BRASIL MOSTRA O SEU CINEMA
PARTE 6
DIA DE LIMPEZA
O cotidiano de cinco empregadas domésticas na cidade de São Paulo narrando suas histórias e aventuras enquanto limpam este Brasil.
Na terceira segunda- feira do mês é dia da faxina geral... e elas irão limpar este Brasil e aproveitar para dar uma lição de vida. DOMÉSTICAS é um belo trabalho da equipe 02 FILMES, hoje uma das maiores produtoras de audiovisual da América Latina (a equipe olhar eletrônico que veio da TV e Publicidade na qual Meirelles é sócio-fundador) e um dos melhores trabalhos de Fernando. Foi o seu segundo longa metragem, o anterior foi a continuação de O MENINO MALUQUINHO (2 – A Aventura - 1997 da obra de Ziraldo), co-dirigido por FABRÍZIA PINTO. Em 2001, “Domésticas” foi um dos 15 filmes selecionados no mundo inteiro para a competição do Tiger Award no Festival Internacional de Rotterdam (o que faz a empregada dizer: “Isso parece ser importante”). E mais uma vez Meirelles faz uma codireção, desta vez ao lado de NANDO OLIVAL que desde 1986 dirigiu cerca de quinhentos filmes publicitários e faz parte do quadro de diretores da 02. Recentemente dirigiu sozinho o longa “OS 3” (2011) sobre três jovens que chegam de diferentes partes do país e passam a morar juntos em um apartamento em São Paulo.
O filme de Meirelles e Olival ainda participou de vários outros Festivais: O Ajijic Festival Internacional de Cinema na qual ganhou o prêmio do júri em 2001 como Melhor Filme Independente; indicado ao Grande Prêmio de Cinema Brasil (em 2002 – direção, montagem, roteiro, edição de som, trilha e filme); ganhou o prêmio Caxiponé no Festival de Cuiabá de Cinema e vídeo (roteiro e filme e mais um pelo júri para a estreante promissora – melhor atriz: Graziela Moretto); em Recife também ganhou nas principais categorias, destaque para a fotografia de LAURO ESCOREL), o que acabou levando a fita para Rotterdam onde teve projeção internacional sendo indicado ao prêmio Tigre para os diretores, o que lhe deram grande destaque e oportunidades no mercado estrangeiro e finalmente, em 2002, ganhou o Grand Prix (também direção) no Toulouse América Latina Film Festival.
A impressão que fica é que esta obra anterior do futuro diretor brasileiro indicado ao Oscar, Meirelles, ficou apenas destinada a crítica, meio cinéfilo e contemplado em Festivais do país e internacional. É uma pena que o grande público tenha perdido este filme no cinema (passou algumas vezes na TV Cultura e Globo) e só tenham visto apenas CIDADE DE DEUS (2002) como o grande filme de Fernando. Na verdade eu tenho maior predileção por esta graça que é “Domésticas”, “O Filme” baseado em uma peça teatral escrito por uma das atrizes principais: RENATA MELO. Melo teve grande sucesso nos palcos de São Paulo com esta peça, um trabalho cuidadoso e criativo que levou várias pessoas para o teatro em 1998. O texto foi construído a partir de entrevistas feitas durante dois anos pela autora com várias, centenas de empregadas domésticas, onde elas contam sobre suas frustrações (na maioria das vezes antagonizam com as patroas), anseios, predileções, sonhos, origens, dificuldades e prazeres de seu cotidiano. Elas estão por toda parte e infelizmente, por uma cultura tradicional, a empregada doméstica não é valorizada como merece, na verdade nem é notada. No meio deste Brasil (mas a trama se passa em São Paulo e é divertido reconhecer a cidade onde moro), o filme mostra esses âmbitos invisíveis como o quartinho da empregada e os mesmos lugares que todo mundo passa e esquece que perto de você existe alguém passando pano no chão ou varrendo a calçada.
