domingo, 27 de novembro de 2011

SERGIO LEONE | QUANDO EXPLODE A VINGANÇA


A TRILOGIA AMERICANA DE LEONE – SEGUNDA PARTE


Um especialista em explosivos do IRA numa estrada para o México, é abordado por um ladrão de galinhas, um bandido mexicano amoral. Ambos se tornam amigos, e juntos, acabam sendo os principais líderes da Revolução Mexicana, a contragosto do ladrão camponês.


Finalmente chega ao Cinema Rodrigo a segunda parte (post final) DA TRILOGIA AMERICANA do grande SERGIO LEONE (1929-1989). Iniciada em ERA UMA VEZ NO OESTE (1968) e concluída em ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (1984).
Com o seu estilo barroco e refinado, Leone realiza grandes fitas. Extraordinárias obras de arte. Sua outra trilogia (com CLINT EASTWOOD) “A Trilogia dos dólares” com o “HOMEM SEM NOME” (POR UM PUNHADO DE DÓLARES, POR UNS DÓLARES A MAIS e TRENS HOMENS EM CONFLITO [O Bom, o feio e o mau] e que lançou à moda do Spaghetti-Western (na verdade Leone não gostava desta expressão, considerando-a pejorativa), sempre foram o meu tipo predileto de faroeste. Sem dúvidas influenciou cineastas como MARTIN SCORSESE e QUENTIN TARANTINO. Em “A FISTFUL OF DYNAMITE” (Quando Explode A Vingança), originalmente chamado pelo autor de “DUCK, YOU SUCKER” (e é este título que a fita recebe na versão do DVD que comprei recentemente), é mais um testamento magnífico de Leone em matéria de película. Ele continua a retratar a América no seu estilo Western (mesmo o filme sendo mais sobre a Revolução Mexicana – quase nem é tanto como as fitas anteriores do diretor que retratam melhor a poesia do West Americano: “Por Um Punhado De Dólares” ou mesmo “Era Uma Vez No Oeste”). A premissa de “Quando Explode...” é um pouco diferente das tramas de cowboys a la Italia e já é um passo para a sua conclusão em “Era Uma Vez Na América” , que retrata o submundo dos gângster (muitos consideram o melhor filme do mundo). É sobre um terrorista irlandês (JAMES COBURN), que é obcecado,  um especialista em dinamites. O cara se junta a um camponês bandido mexicano e pobre no meio da estrada árida. Este mexicano (ROD STEIGER) , acaba virando, sem querer, em um revolucionário. O homem que só queria ir a MESA VERDE assaltar um banco acaba libertando presos políticos em meio a Revolução Mexicana de 1913. O filme é um agitado enredo de ação, altamente explosivo sobre poder e política, com grandes cenas de batalha. Basicamente é esta a trama.

Foi escrita por LUCIANO VINCENZONI, SERGIO DONATE e Leone. Ou seja, não tinha por onde o filme ser irregular. Steiger está fabuloso como Juan Miranda, o revolucionário incomum, o anti-herói que abraça a causa de seus compatriotas. Ele já havia ganhado um Oscar de melhor ator pelo clássico NO CALOR DA NOITE (1967) e com sua aparência rude, descortês, bem diferente dos outros revolucionários (médicos, acadêmicos, etc) ele é um homem com um coração nobre, só não sabe disso. Pai adotivo de vários bastardos que seguia ele nos assaltos de estrada. Aliás, o filme já começa esplêndido e Leone, além de tudo, esta interessado em discutir as aparências quando o personagem de Steiger se apresenta como um pobre coitado que deseja uma carona até a cidade próxima para visitar sua mãe moribunda. Ele oferece alguns poucos trocados (esta todo molambento) para uma carruagem que estaciona no meio do deserto. Lá estão à sociedade de fina estampa que não se mistura com a plebe. Uma senhora distinta, assim como, padres e aristocratas. 
 L E O N E !

