sexta-feira, 1 de junho de 2012

ALFRED HITCHCOCK | O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1956)

O QUE SERA, SERA...

Casal de americanos (JAMES STEWART e DORIS DAY) está de férias com o filho no Marrocos, mas depois de um espião morrer assassinado perante Stewart, a viagem se torna um pesadelo. Ele “sabe demais” e acaba envolvendo a família em uma conspiração internacional. Com isso, o filho deles acaba sendo sequestrado pelos espiões para garantir que este homem inocente fique calado. Portanto ele acaba se envolvendo ainda mais: terá que impedir outro assassinato e sem colocar a vida de seu filho em risco.


HITCHCOCK, o mestre, já havia dito uma vez em sua famosa entrevista para Truffaut: “O primeiro foi feito por um amador e o segundo por um profissional.” Quando em 1956, já consagrado como realizador e em sua fase na dourada Hollywood, resolve refilmar o seu próprio filme de 1934 (o filme que lhe deu fama na Inglaterra e mundial). É a mesma história, sem tirar, nem por, o que muda é mais o aspecto visual e cênico (e os nomes dos personagens se isso fizer alguma diferença). A fita original demonstra o caráter do cineasta em sua fase inglesa. Um pouco amadora? Sim, aliás, porque discutir com o mestre. Naquela fita, em preto e branco, que também gosto bastante, era estrelada por PETER LORRE (1904-1964), LESLIE BANKS (1890-1952) e EDNA BEST (1900-1974). Pode-se dizer que a fita de 34 era bastante excitante, inquestionavelmente com ótimo clima de antecipação (mestre praticamente não erra, só aprende mais com o tempo) e espirituosa. Mas, certamente a versão americana é muito mais exuberante, apesar de lindamente datada no sentido clássico, como toda a obra de Hitch. Ainda, é uma aula de cinema, eficiente em todos os sentidos e o filme na qual podemos compreender quem era Alfred Hitchcock.

Única experiência em sua carreira: “Plagiar a si próprio é estilo”, dizia. Teve a colaboração do roteirista JOHN MICHAL HAYES (1919-2008), o mesmo de Janela Indiscreta, Ladrão de Casaca e O Terceiro Tiro.

Muitos críticos acreditam que com este filme Hitchcock mostrou que sua obra americana tinha uma superioridade indiscutível. Essa ideia é válida, já que o filme apresenta cenas fantásticas, poderosas e antológicas do mestre do suspense: o assassinato do sujeito que morre diante Stewart que lhe passa a mão no rosto no mercado de Marrakech, os momentos histéricos de Doris Day, o alívio cômico que Hitch permite ao filme, quando Stewart segue uma pista errada do paradeiro do filho e acaba armando confusão em uma loja de taxidermia (na qual o taxidermista empalha animais para exibição e preservação) e principalmente o clímax final no famoso Royal Albert Hall, em Londres, na qual; “um simples bater de pratos abalou a vida de uma família americana.” Ou seja, durante uma apresentação de orquestra sinfônica onde foi planejado o assassinato de um importante político – diplomata - (evidente que o herói sabia demais...), uma das melhores sequências de toda a carreira de Hitchcock que ainda conta com a participação especial de BERNARD HERRMAN (1911-1975), como ele mesmo e regendo a orquestra enquanto tocam “Storm Cloud Cantana” de Arthur Benjamin e D.B. Wyndham-Lewis (roteirista e colaborador de Hitch no filme original). Herrman faz aqui a sua segunda colaboração com Hitchcock (antes foi na comédia de humor negro: O Terceiro Tiro, The Trouble With Harry, 1955).

“O Homem Que Sabia Demais” tem fôlego para arrasar com qualquer suspense que se façam hoje em dia. Um agente secreto que pouco antes de morrer conta para um turista, o médico norte-americano Ben McKenna (Stewart) (despreocupado e de férias com a família, sua esposa Jo [Day] e o garotinho Hank, o ótimo CHRISTOPHER OLSEN), de que estava acontecendo um plano diabólico, uma intriga internacional, conspirando para assassinar um diplomata importante no Albert Hall, durante um concerto. E, para impedir Ben de transmitir esta informação para as autoridades locais, dois espiões, o ótimo casal BERNARD MILES (1907-1991) como Edward Drayton e BRENDA DE BANZIE (1909-1981) como Lucy Drayton que cuida do menino no cativeiro, sequestram a criança. Evidente que o filme começa a ficar cada vez mais tenso, afinal em quem que o casal americano pode confiar? É difícil viver em um mundo de intriga e espionagem (melhor tema da obra de Hitch), ainda mais se tratando de amadores que estão desesperados para ter de volta o seu filho. Enfim, o casal tem de lutar para resgatá-lo com vida e muita coisa acontece...


