O DIVISOR DE ÁGUAS DOS FILMES
DE GUERRA
Um
jovem soldado alemão enfrenta uma profunda desilusão no horror que destrói a
alma humana em plena I Guerra Mundial. Vencedor
de 2 Oscar.
Nas primeiras linhas já vou
dizer que adoro este filme. Eis um grande clássico. Praticamente o divisor de
águas do gênero que inspirou cineastas como Stanley Kubrick, certamente, e ouso afirmar que deve ter sido grande
influência para Quentin Tarantino
por tornar herói um fictício soldadinho alemão no divertido “O Orgulho Da Nação”, que nunca foi
dirigido por Goebbels (e sim Eli Roth) em Bastardos Inglórios.
Não sei. Só registro aqui uma impressão minha. De certa forma, o filme não faz
propaganda nazista, por exemplo, aliás, muito pelo contrário. Trata-se de uma película
anti-guerra que ainda consegue resistir lindamente ao tempo. Restaurado em 1998
e lançado numa edição caprichada recentemente em alta definição pela Universal Pictures, aliás, quem poderia
imaginar que o famoso estúdio dos monstros dirigido por Carl Laemmle (e aqui no caso produzido pelo filho Carl Laemmle Jr. que levou a estatueta
de Melhor Filme) pudesse ser o responsável por este audacioso e grandioso
projeto? Marcados por realizarem filmes de terror B que na época não eram
considerados grandes obras primas da sétima arte (O Fantasma Da Ópera, O Corcunda De Notre Dame e depois, Drácula, Frankenstein, Lobisomen, etc), o estúdio provou com este filme que tinha o mesmo
prestígio de uma Metro ou Warner Bros. Foi dirigido pelo veterano
de guerra, o diretor LEWIS MILESTONE (1895-1980) e
que por este trabalho ganhou um Oscar, mas já havia ganho em 1929 pela comédia Dois Cavaleiros Árabes (Two Arabian Knights, 1927) a terceira
cerimônia oficial da Academia em Novembro de 1930 (a primeira ocorreu em Abril,
único ano em que celebraram a entrega dos prêmios duas vezes), e ele é o primeiro
cineasta da história a levar o cobiçado oscar de direção empatando com Frank Borzarge por O Sétimo Céu ,7th Heaven, 1927 (da categoria drama, também no primeiro ano eles premiaram
duas categorias distintas para diretor que só aconteceu uma vez).
Também
dirigiu clássicos até a década de 1960 e os mais notáveis são: versão original de Onze Homens e Um Secredo ( Ocean´s Eleven, 1960) e O Grande Motim (Mutiny on the
Bounty, 1962). Além de outros clássicos como: O Tempo Não Se Apaga (The Strange Love of Martha Ivers, 1946) e Primavera em Paris (Paris in Spring, 1935) , citando apenas alguns, são exemplos de sua grande
versatilidade como diretor, que vem desde a era do cinema mudo até as grandes
transformações de Hollywood. Pode-se dizer que Milestone entra para a lista
como um dos grandes e pioneiros artesãos
do cinema e que faz aqui algo menos comercial (apesar do contrário intensionado
pelo estúdio querendo impressionar com um projeto diferente) e mais pessoal por
ser um filme de discurso pacifista que faz uma crítica sobre a I Guerra.
O filme é tão lendário que até mesmo o nosso
querido maluco beleza Raul Seixas escreveu
uma canção homenajeando-o citando em “Na Rodoviária”. Hoje em dia, com uma versão maior, 131 minutos,
posso apreciar a obra com mais gosto, visto que, apenas a versão de 105 minutos
antes da sua restauração, estava disponível. Teve proibição em alguns países
como a Itália que o baniu em 1956 e teve uma interessante refilmagem para a
televisão em 1979 de mesmo nome (All
Quiet On The Western Front), notável
e sensível, mas que obviamente não chega aos pés do original. Dirigida por Delbert Mann e escrita por Paul Monash e com Richard Thomas (Garotos Incríveis, 2000/ The Waltons, 1971) no papel principal, o jovem soldado alemão Paul
Baumer e ainda estrelada por figuras marcantes como; Ian Holm (O Senhor Dos Anéis, Alien), Donald
Pleasence (Halloween), Patricia Neal (O Dia Em Que A Terra Parou) e Ernest Borgnine ( Meu Ódio Sera Sua Herança). Mas nada se compara com a personificação clássica de
frustração de LEW AYRES ( creditado como Lewis
Ayres - 1908-1996) e que na época, com apenas os seus 21 anos de idade, se
mostrava um ator exuberante e que torna-se um grande astro internacional da
noite para o dia, só que não mais que merecido, já que sua naturalidade diante
as câmeras é de aplausos e o faz soberbamente este herói, um estudante ávido
por servir o seu país, mas que sofre uma desilusão pelo real transtorno da
guerra, aprendendo uma grande e dura lição de vida e paga com ela! Na verdade,
Paul enxerga o âmbito guerrilheiro como uma ação estúpida e fútil. Ainda me
impressiono como Ayres é capaz de transparecer grande maturidade neste que é
apenas o seu quarto filme depois de uma estréia marcante (já no terceiro, até
porque foi creditado pelo primeira vez) e ao lado de ninguém menos do que Greta Garbo em O Beijo (The Kiss, 1929 dirigido
por Jacques Feyder), no papel de Pierre. Teve mais de 150 papéis ao longo
da carreira –cinema e TV – e apenas foi indicado ao Oscar de Melhor Ator por Belinda (Johnny Belinda, 1948)
de Jean Negulesco com Jane Wyman (de outros filmes
importantes como; Farrapo Humano de Wilder
e Pavor
nos Bastidores, de Hitch, e que aqui levou
seu Oscar de Melhor Atriz).
