo de Hitch por ter escalado Tippi, já que o cineasta sempre tinha um tino comercial – talvez esse o motivo (que não deu em nada) e certamente sabia conduzir um filme sabendo sabiamente o que estava fazendo, enfim. Mas, até os grandes gênios erram e Marnie é conhecido como “Um Hitchcock Menor”.
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No novo roteiro, Hitchcock chamou EVAN HUNTER (roteirista de Os Pássaros) para escrever uma nova adaptação. Muita coisa mudou da versão de Stepano. Havia um triângulo amoroso entre Marnie recebendo a atenção e disputa de dois homens (que é comum nos filmes de Hitch) e também a premissa apresentava um psiquiatra em cenas digressivas para, aos poucos, irmos entendendo em pedaços de películas, o passado de Marnie. Tudo foi reduzido. O psicólogo virou o próprio personagem de Connery e a figura masculina se transforma numa feminina que antagoniza com a mocinha, feito brilhantemente por DIANE BAKER (de O SILÊNCIO DOS INOCENTES).
Hunter fez um trabalho bom que se encaminhou mais próximo da versão final, mas havia um grande problema, mais um para a coleção da fita. Uma cena que gerou várias discussões e desacordos entre roteirista e diretor, a tal falaciosa cena de estupro. Rutland, cansado de esperar por Marnie e fazer “amor” com sua esposa perde a paciência e na marra arranca a roupa da loira. Nossa! Tudo era estilizado e o resultado não poderia ser diferente naquela época e mesmo assim, os censores hipócritas achavam aquilo muito sujo (Evan Hunter foi um deles). Isso foi o cartão vermelho para Hunter, que foi despedido depois de ter sido ousado em escrever duas cenas alternativas: uma de estupro (fraquinha – que certamente não agradou Hitch) e outra em que ele se desculpa e vai embora, não transa com a esposa. Isso enfureceu Hitchcock. Eles nunca mais trabalharam juntos - era o roteirista tentando dirigir o filme com um parágrafo amarelo no script indicando seu moralismo- assim, foi escalada para escrever a versão final do roteiro a ótima JAY PRESSON ALLEN, dramaturga que estava tentando carreira na Broadway e este filme foi o seu primeiro grande trabalho. Allen (foi uma senhora escritora talentosa) começou escrevendo justamente a “cena do estupro” (a cena do chuveiro é cem por cento mais gore dentro da obra do mestre) e para ela foi tudo natural e lógico. Allen foi de grande ajuda para o filme. Com sua matemática lingüística, ela soluciona os problemas de Marnie, uma historia ousada à época e levada ao extremo por Hitchcock.
O mais curioso era a teimosia do mestre em querer filmar em locação de estúdio. Ordenando que a equipe de produção pintasse um fundo em que mostrava um porto (por sinal muito falso). Ou mesmo sugerir que os estúdios da Universal poderiam representar as ruas de Paris. Um erro até interessante vindo do cineasta e até importante pra quem estuda cinema. Com o advento da televisão e diversas imagens do mundo naquela torradeira que saltava a mesma coisa todos os dias (era assim que Hitch se referia à televisão), as pessoas já tinham noção (os americanos que sempre foram péssimos em geografia) de como era o mundo: seja Paris, Rio de Janeiro, Londres ou Amsterdã. Portanto em pleno anos 1960 rodar uma fita a moda antiga, evitando locações externas era algo muito artificial. Tanto é que, já era possível lidar com os equipamentos de som e câmeras para fazer uma boa filmagem externa. Nada disso interessava ao mestre. Um senhor de idade que se manteve fiel (como Chaplin contra o cinema falado). Mas, devo admitir que muitas das cenas de “Marnie” são realmente artificiais (atuação de Tippi o item principal. Tubo bem, não é um problema cenográfico) quando assistimos a uma fita de 64 dez anos mais velha. Ou seja, era diferente a experiência de assistir “Janela Indiscreta” (1954) e todas as várias janelas de apartamentos especialmente construídas em estúdio em um filme cinquentista. Com isso, Hitchcock teve que receber duras críticas na época e o repúdio do público. Foi fracasso comercial. A fita só ganhou status de cult anos depois, principalmente depois do livro de entrevista de TRUFFAUT/HITCHCOCK. No final dos anos 1970 foi quando Alfred Hitchcock se transformou (do ponto de vista da crítica americana) como um ícone e mestre da sétima arte. Em seu precioso tempo de ouro em atividade, o diretor era conhecido como aquele que realizava filmes apenas de entretenimento. Sem mais. E, não era levado muito a sério e considerado um gênio. Hitch sempre respondeu a essas críticas com sua louvável sabedoria sarrista.
