terça-feira, 10 de janeiro de 2012

F. W. MURNAU | NOSFERATU

SESSÃO
DINOSSAURO
3
A SINFONIA DO MEDO!

Terror dirigido por MURNAU (Aurora - Próxima Sessão) baseado na obra “Drácula” de Bram Stoker (sem créditos) sobre um homem misterioso, o Conde Orlok (MAX SCHRECK) que deseja mudar de residência e expressa interesse numa mulher, a esposa de um imobiliário rico.


MEDO! "Eu tenho medo deste filme." Uma obra jurássica, clássico de todos os clássicos do cinema (e não é filme de Hollywood) que sabe expressar a pior sensação que o ser humano tem: seu medo. Todos sabem que o romance original DRÁCULA escrito por Stoker serviu de inspiração para o roteirista HENRIK GALEEN o mesmo de O GOLEM (1920) para criar a atmosfera de um dos mais impressionantes filmes mudos que já tive o “prazer” de sentir medo. Considero o melhor filme de terror de todos os tempos. Desculpem. Não há outra fita que vença este terror. Por mais que os americanos tenham realizado outras obras-primas como o próprio Drácula de 1931 e o de 1992, é este exemplar que é a verdadeira sinfonia do medo. Uma sucessão de imagens e música que já fez parte dos meus mais profundos pesadelos. Este monstro é uma das criaturas mais apavorantes e deforme que já vi além de ser o mais fiel filme que chega próximo a visão de Stoker – que escreveu um dos romances mais “decrépitos” da literatura – e aqui o brilhante cineasta MURNAU leva ao pé da letra ao recriar esta história.
Bicho FEIO!!!!!!!!!!!
Parece que houve mesmo um combinado espetacular entre a obra adaptada com a mídia cinematográfica, e de um modo extremamente aterrador e sobrenatural. O livro de Stoker é na verdade escrito em sua maior parte no estilo de uma série de cartas, possuindo assim poucos diálogos. O romance é bastante descritivo e obviamente ajudou na concepção deste filme. Ou melhor, um modo perfeito para adaptar uma história que se encaixa maravilhosamente em um filme mudo. Tudo é essencialmente visual. Esta combinação salta à vista ao compreendermos que a premissa aborda o eterno conflito entre a luz e as trevas do inferno, assim transposta lindamente para o cinema: uma arte que consiste basicamente na interação entre luz e sombra.

Neste período o diretor Murnau já havia se estabelecido como um exímio contador de histórias do cinema mudo e certamente o mestre que deu origem ao movimento expressionista alemão, rebatizando o livro de Stoker para NOSFERATU – EINE SYMPHONIE DES GRAUENS. O diretor teve que mudar o título depois de ameaças judiciais dos herdeiros do autor que acusaram os responsáveis pela fita por ter rodado uma história, baseada na obra do escritor, sem autorização (naquela época não era ainda estabelecido a compra de direitos autorais, o que justifica). A lenda é verdadeira quando o filme escapou por muito pouco de ser totalmente destruído. Mas praticamente quase nada foi alterado e o filme, graças a Deus e não ao Diabo, sobreviveu as areias do tempo.

A trama aqui é praticamente um irmão gêmeo de Drácula. O título e o nome dos personagens é que obviamente foram mudados. Com tanto alvoroço, o filme acabou sendo um estouro! Um verdadeiro sucesso de bilheteria na época e gerou dezenas de versões, na maioria agora autorizada, no uso para adaptação do famoso e lendário vampiro.

Porém, é “Nosferatu” a fita negrito que mais se destaca, mesmo ao passar tantos anos. A diferença fundamental é a presença do excelente ator que encarna o servo do capeta: MAX SCHRECK (1879-1936). Seu sobrenome em alemão significa literalmente “medo” e sua interpretação como o conde vampiro com aparência roedora, monstruoso e nada charmoso como Lugosi ou Oldman, é de uma simplicidade e naturalidade perfeitas que faz jus ao seu sobrenome. Ele é mais selvagem, medonho e horripilante do que um vampiro sedutor. Schreck, no papel da sua vida, é um rato de porão, uma criatura da noite e que se arrasta instintivamente farejando medo e sangue para satisfazer sua condição amaldiçoada. Ele tem uma ânsia quase incontida. Também acho que ele é mais frio, é bem diferente dos outros Dráculas. Admiro profundamente este personagem e ao mesmo tempo (medo) não gosto dele. Resumindo bem: sinto uma “Nosferatufobia”!

