O SÍMBOLO MATEMÁTICO
Um gênio da matemática paranoico que trabalha com pesquisas numéricas quer descobrir um número resultante que lhe dará respostas para unificar tudo na vida.
Sabe quando a gente sente aquela sensação horrorosa que dói no ouvidinho quando um indivíduo medonho resolve aranhar as unhas no quadro negro? "AH!" Pois é, é a primeira “coisa” que me dá em uma espécie de choques constantes ao rever esta pequena obra-prima cinematográfica do diretor e roteirista Darren Aronofsky. O jovem cineasta que já assinou obras perturbadoras (Cisne Negro, Réquiem Para Um Sonho, Fonte da Vida e O Lutador – todas resenhadas aqui). Desculpe-me, talvez falar que a fita é uma “pequena obra-prima” seja muito pouco e artificial para um filme como PI, certamente a obra mais entorpecente de Aronofsky, a mais bem feita, realizada com míseros 60 mil dólares e que rapidamente se tornou cult. Também, de todos os seus filmes é o mais destrutivo, e em minha opinião, o que melhor explora a obsessão do diretor pelo tema Obsessão!
Parece realmente com uma "nova interpretação" de um clássico bizarro e fascinante da sétima arte, que teve direção debutante de David Lynch: Eraserhead (1977 - claro que são gêneros diferentes, digo na forma. Também me remete a alguns trabalhos de Luis Buñuel [ Un Chien Andalou , 1929]). No entanto aqui, Aronofsky mostra um homem solitário e genial que é magistralmente interpretado por SEAN GULLETTE (que também colabora no desenvolvimento do script) como Maximiliam Cohen, que vive com fortes dores na cabeça diariamente que o deixam debilitado, mas nunca fraco para desistir, já que ele esta obsecado por uma busca que o deixa cada vez mais frenético e insaciável/alucinado. Imaginem um louco (somente loucos gostam de matemática – risos) que almeja descobrir, e nem que para isso custe tempo e saúde, uma série numérica que unifique tudo no mundo, da bolsa de valores (que eu nunca compreendi direito) à Bíblia (que nunca compreendi menos ainda). Ele fica lá, horas trancafiado em seu apartamento experimentando o êxtase da matemática vivendo naquele pesadelo. Gullette entrega uma interpretação maravilhosa, é uma verdadeira calculadora humana! É só perguntar a raiz quadrada de qualquer valor altíssimo que ele vai respondendo enquanto caminha deixando o som do eco no corredor. E ele nunca erra o calculo! No entanto, esta genialidade toda que lhe ajuda a ter uma revelação, acaba lhe custando a própria vida, quando o cara acaba sendo abordado por pessoas perigosas, tanto de seitas religiosas (no caso um grupo radical judeu) ou capangas homicidas de Wall Street. Com isso, o filme vai ficando cada vez melhor.
O cenário daquele quarto infernal é composto por um supercomputador com vários cabos eletrônicos que se enrolam lindamente como teias. Parece ser também um simbolismo que representa os neurônios (em um mapa) da mente genial daquele homem perturbado que faz nascer de lá de dentro uma teoria misteriosa, matematicamente falando, a relíquia que os malvados desejam tirar de sua cabeça. À medida que as dores de cabeça se agravam, a busca de Maximiliam fica cada vez mais maldita, enlouquecendo qualquer espectador normal. PI não é um filme fácil de resolver (melhor colocar desta maneira). Afinal, qual o significado desta relação código numérica que seria uma fórmula tão importante? Em outras palavras, o cara “criou” um controle remoto universal, sacam? Que pode controlar todos os aparelhos eletroeletrônicos, uma explicação para ficar mais cyberpunk (risos). De qualquer forma, é uma resolução matemática universal e é exatamente isso que todas as pessoas que aparecem no filme atrás dele querem a todo custo.
