GOZO CINEMATOGRÁFICO
Estudante americano inicia uma amizade intensa com um casal de irmãos gêmeos que o convidam para ficar com eles em sua casa enquanto seus pais estão fora. Tudo acontece em meio aos tumultos estudantis em plena Paris de 1968.
Se existe algum filme que sabe provocar prazer intenso é certamente OS SONHADORES e o seu diretor é o aclamado BERNARDO BERTOLUCCI, que como ninguém, polemiza definitivamente o sexo, mas que coordena magistralmente as situações íntimas provocando o mais puro êxtase de erotismo. Com o lançamento de Na Estrada, de Walter Salles, posso dizer que Os Sonhadores têm o ingrediente que faltou para contar melhor a história da Revolução Beat. Não que as premissas tenham alguma coisa haver diretamente uma com a outra, mas se estamos falando de alguma transgressão juvenil e melhor ainda, de cinema, a sétima arte somada à personalidade de movimento libertário regrado de prazeres intensos, bom, não há dúvidas de que a fita de Salles é até piegas se for comparar com esta obra de Bertolucci que desde as titulagens iniciais já provoca palpitações ao mostrar a Torre Eiffel de cima para baixo em plano fechado enquanto passam os letreiros.
O filme é baseado no livro do inglês GILBERT ADAIR (1944-2011 - que vivenciou a experiência real em Maio de 68), chamado de Os Inocentes Sagrados (The Holy Innocents) e que também escreveu o interessante Love and Death on Long Island que virou filme em 97 com John Hurt. Ele próprio faz a adaptação para o cinema de maneira vigorosa.
Na verdade o que mais me atrai neste filme são as referências cinematográficas. Quem ama cinema é o próprio gozo. E não são apenas citações, mas Bertolucci inseriu lindamente momentos antológicos de alguns filmes na qual os cinéfilos podem desfrutar. A minha cena favorita é quando os três amigos estão correndo no Louvre tentando quebrar o recorde de nove minutos e 43 segundos dos heróis no clássico: Banda à Parte (Bande à Part, 1964) uma das melhores fitas da Nouvelle Vague do mestre Godard! Há também momentos graciosos quando fazem referência a uma cena impactante do bizarro Monstros (Freaks, 1932 de Browning), quando os gêmeos aceitam o americano depois da corrida no museu. Eles citam a frase e o filme intercala com a outra cena de Freaks: “We accept him, one of us”. Adoro também quando a moça faz uma engraçada imitação de Garbo em Rainha Christina (Queen Christina, 1933 de Mamoulian), quando ela diz que esta memorizando o quarto na primeira noite em que o rapaz estrangeiro dorme em sua casa.
Enfim, o que não falta são referências, como a da cena final em que a garota tenta se suicidar e matar os demais usando gás de cozinha e quando ela fecha os olhos, chorando, assistimos as cenas do triste suicídio em Mouchette, a Virgem Possuída (Mouchette, 1967 de Bresson com Nadine Nortier), ela vai rolando até cair e se afogar no rio. Até mesmo Samuel Fuller com o seu fantástico Paixões que Alucinam (Shock Corridor, 1963) é lembrado quando o americano está no cinema e diz que prefere sentar-se na frente para ser o primeiro a receber as imagens. O filme destaca tantas obras clássicas belíssimas e também deixa alguns detalhes, como por exemplo, pôsteres de filmes como: A Chinesa (La Chinoise, 67 outra fita importante de Godard), Persona (1966 de Bergman) e O Anjo Azul (Der Blaue Engel, 1930 de Sternberg, com Dietrich – quando o rapaz esta se masturbando!). Além de citar Luzes da Cidade (City Lights, 1931) quando os rapazes estão debatendo sobre Charles Chaplin e Buster Keaton e a linda cena final da florista cega (e o público) quando olham pela primeira vez a antológica expressão do Carlitos. Lindo. Há também momentos engraçados ao representaram o clássico filme de gângster, Scarface – A Vergonha de Uma Nação (Scarface, 1932 de Hawks e Rosson, com Paul Muni). Com isso, é impossível não dizer que a fita de Bertolucci é puro cinema (e não apenas Nicholas Ray).
