TRAPACEIROS
Casal
de trambiqueiros amadores: uma falsa médium e um motorista de táxi, se envolvem
em uma trama misteriosa quando uma velha rica decide pagar 10 mil dólares para
a “vidente”, Blanche, localizar o
sobrinho renegado e o seu único herdeiro que supostamente estaria morto. Só que
tudo se complica quando o verdadeiro
é encontrado. Trata-se de um sequestrador, ladrão de jóias e assassino
profissional que é ajudado pela namorada, uma falsa loura.
Depois do sucesso comercial de FRENESI (Frenzy, 1972) era hora de Hitchcock
(1899-1980) procurar por uma nova trama. Depois do fraco TOPÁZIO (Topaz, 1969) e o subestimado CORTINA RASGADA (Torn Curtain, 1966), Hitch estava lhe dando com uma nova audiência,
um público diferente. Não era mais aquela plateia que se impressionava com
filmes como: Janela Indiscreta, Intriga
Internacional, Ladrão de Casaca, Disque M Para Matar, Pacto Sinistro, Um Corpo
Que Cai... os
anos dourados do diretor. Psicose (Psycho, 1960) foi uma ruptura em sua
carreira, simbolizada no choque que foi a cena do chuveiro, o adeus do cineasta
a uma era de filmes. Depois disso, a partir de Os Pássaros (The Birds, 1963) e Marnie, Confissões de Uma Ladra (Marnie, 1964), o próprio Hitchcock percebeu que tinha que se
reinventar, com filmes mais ágeis. O marco de Psicose, sucesso absoluto de sua carreira, acabou sendo tão
imitado, um trabalho tão influente, que nem mesmo Hitch conseguiu se superar já
naquela idade e altura do campeonato vindo de uma vasta e brilhante carreira.
Certamente o final dos anos 1960 e década de 1970 foi o período mais complicado
e obscuro para ele. Começava a surgir uma nova safra de artistas na indústria
(a própria indústria Hollywoodiana estava se modificando); Martin Scorsese, Brian De
Palma (que sempre deixou claro a influência do mestre do suspense em sua
obra), Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg, (citando apenas alguns e o último que colocava
mais sensibilidade nas telas). Portanto, a concorrência com os jovens era uma
tarefa árdua. Nem por isso, seus últimos filmes foram totalmente
desinteressantes (sobretudo o mais fraco e que tenho pouca predileção, Topázio)
e Hitchcock continuava com seu prestígio, mas era no sentido de respeito para
com o Sir. do império britânico com
relação aos seus últimos trabalhos do que qualquer outra coisa.
TRAMA
MACABRA não é uma
obra-prima, ou uma “pequena obra-prima”, é simplesmente um bom entretenimento,
isto é, um programinha legal para um dia de chuva. É uma fita típica de
Hitchcock, apesar dos novos tempos e reinvenção na arte de fazer cinema. Baseado
em um livro de autoria do escritor inglês VICTOR
CANNING (1911-1986), The Rainbird Pattern, eis um programa que Hitch
declarou, se nós estivéssemos interesse em assistir, sobre o passado do homem
que resolve sair da tumba para assombrá-lo. Mais ou menos esta analogia, que
com seu humor típico, ele próprio confessava a sua culpa. Family Plot,
como o filme foi chamado, é recheado de subtramas deliciosas, pistas que fazem
o casal central, uma dupla de trapaceiros (BRUCE
DERN e BARBARA HARRIS –
hilários!) se envolverem em sequestros, roubo de jóias (os diamantes que são
eternos...) e é claro, assassinato! Afinal estamos em um filme de Alfred Hitchcock não se esqueçam!