O filme narra o terror de Hutter, um agente imobiliário milionário (GUSTAV VON WANGENHEIM) que viaja para o castelo isolado e sombrio do Conde Orlok que fica no alto dos Montes Cárpatos. O homem faz isso a trabalho para ajudar o estranho Conde a resolver alguns problemas legais. Quando Hutter pronuncia o nome do ermitão, é motivo suficiente para os moradores locais se calarem de medo em um ímpeto que também assusta (manipulação fantástica dos atores do cinema mudo). Na cena em que Hutter percebe que ninguém esta conduzindo a carruagem (do próprio Conde) que o leva até o castelo, os olhares daquelas pessoas da vila começam a soar reais e não apenas como expressões exageradas do povo que crê em superstições.
O tom do filme muda quando o protagonista encara as coisas como uma possível verdade fantasmagórica. Depois, convivendo algumas horas com o conde, Hutter leva a sério suas suspeitas, afinal Orlok não o tranqüiliza já que seus horários eram estranhos, preferia a noite ao dia, e de como ele queria manter Hutter aprisionado naquele âmbito escuro (a Torre é um trabalho único da direção de arte desta fita). Então, já é hora do herói temer por sua vida quando descobre o interesse do conde por sua esposa, Ellen (GRETA SCHRÖDER). Ele consegue fugir das armadilhas impostas por Orlok e sua sede de sangue e retorna para a cidade de Brenen, uma Alemanha de outros tempos.  Mas o vampiro o segue, e cada vez mais próximo de seu interesse: a jovem Ellen. 
A famosa titulagem acentua isso: “Sua mulher tem um belo pescoço.” Com isso o filme vai ficando cada vez mais tenebroso e só resta a mocinha ser a verdadeira responsável por derrotar a criatura da noite de uma vez por todas, isto é, causando sua extinção usando os raios de sol nascente para vaporizá-lo para sempre! Assim, a mulher usa de seu charme irresistível para atrair Orlok (no final é sempre a Bela que mata a Fera).

O filme foi rodado entre agosto e outubro de 1921 e muitas das cenas com Schreck foram filmadas durante o dia. É possível notar isso quando assistimos a projeção em preto e branco. No tom sépia isso é sabiamente corrigido. Também usaram o azul para “tingir” a noite. A fita chegou a ser proibida na Suécia devido à excessiva história de horror. Somente em 1972 (cinqüenta anos depois) que a liberação do filme foi concluída. Uma hiena interpreta o Lobisomem na cena no Inn. Depois de 85 anos, praticamente todos os exteriores são deixados intactos como memória nas cidades de Wismar e Lubeck. Houve diferentes versões para os nomes dos personagens em inglês. Em algumas versões, Hutter é nomeado de Thomas, em outras Jonathon. Embora a esposa seja chamada de Ellen oficialmente, em outras versões ela era creditada como Nina. O conceito da luz solar (letal para os vampiros) surgiu pela primeira vez na história com este filme que cria o conceito da cultura pop do vampiro.

A história da realização do filme, de um jeito muito original, é contada no filme estrelado por WILLEN DAFOE como Schreck (indicado ao Oscar), UDO KIER como Grau e JOHN MALKOVICH como Murnau, na fita A SOMBRA DO VAMPIRO (Shadow of the Vampire, 2000) dirigido por E. ELIAS MERHIGE.
Inegavelmente, NOSFERATU é a obra prima do vampiro onde Murnau criou algumas das mais duradouras e apavorantes imagens do cinema e de meus pesadelos quando menino: Orlok rastejando pelos corredores escuros de seu castelo, projetando suas sombras nas paredes... enfim é uma série de arrepios constantes! É possível virar o rosto ou fechar os olhos para evitar o pavor. Também sinto um medo quando me lembro do vampiro apavorado, erguendo-se de seu caixão e no momento final, quando a besta é atingida por um raio de sol, não ouço seus gritos, apenas sinto suas expressões na pureza das imagens, e o vejo se encolher de horror, sentir o seu medo, antes de sumir, desaparecer para sempre. Fade out.



