domingo, 22 de janeiro de 2012

WALTER SALLES | CENTRAL DO BRASIL

BRASIL MOSTRA O SEU CINEMA

Parte 4

E O OSCAR FOI QUASE NOSSO!

A história de uma professora aposentada que ganha a vida escrevendo cartas para analfabetos na estação “Central Do Brasil”, no Rio de Janeiro e acaba tomando conta de um menino órfão que deseja procurar pelo pai que supostamente viveria no Nordeste.

Este Road-movie brasileiro é um primor e já não sai quantas vezes assisti e  me emocionei, merecidamente foi o vencedor do Urso de Ouro, o maior prêmio cinematográfico do Festival de Berlim, além é claro do indiscutível prêmio de Melhor Atriz para a querida FERNANDA MONTENEGRO. Este é o maior prêmio internacional para o Brasil desde O PAGADOR DE PROMESSAS, em 1962 (depois Padilha ganharia em 2008 por Tropa De Elite). É sempre um prazer elogiar um filme sem médias ou meias palavras, melhor ainda dizer que ele é brasileiro. “Central” é uma merecida consagração para o cineasta WALTER SALLES, ou Waltinho como os amigos o chamam. Vindo de uma família de banqueiros e tradicional, nunca deixou o fato atrapalhar uma carreira bem planejada e inteligente (exceto pelo deslize de dirigir Água Negra, fita de terror hollywoodiana com Jennifer Connelly), e que neste período, humildemente ganhou experiências em documentários excelentes e alguns programas de TV. Na verdade, estreou mal com A GRANDE ARTE e depois  adquirindo o seu valor como diretor na fita TERRA ESTRANGEIRA (1996 – um dos vários trabalhos que realizou com DANIELA THOMAS). Acerta lindamente com CENTRAL DO BRASIL (1998); um belo roteiro a que ele deu vida com uma precisão impressionante. Baseado num argumento seu, foi escrito por JOÃO EMANUEL CARNEIRO, que trabalhou com Salles no script de “O Primeiro Dia” (hoje conhecido como autor de novelas: A Favorita, A Cor Do Pecado, Cobras E Lagartos, Avenida Brasil) e MARCOS BERNSTEIN (de filmes como: O Outro Lado Da Rua, Chico Xavier, Zuzu Angel, Faroeste Caboclo, O Xangô de Baker Street, Oriundi e mesmo Terra Estrangeira).


Por muito tempo foi raro ver um filme brasileiro com tal rigor de acabamento, fotografia de tão ótima qualidade (o mestre e veterano WALTER CARVALHO), e sobretudo, aqui, sem medo de cortar cenas, o que foi um defeito tradicional brasileiro de outrora. O elenco é impecável, começando pelo menino VINÍCIUS DE OLIVEIRA (voltaria a trabalhar com o diretor no ótimo LINHA DE PASSE) que sempre foi muito expressivo e natural, fazendo de seu Josué um personagem até antológico.

As escolhas dos papéis variam nas impressionantes interpretações, passando pela incrível e sempre notável MARÍLIA PÊRA, que merece uma salva de palmas que aceitou fazer uma coadjuvante com o timing certo e que entra e desaparece da história da maneira correta. Reunindo-se, assim, as duas maiores estrelas do Teatro, TV e do Cinema do Brasil. Marília e Fernanda, esplêndidas (como Davis e Crawford) numa mesma fita sem estrelismos, que mistura amadores e profissionais.  É desde o excelente ator OTHON BASTOS, que faz um motorista de caminhão protestante até a naturalidade do povo do interior. E culminando com Fernanda, um monumento nacional, que tem finalmente sua grande chance no cinema e maior reconhecimento, e que atua de cara lavada, num personagem que não tem medo de ser egoísta e desagradável.

Ela como uma professora velha e aposentada, que bebe demais e que para ganhar a vida e pagar as despesas da casa, trabalha na estação Central Do Brasil, no Rio, escrevendo cartas para os analfabetos. Pessoas que emocionam e divertem com suas cartas em forma de depoimentos para a câmera.

