quarta-feira, 23 de maio de 2012

MILOS FORMAN | AMADEUS

RISADINHA

O filme inteligentemente mostra a vida de Wolfgang Amadeus Mozart através de seu rival invejoso Antonio Saliere que se encontra preso em um asilo para loucos. Baseado na peça de Peter Shaffer.

Aqui esta um clássico que ecoa no imaginário popular, quebrando paradigmas sobre biografias históricas que tendem a serem chatas e sonolentas, ainda mais quando o assunto é a biografia de um pioneiro da música. Felizmente o cineasta tcheco Milos Forman (Um Estranho No Ninho/Hair) equilibra lindamente esta história e certeza absoluta que foi bárbaro nas suas escolhas. AMADEUS (Idem, 1984) foi também a fita que me fez apreciar mais o gênero filme de época justamente pela maneira tão moderna e divertida que foi contada. Impulsionou-me a gostar um pouco mais de música, literatura e história (Ópera eu passo, risos), não por acaso, assisti logo em seguida outro clássico antecessor de outro gênio do cinema: Stanley Kubrick com o seu fascinante Barry Lyndon (1975 – ainda acho o seu melhor e maior filme e mais subestimado), mas foi de fato “Amadeus” que me abriu portas e saborosamente me fez gostar dessas pessoas vestidas de George Washington!


No entanto, é preciso salientar que a obra de Peter Shaffer é ficcional e que mostra a relação entre os compositores Antonio Salieri (1750-1825) e Wolfgang Amadeus Mozart, o mais ilustre e famoso músico em todos os tempos (1756-1791). A peça ganhou o Prêmio Tony em 81. Shaffer também escreveu outra peça polêmica chamada Equus, baseado em um fato real, também recebeu o prêmio principal Tony (em 1975), além do prêmio do New York Drama Critics Circle e que Sidney Lumet (1924-2011) levou para as telas de cinema em 1977, que inclusive recebeu indicações ao Oscar: Richard Burton (Melhor Ator como Martin Dysart), Peter Firth (Ator Coadjuvante como Alan Strong) e Shaffer recebeu por Roteiro Adaptado de sua própria autoria. É uma bela história e Shaffer tem um olhar diferenciado para ela; sobre um rapaz em tratamento psiquiátrico e que padece de um estranho fascínio sexual por cavalos! Recentemente Daniel Radcliffe se mostrou um ator brilhante e corajoso ao encenar a peça na qual ele aparece literalmente nu.  Enfim, eis um cara que não escreveu uma avalanche de textos, mas pelo menos dois deles são famosos. 


Também escreveu outra peça que foi adaptada para o cinema: “The Royal Hunt of the Sun” (1969), sobre um explorador espanhol que deseja conquistar o Peru, o filme é com Christopher Plummer e Robert Shaw (1927-1978 conhecido mais pelo seu papel no filme Tubarão de 75). Este filme não é lá muito bom comparado às obras de Lumet e Forman, mas recomendo uma assistida. Mas é evidente que dentre todas as obras de Sheffer, Amadeus é sem dúvida a que mais teve ressonância. Musicalmente belo, triste, perverso e engraçado. Um dos melhores trabalhos de Forman em sua fase top


Os rivais e estrelas do filme: Salieri e Mozart, respectivamente F. MURRAY ABRAHAM e TOM HULCE (que deixou como marca registrada a sua famosa risadinha), esbanjam talento (a de Abraham chega a ser épica, uma das melhores em todos os tempos). Ambos receberem indicações ao Oscar naquele ano, rivais concorrendo até mesmo com a estatueta dourada, que acabou nas mãos de Salieri-Abraham, que é o protagonista da trama. O filme também foi indicado a Fotografia (Mirolasv Ondrícek – que sempre trabalha com Forman) e Edição. Ganhou o de Melhor Filme, Diretor (o segundo de Forman), Roteiro Adaptado (Shaffer), Direção de Arte, Figurino, Maquiagem (feita por Dick Smith a do Salieri velho que ficou sensacional. Smith trabalhou em filmes como: O Exorcista [1973]) e Melhor Som. Não houve indicação a Melhor Música porque eram trabalhos não originais, além de Mozart e Salieri, o filme apresenta obras de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

