quarta-feira, 6 de julho de 2016

DAVID FINCHER | SE7EN - OS SETE CRIMES CAPITAIS (1995)

O PECADO DE TODOS NÓS

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SESSÃO SURPRESA  PARTE  IX


Sinopse: Uma série de crimes envolvendo os sete pecados capitais apontam um novo Serial Killer.


Um filme inesquecível desde os créditos iniciais até o seu chocante clímax. SE7EN merecia configurar no especial "Sessão Surpresa" aqui no blogue há tempos! Revi recentemente este que é o filme mais reverberante de David Fincher (que faria outra obra-prima na mesma década; "Clube da Luta", 1999), escrito por um caixa da Tower Records, Andrew Kevin Walker que injustamente não recebeu uma indicação ao Oscar (assim como Fincher) para este que é o roteiro mais original e surpreendente e sendo este o seu segundo trabalho para o cinema, tendo escrito o suspense "O Esconderijo" (Hideway, também lançado no mesmo ano, mas sem o mesmo sucesso). Depois faria "8 Milímetros" para Joel Schumacher e os blockbusters "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça", de Tim Burton e "O Lobisomem", de Joe Johnston, mas é Se7en o seu melhor feito. 

Fincher já havia conseguido o seu debut em uma superprodução, mas que resultou irregular e me refiro ao filme Alien 3. De fato, Se7en lhe permitiu alcançar a fama desejada.  Com este trabalho, Fincher provou que tinha talento como diretor evidenciando características de autor a exemplos técnicos quanto a luz, tipografia, som, elementos que são notáveis principalmente quando trabalha em filmes policiais. Além do mais, o filme é certamente o mais sombrio do diretor e o protagonista diz em um diálogo que essa história não pode acabar com um final feliz.  Eu já fico entorpecido desde a animação dos créditos iniciais, um trabalho magnífico, que lembram vários filmes experimentais insinuando a relação terrificante entre o assassino e a polícia que esta em seu encalço. Os créditos também mostram a arte com a qual o filme também se preocupa em evidenciar, isto é, a mente doentia de um homem que não pretende parar até concluir sua obra de arte: OS 7 CRIMES CAPITAIS; gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça, orgulho.  O grande achado é não revelar por enquanto o nome do ator que interpreta o assassino  - o que me faz lembrar da não menção ao ator Boris Karloff que faz o monstro (?) no clássico "Frankenstein", de James Whale (1931) e a escolha não poderia ser mais esplêndida do que o duas vezes vencedor do Oscar, o ator  KEVIN SPACEY simplesmente perfeito. 


Spacey traz consigo uma raiva escondida através de seu olhar pacífico e insignificante. E faz muito bem o típico padrão de personalidade do psicopata em série, lindamente. É também muito bem encabeçado por uma dupla improvável, um jovem BRAD PITT em plena ira e um vaidoso (embora muito bem escondido)  e mais experiente MORGAN FREEMAN, ambos policiais da homicídios vivendo os piores dias de suas vidas enquanto a cidade esta fria e úmida por uma série de dias tempestivos. Aliás, o clima metafísico da cidade, que além de tudo se apresenta decadente e suja, faz com que filmes como "Taxi Driver" (clássico que certamente o inspirou de alguma forma) não seja tão perturbador comparado as várias cenas de Se7en e Fincher ainda consegue manter o mesmo ritmo quando o filme sai da cidade para o campo em seu momento final. 



Não esqueço a primeira vez que assisti ao filme numa edição para TV e não ficar assombrado com as cenas criminais investigativas, sobretudo a primeira vítima da gula. Tudo é ainda poupado por uma escuridão que é iluminada por lanternas (também típico nos filmes policiais), mas Fincher, ao mesmo tempo, não evita em mostrar a nojeira iminente e foi justamente o meu primeiro filme policial criminal (e graças a Se7en me tornei um fã de CSI). O interessante é que as demais cenas de assassinatos não repetem o mesmo ritual, ou seja, do ponto de vista do público que não precisa presenciar o mesmo cenário repetidas vezes     - mas há uma sequência igualmente horripilante quando a vítima da preguiça é encontrada me remetendo a filmes de George A. Romero -    e o roteiro vai seguindo menos caminhos óbvios sem revelar o assassino de imediato, mas destabilizando o mesmo numa sensacional sequência de perseguição que muda o tom do filme.  

