REALIDADE E FICÇÃO
Um
filho tenta descobrir a verdade sobre o pai, muito doente e prestes a morrer,
que sempre contou a história de sua vida misturando realidade com fantasia.
Baseado na obra Big Fish: A Novel of
Mythic Proportions (Um Romance de Proporções Míticas) de Daniel Wallace e
com direção de Tim Burton.
Burton realiza aqui um de seus
mais sinceros e tocantes filmes, empata na grandeza de obras-primas como Edward,Mãos de Tesoura
(1990) e Ed Wood (1994 – o mais subestimado. Em breve postarei no blog)
com roteiro assinado por JOHN AUGUST
que mais adiante voltaria a trabalhar com ele em A Fantástica Fábrica de
Chocolates
(2005),
A Noiva Cadáver (2005), Sombras Da Noite (2012) e Frankenweenie (2012). August estreou na
direção de longas metragens com um filme interessante: Número
9 (2007)
estrelado por Ryan Reynolds, uma mistura de drama, fantasia e suspense sobre um
ator problemático que interpreta um policial na TV e que depois começa a
presenciar fatos misteriosos. Escreveu muitos blockbusters, inclusive a bomba As Panteras Detonando para a estrela e produtora
Drew Barrymore. O mais genial de todos os seus trabalhos é sem dúvida esta
adaptação de um livro tocante sobre pai e filho que se distanciam e tentam
reatar os laços familiares. É uma lição de vida e faço coro ao slogan: “Uma aventura tão grande quanto à própria vida.” Tem um elenco de
estrelas (sem Johnny Depp),
incluindo uma futura vencedora do Oscar Marion
Cotillard, tão tímida num papel que lhe foi oferecido que até havia me
esquecido dela!
Ed
Bloom, na
juventude interpretado por EWAN McGREGOR
(sempre eficiente) é um rapaz destemido e que se senti como um grande peixe em
um laguinho. Uma metáfora bem colocada para um jovem que decide sair de sua
pequena cidade, Ashton, Alabama, para realizar um sonho: uma
audaciosa volta pelo mundo. Em sua terra natal, Bloom sempre foi o primeiro da
classe, garoto exemplar, bonito, simpático e que foi ganhando fama, mas nada
disso era o suficiente. Ele realmente faz tudo àquilo que se propôs a realizar
e quando fica mais velho, agora vivido pelo ótimo ALBERT FINNEY, veterano com várias indicações ao Oscar (Assassinato
No Expresso Oriente
de Lumet, As Aventuras de Tom Jones, O Fiel Camareiro, À Sombra Do Vulcão e o meu predileto, Erin
Brockovich – Uma Mulher de Talento
de Soderbergh com Julia Roberts), sua diversão é contar ao filho e a todos,
sobre suas aventuras, misturando realidade com fantasia e é aí que entra a arte
inconfundível de Burton que pela primeira vez se livra dos excessos, o que
resulta num trabalho que simplesmente não faz predominar o clima sombrio que é
a sua patente. Cada história é fascinante, o problema é que seu único filho, Will, agora mais velho e interpretado por
BILLY CRUDUP (outro ator que tenho
predileção, principalmente no filme que o revelou ao estrelato Quase
Famosos de
Cameron Crowe) fica intolerante com o pai que o envergonha levando a sério
histórias tão absurdas que conta inúmeras vezes!
Ele está farto de cada
uma delas, sabendo cada detalhe de trás pra frente e ainda se queixa dizendo que
não conhece o próprio pai, frustrado por ele ser praticamente um estranho. Uma
briga afasta ambos por três anos, mas quando seu pai adoece devido a um câncer,
sua mãe, Sandra Bloom, mais velha e
bem longe de aparentar uma senhora da terceira idade, personificada por JESSICA LANGE - ótima, mas com seu
jeito habitual de sempre, mas quem a viu em Tootsie, Céu Azul e King Kong, deve concordar comigo de que
ela continua uma linda mulher - faz de tudo para aproximar pai e filho nesta
situação delicada e ferida por amarguras desnecessárias. Com isso, Will
aproveita para investigar mais sobre o passado do pai que finalmente, pelo amor
que sente pelo filho, tenta separar a fantasia da chatice realidade da vida. O
mais emocionante do filme é esta mensagem, o amor fraternal incondicional. E no
fim, cada um concede ao outro alguma alegria.