O roteiro é uma delícia, muito original e divertido e levanta a moral destas magníficas prestadoras de serviço. Enquanto elas preparam a comida, lavam a cozinha, mexem nas gavetas e penduram as roupas, vão narrando suas histórias e ao mesmo tempo dialogando entre si sobre tudo que passam na vida. As conversas são hilárias e emocionantes. Aqui há uma inversão protagonista. Ou seja, a figurante que passa com a bandeja de café ao fundo da sala vira a heroína da história e a fita até mesmo evita as patroas ricas que nem sequer aparecem.
Era importante alternar o tom da premissa que passa de comédia a tragédia – um trunfo da peça – praticamente nas mesmas cenas. Por isso, Meirelles e Olival escolheram uma linguagem técnica moderna fazendo uma fronteira entre ficção e documentário, lindamente. De fato “o filme” é diferente “da peça” neste sentido, já que a visão é imagética e um registro, evidente não é efêmero, e tem aquele aspecto documental usando o recurso de olhar para a câmera e dar o seu depoimento e as próprias atrizes fazem isso parecendo empregas domésticas de verdade e a cada momento é de comédia (de rir de verdade) e poesia (o olhar crítico delas de ver um mundo desorganizado e imundo). Mistura perfeitamente com a narrativa tradicional de dramaturgia e o doc. Exemplo, quando elas falam para a câmera, o ritmo se intercala com a linha do tempo da história.
A trama se divide e o foco vai para cinco domésticas, cada uma vivendo uma situação. Cida (RENATA MELO) que reclama de seu casamento, vida sexual, por ter em casa um marido besta que não lhe dá atenção, aliás, não faz nada o dia inteiro. Com isso, ela acaba, por ironia do destino, conhecendo um amante negão que passa a ser o seu grande amor. A mais engraçada do grupo, Roxane, a ótima GRAZIELA MORETTO, que tem ambição na vida, tem um sonho de virar modelo e é toda exibidinha e abusada, além de gostosa: “Eu não sou doméstica eu estou doméstica, mas é por pouco tempo.” Outra que é uma figura é a Quitéria (OLIVIA ARAÚJO), uma mistura de inocência e ignorância sofrida, se mete em várias encrencas com as patroas porque acaba fazendo tudo errado (quebra um vaso precioso, joga uma flanela no vaso sanitário que entope etc...), tem também a Raimunda ou Rai, interpretada por CLAUDIA MISSURA (que esta atualmente na TV fazendo outra empregada na novela AVENIDA BRASIL, a cozinheira de mão vazia que irrita Carminha), esta à procura da felicidade amorosa, mas sempre se envolve com os homens errados e finalmente Créo (LENA ROQUE) a única séria das domésticas e que esta sofrendo um drama: a filha adolescente sumiu e ela fica em um desespero angustiante e fora do expediente não tem folga, sai pela cidade em busca de notícias. Ela é uma mulher religiosa e tradicional.
Enfim, são esses diferentes perfis que fazem do filme uma sessão envolvente.
Não sei qual é a minha favorita, apesar de gostar muito de Moretto e Missura (que tem as melhores falas), acho o papel da própria autora e co-roteirista, Renata, mais interessante. Uma mulher que tem sangue correndo pelas veias, cheia de fogo nas entranhas, é a mais sensual das cinco e que reclama de modo divertido de seu trágico casamento monótono. É de se refletir: aquele maridinho não existe, o que é aquilo? Mas o resultado acaba sendo mais do que satisfatório, todo o conjunto feminino acerta. Adoro, por exemplo, quando a mais “tapada” , a Quitéria, diz algo que tem uma filosofia e sabedoria sem igual: “Tem coisa que eu gosto e tem coisa que eu não gosto, depende das coisas.” Verdade. Elas são subestimadas, como o filme!