Tom Hulce é um americano e à primeira vista parecia não ser o ator apropriado para o papel de Mozart. Mas era justamente o que o diretor Forman queria, isto é, romper barreiras. Hulce sabe fazer lindamente o famoso risonho brincalhão, um austríaco com o certificado de gênio, mas que também tinha problemas comuns, como pagar o aluguel, manter a casa, cuidar da esposa e filho, se entender com o pai etc. Esse é o ponto alto do filme, além é claro, da narrativa ser contada pelo ponto de vista do maléfico Salieri e tudo não passa de uma biografia romanceada das mais deliciosas. O filme apresenta um contraste de cenários opulentos e detalhes de uma época brilhantemente encenados e a fita tem uma grandeza até mesmo épica, apesar de focar nos pensamentos invejosos de Salieri e na vidinha de Mozart. Não é só aquilo ali, é muito mais como pano de fundo e nota-se o capricho da produção nos figurinos e direção de arte. Abraham e Hulce são perfeitos antagonistas no sentido hipócrita e cafajeste (meio gangster) com a famosa frase de O Poderoso Chefão Parte II nesse sentido: “Mantenha os seus amigos por perto, mas os seus inimigos ainda mais perto.” E que infelizmente, o histriônico, simpático e agitado Mozart não faz a menor ideia da iminência do perigo. Salieri é frio e tem uma inveja que precisa ser discutida. O invejoso admira a quem tanto odeia. De fato, ele “endeusa” Mozart e no fundo sabe que nunca vai chegar aos seus pés. Assim sendo, o filme consegue evidenciar Salieri sendo à sombra de Mozart. Certamente é o filme que melhor explica o pecado capital mais problemático e infeliz do ser humano. Enquanto Hulce encena um homem feliz e a risadinha estridente não está lá por mera coincidência, seu rival é um homem triste perante a pessoa que tem e o que o mesmo não. O problema dos invejosos, além da frustração, é que eles não conseguem ver que o ser que eles nutrem tamanho ódio são pessoas com suas próprias carências, anseios e problemas. Forman mostra desta maneira o tão queridinho Mozart quando o filme começa a contar suas desgraças. 

Hulce capta com cuidado este enfant terrible da mesma forma que Abraham capta a loucura de seu Salieri. E ambos estão em total harmonia com a ideia que o filme imprimiu perfeitamente de que uma música maior que a vida deve fluir a partir de uma personalidade também maior que a vida. Creio que nenhum outro filme conseguiu manter este espírito tão vigoroso onde a música e o caráter de pessoas estão fortemente ligados e cada vez mais no alto... de um sentimento inalcançável!


Hulce é este cara com jeito até mesmo “nerd” e bizarro que sai pela corte desfilando graça reconhecendo o anacronismo e a tolice de suas vestimentas cheias de babados, sobretudo as perucas que eram modas na época, mas seu cabelo não fazia muita diferença para ter que usar aqueles capacetes luxuosos de cabelos coloridos. Mesmo não sendo aquele ator que muitos queriam como Mozart, aliás, Hulce é muito americano, era isso que Forman queria para o seu filme, um cara que impulsionasse a fita em um ritmo tão impactante que sua atitude como bobo da corte e o forte sotaque american way pouco importariam. E o que o filme mais tem são cenas de Hulce rindo, bebendo, se divertindo e até soltando pum! 

O trabalho de Shaffer nesta adaptação própria é contrapor os rompantes de criação inspirada e fácil às composições simplistas de Salieri (e o mais cômico é que Mozart realmente admirava o homem). Abraham sabe fazer com amargura este homem trágico, tão sofrido quanto seu adorado “amigo”. No entanto, como o filme se pretende mais como comédia, é com este humor que a amargura e inveja de Solieri são retratadas. Já Mozart, apesar das palhaçadas, é um besta que seduz (de certa forma seduziu Salieri).

Forman foi proposital em modernizar a vida destas pessoas numa época que parece não se adequar a tanta arte pop que sempre soou estranho para o gênero, contudo, Forman consegue fazer isso com maestria. As conquistas dos personagens acabam sendo retratadas em suas respectivas obras operísticas. O clímax da relação inveja e sedução podem ser interpretados na ampla encenação musical de “Don Giovanni(encenado no filme no palco original onde a obra teve sua estreia em 1787 mantendo a aura) que é de entorpecer! Ecoa dos palcos, salta da tela e invade a minha mente. Maravilhoso.

Mel Gibson, Kenneth Branagh, Mark Hamill e Tim Curry chegaram a fazer testes para o papel de Mozart. O ator Jeffrey Jones substituiu Ian Robertson no papel do Imperador Jozef II. Simon Callow que interpreta Emanuel Schikaneder (e depois o papagaio na ópera infantil de Mozart: A Flauta Mágica - The Magic Flute, 1791), chegou a encenar a peça teatral em 1979. Meg Tilly foi substituída por Elizabeth Berridge para o papel da esposa de Mozart, Constanze. Não acho nem uma das duas excepcionais, mas a personagem não apareceria tanto no filme, mesmo tendo um papel importante na vida do músico.

Assim como o colega Kubrick, Forman utiliza luz natural em Amadeus para obter uma difusão adequada de luz para algumas das cenas.

Em 2001 o filme ganhou uma versão Director´s Cut com 20 minutos a mais. Esta é a versão mais assistida desde então.