Em meio a esta emoção que tira
lágrimas de quem é pai e de quem é filho, Burton mergulha seu filme numa série
de situações fantásticas, literalmente. Em seu segundo trabalho com o marido,
depois do irregular Planeta Dos Macacos, 2001, HELENA BONHAM CARTER volta em papel duplo, primeiramente como
uma Bruxa caolha que assusta as crianças (e o olho de vidro, segundo Bloom, era
mágico fazendo com que os garotos pudessem ver o futuro e até mesmo o dia da
própria morte) e como a jovem e mais velha Jenny,
moradora de uma esquecida cidade onde as pessoas andam descalças para assim
evitar que saiam de lá para conhecer o mundo e que segundo Bloom, machucaria
demais os pés! Eis o único papel num filme dele em que ela não é o centro das
atenções, menos estranha e saindo-se bem em todas as personagens que interpreta. Além de
Helena, nesta mesma cidade vive Norther
Winslow (STEVE BUSCEMI,
simplesmente sensacional), um cara que pretende escrever um livro, mas que não
saiu ainda das três primeiras linhas que não dizem muita coisa. Toda esta jornada
do herói me faz lembrar que ele é uma espécie de “Alice no país das maravilhas”, um peixe fora d água, e que esta
prestes a aprender isso quando se apaixona, no caso pela única mulher de sua
vida, Sandra, uma garota de família tradicional, linda e aqui interpretada na
juventude por ALISON LOHMAN (de Arraste-mePara O Inferno ) e que, aliás, tem poucas cenas. Sem medo de nada, Ed convence o dono de
um circo (que nas noites de lua cheia vira lobisomem), Amos Calloway, DANNY DeVITO
em um grande retorno com Burton, que acaba ajudando o herói a descobrir mais
sobre sua amada e que em troca, faz todo o tipo de serviço pesado no circo e
todo final do mês, ao invés de receber um pagamento em dinheiro, ganha
informações sobre a moça.
Todas as sequências neste circo são bárbaras, adoro,
por exemplo, quando Ed avista Sandra pela primeira vez saindo pelo picadeiro
numa imagem congelada, o efeito é estupendo (vide imagem acima). Outro detalhe é que lá tem a
figura do Oompa Loompa DEEP ROY, o baixinho palhaço e assistente
de Amos, Mr. Soggybottom. No entanto,
a figura mais curiosa do filme é certamente a do gigante (de verdade)
interpretado pelo saudoso MATTHEW
McGRORY (1973-2005) sincero e
encantador e que também acaba por fazer emocionar na pele de Karl The Giant. McGrory parece ter saído
do clássico de Tod Browning, Freaks, porque o cara era sem dúvida
um ser humano notável dotado de um apelido que o intitulava: “Pé Grande” e até
entrou no livro dos recordes, O Guinness
Book, por calçar o maior sapato do mundo! Media mais de dois metros de
altura e também tinha aquela voz profunda. Participou em outros filmes: Jimmy
Bolha (2001
com Jake Gyllenhaal), MIB- Homens De Preto II (2002 de Sonnenfeld) e dois de
terror: Rejeitados Pelo Diabo (2005) e A Casa dos 1000 Corpos (2003) ambos dirigidos por Rob
Zombie.
Outras das figuras exóticas são as gêmeas orientais siamesas: ADA &
ARLENE TAI (atrizes
e irmãs gêmeas na vida real e que obviamente não tem o defeito genético), como Ping e Jing, e que sempre trabalham juntas como na comédia Rock,
Paper, Scissors
(2000). As duas chegaram a participar de outra produção de Burton, por exemplo, fazendo uma
ponta não creditada em Ed Wood como as amigas da Vampira que era interpretada pela ex-mulher dele, Lisa Marie, numa cena em uma festa de gala.
Realmente é uma seleção excêntrica de pessoas dirigidas por um diretor que
entende do assunto.
Originalmente, o projeto seria
assinado por Spielberg que desejava Jack Nicholson como ator principal.
Devido a sua agenda, o filme acabou sendo jogado no colo de Burton, que não
conseguiu trazer de volta Nicholson tendo a sorte com Finney.
Mais curiosidades são
interessantes e tem algumas semelhanças com temáticas recorrentes na obra de
Burton além de referências. Por exemplo, o herói que atende pelo nome Edward
(Ed) se torna um caixeiro viajante para uma empresa que vende mãos com
ferramentas de metal no lugar dos dedos e que são unidos de forma bizarra por
uma base feita de plástico. Burton trocou a ideia original que seriam tesouras,
e para evitar o óbvio, trocou por metais. Ainda assim, fica claro a ligação com
seu mais famoso filme que consagrou Depp. Coincidências e premeditações, os
heróis de ambos os filmes saem de seu habitat para conhecer o novo mundo, são
diferentes das outras pessoas e possuem algum dom.