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| O Diretor com o seu jovem elenco. William Devane não esta na foto porque substituiu o ator Roy Thinnes (de terno preto à direita) |
O roteiro é assinado por ERNEST LEHMAN (1915-2005), exímio
roteirista, várias vezes indicado ao Oscar,
e que havia trabalhado com Hitchcock no sensacional Intriga
Internacional (North By Northwest, 1959. Sem demagogias pelo meu amor ao mestre, seu melhor trabalho)
A premissa segue a história de
uma “profissional” mentirosa e aspirante a vidente e ou/ médium, Madame Blanche Tyler (Harris) que em uma
de suas consultas (e a cena no início é super engraçadinha), fica sabendo que
uma fiel cliente, uma senhora milionária, Julia
Rainbird, a ótima CATHLEEN NESBITT
(1888-1982 – de filmes como Tarde
Demais Para Esquecer, An Affair To Remember, 1957) esta disposta a pagar uma grande bolada em
dinheiro se Blanche conseguir entrar em contato com o mundo espiritual e saber
através dos parentes mortos da velha o paradeiro do sobrinho perdido que seria
seu único herdeiro. A trama começa em torno disso, assim, Blanche convence o
namorado/amante (aliás, o filme não evidencia que ambos os casais eram de fato
casados), George Lumley (Dern) um
taxista, a investigar este passado mórbido.
Fumando o seu cachimbo e com um
faro detetivesco, mas com atitudes amadoras, George vai descobrindo aos poucos
o sumiço do rapaz. Chega até um cemitério e descobre que uma lápide foi
colocada lá para despistar a família Rainbird e a polícia. O único herdeiro da fortuna estaria vivo? Será que o cara forjou sua própria morte? Seguindo as pistas, o
casal de malucos acaba entrando pelo cano, envolvem-se em algo muito maior, já
que descobrem que um joalheiro ladrão, cruel, e assassino pode ser o tal
sobrinho morto. Ele é Arthur Adamson
(WILLIAM DEVANE), que acha que
Blanche e George estão em seu encalço devido aos crimes que cometera.
Para colecionar diamantes, ele rapta homens poderosos e os mantém em um
esconderijo secreto em sua própria casa, e insere uma droga tranquilizante e os trata muito bem no cativeiro. Sem nenhum vestígio que possa
incriminá-lo. Tudo é feito com a colaboração de uma cúmplice, sua namorada, Fran (KAREN BLACK), que se disfarça de loura para obter os diamantes na
entrega.
Armada, coberta com óculos escuros e sem dizer uma só palavra para não
ser identificada. Infantil demais acreditarmos nisso, mas enfim...
O barato deste filme é que
Hitchcock o recheia com um humor negro maravilhoso. Tem mais alívios cômicos do
que cenas tensas ou aterrorizantes, mas sim, existe o suspense só que desta
vez, fica claro que é o suspense o alívio desta trama e não o oposto como nas
obras anteriores do diretor. Tem apenas um assassinato depois da tentativa do
mesmo, numa sequência em que mostra o carro dos heróis perdendo o controle em
uma auto-estrada cheia de curvas, após eles terem sido descobertos por Adamson
que não poupa despesas para realizar algumas queimas de arquivos. Manda seu
comparsa, Maloney, interpretado por ED LAUTER, eliminar a dupla de
farsantes. Ele é um frentista de posto e mecânico que “astutamente” sabota o
veículo. Mas a tentativa é frustrada! O mais engraçado são as reações de Harris
e Dern com uma química incrível e um overacting
formidável. Ela sai por cima quando o
carro tomba, pisando na cara de Dern, que sai por baixo. A mulher é o gavião e
o homem o verme. (Risos).