A risada (que para muitos era irritante) de Mozart foi uma informação retirada de referências em cartas escritas sobre ele, incluindo uma citação de que ele teria uma doença infectocontagiosa, mas muitos alegam que isso não comprova de fato, tal problema, até porque não existe nenhuma indicação de quem escreveu, portanto esta afirmação é ainda muito duvidosa alegando tal idiossincrasia do famoso gênio da música. De fato, Shaffer e Forman mantiveram esta risada como fundamentação dramática na obra. Salieri, no texto teatral e no script reconhece este riso como: um riso zombeteiro dos deuses.

Tudo foi ampliado e melhorado da peça para o filme e Forman trabalhou quatro meses com Shaffer na adaptação já que a peça era muito estilizada e ambos gostariam de desenvolver algo a mais para se ter um roteiro viável. Com isso, eles acrescentaram personagens como o do padre que é o ouvinte em uma espécie de confessionário (interpretado por Richard Frank), o da empregada doméstica (interpretada por Cynthia Nixon da série Sex And The City), assim como o arcebispo, a sogra de Mozart e os monólogos de Salieri que foram todos retrabalhados.

Eis um grande e moderno clássico de época da velha Hollywood. Com um espírito de Vaudeville, o filme de Milos Forman continua ecoando musicalmente. Grandes interpretações. Amadeus é uma obra-prima incontestável que obrigatoriamente tem que estar na estante de todo cinéfilo. Vejam. Sintam. Ouçam. Sorriam.




EUA- 1984
DRAMA/COMÉDIA
STANDARD
COR
160 min. Versão Original
180 min. Director´s Cut
14 ANOS
WARNER
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



A SAUL ZAENTZ COMPANY APRESENTA
UM FILME DE  MILOS FORMAN
PETER SHAFFER´S
 F. MURRAY ABRAHAM. TOM HULCE
ELIZABETH BERRIDGE. SIMON CALLOW
ROY DOTRICE. CHRISTINE EBERSOLE
JEFFREY JONES. CHARLES RAY. KENNY BAKER
Vincent Schiavelli. Cynthia Nixon. Richard Frank
Produtores Executivos MICHAEL HAUSMAN. BERTIL OHLSSON
Supervisão Musical NEVILLE MARRINER
Direção de Fotografia MIROSLAV ONDRICEK
Edição MICHAEL CHANDLER. NENA DANEVIC
Director´s Cut por T. M. CHRISTOPHER
Direção de Arte PATRIZIA VON BRANDENSTEIN
Desenhos de Arte KAREL CERNY Figurinos THEODOR PISTEK
Maquiagens por PAUL LeBLANK . DICK SMITH
Coreografias TWYLA THARP
Roteiro de PETER SHAFFER Baseado em sua peça
Produzido por  SAUL ZAENTZ 
Dirigido por  MILOS FORMAN
AMADEUS ©1984 Director´s Cut ©2001 / The Saul Zaentz Company

9 comentários:

Amanda Aouad disse...

Excelente, sem dúvidas, um grande filme, grandes atuações, uma grande risadinha (hehehe), adoro Amadeus.

bjs

Unknown disse...

Como é mágico ver um diretor conseguir montar uma cinebiografia tão bem emoldurada como esta!

As atuações são impecáveis e a trilha sonora muito bem usada - encantando até os mais desavisados!

Realmente uma película excelente!


;D

Gilberto Carlos disse...

Quero muito conhecer a trajetória desse grande compositor, por isso tenho que ver Amadeus.

ANTONIO NAHUD disse...

Um grande musical. Cheio de vigor. O Forman é muito bom.

O Falcão Maltês

Rodrigo Mendes disse...

HA!
Também adoro AMADEUS Amanda, uma obra-prima incontestável.
Perfeito.

Beijos.

Rodrigo Mendes disse...

Esta película me faz flutuar Karla. Meu filme predileto do Milos Forman, embora ache obra-prima (idem) "Um Estranho No Ninho".

Bjs;)

Rodrigo Mendes disse...

Não perca mais tempo amigo, desde já recomendo, mas saiba que o filme é uma obra parcialmente romanceada do Mozart. É mais ficção do que realidade, mas é evidente que vale a pena. Sua obra é magistralmente mostrava na fita.

Abraço.

Rodrigo Mendes disse...

Forman também foi muito subestimado amigo. Poucos reconhecem o seu nome nas obras que dirigiu. Concordo que o filme é meio musical, principalmente com a encenação de Don Giovanni!

Abs.

Júlio Pereira disse...

Amadeus é mesmo uma obra-prima e meu filme favorito do Forman. O contraste entre os personagens é incrível, tal qual sua rivalidade. Curioso: o "Salieri" acabou vencendo o Oscar de ator e o "Mozart" não. haha

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