MARNIE, apesar de ser mesmo irregular, um pouco pelo ponto de vista técnico , até piegas o modo como o filme sugere as perturbações de Marnie (por exemplo, a representação de sua repulsa ao vermelho, fruto de sua loucura), ainda esta obra tem atuações (exceto de Hedren), fortes. Connery com seu charme a la 007 deixa uma impressionante marca. Um aristocrata sedutor e o sonho de toda mulher. Um cara paciente de aturar uma Tippi chata (parecido com Clark Gable buscando o amor não correspondido de sua Scarlett O´Hara). Outra perfeita atuação esta nas mãos de LOUISE LATHAM, como Bernice, mãe de Marnie, que esconde um segredo aterrador e é sempre cruel com a filha. A amargura de Latham na primeira e última cena do filme (ela tem uma função importante nos dois atos) é realmente fantástica. Não vou contar o motivo de Marnie ter o problema de roubo senão perde a graça, mas é a mãe e filha que suportam um passado cruel e que é a força motriz da história.
O conteúdo plástico da fita traz aquele glamour típico de Hitchcock. A riqueza, a aristocracia (nunca vemos pobreza) e mesmo a casa da mãe de Marnie, tem um "simples chiquérrimo" naquelas louças e papéis de parede. É incrível a reunião de detalhes de puro cinema que Hitchcock nos proporciona, esse é o seu maior legado.
Apesar de ser um filme criticado, é o último Hitchcock de sua “fase de ouro”. Última vez que o mestre trabalha com sua equipe clássica: o editor GEORGE TOMASINI e o diretor de fotografia ROBERT BURKS, que faleceram logo depois do lançamento. E, a mais importante de todas as parcerias: é a última vez que ouvimos uma trilha musical de BERNARD HERRMANN em uma fita de Hitch. Depois em diante o diretor só faria mais quatro longas metragens, e competindo com a nova geração de aspirantes a cineastas.
Um filme que confronta terror e romance em um ótimo suspense. Hitch sempre o chamou de “Um thriller policial sexual”. Minha avó sempre teve boas lembranças daquela sessão de 64 e me conta sempre como passou uma bela tarde no cinema com o namorado. Ou ela foi daqueles poucas pessoas que gostaram do filme na época, ou tem apenas bom gosto cinematográfico.
EUA – 1964
SUSPENSE/ROMANCE/POLICIAL
130 min.
COR
FULLSCREEN
12 ANOS
Universal -
COLEÇÃO HITCHCOCK
✩✩✩✩ ÓTIMO
UNIVERSAL APRESENTA
ALFRED
HITCHCOCK´S
MARNIE
ESTRELANDO: ‘TIPPI’ HEDREN SEAN CONNERY
CO-ESTRELANDO:
DIANE
BAKER MARTIN GABEL
LOUISE
LATHAM BRUCE DERN como “O Marinheiro”
ALAN
NAPIER BOB SWEENEY
Produzido
por ALFRED HITCHCOCK
Música
de BERNARD HERRMANN
Fotografado
por ROBERT BURKS
Montagem
GEORGE TOMASINI
Cenografia
ROBERT BOYLE
Gerente
de produção HILTON A. GREEN
Figurinistas
EDITH
HEAD
(guarda-roupa
pessoal de ‘Tippi’ Hedren)
RITTA
RIGGS e JAMES LINN
Efeitos
Visuais ALBERT WHITLOCK
Roteiro
adaptado por JAY
PRESSON ALLEN
Do
Livro de WINSTON GRAHAM
Dirigido
por
ALFRED
HITCHCOCK
MARNIE©1964 Geoffney Stanley Inc. UM FILME UNIVERSAL












11 comentários:
Eu estou extremamente ansioso para ver esse filme, principalmente após os eu comentário a respeito da temática do filme e também por causa da correlação estabelecida com To Catch a Thief - adoraria ver o oposto de Grace Kelly. E também quero ver toda a incursão psicológica e polêmcia que esse filme tem a oferecer.
