quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Don Siegel | Perseguidor Implacável (1971)

HARRY, O SUJO E SUA MAGNUM 44

Policial é designado a deter um psicopata atirador na cidade de São Francisco. 

Munido de fúria e impaciência, Dirty Harry é um dos personagens mais icônicos da carreira deCLINT EASTWOOD. "Perseguidor Implacável", como é conhecido no Brasil, é também um dos filmes mais influentes do gênero policial e certamente o mais controverso já realizado. Ganhou continuações muito boas: MAGNUM 44 (Magnum Force, 1973), dirigido por Ted Post; SEM MEDO DA MORTE (The Enforcer, 1976), dirigido por James Fargo; IMPACTO FULMINANTE (Sudden Impact, 1983), dirigido por Eastwood e DIRTY HARRY NA LISTA NEGRA (The Dead Pool, 1988), de Buddy Van Horn. Este primeiro é produzido e dirigido por DON SIEGEL (1912-1991) responsável pelo consagrado clássico da ficção-científica INVASORES DE CORPOS ou VAMPIROS DE ALMAS, de 1956 e dentre outros sucessos, citando alguns, também fez FUGA DE ALCATRAZ ou ALCATRAZ - FUGA IMPOSSÍVEL (Escape From Alcatraz, 1979), também estrelado por Eastwood. 

A primeira vez que Clint interpretou o detetive Harry Callahan já era notável uma persona que seria lendária. Da mesma forma que foi na trilogia western de Sergio Leone como "O Homem Sem Nome", principalmente no épico "Três Homens Em Conflito" - leia AQUI). Desta vez, ele é o super- policial que precisa deter um super-vilão - o ótimo ANDY ROBINSON como Scorpio - caricaturas vívidas e hiperbólicas que ganham definição devido ao sangue nos olhos da ira em suas sutilezas psicológicas. Com a ajuda de sua famosa Magnum 44, Harry, "O Sujo" Callahan está munido até os dentes a fim de limpar a cidade dos criminosos. E Eastwood não tem paciência e nem papas na língua. E é neste cenário, de ambientes intricados da metrópole de São Francisco, aliás, muito bem articuladas no filme, que Clint apresenta aquela expressão facial tão seminal a ponto de criar  um estigma para o ator, muitas vezes confundido de Dirty Harry. Uma reputação que o próprio desistiu de desmistificar. Preferiu carregar a máscara do sujeito mal- humorado na maioria dos filmes, diferente do sujeito misterioso e caladão dos faroestes.


A premissa traz o que existe de melhor para temperar um filme policial. Callahan, um detetive que está vivendo a rotina de sempre, investigando um crime, mas que age além dos limites da lei. O filme traz essa discussão à tona: O que é "a lei"? Segundo uma "diplomacia" e ou/ "burocracia" que impede o policial de agir, quando não existe lei o suficiente para deter um louco que não se importa em infringir-la e tampouco passar dos limites, rindo da cara das autoridades. Harry tem uma posição firme e extrema, mas é sempre vencido por autoridades acima de uma hierarquia. Quando a coisa aperta, ele impõe sua própria filosofia para exterminar os vermes de sua cidade. Em sua primeira missão, Harry terá que resolver o caso de um atirador implacável (Robinson) que atira em pessoas uma a uma como um verdadeiro terrorista exigindo dinheiro. Ele não faz a esmo, planeja muito bem seus alvos sob os edifícios da sombria São Francisco. Ameaça uma adolescente, caso o prefeito lhe negue um resgate e por aí vai. Para tanto, Harry não hesita em perseguir e torturar o criminoso (na famosa cena em um estádio) até que o mesmo revele o cativeiro onde se encontra a vítima. O que choca no filme é a crueza de uma realidade. O bandido ainda fica em vantagem e Harry, mesmo implacável, nada pode fazer quando é acusado pelos seus pares de abuso de poder.