HOWARD
KAZANJIAN que
mais tarde seria produtor executivo de alguns filmes como: Os
Caçadores Da Arca Perdida,
1981 e produtor de Star Wars- Episódio VI: O Retorno De
Jedi, 1983,
foi convidado pelo gerente de produção e amigo de Hitch, HILTON A. GREEN, para ser o Assistente
de Direção do mestre. "O que foi uma honra", segundo ele. Kazanjian conta
várias histórias do período em que esteve com Hitchcock, uma delas foi a
frustrante situação que foi conhecer pessoalmente Hitch depois de várias
tentativas e durante longas cinco semanas se comunicando com ele através de
outros assistentes. Ele diz que na época, por ser muito jovem, as pessoas
pensavam que Hitch iria censurá-lo por querer falar com ele sobre o filme etc e
tal. Novos cineastas estavam surgindo e tinham um jeito completamente diferente
de trabalhar. Hitchcock ainda pertencia a velha moda de Hollywood. Isso é até
irônico, Hitch foi o mais moderno contador de histórias de sua época, mas teve
que passar pelo processo de modernidade do novo cinema. Uma dessas diferenças
era a pontualidade britânica do velho de começar a trabalhar e até mesmo para
comer o seu café da manhã, hábito que os jovens, como Kazanjian, não tinham. De
súbito, ele entrou numa sala e se apresentou a Hitchcock e segundo ele, depois
da apresentação, Hitch o pediu para acompanhá-lo até o seu escritório e a
partir deste dia, Kazanjian passou todas as manhãs, pontualmente, ao lado do
mestre e começando com uma xícara de café, é claro.
Uma das discussões de Hitch com
Kazanjian sobre o filme era a escolha ideal para o título e que a princípio se
chamaria “Fraude” – Deceit
(Hitchcock gostava de títulos com uma só palavra, Family Plot nunca lhe agradou) sobre duas histórias separadas e
dois pares de pessoas completamente distintas que acabariam por se cruzar. Isso
era o que mais fascinava Hitchcock, mais até do que os demais detalhes do
roteiro.
O filme tem várias insinuações
sexuais, uma marca registrada de Hitchcock, e apesar de algumas explícitas,
segundo Kazanjian, na época também passaram despercebidas. Os diálogos que
incitavam isso eram alterados e modificados por Hitchcock no set de filmagem, espiritualmente,
diga-se de passagem. Exemplo: Bruce Dern (George) para Barbara Harris
(Blanche): “Estou cansado que você venha pegar as minhas bolas de cristal.”
Outra marca dele é a comida e o mesmo casal discutindo e comendo depressa na
cena com os hambúrgueres. É hilário!
Depois de ter rompido a relação
com Bernard Herrmann, Hitchcock teve
a sorte de trabalhar com o jovem JOHN
WILLIAMS, que ficou famoso depois do sucesso de Tubarão
(Jaws, 1975), para compor a trilha. Williams
faz um trabalho cuidadoso sem muita exposição pessoal, mas é evidente o
reconhecimento da sua marca. Trama
Macabra tem uma música tímida e não tão operística como nos filmes
anteriores do diretor e certamente nos trabalhos seguintes de Williams com
Spielberg. Ele foi dirigido pelo mestre da seguinte maneira, segundo Williams,
os pormenores da música era para ser a voz do além que Barbara Harris imitava. Ou seja,
Williams buscou nas vozes femininas o tom certo para as suas notas, além do
mais, Hitchcock apreciava trabalhar com música em seus filmes através do método
eficaz da edição. “A precisão da edição refletia a da filmagem”, segundo Williams
sobre Hitch. De fato, é um trabalho brilhante do compositor, que sabe captar as
nuances de cada cena do filme + as idéias de Hitchcock e cada tom que a música
deve atingir ilustrando musicalmente cada momento de antecipação e comédia. A
meu ver é uma de suas composições mais subestimadas.
O filme teve apenas uma
indicação ao Globo De Ouro na
categoria Melhor Atriz – Comédia ou
Musical para Barbara Harris. Recebeu
o prêmio Edgar Allan Poe Awards em
1977 como Melhor Filme.
Em sua famosa aparição, é
visível notar a silhueta de Hitchcock (famosa pela abertura de suas séries de
TV: Alfred Hitchcock
Presents e The Alfred Hitchcock Hour)
que aparece através da porta do cartório conversando com uma mulher. Genial!
Inicialmente, Hitchcock
desejava Al Pacino para o papel que
acabou com Bruce Dern (que já havia trabalhado com ele fazendo uma ponta como o
marinheiro no escandaloso Marnie com
Tippi Hedren). Pacino só não pegou o papel porque exigia um cachê muito alto
(naquela altura já era famoso pelos filmes de Lumet e por ter estrelado O
Poderoso Chefão).