Baseado no romance germânico
do alemão Erich Maria Remarque
(1898-1970), o mesmo autor de Amar e
Morrer (A Time To Love and a Time to Die)
que o diretor Douglas Sirk
transformou em um filme mediano estrelado por John Gavin (pouco antes de viver Sam Loomis em Psicose), em 1958. Foi adaptado por várias pessoas; George
Abbott (co-autor e co-diretor de Um
Pijama Para Dois, 1957, também
de Stanley Donen e estrelado por Doris Day), que assina o roteiro
principal, mas diálogos acrescidos por Maxwell Anderson (de O Homem Errado e
da peça de sua autoria; Paixões em Fúria, Key Largo, 1948, dirigido por Huston).
Ainda com colaborações de peso como a do diretor de curtas e filmes mudos, Del Andrews (The Wild West Show, 1928 e tantos outros...), G. Gardner Sullivan (ajudou com os títulos de Sedução
e Pecado, 1928, de Raul Walsh, com Gloria Swanson) e títulos
escritos por Walter Anthony
(de O Homem Que Ri, 1928 e O Gato e o Canário ,1927) para a versão muda. Milestone transforma todas essas
colaborações preciosas num filme seminal representando vividamente o horror da
primeira grande guerra como em nenhum outro filme e tudo isso pelo ponto de
vista de um soldado alemão! A fita é importante, principalmente, por toda a sua
maestria técnica com ótimas cenas de batalha espetaculares num tempo em que
ainda estava surgindo a aura dos filmes sonoros (mas que ainda era necessário
editar versões mudas) e que além deste deslumbre cinematográfico, faz uma
crítica polêmica denunciando todo um fanatismo nacionalista militar. O que
seria de Nascido Para Matar, Glória Feita de Sangue, O Resgate Do
Soldado Ryan, Apocalypse Now e
tantos outros exemplares sem este avô dos filmes de guerra?
Momentos antológicos fazem
parte de todo filme clássico e provavelmente a cena mais pungente é um close
estupendo na mão do soldado Paul na tentativa de agarrar uma borboleta que
estremece ao som terrificante de um tiro e caindo de encontro com a morte. Pode ter sido proibido na Itália, mas
curiosamente, na época, o filme passou pela Alemanha sem problemas. Ayres
serviria como médico na Segunda Guerra Mundial e como ele se opôs publicamente
contra, reza a lenda que por isso sua carreira foi arruinada. Mesmo assim, ele
foi uma figura presente até meados dos anos 1990 como ator e faleceu aos 88
anos depois de ter ficado em coma (e ainda não entendi a causa do coma que
durou alguns dias e que depois o matou).
Recomendo para todo cinéfilo que ainda não assistiu. É engraçado como este, que é o terceiro longa metragem a ganhar um Oscar de toda a história, me da a impressão esquisita de ser uma obra desconhecida e subestimada do grande público. Será que os anos foram tão amargos assim com SEM NOVIDADES NO FRONT? Se fala pouco dele. Eu acho. Espero estar enganado.
EUA
1930
GUERRA/DRAMA
PRETO E BRANCO
131 min.
UNIVERSAL
★ ★ ★ ★ ★
CARL LAEMMLE APRESENTA
ALL QUIET
ON THE
WESTERN FRONT
ESTRELANDO:
LOUIS WOLHEIM LEW AYRES
JOHN WRAY ARNOLD LUCY BEN
ALEXANDER
SCOTT KOLK OWEN DAVIR JR.
WALTER ROGERS
WILLIAM BAKEWELL RUSSELL GLEASON
RICHARD ALEXANDER HAROLD GOODWIN
SLIM SUMMERVILLE G. PAT COLLINS
BERYL MERCER
PRODUZIDO POR CARL
LAEMMLE JR.
Fotografado por Arthur
edeson & Karl
freund
Música por David
broekman Sam Perry heinz
roemheld
Música para a versão muda por Sam
Perry & heinz roemheld
Direção de arte Charles d. hall w.r. Schmitt
Roteiro
George abbott Del Andrews & Maxwell
Anderson
Baseado no livro de erich maria remarque
Direção
Lewis milestone
ALL QUIET ON THE WESTERN FRONT ©1930 UM FILME UNIVERSAL









3 comentários:
As cenas do front são demais. Era meu sonho comprar esse filme.
Não está enganado não. Falam pouco mesmo. Eu, por exemplo, o vi há muito tempo. Quando tinha 19 anos. Foi apenas aquela vez e, sou obrigado a confessar, que o filme não me marcou. Agora, o seu texto é novamente aquele primor de fazer justiça aos eternos injustiçados que, independente de meu juizo solitário (preciso rever o filme), me parece ser o caso de "Sem novidades no front".
Abs
Marcia; A Universal já disponibilizou uma edição caprichada em Blu-ray! Compre! Vale a pena, eu quero muito ter essa edição ainda.
Bjs.
Reinaldo: Comigo já foi o oposto, desde a primeira vez essa fita já me marcou, até porque tinha o selo da Universal que pra mim até hoje é digno de aplauso. Um estúdio dedicado a outro tipo de seguimento, claro que não ficou só nos filmes dos monstros, mas que teve esse zelo e que um dia me surpreende com "Sem Novidades no Front". É um baita filme e divisor de águas. Uma pena que se falem pouco, bom, estamos aqui corrigindo esse erro.
Obrigado.
Abraço.
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