Outros personagens povoam muito bem. Gosto do trabalho de CLEIDE QUEIROZ, como a Zefa, uma doméstica senhora e que trabalha no ramo há muitos anos. E, têm os garotos, um que tem problemas com o nome Gilvan (THIADO MORAES), afilhado da Dona Zefa, ele é um rapaz indeciso na vida entre seguir uma carreira profissional honesta (mesmo que seja lavando carro de pessoas ricas) ou se bandiar para o mundo do crime em frustrantes assaltos em ônibus (Meirelles utiliza esta cena de outro jeito em Cidade De Deus e mais uma vez bate na tecla da violência urbana e problemas sociais como educação e oportunidade). O outro é o melhor amigo de Gilvan que fica incentivando ele para a vida fácil do crime, Jaílton, um motoboy, interpretado por ROBSON NUNES e paralelamente a esses personagens masculinos tem o engraçado zelador do condomínio, Antônio (EDUARDO ESTRELA) que também deixa vários depoimentos de uma vida de proletariado.
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| Ela não leva jeito? A divertida Graziela Moretto |
O filme ainda se enriquece com mais personagens excêntricos: a tagarela e crédula doméstica que é uma verdadeira mala sem alça, aquela pessoa que senta ao seu lado no busão e começa a falar intimamente vários assuntos, vivida pela ótima CECÍLIA HOMEM DE MELLO, que além de atriz é roteirista e diretora de elenco do filme (trabalhou com Meirelles em outros projetos como a minissérie SOM E FÚRIA na TV Globo). E mais: um entregador de pizza que nutre um desejo por Roxane (FABINHO NEPO), o tal motorista negro e sedutor que se envolve com Cida (LUCIANO QUIRINO como o Uílton – e as cenas de sexo com eles são hilárias), o faxineiro Claudinei (o ator GERO CAMILO que mais tarde faria uma carreira até mesmo internacional, mesmo que aqui fazendo apenas uma ponta com Missura em uma cena) e, além disso, o filme chega a ter algumas participações especiais como a do rapper “X” que faz outro motoboy, namorado da filha fugitiva de Créo e até mesmo do ator RAUL GAZOLLA, sonho de uma empregada fã de novela. Risos!
O filme teve um custo de 1,2 milhão de reais, o que certamente é um padrão baixo quando se trabalha em cinematografia brasileira ou até mesmo genericamente falando. Portanto é aquela velha história que já sabemos, um filme nacional tem que viver de patrocínios, dos mais diversos, mas que acaba sendo um estímulo positivo para a cultura. E todas as marcas que colaboraram para o projeto são mencionadas de maneira interessante no começo dos créditos pela personagem de Missura... e ela fala o nome de todos os patrocinadores literalmente e no final ainda agradece: “Valeu!”
Obviamente que estes patrocínios são feitos através da Lei Federal de incentivo à cultura, a lei do audiovisual e do municipal – lei Marcos Mendonça. Por mais que muita coisa tenha “progredido” na fábrica de filmes no Brasil, e atualmente a O2 tem reconhecimento no mercado internacional, é uma gigante e já tem todo tipo de acordo em diversos projetos, nosso cinema ainda tem esta realidade financeira...pois é, não temos uma “Hollywood” e muito menos criamos uma Bollywood! Além da O2, as empresas de cinema e TV que mais se destacam no país, hoje, são: a Conspiração Filmes e Globo Filmes e as menores, como a produtora Buriti Filmes do casal Laís Bodanzky e Luis Bolognesi.
O filme também teve os recursos do programa de integração, à época (Cinema-TV) pela Fundação Padre Anchieta, a TV Cultura e o suporte do Hubert Bals Found, uma entidade ligada ao festival de Rotterdam, além é claro dos estúdios MEGA e dos laboratórios cinematográficos Megacolor, que apoiam o filme. É assim que funciona.
Recomendo esta pequena obra-prima do nosso cinema, mais uma vez mostrando ao mundo a capacidade do brasileiro de fazer um ótimo cinema. Afinal, as domésticas representam o que existe de mais criativo em nossa terra “o jeitinho brasileiro” de levar uma vida complicada e na corda bamba e mesmo assim, com graça e emoção. Elas estão limpando este país e a gente tem que perceber isso.
