Baseado em fatos reais, o filme narra a história de um homem inocente que é confundido como um criminoso.
Provavelmente THE WRONG MAN de 1956 é o filme que mais explora as maiores fobias de Hitchcock: confinamento e polícia! Ele mesmo confirmou em várias entrevistas que quando era garoto e fez algo de errado, seu pai, como punição, disse para um policial o manter preso por algumas horas. Desde então ele passou a ter um medo incontrolável de policiais e confinamento, deixando transparecer na maioria de seus filmes como em Psicose (1960) quando o guarda investiga Marion Crane na estrada e passa a segui-la, por exemplo.
Esta fita é certamente a mais cruel em toda a obra do mestre. Um filme desolador e sombrio com uma belíssima fotografia em preto e branco do craque Robert Burks, seu fiel cinegrafista. “O Homem Errado” se tornou mais cult e depois revisitado atentamente, na época foi bem subestimado. Não teve nenhuma indicação e premiação importante e foi lançado no mesmo ano do sucesso O Homem Que Sabia Demais (Vide post anterior).
O que dizer do grande HENRY FONDA (1905- 1982)? Em um de seus melhores papéis, meu favorito do ator, empatando com os épicos: VINHAS DA IRA (John Ford,1940) e Era Uma Vez No Oeste (1968) de Sergio Leone. Fonda interpreta um homem triste chamado Manny Balastrero, um talentoso, mas não reconhecido, músico de Jazz que acidentalmente é identificado como um sujeito que assaltou uma seguradora. Obviamente não passa de um engano, mas até ele provar...
Acontecem muitas humilhações e mesmo que tenha sido libertado sob fiança, fica aquela indignação e vergonha que o seguem como sombras (Hitchcock deixa transparecer esse simbolismo em um filme dark). O fato afeta diretamente sua esposa, a fantástica VERA MILES, radiante, em sua melhor interpretação para Hitch, como a perturbada Rose. Ao longo da premissa, em meio a tanto suspense, o casal tenta encontrar pessoas que pudessem ajudá-lo e assim confirmar o álibi do herói. No entanto, as tentativas são frustradas. Hitchcock não procura atalhos para o lado positivo, que não há. Com o tempo, Rose fica louca e tem um colapso nervoso em uma das cenas mais pulsantes: atacando Fonda e quebrando o espelho!
A coitada é internada e de certa forma acaba, também, sendo presa. O filme tem ótimas cenas de julgamento (tribunal), excelentes diálogos e antecipação maravilhosa.
Hitchcock consegue realizar um filme que tem um realismo impressionante, embora seja baseado em fatos verídicos, Hitch deliberadamente deixa de fora algumas informações que apontam a inocência de Balestrero e isso faz aumentar ainda mais a tensão. Tudo é captado de maneira quase documental.
O mestre ainda deixa um presente para os fãs: apresenta pessoalmente um prólogo do filme, interpretação única do diretor em qualquer um de seus trabalhos. Ele, normalmente, fazia estas aparições divertidas em sua série de TV: Alfred Hitchcock Presents, mas aqui resolve diferenciar o comum e ainda faz a sua habitual ponta.
![]() |
| Prólogo do filme por Hitchcock em pessoa! |
A sensação de culpabilidade nunca foi tão perversa em nenhum outro filme, pelo menos que eu tenha assistido. Hitchcock é cruel, parece que o seu medo pelo assunto faz com que ele trabalhe ainda de forma mais brilhante. Dizia: “A única forma de me livrar de meus medos é fazer filmes sobre eles.” E com audácia, ele mostra os detalhes (de maneira sádica) os procedimentos de acusação e encarceramento. Mesmo que a plateia saiba que o mocinho é realmente o mocinho já que é inocente, mesmo assim, o filme não alivia a melancolia e sofrimento deste homem. Fonda representa o medo magistralmente dentro de uma cela pequena a aterradora enquanto olha para as grades esperando, infelizmente, ver o sol nascer quadrado.
Há vários momentos no filme que são verdadeiros ensinamentos de como fazer cinema. A mais comentada é uma sequência que faz uso da câmera subjetiva, exemplificando, assistimos Henry Fonda sofrendo numa situação aviltante, sendo autuado, revistado e tendo suas impressões digitais tiradas friamente e a tinta em seus dedos simbolizando a confirmação de sua culpa.