Fiquei realmente impressionado com a interpretação de Doris Day, até então fazendo papéis em filmes musicais e sapecas como ARDIDA COMO PIMENTA (Calamity Jane, 1953) e antes de vê-la neste filme só havia enxergado uma curiosa comediante e exímia cantora. Ela esta esplêndida sob direção de Hitchcock e quando Stewart tem que drogá-la antes de lhe contar do sequestro, ela esbanja de sua performance dramática. E por falar em desempenho, ela canta lindamente a canção Que Sera Sera (Whatever Will Be, Will Be...) que até ganhou o Oscar de Melhor Canção Original. Day alegou que não queria cantar esta música no filme dizendo que era muito infantil um equívoco da atriz, tanto que a canção foi o maior sucesso de sua carreira. Comparável ao “Over The Rainbow” de Judy Garland que a seguiu até os últimos dias de sua vida. Obs.: Day ainda está viva!



Hitchcock concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, mas infelizmente não levou. Muitas das cenas do filme, no Marrocos, foram realizadas durante o período religioso do Ramadã, um mês sagrado para os muçulmanos, o que causou um problema de logística terrível para a produção. Nas cenas de bastidores (e também na famosa cena em Intriga Internacional quando Grant é perseguido pelo avião), podemos ver o mestre de camiseta o que é raro. Aqui era devido ao calor infernal marroquino. Hitch usava sempre o seu terno. Elegância e distinção, sempre. A aparição do mestre neste filme é bem mais sutil, ele esta entre a multidão no mercado marroquino pouco antes do assassinato.


Outro ponto alto do filme é a cena do exótico restaurante. É típico de Hitchcock mostrar a sua predileção pela gastronomia e boa comida, mas ele não pensava em usar este artifício neste filme, mas quando visitou um estabelecimento marroquino na tentativa de comer um linguado, percebeu que deveria incluir uma cena de jantar diferente em “O Homem Que Sabia Demais”, outro momento de descontração da trama principal.



A belíssima sequência do Albert Hall durou exatamente doze minutos e não possui uma linha de diálogo. O script é bem técnico nesta parte e Doris Day apenas da o seu famoso berro no final. Originalmente Stewart tinha algumas palavras para dizer enquanto subia as escadas para deter o assassino, mas Hitchcock disse que ele falava tão alto que mal conseguia ouvir a orquestra sinfônica de Londres. Stewart sempre contava esta história e narrava com graça e admiração pelo amigo.

Aqui esta um trabalho curioso do mestre. Recomendo sempre. Puro cinema. O HOMEM QUE SABIA DEMAIS é um daqueles filmes que faz a gente roer as unhas e ficar na ponta da poltrona. E somente o mestre poderia fazer isso duas vezes.




EUA – 1956
SUSPENSE
WIDESCREEN
COR
LIVRE
120 min
UNIVERSAL – COLEÇÃO HITCHCOCK
✩✩✩✩✩ EXCELENTE



JAMES STEWART    DORIS DAY em:
ALFRED HITCHCOCK´S
THE MAN WHO KNEW TOO MUCH
Com: BRENDA DE BANZIE    BERNARD MILES     RALPH TRUMAN
DANIEL GÉLIN     MOGENS WIETH    ALAN MOWBRAY
HILARY BROOKE      CHRISTOPHER OLSEN
REGGIE NALDER     NOEL WILLMAN      ALEX TALTON
YVES BRAINVILLE    RICHARD WATTIS     CAROLYN JONES
Fotografado por…… ROBERT BURKS
Montagem.... GEORGE TOMASINI
Direção de arte.....{ HAL PEREIRA . HENRY  BUMSTEAD
Decoração de Set..... { SAM COMER. ARTHUR KRAMS
Figurinos...... EDITH HEAD
Música Original de
BERNARD HERRMANN
Produtor Associado HERBERT COLEMAN
Roteiro de JOHN MICHAEL HAYES
Baseado numa história de CHARLES BENNETT e D. B. WYNDHAM-LEWIS
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK

 The Man Who Knew Too Much ©1956 – Filwite Productions Inc.