Todos julgam aquele homem mal vestido quando o dono da “carruagem-táxi” aceita os trocados e dá uma carona ao coitado. É uma longa sequência e Leone nos perturba mostrando closes nas bocas dos ricos (que estão comendo) apontando para o camponês e falando mal da ralé. Isso mostra que a corte é suja, quando Leone insiste em focar os ricos comendo uma asa de franco, chupando uma cereja e falando de boca cheia (vemos as migalhas entre os dentes). Daí o jogo vira! Eles são assaltados em uma típica cena de bang-bang e o pobre homem se apresenta como Juan Miranda, um fora da lei. É engraçado ver essa virada de mesa e o poder regido por aquele aparente coitado.
James Coburn era o Homem Dinamite
Depois do assalto, Miranda conhece John Mallory (Coburn), este revolucionário explosivo, um irlandês – “gringo sujo” - como é chamado por Miranda. Mallory aparece todo estiloso em sua lambreta, um atirador de dinamite que fugiu para o México para poder praticar suas habilidades na Guerra. Miranda não esconde sua admiração por Mallory quando este explode litros de nitroglicerina! Acostumado apenas com as tradicionais espingardas e armas antigas, Miranda fica espantado com aquela tecnologia. Os dois não se dão muito bem de início, mas depois resolvem suas diferenças, e juntos, eles preparam uma ousada operação de fuga para libertar os prisioneiros políticos e defendê-los contra a milícia bem equipada de um sádico oficial. Tudo isso culmina em combates na poeira daquele sol escaldante e em uma locomotiva carregada de explosivos!


Em um filme de Leone sempre presenciamos uma magnífica filmagem, que foram realizadas nos desertos da Espanha, além de o filme ter o espírito musical brilhante e único do mestre ENNIO MORRICONE, que assina um de seus melhores trabalhos com a canção: “Shon, shon, shon”.
Rod Steiger era um pistoleiro com um coração revolucionário.
Ele só demorou até descobrir.
Inicialmente Coburn não foi considerado para o papel. JASON ROBARTS estava cotado e ELI WALLACH iria fazer o papel de Miranda. Clint Eastwood e MALCOLM McDOWELL (Laranja Mecânica) também foram sugestões de Leone antes de Coburn assumir o papel.  Na verdade Coburn foi relutante em aceitar este filme de início (ele fez testes na época em que Leone escalava o elenco de Por Um Punhado de Dólares – papel do protagonista sem nome). Só foi HENRY FONDA, em um jantar com Coburn, que o convenceu em aceitar e trabalhar com Leone. Segundo Fonda, um dos maiores diretores com quem já havia trabalhado. Não por menos, Leone mudou totalmente o tipo de Fonda o fazendo ser um vilão em Era Uma Vez No Oeste. O resultado da muito certo. Steiger e Coburn, além de uma excelente química (meio Don Quixote e Sancho Pança) estão radiantes. O italiano ROMOLO VALLI (de MORTE EM VENEZA de Visconti) também esta ótimo como o Dr. Villega, um dos revolucionários intelectuais, estrategista e médico de Guerra. Provavelmente a sua cena de morte no trem seja um dos pontos altos do filme.



Tudo em “Quando Explode” é típico no estilo de Leone. As digressões em câmera lenta que mostra o passado de um dos protagonistas e a atmosfera musical de Morricone que é sempre importante dentro da obra do cineasta italiano.


“POR UM PUNHADO DE DINAMITE” explode lindamente na tela e Leone dá o seu arrivederci ao faroeste. Para sempre.





ITÁLIA - 1971
FAROESTE/GUERRA
WIDESCREEN
157 min.
COR
METRO/UNITED
✩✩✩✩✩ EXCELENTE




RAFRAN FILMS APRESENTA
ROD STEIGER    JAMES COBURN   ROMOLO VALLI
EM:
UM FILME DE SERGIO LEONE
“GIU´LA TESTA”

“A FISTFUL OF DYNAMITE”

AKA: “ DUCK, YOU SUCKER”
Música de ENNIO MORRICONE
Fotografia por GIUSEPPE RUZZOLINI Montagem NINO BARAGLI
Direção de Arte ANDREA CRISANTI Figurinista FRANCO CARRETTI
Produtores Associados UGO TUCCI. CLAUDIO MANCINI
Escrito por
LUCIANO VINCENZONI. SERGIO DONATI. SERGIO LEONE
História de SERGIO DONATI e SERGIO LEONE
Adaptação para o inglês por
ROBERTO De LEONARDIS. CARLO TRITTO
Produzido por FULVIO MORSELLA
Dirigido por
SERGIO LEONE
 DUCK, YOU SUCKER AKA A Fistful Of Dynamite © 1971
Rafran Films/ EURO International Film (EIA)



11 comentários:

Alan Raspante disse...