Quanto à trilha musical? Bom,
não posso deixar de dizer que é um agrado e o trabalho mais discreto de DANNY ELFMAN em um filme de Burton e
que chegou a ser reconhecida pela Academia como a única indicação que a fita
obteve. Ainda não compreendo a falta de bom senso deste Oscar. Ignorar um filme
tão bom como este e mesmo que naquele ano os concorrentes eram filmes
inatingíveis como O Senhor Dos Anéis: O Retorno Do Rei e Sobre Meninos E Lobos que dispenso mais comentários.
Agora, não colocar Peixe Grande nas
categorias técnicas como, direção de arte,
incrível trabalho de Dennis Gassner
ou figurinos, mais uma colaboração da figurinista Collen Atwood com Burton (já ganhou por outras obras como o musical
Chicago, Memórias de Uma Gueixa, ambos de Rob Marshall e não sei porquê um prêmio para aquele que atende ser
o pior filme de Burton: Alice! E neste ano esta indicada por
“Branca
de Neve E o Caçador”...).
Outro ponto alto é a fotografia do francês PHILIPPE
ROUSSELOT em seu segundo trabalho com Burton. Evita o aspecto predominante
sombrio e mantêm uma luminosidade que também não cai tanto na graça
predominante de cores vivas resultando num tom pastel. Por qual razão repetir
um ‘Edward, Mãos de Tesoura’? Por isso que eu acho esta obra bastante
subestimada. Fica a impressão de que quando Burton acerta o alvo, boa parte do
público ainda faz questão de deixá-lo de lado. Longe de ser um retorno
divertido como foi o recente “Sombras da Noite”, por exemplo, (e sou um dos
poucos que embarcou neste filme), mas Peixe
Grande é um exercício artístico tão encantador, exuberante, que é difícil
aceitar sua recepção morna no Oscar. Pelo menos teve uma bilheteria rentável e
se tratando do diretor e elenco, nem é uma surpresa, além do que foi produzido
em um mega estúdio, a Columbia, em uma primeira e última colaboração com o
cineasta.
Se o filme foi esquecido pela
Academia, teve boas indicações em outras premiações importantes. No Globo de Ouro: Melhor Filme – Comédia ou Musical, Música (Efman), Melhor Canção,
cantada lindamente por Eddie Vedder
(o mesmo de Na Natureza Selvagem – Into The Wild), “Man of the Hour” e Ator Coadjuvante (Finney). No BAFTA recebeu sete indicações: o prêmio
David
Lean que Burton concorreu além de Roteiro
Adaptado (August – que também merecia maior reconhecimento) e os técnicos, Direção de Arte, Maquiagem e Efeitos Visuais
(um dos melhores dentre todos os filmes Burtonianos) e é claro, outra indicação
à Finney e ainda Melhor Filme para Dan Jinks, Bruce Coen (já ganharam um Oscar por Beleza Americana de Sam Mendes) e Richard D. Zanuck (1934-2012) famoso
produtor que encerrou a carreira numa longa parceria com Burton desde 2001.
Singelo e tocante, BIG
FISH mergulha de
cabeça na mais profunda imaginação do genial Tim Burton, em boa forma e
extremamente cuidadoso. É um filme para toda a família, além de ser divertido onde
a ficção é mais saborosa do que a realidade.
EUA
2003
AVENTURA/DRAMA/FANTASIA
COR
125 min.
SONY
★ ★ ★ ★ ★
COLUMBIA PICTURES Apresenta
Uma Produção JINKS/COHEN
e ZANUCK COMPANY
UM FILME DE
TIM BURTON
TIM BURTON
BIG FISH
Estrelando:
EWAN McGREGOR ALBERT FINNEY
JESSICA LANGE BILLY CRUDUP
HELENA
BONHAM CARTER ALISON LOHMAN
ROBERT
GUILLAUME MARION COTILLARD
MATTHEW
McGRORY DAVID DENMAN
Com:
STEVE BUSCEMI e DANNY DeVITO
Co-Estrelando:
MISSI PYLE LOUDON WAINWRIGHT
DEEP
ROY ADA TAI/ARLENE TAI PERRY WALSTON
Música de DANNY ELFMAN Elenco por DENISE
CHAMIAN
Edição CHRIS LEBENZON Fotografado por
PHILIPPE ROUSSELOT
Direção de Arte DENNIS GASSNER Figurinos
COLLEEN ATWOOD
Produção Executiva ARNE L. SCHMIDT
Produção Associada KATTERLI FRAUENFELDER
Produzido por
DAN JINKS. BRUCE COHEN. RICHARD
D. ZANUCK
Baseado
no Romance de DANIEL WALLACE
Escrito por JOHN AUGUST
Dirigido
por
TIM
BURTON
BIG FISH ©2003 Columbia Pictures/Jinks/Cohen
Company
The Zanuck Company/ Tim Burton
Productions














14 comentários:
Amigo concordo quando diz que o filme é tocante e singelo. Porém, apesar de gostar do filme ainda prefiro outros trabalhos do mestre Burton.