Ainda não entendo o motivo cruel pelo qual a crítica especializada francesa e italiana tenham sido duros com Bertolucci não tendo recebido com satisfação o filme na época. Felizmente, Os Sonhadores foi a fita mais assistida no Festival do Rio assim como na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2004, quando estreou por aqui em Outubro. Eu estava lá. O que só prova que realmente os estrangeiros contemplam obras de outros países e nós mesmos temos mania de olhar para fora e não enxergamos a arte nacional.
Foi oferecido o papel do jovem americano para Jake Gyllenhaal que estupidamente o recusou por ter medo da natureza e profundidade das cenas eróticas do personagem. Leonardo Dicaprio também recebeu o convite, mas estava ocupado trabalhando na produção de Scorsese, O Aviador. Outro que estava considerado para o elenco era Dominic Cooper! A cena em que o cabelo de Eva pega fogo foi absolutamente acidental, mas a atriz estava tão envolvida na cena e sua reação foi tão calma e natural, que o diretor resolveu incluir a cena no corte final. Para fazer com que o trio se sentisse a vontade com as cenas de nudez, Bertolucci encorajou a todos a ficarem pelados uns para os outros muito antes de ocorrer as filmagens. No livro, o autor deixou mais explícitas cenas homossexuais em meio ao ménage à trois, mas que no filme são completamente descartadas. Segundo Bertolucci, ele achou que já ficaria excessivo demais, mas os fãs reclamam e na época das filmagens muitos deles insistiram, mas as cenas gay nem sequer foram filmadas.
Outro ponto alto do filme é sua trilha sonora musical repleta de relíquias do rock. De Jimi Hendrix passando pela rainha Janis Joplin e finalmente The Doors, com a minha song predileta: The Spy. E, sem deixar a cúpula francesa de fora, a trilha ainda tem a voz da deusa Edith Piaf nos créditos finais (Non, Je Ne Regrette Rien, é claro) e Françoise Hardy (Touls Les Garçons et lês Filles). MICHAEL PITT que interpreta Matthew se apresenta cantando Hey Joe ao lado do grupo The Twins of Evil que é muito bacana, inclusive o videoclipe.
E o quer dizer dos três protagonistas? PITT (De Violência Gratuita US/ Last Days/ Cálculo Mortal), a ótima EVA GREEN (em seu primeiro papel no cinema) e o galã francês LOUIS GARREL (filho do diretor Phillip Garrel com a atriz Brigitte Sy, neto do ator Maurice Garrel, sobrinho do produtor de cinema Garrel Thierry e afilhado de Jean-Pierre Léaud que falarei logo a seguir, quer dizer, sem indícios de narcisismo o rapaz diz que tem cinema nas veias) entram de cabeça neste universo sexual com nenhuma vergonha e ou/ pudor, fazem de suas cenas as mais quentes e comentadas dos últimos anos. Bertolucci como todos já sabem, não procura atalhos quando se trata de mostrar o sexo. Ele sabe ser cru, mas ao mesmo tempo provoca sensações tipicamente eróticas, provocativas. Era de se supor que o diretor do falacioso clássico O Último Tango Em Paris (Last Tango In Paris, 1972, com Brando e Schneider) que já causou polêmica por mostrar um homem de meia-idade e uma moça parisiense vivendo um caso sórdido clandestino baseado em sexo, faria algo chocante. Só que aqui, voltamos para Paris em maio de 1968 enquanto acontecia um movimento estudantil revolucionário no circuito artístico de cinema na França e que rapidamente se espalhou pelo país protestando sobre outros temas ainda mais alarmantes (o apoio dos estudantes ao proletariado) e que gerou greves. Nesta época, o jovem estudante americano Matthew (Pitt), que esta em um intercâmbio para estudar francês, é apenas mais um vigoroso rapaz que é completamente apaixonado por cinema (e sua narração é vívida). Naquele âmbito, ele faz uma rápida amizade com a francesa Isabelle (Green) e seu irmão gêmeo Theo (Garrel). De modo estranho e como um raio (assim como a revolução), os três descobrem que têm muito em comum, a paixão e o conhecimento por cinema, sobretudo as fitas mais antigas, que é o canal desta semelhança e adoração. A amizade começa a surtir em um patamar cada vez mais íntimo (e perigoso). Tudo