Acho esse filme sensacional, embora seja um dos menos cotados da carreira de Hitchcock.
O Falcão Maltês
Como fã do mestre, é até um pecado não ter visto esse, um dos poucos que não conferi, tenho q reparar isso. Abs!
Outro que eu ainda não vi. Bem, tem vários do Hitch que eu ainda não vi. Não gosto da "Tippi", achei a atuação dela em "Os Pássaros" bastante... Irritante. Não sei explicar, mas não gosto muito dela. Foi exatamente por conta disso que eu ainda não vi este, mas lendo seu texto é imporssível não ficar curioso. Gostei da premissa! Vou procurar ver!
Abs.
LUÍS: Vc vai gostar!
ANTONIO: Eu tbm acho. Uma pena que o público não estava à época interessado nesta temática.
CELO: Vc precisa assistir e até postar no seu blog. Quem sabe será o filme de número 365? Garanto que irá apreciar.
ALAN: Certamente Tippi irá te irritar neste, mas nem por isso deixe de ver o filme. É o mestre Hitch!
Abraços à todos!
Rodrigo
Eu gosto de "Marnie"; é um dos bons filmes da última fase de Hitch, do qual destaco apenas "Frenesi".
Mas tu disse tudo aí: 'Tippi' Hedren é aquila péssima atriz que conhecemos de "Os Passaros", que uma vassoura exibe mais expressão. E parece que a intenção da maldita era proliferar a espécie de intérpretes ruins porque colocou Melanie Griffith no mundo, então...rs. Paciência...
Sério, não tem como não falar que "Marnie" perde muito porque essa atriz entrega uma atuação risível. E pensar q Kelly seria a protagonista, mas os bestas de Mônaco acharam feio uma princesa interpretar uma ladra... ai ai. Mas Hitch faz o possível, e acho q tem bastante influência de sua fase 1940, a minha preferida dele.
abração! o//
ELTON: Ótimo adendo Elton, bem lembrado, há sim bastante da década de 40 na fita, tanto é que Hitch teve problemas com o público na sua última fase se mantendo ainda muito clássico e padrão (mesmo fazendo cinemão de primeira). A nova trupe de cineastas estavam chegando...
Tb adoro "Frenezi". Violento, cômico, bizarro e o mestre de volta a sua terra natal.
O caso Tippi é "típico", rs! A da vassoura e Melanie Griffith foi hilário! HA! Griffith pelo menos tem bons momentos na carreira vai... "Celebridades" e "Cecil Bem Demente", mas de fato é muito Doll, como a mãe. Artificialidade loira pura!
Abs.
Tippi realmente não era a atriz ideal para a complexidade de Marnie... Poucas conseguiriam captar todas as camadas da personagem... Este filme é completamente surpreendente no sentido de manter a aura do suspense intimista sem cansar... Um time que funcionou bem foi Hitchcok e Allen.. a cena do estupro foi muito acertada para os padrões da época.
uma ótima pedida!
;D
KARLA: Tb concordo quanto a Tippi e a roteirista Allen. Uma não ajuda muito o filme, a outra, por outro lado, faz da fita de Hitch esse suspense intimista que vc diz. Concordo plenamente.
Beijos.
Nossa, Ro, seu texto detalhado e destacando todos os sentidos dessa obra de Hitch me deixou ansioso pra conferir. Parabéns mesmo pelo post!
abraço!
CRIS: Ainda não assistiu Marnie? O filme é perfeito para o Apimentário. Acredito que irá gostar! Veja e poste.
Obrigado.
Abs.
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