13 comentários:

Alan Raspante disse...

Não sabia que esta refilmagem tinha a Doris Days, já ia comentar exatamente isso: Doris Days fazendo drama? rs

Ainda não vi, infelizmente, mas quero muuuuito conferir!

Amanda Aouad disse...

Assim, Hitchcock é sempre Hitchcock, mas O Homem que Sabia Demais é um dos que menos gosto dele. Acho a história meio boba, por mais que tenham algumas sequências indiscutivelmente muito bem realizadas. Adoro também a forma como eles resolvem a questão do menino com a música ao piano, é inteligente porque temos a pista e a recompensa do "Que sera, sera" antes e não fica forçado.

bjs

Hugo disse...

Hitchcock deixou uma carreira sensacional.

Este filme tem grandes sequências, além do ótimo James Stewart.

Abraço

renatocinema disse...

Um diretor impecável.....assim como toda sua carreira.

Wilson Antonio disse...

Sobre Doris Day, Hitchcok brigou até o final com o estúdio por não aceitar a loira no cast de seu filme. Seu relacionamente com doris não deve ter sido dos melhores, ao longo das filmagens, e acho a sequência de "Que será, será" meio forçada, apesar da canção ser uma gracinha. Gosto bastante desse filme, mas acho q versão inglesa mais classuda e charmosa. Peter Lorre é um dos meus artistas favoritos, e só ver seu rosto pintado no poster da 1 versão de "O homem que Sabia Demais" me encanta profundamente. parabéns Rodrigo Grande abraço :-))))

Rodrigo Mendes disse...

Doris DAY* Alan, rs!
Ela faz um drama lindamente. Chora, fica estérica, grita...
Abs.

Rodrigo Mendes disse...

Amanda, e o que você acha da versão britânica?
Eu gosto muito deste filme. Sou suspeito para falar de Hitchcock, claro!
Bjs.

Rodrigo Mendes disse...

Concordo com você Hugo!
Abraço.

Rodrigo Mendes disse...

Renato, uma filmografia brilhante. Provavelmente Topázio seja o único filme que não embarquei, porém não deixa de ser um real equívoco do mestre.

Rodrigo Mendes disse...

Wilson, pelo que eu assisti no documentary feature do filme, Doris e Hitch atá que se deram bem e naquela época os artista eram contratados diretor de um estúdio, complicado mesmo. Acho que a Doris estava sobre contrato com a Warner Bros. enfim...

Acho a sequência de "Que sera sera" inesquecível. Um dos vários momentos antológicos desta versão. Concordo que Lorre era um monstro e sua interpretação era magistral, mas Stewart e Day acrescentaram eficiência e charme ao filme em minha opinião, além da química.

Obrigado
Abraço!

Jefferson C. Vendrame disse...

Grande Rodrigo, como vai cara? Beleza?
Andei meio sumido ai em Maio, mas estamos de volta.
Cara, Hitchcock é Hitchcock, esse filme é ótimo, envolvente, muito bom. Até quem não se liga muito em filmes antigos assiste a esse Hitch e se encanta. Muito Top.

Seu post pra variar também perfeito. Parabéns....

Grande Abraço

Júlio Pereira disse...

Rodrigo, acho ambos os filmes, tanto este quanto o original, ótimos (dou 4 estrela para ambos). O inglês tem um 3º ato meio caótico e uma produção tosca, mas não deixa de ser muito bom. Já essa versão americana é muito boa também, porém aquém do nível estabelecido pelo Hitchcock, um de seus filmes menos memoráveis - a única cena que realmente me marcou foi a citada, de O que será. É linda!

Fabio Pastorello disse...

A cena do Royal Albert Hall é uma das minhas sequências preferidas no cinema. Sensacional, me emociono sempre. Abs.

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