BRASIL – 2001
COMÉDIA-DRAMA
FULLSCREEN E WIDESCREEN
88 min.
COR
14 ANOS
FOX – também pela Imagem Filmes
✩✩✩✩ ÓTIMO
O2 FILMES apresenta
Um filme de FERNANDO MEIRELLES E NANDO OLIVAL
Domésticas, o filme
Com:
CLAUDIA MISSURA. GRAZIELA MORETTO. LENA ROQUE
OLIVIA ARAÚJO. RENATA MELO. ROBSON NUNES. THIAGO MORAES
Roteiro
CECILIA HOMEM DE MELLO. FERNANDO MEIRELLES
NANDO OLIVAL. RENATA MELO
Baseado na peça “Domésticas” de RENATA MELO
Produzido por ANDREA BARATA RIBEIRO
Produção Executiva
BEL BERLINCK. ANDREA BARATA RIBEIRO
Direção de Fotografia LAURO ESCOREL, A.B.C
Diretores de Arte FREDERICO PINTO. TULÉ PEAKE
Montagem DEO TEIXEIRA
Trilha Sonora original ANDRÉ ABUJAMRA
Supervisão de Som MIRIAM BIDERMAN
Som Direto GUILHERME AYROSA
Produção de Elenco CECILIA HOMEM DE MELLO. RITA FERNANDES
Figurinos CHRISTINA CAMARGO
Direção de Produção ANA SOARES
Direção FERNANDO MEIRELLES. NANDO OLIVAL
Domésticas, O filme ©2001 O2 Filmes












7 comentários:
Internet sempre me surpreende.Não é todo dia que encontro blogs sobre cinema informativo e bem escrito como esse! Sou doida pra ver esse filme. Fernando Meirelles me conquistou com Cidade de Deus(obvio) e Jardineiro Fiel.
http://quaseumfilmepordia.blogspot.com.br/
Sabe que eu esbarrei algumas vezes com este filme... Até flertava com ele, mas, nunca peguei para assistir, não!
Gente, não sabia que tinha todo este embasamento antes de contar o lado não tão - mas ao mesmo tempo muito - charmoso do universo das domésticas. Tema mais que relevante, ainda mais se pegarmos o cenário cultural brasileiro.
Já add na minha lista dos por conferir!
;D
Ah... add seu blog lá no Antes que Ordinárias ;D
Eu lembro de já ter visto tem um bom tempo na TV Cultura, mas com certeza eu estou precisando revê-lo :D
Pelo o que eu me lembro é realmente um bom filme!
Morri de rir com este filme. Já mostrava que Fernando Meireles tinha talento desde o início da carreira.
Vanessa: Obrigado pela visita e elogios.
Assista Domésticas que você irá achar muito divertido. Vale a pena ;)
Beijos
Karla: Valeu por me add no "Ordinárias", mais um trabalho formidável de seu universo blog!
"Domésticas" é mesmo um must! ;)
Bjs.
Alan: Também assisti através da TV Cultura. Bons tempos, rs!
Gilberto: Me fez rir também! A fita além de tudo emociona pelos depoimentos das atrizes.
Abs.
Sobre o desfecho do seu texto: sei bem como é a dificuldade de fazer algo no Brasil. Estou tentando engatar um curta há tempos, entrando em pequenas leis de incentivo (aqui de Goiás mesmo). É barra! Você tem que meio de dentro já para tentar, não apoiam muito os "novatos" e há uma panelinha escrota. O jeito é fazer na tora! Enfim, voltando ao filme, esse eu tenho muita curiosidade de ver. Dizem ser mesmo um filme singelo do Fernando Meirelles, um diretor com tato, e que precisa de uma nova obra poderosa para voltar aos holofotes. Vou procurar assistir!
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