No momento em que Fonda é levado para a prisão, pode-se ouvir os gritos dos demais prisioneiros, as risadas... Dizem que foi filmado em um presídio real!
Quem aprecia a obra de Hitchcock ficará surpreso com muitas cenas. O mestre estava certo ao dirigir a melhor narrativa sobre o seu típico homem errado neste inquietante e assustador film noir.
EUA – 1956
SUSPENSE/POLICIAL/DRAMA
WIDESCREEN
105 min.
PRETO & BRANCO
WARNER
16 ANOS
✩✩✩ BOM
WARNER BROS. PICTURES Apresenta
HENRY FONDA. VERA MILES em:
ALFRED HITCHCOCK´S
‘The WRONG
MAN’
Também Estrelando:
ANTHONY QUAYLE
HAROLD J. STONE. CHARLES COOPER. RICHARD ROBBINS
Fotografado por ROBERT BURKS
Editor de filmagem GEORGE TOMASINI
Direção de Arte PAUL SYLBERT
Produtor Associado HERBERT COLEMAN
Escrito por
MAXWELL ANDERSON. ANGUS MacPHAIL
Argumento Maxwell Anderson BASEADO EM SEU LIVRO
Música de BERNARD HERRMANN
Direção
ALFRED HITCHCOCK











_10.jpg)
9 comentários:
Esse era gênio na arte do cinema.
Esse filme ainda não vi e olha que assisti muita coisa do mestre.
Boa dica.
Esse é um filme que sempre deixei para depois... Preciso conferir..
bjs
Grande realização de Hitchcock, que peca apenas pelo desfecho muito abrupto. A cena da câmera cambaleando na prisão é a melhor do filme.
http://avozdocinefilo.blogspot.com.br/
Cara, um dos poucos filmes que não vi do mestre... Teu texto tá muito bom. Tenho q suprir essa falha cinéfila.
Grande atuação de Henry Fonda...
O Falcão Maltês
É um pequeno grande filme de Hitchcock, com uma bela atuação de Henry Fonda.
Assisti no finado Cine Clube, sessão da madrugada que a Globo tinha nos anos oitenta e passava filmes legendados.
Abraço
Grande Rodrigo,
Mais um brilhante texto sobre um brilhante filme.
O Homem Errado é um ótimo Suspense, triste e lúgubre sem os toques costumeiros de humor que o diretor sempre utilizava. Fonda e Miles estão brilhantes.
Parabéns pelo ótimo texto e pela escolha das fotos!
Grande Abraço
Hitchcock é um deleite para os interessados em psicologia. Mais "fóbico" impossível!
Não faz muito que revi esta película e, agora, parti para um olhar jurídico. Injustiças são tão fáceis de serem cometidas... Fica até difícil crer em um sistema que é falho pelo simples fato do homem ser falho.
A fotografia realmente é angustiante e pesada, combina bem com a crueza do filme.
Ótima resenha!!!
;D
Renato, Amanda: Corram atrás urgente!
Rafael: Tudo nos filmes do Hitchcock é friamente calculado, mas nem sempre agrada à todos. Sempre vale uma cena ou outra, a da subjetividade é certamente a mais impactante!
Celo: Obrigado cara! Nem preciso dizer que te recomendo o filme... não chega a ser o meu favorito entre tantas obras do mestre, mas é sem dúvida uma aula de cinema, além de ser aquele ótimo programa de sempre que ele proporcionava.
Antonio: Esplêndido aqui!
Hugo: Legal esta sessão aí cara...nem é da minha época, sou do "Corujão" mesmo! Por exemplo, assisti pela primeira vez nesta ocasião ao "Os Pássaros".
Jefferson: Grande Jeff!
Realmente é um filme que não oscila para o humor negro típico de Hitch, é um dos mais sombrios dele sem dúvida! Tb acho "Psicose" assim.
Karla: Hitch era muito fóbico sim, aliás, como todos nós. Seu divertimento era transparecer isso em seus filmes. Em "O Homem Errado" ele fez isso com seriedade, parece realmente um pesadelo. Enfim, altos debates...não sou expert em psicologia, mas acredito que essas fitas eram terapias para ele.
Obrigado mais uma vez querida, beijos! =D
Abraços à todos!
Postar um comentário