Uma delas é a Dona Socorro Nobre (que Walter Salles a dirigiu em um documentário de mesmo nome rodado em preto e branco em 2000). Só que ela as seleciona, só manda as cartas que acha que vale a pena, aquelas que são sérias. Diverte-se julgando a vida das pessoas pelas cartas e ainda cobra 1 real. Mas Marília faz sua parceira de bom caráter, o que deixa o tom de uma rivalidade antagonista entre amigas no ar. 
Até que um dia, o garoto fica desamparado quando sua mãe ( SOIA LIRA) morre atropelada por um ônibus. Sem pai – a quem vai procurar no Nordeste -, fica dormindo no lugar (a central) mesmo correndo perigo dos pivetes (outras crianças carentes assim chamadas), e que são mortos a esmo e friamente pelos comerciantes locais (na maioria bandidos como o personagem do ótimo OTÁVIO AUGUSTO).


Sabendo do conteúdo da carta da mãe do garoto, aos poucos, Fernanda (como Dora) se comove e se arrisca para proteger o menino em um instinto de mãe e assim o filme muda de tom, abre-se, vira fita de estrada com cenário árido, mostrando o interior do Brasil com um toque de Antonioni, na medida em que o Don Quixote e o Sancho Pança (uma química perfeita de Fernanda e Vinícius) viajam de ônibus, passando por várias aventuras, até chegar aos familiares do menino onde novamente o filme se fecha como no começo.


Naturalmente, ambos vão ficando amigos, mas o filme, embora previsível, é sensato e, se faz alguns chorar, não cai em exageros. Tudo isso é um triunfo, em uma fita rodada em sequência e também graças à dignidade do menino e de Fernanda. A direção de Walter Salles é outro mérito. O roteiro é muito bom porque coloca como pano de fundo o Brasil dos surfistas do trem, da morte impune, do misticismo exacerbado, da fome e da miséria e principalmente da orfandade, um tema recorrente no cinema de Salles. Tem até um exotismo que o estrangeiro gosta de assistir. Mas tudo dentro de um contexto dramático, sensível, humano e emocionante, com a música magistral de ANTÔNIO PINTO e JACQUES MORELEMBAUM.

Além dos prêmios em Berlin (que inclui também o prêmio ecumênico), o filme foi o vencedor do Globo De Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e recebeu as indicações ao Oscar de Filme Estrangeiro e Atriz, na qual naquele ano perdeu para Roberto Benigni e Gwyneth Paltrow. Dentre mais de 50 prêmios internacionais.

É autêntica a história do menino Vinícius que foi descoberto no aeroporto, como engraxate, e, desde então, Salles se encarregou da educação e da carreira do menino.

Como ninguém podia prever o sucesso do filme, em categoria mundial, ele foi vendido à Rede Globo em troca de permuta por comerciais e a emissora fez questão de exibi-lo (hoje é um dos mais queridos acervos da grade de programação cinematográfica) logo após a cerimônia do Oscar em sua versão de tela cheia e não wideescreen do cinema e do DVD. 

Um marco importante para o cinema brasileiro.
Uma lembrança guardada para sempre



BRASIL/FRANÇA
DRAMA
WIDESCREEN
113 min.
COR
EUROPA FILMES
LIVRE
✩✩✩✩✩ EXCELENTE


Uma  Produção VIDEO FILMES
Participação de
CANAL + e MINISTÉRIO DES AFFAIERES ÈTRANGÈRES
Um filme de Walter Salles
Central Do Brasil
Estrelando
Fernanda Montenegro. Marília Pêra. Vinícius De Oliveira
Soia Lira. Othon Bastos. Otávio Augusto. Stela Freitas
Matheus Nachtergaele e Caio Junqueira
Música de
Antônio Pinto e Jacques Morelembaum
Fotografia de Walter Carvalho
Montagem de Isabelle Rathery e Felipe Lacerda
Elenco Sérgio Machado
Direção de Arte por Cassio Amarante e Carla Caffé
Figurinos de Cristina Camargo
Produtor de Linha Afonso Coaracy
Produtores Associados
Paulo Britto. Paulo Carlos de Britto. Jack Gajos
Produtores Executivos
Lilian Birnbaum. Thomas Garvin. Donald Ranvaud. Elisa Tolomelli
Produzido por
Martine de Clermount-Tonnerre. Arthur Cohn
Robert Redford e Walter Salles
Escrito por
João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein
Baseado numa história de Walter Salles
Direção
Walter Salles
Central Do Brasil ©1998 Video Filmes/Riofilme/MACT Productions

13 comentários:

Gabriel Neves disse...