Concordo novamente quando cita que é um filme para toda a família.
abs
Assisti este filme ontem. A fotografia e os efeitos são encantadores, sem dúvida. O que mais me comoveu foi a história que o Will contou para o pai dele no final. Espero que um dia Tim Burton volte a fazer filmes assim.
Querido Amigo,
Texto excelente!
Concordo contigo referente a cena do Ed no picadeiro.
Porém, acho que a mágoa entre o Pai e filho não eram tão desnecessárias,rs.
Gosto quando o Tim caminha por esses enredos.
Um filme que todos deveriam ver e ter!
besos
Rodrigo, finalmente li a sua resenha e confesso estar emocionada! Que história linda! Em alguns momentos lembrou o meu pai. Certamente é um filme sensível, emocionante e que nos leva às lágrimas! O Tim esteve "iluminado" ao produzir esse filme maravilhoso! Aliás o Tim Burtom é incrível e eus filmes provam isso! Obrigada por nos "proporcionar" esses momentos de lirismo! Você é grande! Bjs!
Eu já tinha ouvido recomendações desse filme. Adorei a crítica! Muito detalhada e bem escrita! Parabéns.
Ainda não assisti, mas parece valer a pena. Abraços www.dicaselistas.blogspot.com
Um grande filme, belo e tocante, uma lição de amor. Mas não é dos meus preferidos de Tim Burton, gosto mais de obras como Edward...
bjs
Um filme completamente subestimado na carreira de Tim Burton, as pessoas deveriam compreender a grandeza deste, que sem sombra de dúvida, é um de seus melhores filmes.
Renato: Sei que você é fã do Burton. Engraçado que você goste, mas nem tanto, desta obra prima!
Abs.
Regi: Tim Burton estava inspirado mesmo! A cena final do Crudup e Finney é sensacional!
Abs.
Patricia: Obrigado mesmo Pati!
Desnecessário no sentido real, a realidade e não a ficção. Tubo bem que é o fato que da a guinada necessária para antagonizar a premissa, mas quis dizer que a briga de ambos, se eu fosse filho e pai na situação, evitaria.
Besos.
Falando Sério (Lu Janis): Fico sem palavras para agradecê-la.
Todos nós somos grandes peixes fora d'água.
Beijos.
Nani: Valeu moça! Assista ao filme é mais do que recomendado ;)
Jenifer Torres: Vale, e muito! Obrigado pela visita. Volte sempre.
Bjs!
Amanda: Edward e este são THE BEST Nanda!
Bj!
Weiner: Concordo plenamente. Super filme! Burton rules!
Abs.
Adorei o texto, Rodrigo!
Não sabia que o projeto seria dirigido por Spielba e Nicholson estava com o roteiro em mãos... fiquei pensando por um tempo como teria sido...
"Peixe Grande" é o último grande filme live-action de Tim Burton. Acho um primor em vários sentidos e cenas difíceis de apagar da memória, como o carro no fundo do mar e a mencionado por ti da imagem congelada e McGregor tirando as pipocas "do caminho". Muito lindo o filme e emocionante. Burton poderia investir mais nessa veia comovente... e deixar o Johnny Depp em seu devido lugar rs.
E o Oscar... vai entender... que descaso, né? O filme merecia muito mais do que apenas Trilha Sonora... e lembrar que Seabiscuit ou Mestre dos Mares foram indicados... rs, alguém lembra mesmo desses filmes?
Abs!
Eu quando assisti a esse filme pela primeira vez eu nem dei muito por ele mas quando comecei a assistir eu gostei muito tanto que comprei o dvd original pra mim nao é o melhor filme de Burton mas um filme realmente para toda a familia e que vale a pena ser visto. E ainda tem a Miley Cyrus em seu primeiro papel em um filme. Meio apagadinha mas deu.pra reconhecer que era ela.
Belo texto Rodrigo. Eu AMO ese filme. É o meu favorito de Burton e, seguramente, um de seus melhores. Gostei do paralelo que fez com outras obras do diretor. Não tinha parado para pensar nessa do Ed... rsrs
Abs
Elton: Ainda gostei de "Sombras Da Noite" hahahaha pois é meu amigo, nesta altura do campeonato e todo o enjoamento da parceria dele com Johnny Depp, rs!
Abs!
Alysson: Bem observado. Miley Cyrus WTF??? iria dizer, rs! Abs!
Reinaldo: Amamos Big Fish ;)
Edward, mãos de tesoura, Edward D. Wood Jr. e Ed Bloom...não pode ser coincidência, rs!
Abs.
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