Burrice dele. Afinal, teria em seu currículo um filme dirigido por Hitchcock,
não basta?
Este foi, infelizmente, o último filme do mestre. Ao término deste, ele estaria envolvido na direção do projeto THE
SHORT NIGHT,
também escrito por Lehman, adaptado do livro de mesmo nome escrito por Ronald Kirkbride (que só obteve uma
obra sua adaptada para o cinema, em: A
Girl Named Tamiko,
1962, por John Sturges). A notícia triste de que Hitchcock ia se aposentar foi
anunciado pelo próprio em seu escritório numa conversa pessoal com seu
assistente de produção e amigo Hilton
Green que estava trabalhando de cabeça neste próximo filme. Mesmo
insistindo, Green não conseguiu convencer Hitch, que estava bem doente e não
podia mais estar presente dirigindo em externas. “Nunca mais farei outro filme.” E foram as suas últimas palavras
naquela fatídica reunião. Triste. Assim sendo, Green teve que dar a notícia a Lew Wasserman, famoso agente de talentos e executivo de estúdio americano e
também amigo de Hitch, a fazer o anúncio publicamente.
Outra verdade, e concordo com o
que Green disse no documentário do filme, é que as últimas fitas de Hitchcock
não foram aceitas pelo público de imediato. A gente se acostuma, com todo o
respeito, mas não são tão bons como os mais clássicos. No entanto, há momentos
engraçados na qual notamos numa segunda revisão e pensamos o quanto ele era
genial. Esta sensação, em número e grau, eu sinto.
A piscadinha final de Barbara
Harris foi pensada originalmente para Hitchcock, que desceria as escadas,
olharia para o lustre com diamantes, sentaria no degrau e piscaria para o
público. Pronto. A sua aparição final e seria curioso, mas Hitch desistiu da ideia e optou pela silhueta e até aquele momento, ninguém imaginaria que seria
realmente seu último filme.
Bom humor, reviravoltas e clima
macabro nesta trama divertida do mestre do suspense. Assistam e aposto que nem
irão piscar. ;)
EUA
– 1976
SUSPENSE/COMÉDIA
WIDESCREEN
COR
120
min.
14
ANOS
UNIVERSAL
– COLEÇÃO HITCHCOCK
✩✩✩ BOM
ALFRED HITCHCOCK´S
EEstrelando: KAREN BLACK BRUCE
DERN
BARBARA HARRIS WILLIAM
DEVANE
Co-estrelando: ED LAUTER
Cathleen nesbitt. Katherine Helmond
Edith Atwater. William Prince
Música de JOHN WILLIAMS
Edição….. J. TERRY WILLIAMS Fotografado
por...... LEONARD J. SOUTH
Direção de
Arte….. HENRY BUMSTEAD
Figurinos por EDITH HEAD
Production Manager......... HILTON A. GREEN
First Assistant Director …….. HOWARD G. KAZANJIAN
Roteiro de ERNEST LEHMAN
Baseado no Romance THE
RAINBIRD PATTERN
De VICTOR CANNING
Dirigido por
ALFRED HITCHCOCK
FAMILY PLOT © 1976 An MCA Company - Universal Pictures















4 comentários:
É um dos poucos filme de Hitch que ainda não assisti.
Abraço
Assim como o amigo acima, um dos únicos do gênio que ainda não vi.
As vezes, basta ser um bom entretenimento mesmo.
Nem sempre precisa ser feito um marco do cinema para agradar.
Fiquei curioso para ver: o recheio de humor negro do grande mestre.
Abs
Vale a pena Hugo!
Renato: Realmente, às vezes o filme só precisa entreter em dia de chuva. "Trama Macabra" é um prato cheio e um adeus carinhoso do mestre.
Abs!
ainda nao vi esse filme. quero ver
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