ALEMANHA – 1922 – MUDO
TERROR
FULLSCREEN
94 min.
Preto e Branco
CONTINENTAL
LIVRE
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



Um filme de
F. W. Murnau
Nosferatu
“Eine Symphonie Des Grauens”
Estrelando: Max Schreck
Alexander Granach. Gustav Von Wangenheim. Greta Schröder
Georg H. Schnell. Ruth Landshoff. John Gottowt
Gustav Botz. Max Nemetz. Wolfgang Heinz. Guido Herzfield
Albert Venohr e Hardy Von Francois
Música de James BernardVersão Restaurada - 1997
Fotografado por Günther Krampf. Fritz Arno Wagner
Direção de Arte e figurinos por Albin Grau
Produzido por Albin Grau e Enrico Dieckmann
Escrito por Henrik Galeen
Dirigido por F. W. Murnau
Nosferatu ©1922 Prana-Film GmbH/ Jofa-Atelier Berlin-Johannisthal

8 comentários:

ANTONIO NAHUD disse...

Brilhante e assustador! Amo Murnau.

O Falcão Maltês

J. BRUNO disse...

É um dos filmes mais importantes e influentes de todos os tempos, o expressionismo alemão deixou ecos não pelo cinema de horror, mas em todos os gêneros... é quase surreal a forma com que conseguiam manipular ambientações simples e com o auxilio da fotografia transformá-las em visões horrendas...

Este post me ajudou a lembrar que meus DVDs de "Nosferatu" e "O Gabinete do Dr Caligari" estão emprestados e eu nem lembro com quem...

http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2012/01/american-horror-story-serie.html

Unknown disse...

Acredita que não assisti esse filme? Conferi a SOMBRA DE UM VAMPIRO, com o Willem Dafoe, que gostei muito e faz uma clara referencia a esse filme, aliás, é a história desse filme. Tenho q resolver isso. Abs!

Anônimo disse...

Gostei muito deste filme, grande clássico e um dos melhores filmes! Realmente o o expressionismo alemão é impressionante.

Rodrigo Mendes disse...

ANTONIO: Simplesmente um dos mais geniais cineasta em todos os tempos e não apenas no tempo em que o cinema não falava!
Abs.

BRUNO: Argumentou bem Bruno! O Expressionismo alemão continua a influenciar a esfera cinematográfica e acredito que nas outras artes como a pintura e o teatro também. A Obra de Murnau, Lang devem ser revisitadas sempre.

Trate de correr atrás do prejuízo e localizar seus DVS´s, Poxa!
Abs.

CELO: Assista filhinho! Já!
Abs.

ANDERSON: Além de ter medo deste filme, o expressionismo aqui, precisamente nesta fita, tem uma assombrosa relação com este mere espectador. Impressionante mesmo cara!

Abs!

Unknown disse...

Incrível como este filme me dá calafrios até hoje... nunca um vampiro atingiu o nível de Nosferatu; Uma obra cercada de mistérios e de grande influência.... Maravilha do expressionismo!

;D

Júlio Pereira disse...

Vi já faz algum tempo e gostei bastante. Inclusive, muito inferior a versão do Coppola, que acho exagerada, cansativa e altamente superestimada. Uma pena que seja pouco conhecida. Não é meu filme de terror favorito (no próprio expressionismo alemão gosto mais de O Gabinete do Doutor Caligari), no entanto, é uma obra sensacional, com uma direção de dar inveja, que trabalha de uma forma perfeita o jogo de luzes. Realmente, aterrorizante!

Rodrigo Mendes disse...

KARLA: Realmente nunca vi um vampire tão medonho e apavorante, ao mesmo tempo espetacular, como o feito pelo saudoso Schreck, não a toa seu nome significava medo! Arrepios! O Melhor!
Beijos.

JÚLIO: Eu gosto bastante do Drácula do Coppola, um filme maravilhoso, neste ponto discordo de vc completamente. Acho tb que este Nosferatu atingiu o nível cult que merecia há muitos anos, e como eu digo no texto, foi um sucesso de bilheteria da época. É um filme conhecido sim, mas claro que é a orla cinéfila que o evidencia.

Caligari tb é fodástico, outra obra prima do expressionismo. Já postei tb!
Abs.

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