É incrível a maneira como Aronofsky filmou artisticamente em um belo preto e branco de alto contraste, perfeito, com técnicas inovadoras e radicais, e é bom destacar também o trabalho do diretor de fotografia Matthew Libatique. Os movimentos de câmera e os cortes são de deixar qualquer um preso até o término da sessão. Seu filme é uma brilhante odisseia da paranoia que mistura um pouco a obra de Franz Kafka (1883-1924) em um âmbito pós-moderno. O mais curioso e envolvente nesta fita é que Aronofsky não deseja dar respostas práticas e muito menos exatas (evocando a matemática, até seria estúpido e clichê), ou seja, tudo fica no ar, mas nunca com a sensação de paisagem, PI é um tipo de filme filosófico que é até difícil escrever em linhas gerais.
É uma fita ideal para discussões em rodas cinéfilas. Aliás, o que faz de um filme cultuado é a falácia. A plateia fica no escuro ao assistir PI, literalmente, e Darren dirige de sua maneira habitual, o que se tornou em uma marca registrada, apresentando um estilo rápido, visceral e nervoso. Já nos créditos iniciais somos hipnotizados pelos efeitos das titulagens e o som vibrante de uma vibe alucinógena. Aronofsky se tornou mestre em criar táticas para exacerbar o espírito do caos.
O pequeno estúdio Artisan comprou o filme pelo valor de 1 milhão de dólares e tendo um bom retorno pelo investimento. O número da besta “666” aparece no filme, é quando o personagem esta procurando os 216 dígitos para a sua descoberta. O fotógrafo que aparece no metrô é por acaso o compositor Clint Mansell, colaborador de longa data do diretor. Há também uma interpretação soberba de Mark Margolis como coadjuvante, o veterano ator que sempre participa dos filmes do amigo. Gullette ajuda Aronofsky na concepção escrita da parte da voz over do filme, que é de arrepiar, e o cérebro utilizado no filme é real!
Grande parte dos adereços eram colados no set de filmagem, o que perturbou a equipe já que as luzes quentes das câmeras naqueles cenários minúsculos fazia emitir um cheiro nauseante, além do calor. Tudo era caótico e complicado, o filme foi feito com orçamento apertado, mas que resultou em um trabalho digno de admiração. Melhor que muitas superproduções que tentam fazer algo parecido no gênero.
Aronofsky realizou filme fenomenal, sua habilidade para captar a nuance nos mínimos detalhes chega a enlouquecer. Contudo, ele consegue mostrar tudo de maneira ligeira, sem atalhos e dando um soco no estômago de um paraquedista que esta saltando. Os filmes de Aronofsky são realmente rollercoasters ambulantes. Só que esta sensação fica trancafiada na mente. Finalmente, PI se torna um beco sem saída para Gullette e para quem assiste.
Tudo é feito para impressionar e Aronofsky chega a ser exato neste ponto. Não satisfeito em me causar desespero, ele realiza um segundo longa-metragem ainda mais perturbador e que por acaso foi à próxima sessão Aronofskiana que experimentei. O resultado? Tornou-se um vício!
EUA – 1998
DRAMA/FICÇÃO-CIENTÍFICA/SUSPENSE
FULLSCREEN
84 min.
P&B
14 ANOS
EUROPA FILMES
✩✩✩✩✩ EXCELENTE
UM FILME DE DARREN ARONOFSKY
Estrelando: SEAN GULLETTE
Com: MARK MARGOLIS. BEN SHENKMAN
Co-estrelando: PAMELA HART. STEPHEN PEARLMAN
ESPHER LAO NIEVES. KRISTYN MAE-ANNE LAO
SAMIA SHOAIB. AJAY NAIDU
LAUREN FOX. JOANNE GORDON. STANLEY HERMAN
Participações:
CLINT MANSELL. TOM TUMMINELLO. ARI HANDEL
Fotografado por MATTHEW LIBATIQUE
Música de CLINT MANSELL
Edição OREN SARCH
Elenco por DENISE FITZGERALD
Direção de Arte MATTHEW MARAFFI
Maquiagens e Efeitos Especiais por ARIYELA WALD-COHAIN
Co-produtores Executivos
TYLER BRODIE. DAVID GODBOUT. JONAH S. SMITH
Co-produção SCOTT VOGEL
Produção Associada SCOTT FRANKLIN
Assistente de Produção KATIE KING
Consultoria de Produção RICHARD LIFSCHUTZ
Produção Executiva RANDY SIMON
Produzido por ERIC WATSON
Argumento de
DARREN ARONOFSKY. SEAN GULLETTE. ERIC WATSON
Voz Over escrita por ARONOFSKY & GULLETTE
Roteiro e Direção
DARREN
A R O N O F S K Y
PI ©1998 Artisan Entertainment
Harvest Filmworks/Truth & Soul/Plantain Films/Protozoa Pictures














19 comentários:
Adoro os filmes de Aronofsky e esse é o único que ainda não vi.