São famosos os bordões do personagem ao longo da série: "Go ahead, make my day", sempre instigando os bandidos enquanto aponta sua pistola com a sua cara de mau e dizendo: "Eu sei o que você está pensando..." e questionando quantas vezes atirou. Simples e sofisticado, "Perseguidor Implacável" explora de maneira brilhante a cidade, talvez o único olhar mais intrigante de São Francisco já vista em inúmeros filmes (meu predileto é "Um Corpo que Cai", de Hitchcock). Siegel, além disso, cria tensão já nas primeiras cenas pré-créditos onde mostra em zoom out uma moça nadando em uma piscina azul-celeste no terraço de um edifício e corta para um terrificante close da arma de um atirador de elite que mira a vítima de um topo de outro edifício ainda mais alto. A partir daí, Siegel faz de seu filme uma verdadeira caçada de gato e rato quando Harry assume o caso ao mesmo tempo que observamos uma cidade com muitos níveis onde esconde lugares precários feita de helicópteros, colinas, tetos de prédios, torres de vidro, enfim, uma verdadeira selva de pedra que ainda releva uma névoa num submundo de esconderijos, becos, túneis e poços. O que me incomoda um pouco são as cenas noturnas numa fotografia feita com luz natural por BRUCE SURTEES (1937-2012), indicado ao Oscar por "Lenny", 1974, de Bob Fosse. Surtess não poupa uma imensidão escura da vida noturna da cidade onde escondem-se traficantes, prostitutas e homossexuais. Apesar disso, Siegel compensa quando transforma o ambiente urbano num verdadeiro labirinto dando forma ao personagem principal na medida em que a narrativa avança. Siegel coloca Eastwood numa prova de fogo conforme ele se contorce e abre caminho à uma força dentro dele. Por exemplo, há um tour de force que é a sequência na qual Scorpio deixa Harry exausto atravessando a cidade de um lado a outro entre cabines telefônicas como parte de uma estratégia ardilosa.

"Dirty Harry" continua implacável! Um filme que não perdoa ninguém: policial, bandido, criancinhas, mulheres... é um ótimo entretenimento, mas também uma crítica social e a guerra estabelecida de autoridades versus criminosos. Sem finais felizes em vários arcos, mas satisfatórios quando Harry "Dirty" Callahan se cansa dos joguinhos e se livra do símbolo que é o seu distintivo e faz da lei a sua.

AÇÃO - POLICIAL
1h 42min.
WARNER
★★★☆☆


CLINT EASTWOOD
DIRTY
HARRY
TAMBÉM ESTRELANDO: HARRY GUARDINO    RENI SANTONI 
ANDREW ROBINSON     E: JOHN VERNON como “O Prefeito”   
MÚSICA DE LALO SCHIFRIN
FOTOGRAFADO POR ....... BRUCE SURTESS
ROTEIRO
HARRY JULIAN FINK    RITA M. FINK   DEAN RIESNER
PRODUZIDO E DIRIGIDO POR DON SIEGEL 
DIRTY HARRY © 1971  WARNER BROS. MALPASO




4 comentários:

Gustavo H.R. disse...

Concordo, realmente é um thriller simples, mas não simplista. Siegel não é um diretor impaciente, e isso se comunica à câmera e à cadência dos cortes. É um policial imersivo, de clima, não só de excitação via ação. Mas acho que o papel do vilão poderia ter sido mais bem escalado, não gostei daquele ator, não.

Cumps.

Rodrigo Mendes disse...

Gustavo, sim, ao mesmo tempo que o filme procura o simples sem exageros, ele tem uma sofisticação, também e isso é visto nas locações da cidade.
Não quis dizer que Siegel é impaciente refiro-me ao personagem. O filme tem ação mais psicológica que explosiva e até gosto do ator que faz o vilão. Ele e Clint são antagônicos extremos um ao outro o que deu muito certo.

Abrç.

Hugo disse...

A parceria Siegel/Eastwood rendeu bons trabalhos, este com certeza é um dos principais ao lado de "Alcatraz".

O personagem Dirty Harry é a cara do cinema policial dos anos setenta.

Por sinal, os cincos filmes da séries são bons para quem gosta do gênero.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Hugo - sim, gosto dos demais filmes da série, embora este primeiro seja seminal. Além de Dirty Harry, "Operação França" e o "Popaye" do Gene Hackman é outro que merece configurar no gênero dessa década. Postarei em breve.

Abraço.

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