começa a florescer, mas Matthew passa a ser a voz da razão quando passa a questionar a relação tão íntima, infantil e quase incestuosa dos irmãos que precisavam de um elemento a mais que faltava para concluir suas fantasias. Eles se divertem sozinhos, em um mundo próprio enquanto os pais de Isabelle e Theo (respectivamente ROBIN RENUCCI e ANNA CHANCELLOR) estão viajando. A casa é só deles e tudo pode acontecer! Os três compartilham jogos psicológicos sob a temática do cinema clássico que acaba culminando em sexo. Matthew naturalmente fica confuso, já que teve uma criação diferente, mas com o tempo ele vai se soltando e ficando cada vez mais despido e fica perdidamente atraído por ambos (mas o filme, como disse, não apresenta nenhuma cena de sexo entre Pitt e Garrel). Ele não só fica conectado fisicamente (sobretudo com Isabelle) com eles, sem roupa e gozando prazeres, como embarca no mundo dos irmãos, que mimados pelos pais, entendem de política, protestam, mas vivem em uma utopia de sentir até pena e que sempre tem relação com os filmes. Durante boa parte da projeção, eles vivem este triângulo de orgias, vivenciando também uma paixão fogosa, isolam-se do mundo real, ou seja, ficando de fora do contexto conturbado em que vivia os franceses em Maio de 68, como ficou conhecido, quando a França entra em uma greve geral no acontecimento mais revolucionário em termos de rebelião do século passado, que envolveu o Partido Comunista Francês e a República. É Caos. E o que Theo, Isabelle e Matthew estavam fazendo? De vez em quando eles olham pela janela...
No entanto, o filme não pretende tratar da Revolução em si, apenas é um subterfúgio de pano de fundo (embora seja nostálgica e fato de suma importância na vida do diretor e do autor), mas é fortemente acentuado na película, evidente, o Cinema Militante que se inspirou nos ideais de Maio de 68, com obras políticas de Godard, já citada. Também mostra os protestos e não deixa de fora o importante Henri Langlois (1914-77) que foi o pioneiro na preservação dos filmes (e também os exibia livremente para a apreciação geral) e um dos fundadores da Cinémathèque Française, a catedral do cinema, fortemente influenciados pela geração de cinéfilos e os jovens críticos franceses.
O filme tem a participação célebre de figuras do cinema francês como JEAN-PIERRE LÉAUD (do sensacional Os Incompreendidos – Les Quatre Cents Coups, 1959, de Truffaut) e JEAN-PIERRE KALFON (de Week End, 1967 de Godard) fazendo eles mesmos lendo em cena textos de Godard que foram ditos por eles na época do movimento real.
Nem tanto pelas cenas de sexo, extremamente bem dirigidas, mas é muito mais pelo contexto cinéfilo e pano de fundo histórico que faz com que Os Sonhadores seja um filme tão pertinente, necessário e perfeito para debates. Muito subestimado, é um filme de grande ressonância e que se transformou em um dos mais cults de Bertolucci. Tão impactante como o belo Beleza Roubada (Stealing Beauty, 1996 com Liv Tyler) e envolvente como os épicos O Último Imperador (Vencedor do Oscar. The Last Emperor, 1987) e o meu favorito do diretor: 1900 (Novecento, 1976, com De Niro, Depardieu e grande elenco, e que ainda pretendo postar!). Um filme que é o filhote de O Último Tango em Paris em óbvios sentidos! Além de trazer descobertas sexuais, a fita pretende ser puro conhecimento de cinema em um dos pontos mais sonhados da Europa. Bertolucci conduz em grande forma (e fazia um tempo que estava no escanteio desde que lançou à época o fraco Assédio, 1998) este filme que tem o suplemento de um ótimo script. Adair germina muito bem sua própria obra literária para as telas. Gosto da cena final quando jogam aquela pedra na janela, quebrando os vidros, o que faz acordar nossos três cinéfilos sonhadores.
Recomendo e ainda proponho um jogo: peguem qualquer cena já inesquecível entre Pitt, Green e Garrel e experimentem este frisson. Ao término a resposta será simples, trata-se de Os Sonhadores, 2003 de Bernardo Bertolucci.
FRANÇA/INGLATERRA/ITÁLIA - 2003
DRAMA
WIDESCREEN
114 min.