Um trunfo merecidíssimo do cinema nacional. E que filme é esse, meu deus? A aproximação dos dois não é forçada, todo o rumo é real e trz as lágrimas da melhor maneira possível. Aquele fim é matador, quando vi Central do Brasil as lágrimas saíram bem fácil e não pararam nem quando os créditos acabaram de subir. E Fernanda Montenegro, na minha opinião humilde (e sinceramente, deixando minha nacionalidade de lado um pouco) é quem merecia aquele Oscar de 1998.
Abração!

Amanda Aouad disse...

Sem dúvidas um filme marcante para o cinema nacional. Walter Salles é um dos melhores diretores que temos e já tivemos. E Fernanda Montenegro está magnífica no papel.

bjs

Rodrigo Mendes disse...

Gabriel, Amanda: Concordo plenamente com vocês. Emocionante marco do cinema. Salles, Fernanda, todos acertam! Merecia o Oscar se a festa não fosse tão americana, sem dúvida.

Abs.

Alan Raspante disse...

Eu já vi o filme, mas tem muito tempo. Muito mesmo. Preciso revê-lo o quanto antes...

Elton Telles disse...

Excelente texto, Rodrigo. Rico em informações extras da carreira de Salles, um cineasta de extrema importância para o Brasil, de quem só conheço "Terra Estrangeira" entre seus trabalhos pré-"Central do Brasil".

Cara, concordo absolutamente em todos os pontos levantados aqui. Pra mim, entre os filmes mais emocionantes que já tive o prazer de ver. Está no meu ranking dos filmes choroosos, junto com "O Irmão Urso" rsrsrs. Já me peguei, em dias melancólicos, dando o play naquele final da MALDITA CARTA que me arranca lágrimas sem piedade hahaha; é uma coisa brilhante!

O próprio cinema brasileiro se revigorou pós essa obra-prima e mesmo quem não goste - sério, reveja seus conceitos - não pode virar a cara para o responsável pela verdadeira retomada do cinema nacional - ao menos, em termos artísticos e de representação #carlotajoaquinasucks

hahahaha!


Grande abraço!
Valeu pelo carinho lá no blog também ;)

Reinaldo Glioche disse...

Mais um belo texto para o acervo do Cine Rodrigo que supera e muito o da emissora do plim plim.
Central do Brasil é histórico por seus feitos e também por sua humanidade. Filme maiúsculo.
Abs

Rodrigo Mendes disse...

Alan: Assista de novo e de novo. Um dos acervos da sétima arte que é gostoso de rever e não envelhece.
Abs.

Elton: Grande Telles obrigado! Adorei o Podcast...opa quero mais! Rs

Legal saber que o Irmão Urso é um de seus filmes para chorar, o meu é O Rei Leão, rs! 'Central' tb, e é simplesmente lindo, além de engraçado, pesado, nu e cru e muito bem feito. A cena da carta é coisa de outro mundo mesmo, até esqueci de destacar no texto, rs.
Tb acho que o cinema brasileiro deve muita coisa a Central e depois Cidade De Deus, mas Carlota Joaquina tb foi importante, eu gosto, hehe

Abs!

Reinaldo: Fico feliz em saber que superei a Plim Plim, rs!
Obrigado mesmo amigo.
Um filme marcante e tocante, daqueles que a gente jamais esquece.
Grande abs.

ANTONIO NAHUD disse...

Um dos maiores filmes do cinema brasileiro. Imperdível!

O Falcão Maltês

Francisco Cannalonga disse...

Realmente um dos melhores filmes nacionais já feitos, dono de talvez, a melhor performance feminina de uma triz brasileira na história da 7° arte.

Rodrigo Mendes disse...

Antonio, Francisco: concordo com vcs colegas! Um grande filme e uma baita atriz em cena, o resultado é impressionante!
Abs.

Obrigado pelos coments!

K disse...

Vi esse filme há muito tempo. Mas é um filme maravilhoso, com ótimas interpretaçções.
blogtvmovies.blogspot.com

Rodrigo Mendes disse...

Uma obra-prima K!
Abs.

Jefferson C. Vendrame disse...

Grande Rodrigo, como vai?

O que dizer de Central Do Brasil se todos já disseram? Realmente um dos melhores filmes Brasileiros de todos os tempos. Montenegro era sem dúvidas a grande merecedora do Oscar em 1998,mas com certeza por não ter nascido nos USA ou por não ter estrelado um filme em Inglês, deixou que uma paspalha levasse seu premio...

Ótimo Post,

Abração

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