O olhar estético é desagradável, porém necessário para a trama. E este é talvez o filme   a partir dessa era dos filmes da década de 1990    que mais demonstra tal sensação. Fincher, assim como seus colaboradores, o diretor de arte Arthur Max (que voltou a trabalhar com o diretor em "O Quarto do Pânico", 2002) e o diretor de fotografia, o iraniano Darius Khondji (que fotografou, entre outros filmes o ótimo "Meia Noite em Paris", sendo um imenso colaborador de Woody Allen) mergulham de cabeça nessa estética. Nesse sentido, existe algumas similaridades com Taxi Driver, de Martin Scorsese mas não para por aí... não somente o "esgoto" de uma sociedade é visualizado através das ruas, casas e subúrbios, mas o seu descontentamento social e político é também uma ideia do roteiro até porque o assassino em série mostra uma relação de amor e ódio dos EUA com o fundamentalismo. Provavelmente não é o foco do diretor e nem do roteirista, até porque todos eles não fizeram algo tão pessoal como o roteirista Paul Schrader e mesmo porque Travis Bickle não chega a "limpar a cidade" com prazer ritualístico assassino  . Assim sendo, Fincher e Walker evitam iluminar o sub-gênero política, mas algo muito frustrante nesse quesito sai, por exemplo, com outras palavras, da boca de John Doe na cena em que esta preso no carro da polícia provocando seus caçadores se mostrando um conservador algoz arrogante (se revelando mais tarde invejoso, como confessa, mas acima de tudo um orgulhoso).


Aqui está um excelente exemplo de filmes da safra "O Silêncio dos Inocentes" e SE7EN é em minha opinião -  e não diria superior -   mas tão inusitado e singular quanto o vencedor do Oscar de Jonathan Demme lançado em 1991. É inegável o comando firme de Fincher e sua tamanha dedicação e persistência que acabou deixando uma obra que ainda é discursiva passados 20 anos. O olhar estético, artístico do filme mereciam prêmios e as atuações de seus três protagonistas, idem. Ao menos recebeu uma indicação no Oscar para Richard Fracis-Bruce (Edição), ainda assim, é um filme subestimado por não ter tal reconhecimento da Academia. E, diferente do conceito de fazer um filme para entreter, Fincher induz o espectador a refletir de todo o sofrimento e violência visto na tela e realmente é para se ficar indagando sobre o mundo em que vivemos e que, de fato, não estamos livres de cometer um dos sete pecados. Portanto, é melhor não atirar pedras e se perguntar, não como um adorador de algum dogma religioso, mas como ser humano. Demasiados humanos que somos. Todos nós. 


POLICIAL -SUSPENSE - DRAMA
2h 7min. 
NEW LINE CINEMA - WARNER
★★★★★


UM FILME DE 
DAVID FINCHER
SE7EN
ELENCO: BRAD PITT     MORGAN FREEMAN
KEVIN SPACEY
GWYNETH PALTROW    R. LEE ERMEY
MÚSICA DE HOWARD SHORE    FOTOGRAFIA DE DARIUS KHONDJI
EDIÇÃO DE FILMAGEM RICHARD FRANCES- BRUCE 
PRODUZIDO POR  ARNOLD KOPELSON   PHYLLIS CARLYLE
ROTEIRO DE   ANDREW KEVIN WALKER
DIRIGIDO POR DAVID FINCHER             SE7EN © 1995 NEW LINE CINEMA 

4 comentários:

Bússola do Terror disse...

Bom, na verdade, na cena em que o assassino tá no carro da polícia ´explicando` por que cometeu os crimes, ele se revela mais um fanático religioso do que um conservador, né?
Ele parece deixar claro que, na cabeça dele, ele tava cumprindo a vontade de Deus.

Rodrigo Mendes disse...

Sim é uma ideia do roteiro, mas acho que o filme acaba indo pra outro foco na crítica ao fundamentalismo e na verdade, John é as duas coisas porque pra ser um fanático religioso precisa ser um conservador. O curioso é que o filme revela o seu pecado e o mesmo admite.

Gustavo H. Razera disse...

Foi uma convergência de talentos em momentos de ápice criativo. Acho que depois nem o diretor, nem o roteirista fizeram nada que se aproximasse em qualidade (apesar de terem feito filmes bons, até ótimos). Também concordo que foi subestimado na época, especialmente pela Academia. Pelo visto ela voltou a dar de ombros a Fincher, já que absurdamente Garota Exemplar só teve uma mísera indicação.

Cumps.

Rodrigo Mendes disse...

Gustavo - Fincher ainda fez obras comparáveis como "Clube da Luta" "Benjamim Button", "A Rede Social" e até mesmo "Garota Exemplar". E sim, ele é um diretor ainda muito subestimado nos prêmios. Considero Clube da Luta sua obra-prima e até melhor que Se7en que sem dúvida é seu primeiro trabalho realmente notável. O roteirista é que de fato não fez nada tão excelente depois deste filme.

Abraço.

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