COR
16 ANOS
FOX
✩✩✩✩ ÓTIMO
FOX SEARCHLIGHT PICTURES Apresenta
Uma Co-produção RECORDED PICTURE COMPANY/PENINSULA/FICTION
Uma produção JEREMY THOMAS
Um Filme de BERNARDO BERTOLUCCI
MICHAEL PITT
EVA GREEN
LOUIS GARREL
THE DREAMERS
Com: ROBIN RENUCCI ANNA CHANCELLOR
Participações Especiais:
Jean-Pierre Kalfon . Jean-Pierre Léaud
Figurinos por LOUISE STJERNSWARD Cenografia JEAN RABASSE
Edição JACOPO QUADRI Fotografado por FABIO CIANCHETTI
Produtores Associados HERCULES BELLVILLE. PETER WATSON
Co-produtor JOHN BERNARD
Produzido por JEREMY THOMAS
Roteiro de GILBERT ADAIR Baseado em seu livro
Dirigido por
BERNARDO BERTOLUCCI
The Dreamers ©2003 Twentieth Century Fox- Fox Searchlight Pictures
Picture Company Gravado (RPC)/ Peninsula Films/ Fiction Films










9 comentários:
As referências cinematográficas são mesmo um deleite à parte, mas o filme como o todo encanta tornando-se irresistível.
bjs
Não é um dos meus favoritos do Bertolucci, mas é um filme maravilhoso, uma bela homenagem ao cinema clássico com um ótimo pano de fundo, a libertação sexual, a contra-cultura e os movimentos políticos dos anos 60...
Excelente texto, você passou pelos pontos que eu também destacaria em um texto sobre a obra, as referências, o paralelo com "O Último Tango em Paris" e as atuações memoráveis do trio! Ótimo!!!
http://sublimeirrealidade.blogspot.com.br/2012/07/o-pequeno-principe.html
Cara, lembro bem qd vi esse filme a primeira vez, me emocionou pois passava uma fase de conformismo e ilusões e o filme trata bem isso. Um dos filmes que mais gosto de Bertolucci.
Este filme é sem dúvida, um dos mais interessantes que assisti em toda minha vida! Vale à pena ver de novo! Excelente texto!
É até difícil de acreditar que a Eva estava em seu primeiro papel no cinema! E o Pitt, que eu lembrava da época de Dawson's Creek... fabuloso! Nem vou falar do lindo do Garrel hehehe
É um filme que não deixa ninguém passar impune; Transgride, conduz... tudo de forma encantadora, especialmente aos cinéfilos!
;D
Amanda: justamente as referências cinematográficas que acho a cereja no bolo!
Bruno: Meu favorito do Berto sempre será "Último Tango Em Paris", gosto também de 1900. "Os Sonhadores" não fica atrás. Ele estava inspirado aqui, porém, infelizmente a fita não fez o sucesso que merecia. É mais cult mesmo.
Obrigado!
Celo: Bem pontuado! Essas ilusões são óbvias nas personagens principais, sobretudo nos irmãos e quando o trio passa a viver trancafiados no apartamento. Como eu disse, e tem essa intensão no filme, quando a janela é quebrada, eles "acordam".
M: Obrigado Magda!
É um filme para toda a vida cinéfila...
Karla: Nem lembro do Pitt em Dawson's Creek. Sério que ele participou da série? O trio esta fantástico, Garrel dispensa comentários... rs e a Eva esta realmente impressionante! Ela tb levou algumas bronquinhas do Bertolucci, hahaha
Obrigado à todos!
Abs.
O Pitt era o namorado da Michelle Williams nas primeiras temporadas, bobinho e bem apaixonado!
;D
Um bom filme que reformulou a forma de vermos cenas ousadas no cinema que marcou nao só a mim mas muitas gerações os atores estavam muito bem em seus papeis e que realizaram um ótimo trabalho. Só realmente senti falts das cenas homosssexusis que assim como esta no livro era pra estarem no longa.
Sem dúvidas, uma belíssima homenagem ao cinema. Pra mim, Os Sonhadores é o filho de Partner e O Último Tanto em Paris. E, pra mim, é uma interessante crítica à vários jovens que participaram da revolução da época. Enfim, uma ótima ode erótica ao cinema que tanto amamos.
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