Um filme tão insano, e acima da média, que precisei rever três vezes para entender e achar muuuuito bom.
Diretor sabe tudo de cinema.
É um ótimo filme, com uma trama original e um protagonista perfeita.
Apenas não faria a comparação com "Eraserhead", que assisti e considero um filme extremamente chato e confuso.
Abraço
Precisa conferir cara!
Este filme é o mais punk do Aronofsky. Alguém fica lá dentro cutucando o seu cérebro.
Bem acima da média, acho PI uma obra e s p e t a c u l a r!!
Discordo no ponto do Eraserhead com você Hugo. Pra mi PI é como se fosse uma nova leitura daquele filme tão bizarro, bárbaro e genial do Lynch que também me alucina!
Abraço.
Eu fui ver este filme sem saber absolutamente nada sobre ele... nem olhei quem era o diretor.. nada mesmo. Só gostei do nome.
Poxa... não havia nome melhor mesmo!
Pi é surreal no melhor sentido da palavra...
A fotografia é maravilhosa, incômoda e convidativa.
Que mistura, neh?!
Já conhece meu novo blog?
http://antesqueordinarias.blogspot.com.br/
Fui vê-lo na época do lançamento sem qualquer informação à respeito. Impressionante, bizarro, incomodo...
O Falcão Maltês
É um filme que me impactou bastante quando vi a primeira vez. Ainda não revi, mas marcou a carreira de Aranofsky. Acho q Requiem tem muito desse.
Abs.
Filmes 'insanos' me encantam!
Srto, Rodrigo que maravilha de blog (já favoritei em meu blog)
Cara, amei seu layout, sessão HP, louca pra ver Batman too.
Parabens, pelo blog, escreve muy bem !
Visite-me.
Beijos
Muito bom dar de encontro com um filme como PI desta maneira, na verdade eu também não sabia exatamente o que iria assistir. Aronofsky me espantou com este filme. Fotografia mais do que maravilhosa, um filme imperdível.
Seu novo blog é maravilhoso.
Beijos
No cinema deve ser ainda mais impressionante!
Realmente Réquiem é muito parecido com PI, da mesma forma que O Lutador com Cisne Negro, no geral, os filmes de Aronofsky recorrem ao tema obsessão de forma impactante.
Abs.
Obrigado pela visita querida e seja muito bem vinda.
Valeu pelas doces palavras
Beijos!
Irei te visitar!
Realmente frenético, de tão envolvida, nem senti a hora passar. Aronofsky tem mesmo o dom de sacudir o psicológico do espectador!
Beijos!
Putz! Ainda não vi este filme... Preciso ver o quanto antes! Ainda mais depois deste seu texto, Rorigo!!
Este dom é insuperável desde 1998!
Beijos
Vai gostar, Alan!
PI não só é uma bela estreia na direção do Aronofsky, como prevê o tema central de seus próximos filmes: a obsessão. A atmosfera claustrofóbica e opressora, remetendo à David Lynch e Kafka (embora em intensidade e talentos claramente menores), como você citou, é impressionar! A cena do cérebro é sensacional, mixagem e edição de som perfeitos nela - assim como em todo o filme, claro. E me parece que suspenses psicológicos funcionam mais em preto e branco, né?! O deste é ótimo!
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