Ainda não vi este. Se bem que, filmes faroeste e tudo mais eu quase não vejo... Acho que vi um ou dois, no máximo...

renatocinema disse...

Dos filmes de Faroeste gosto dos clássicos de Leone e de Os Imperdoáveis.

Leone é para os filmes de Western o que Tarantino é para as obras de violência moderna....um símbolo.

Viva Leone.

Belo texto amigo.

Hugo disse...

É um ótimo filme, como toda a carreira de Leone.

O triste é que o filme tenha fracassado e oficialmente Leone voltasse a direção apenas 13 anos depois como "Era uma Vez na América".

Imagine quantos clássicos Leone poderia ter dirigido neste período.

Abraço

Carla Marinho disse...

Post indicado para os melhores da semana. http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/2011/11/links-da-semana-21-27-de-novembro.html

J. BRUNO disse...

Tenho uma dívida quase impagável com o western, acho que devido ao trauma com boa daquilo daquilo que assisti do gênero quando era mais novo... Este "trauma", se é que posso chamar assim, me fez distanciar dos clássicos, de produções como esta de Sergio Leone... Ainda pretendo começar a quitar parceladamente esta dívida. Creio que este seria uma boa pedida como a "entrada" deste parcelamento...
.
http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2011/11/reino-animal.html

Rodrigo Mendes disse...

ALAN: Será que faroeste faz mesmo o gênero do meu amigo? Rs! Sei não Alan...mas confira Leone. Os filmes do mestre são geniais. Gosto do gênero, mas as fitas deste diretor são um romance à parte e são os meus prediletos. Todos!
Abs.

RENATO: O que seria de Taranta sem o Leone, não? Faço coro a vc amigo. Abs.

HUGO: É verdade cara. O filme foi subestimado. Aliás, as fitas de Leone sempre tiveram uma péssima distribuição aqui no Brasil. Só agora com Blu-ray que saiu um box com a trilogia dos dólares. maravilhoso e desejo comprar! E depois de tanto tempo pelo menos o mestre nos deu o presente: Era Uma Vez Na América.
Abs.

CARLA: Beijinhos! Obrigado, sempre!

BRUNO: Pague esta dívida, now! rs
Abs.

Gilberto Carlos disse...

Também falei de Sergio Leone há pouco tempo na postagem sobre os westerns spaghetti. Um grande diretor. Um dos melhores da Itália.

Rodrigo Mendes disse...

Sem dúvida foi um grande cineasta Gilberto!

Abs.

Unknown disse...

Leone detona!
Apesar de eu não ser uma completa apaixonada pelo estilo... Eu acabo me rendendo aos trabalhos dele... Como você disse, tem algo de refinado em tudo.

Indispensável!

;D

Darci Fonseca disse...

Olá, Rodrigo
Belo texto sobre esse faroeste que acabou não sendo melhor que Era Uma Vez no Oeste. Sou fã de James Coburn. Pena que ele só trabalhou uma vez com Leone. Um abraço.
Darci Fonseca - CINEWESTERNMANIA

Rodrigo Mendes disse...

KARLA: É o Leone foi o responsável por me fazer gostar de western. Os planos, os enquadramentos...a direção em seus filmes é impecável.
Bj.

DARCI: Obrigado. Por ter gostado do texto e pela sua presença aqui. Uma autoridade em faroestes. Bom, é uma pena que o filme na verdade não tenha feito sucesso. Não é mesmo melhor que "Era Uma Vez No Oeste" ou mesmo "O Bom, o feio e o mau", mas é um filme magnífico. Leone nunca fez um filme abaixo do excelente na minha opinião e mesmo sendo possível fazer um top e selecionar a ordem dos melhores.

James Coburn foi realmente um grande ator. Sou mais fã do Eastwood. Rod Steiger também detona neste filme.

Abs.

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